Marina Torrecilha e Diego abriram a décima edição do evento com uma conversa sobre barro, memória, redes sociais e as diferentes maneiras de aproximar a cultura popular da vida contemporânea
Marina Torrecilha acompanhava pela tela o crescimento dos números. O vídeo em que mostrava a criação de um xadrez de capivaras havia alcançado 2 mil curtidas, depois 5 mil, 15 mil, 50 mil, até ultrapassar 100 mil. Junto com o público, chegaram as perguntas: “Qual é o valor?”, “Cadê a parte dois?”, “Como eu compro?”. O corpo respondeu antes que a artista compreendesse o que estava acontecendo. “Eu tive uma baixa na imunidade. Fiquei doente, com febre”, contou. A continuação do vídeo foi narrada enquanto ela ainda estava gripada.
O episódio apareceu na abertura da décima edição do Somando Visões, evento realizado pelo Folclore BR desde 2017. Com mediação de Anderson Awvas, o encontro reuniu Marina, criadora do ateliê Copa de Barro, e o artista visual e ceramista Diego para discutir o tema escolhido para a identidade visual de 2026: o artesanato. A conversa passou pela diferença entre arte e produto, pelo tempo da criação manual, pela circulação nas redes e pela presença do folclore em obras que não desejam repetir o passado.
Os dois convidados começaram a trabalhar com cerâmica durante a pandemia, depois de trajetórias ligadas às artes visuais, ao design, à publicidade e à ilustração digital. Encontraram no barro não apenas uma nova profissão, mas uma maneira de reorganizar memórias, referências e formas de contar histórias. Ao refletir sobre a procura crescente por objetos marcados pela mão de quem os produz, Diego recuperou uma frase que havia ouvido recentemente: “O futuro é artesanal”.

Arte para uns, artesanato para outros
Antes de aprenderem as classificações, as crianças desenham, modelam e inventam sem perguntar se aquilo é arte ou artesanato. Diego recordou que seus primeiros contatos com a criação aconteceram dessa maneira. “A gente simplesmente gosta daquilo e sai produzindo. Não sabe se aquilo é pequeno ou grande. É uma expressão que você está querendo colocar para fora”, afirmou.
Para ele, a separação entre os termos muitas vezes atende a uma hierarquia construída socialmente. “Às vezes, acho que é uma coisa inventada para dizer que algo tem mais valor e outra coisa tem menos valor, dependendo de quem está fazendo.” A mesma peça pode ser tratada como objeto menor quando vendida na estrada e ganhar o estatuto de arte depois de colocada sob uma luz dentro de um museu.
Marina encontrou essa contradição quando começou a estudar a história da cerâmica. A artista, formada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, percebeu que objetos classificados como artesanato guardavam informações sobre sociedades, crenças, rituais e modos de vida. “Eu não sinto que faço um produto. Sinto que crio algo que expressa um sentimento, uma necessidade espiritual, emocional, humana”, disse.
Vender continua sendo necessário para sustentar o trabalho. O desconforto surge quando a dimensão econômica apaga tudo o que existe antes da compra. Para Marina, a separação entre arte contemplativa e artesanato repetitivo carrega uma perspectiva colonial. Ela lembrou que estudou extensamente a produção europeia na universidade, mas teve pouco contato com a cerâmica dos povos Kadiwéu e Terena ou com a arte rupestre da própria região. “A gente vai engolindo essa colonização. Para romper com tudo isso é muito difícil.”
A divisão também interfere na forma como o público observa os objetos. Uma peça moldada individualmente, ainda marcada pelas impressões digitais do artesão, pode aparecer numa loja ao lado de um boneco de plástico produzido aos milhares. “Não dá para colocar isso no mesmo lugar”, argumentou Anderson. “A gente tem que pensar no tempo que se demora para fazer essas coisas.”
A internet corre, o barro espera
Uma peça de cerâmica não obedece ao relógio das entregas em 24 horas. Entre a ideia e o objeto pronto estão modelagem, secagem, primeira queima, esmaltação, nova queima e a possibilidade permanente de rachaduras ou quebras. A internet, em contraste, pede a continuação do vídeo antes de a argila chegar ao forno.
Foi esse desencontro que Marina viveu com o xadrez de capivaras. Acostumada a um público menor, que já conhecia seu processo, ela viu milhares de pessoas chegarem de uma vez. “Nada prepara muito a gente”, admitiu. A artista queria que o trabalho fosse visto, mas descobriu que visibilidade e venda não são equivalentes. “Hoje, número tanto faz. Ter muitos seguidores ou muitas curtidas é divertido, mas não é o que vende.”
Com o tempo, ela passou a reconhecer outro tipo de relação com quem acompanha o ateliê. Há clientes que colecionam suas canecas e retornam todos os meses. São pessoas que aprenderam o que significa esperar uma peça feita à mão. “Quem vai comprar de você vai realmente entender o valor e o tempo do seu trabalho”, observou.
Diego também procura equilibrar demandas distintas. Personagens populares, como o Saci, despertam uma procura maior e podem ser produzidos em pequenas séries. Peças maiores ou experimentais exigem outro ritmo. Quando necessário, ele convida assistentes e outros artistas para participar do processo. A colaboração, além de distribuir tarefas, rompe a imagem do ceramista solitário. “Eu gosto de deixar o ateliê sempre movimentado. São várias histórias, várias pessoas, cada uma pensando de um jeito e trabalhando num ritmo.”
Para ele, parte do interesse atual pelo artesanal nasce justamente daquilo que a produção industrial tenta eliminar. “As pessoas estão valorizando mais a imperfeição, o feito à mão, o acaso”, avaliou. “A máquina nunca vai conseguir replicar isso.”
Cerâmica também é narrativa
Antes de modelar o barro, Marina trabalhou com ilustração digital e jogos. O interesse por personagens, cenários e sequências continuou presente quando mudou de material. “Eu uso a cerâmica como instrumento para narrar. Gosto de narrativas, de contar histórias”, explicou. Uma obra pode falar sozinha, mas o registro do processo acrescenta outra camada ao encontro com o público.
Essa combinação aparece nos tabuleiros que a tornaram conhecida. No xadrez inspirado no Pantanal, capivaras, jacarés e outros animais ocupam o lugar das peças tradicionais. Em outro trabalho, Iara e Saci comandam lados opostos, acompanhados por seres pesquisados pela artista, como Ipupiara e Jasy Jaterê. O resultado pronto esconde uma sucessão de riscos. “Um xadrez meu são 50 infartos”, brincou. Um dos tabuleiros rachou e precisou ser refeito três vezes.
Criado em Recife e radicado em São Paulo, Diego também aproxima referências tradicionais da experiência urbana. Em suas peças, o Saci pode calçar tênis e a carranca deixa de ser tratada apenas como vestígio de outro tempo. “Meu trabalho tem muito disso: tentar congelar essa tradição, mas ainda assim imaginar um futuro para ela”, definiu. A pergunta que orienta a criação não é apenas como preservar determinada forma, mas “como esse Saci vai permanecer no tempo”.
Atualizar não significa abandonar a tradição. Ao contrário, é reconhecer que os saberes populares continuam mudando porque as pessoas que os transmitem também mudam. “A tradição não quer dizer que está parada no tempo”, ressaltou Anderson. Novas ferramentas, cidades e meios de circulação passam a integrar as histórias e os objetos.
Reconhecer o Brasil no barro
A aproximação de Marina com a cerâmica também foi um retorno às paisagens que formaram sua memória. Criada entre imagens do Cerrado e do Pantanal, ela passou a representar animais, plantas, grafismos e seres encantados da região. A mudança estimulou pesquisas históricas e arqueológicas e abriu uma pergunta pessoal: como se reconhecer, no presente, como mulher e artista brasileira?
“A cerâmica traz esse resgate e essa cura de identidade”, afirmou. Para ela, a fauna e a flora não devem aparecer somente como recursos disponíveis ao uso humano. Quando uma montanha é compreendida como presença ancestral e um rio é associado às histórias de quem vive em suas margens, a defesa da natureza também ganha uma dimensão afetiva e espiritual.
O mesmo deslocamento vale para os encantados. “Quando a gente vê um encantado não como personagem fictício, mas como um ser presente na natureza, trazendo elementos da água e do fogo, a gente valoriza muito mais a cultura brasileira”, defendeu. Em uma de suas leituras, a Caipora pode representar a recomposição da floresta diante das queimadas.
Marina não propõe fechar as portas para referências estrangeiras. Ela mesma se interessa por tradições espirituais e artísticas de outros países. A inquietação é outra: “E no Brasil? Na minha terra, quem traz isso? Qual é a força espiritual desse ser?”. A resposta passa por retirar personagens como Saci, Curupira e Caipora do confinamento infantil e devolvê-los ao presente.
Diego destacou que a identidade brasileira nunca foi uma coleção isolada de elementos puros. “O ser brasileiro envolve influência de vários lugares. É um sincretismo que nunca parou e continua”, afirmou. Para explicar, recorreu a uma figura que aparece em carnavais, festas e ruas de diferentes cidades: o Homem-Aranha. Mesmo nascido nos quadrinhos norte-americanos, o personagem ganha outras funções e gestos quando escala telhados em Olinda ou dança diante de um trenzinho.
O mesmo acontece com a Carreta Furacão, criada em 2007 e reproduzida em muitas versões pelo país. Seus integrantes misturam Fofão, super-heróis, personagens televisivos, música e acrobacia numa combinação difícil de encontrar em outro lugar. “A gente vê coisas se tornarem folclóricas diante dos nossos olhos e às vezes não percebe”, observou Diego.
Na Fenearte, as peças acabaram antes da feira
A conversa também levou o público à 26ª Fenearte, realizada em julho de 2026, em Pernambuco. Diego conhecia a feira desde a infância, quando a visitava com a família. Naquele ano, retornou pela primeira vez como expositor e apresentou de maneira mais ampla, em seu estado natal, o trabalho desenvolvido depois da mudança para São Paulo.
O movimento superou suas expectativas. Crianças e idosos reconheciam o Saci nas peças e contavam suas próprias lembranças. Antes do fim do evento, boa parte do estoque havia acabado. Sem objetos suficientes para preencher o estande, Diego conseguiu argila com um amigo e passou a modelar diante do público.
Uma das criações foi inspirada na Monga, atração popular dos parques em que uma mulher aparentemente se transforma em gorila. Diego produziu primeiro a máscara e depois o busto da personagem, retirando e recolocando uma parte sobre a outra. A demonstração despertou relatos sobre os sustos vividos em circos e parques de diversão.
“É muito bom ouvir as recordações que as pessoas têm”, contou. Monga, assim como o Homem-Aranha das ruas brasileiras, carrega influências externas, mas foi transformada pela circulação local. “Essas coisas tocam o coração das pessoas e nem sempre são puramente brasileiras, apesar de serem puramente brasileiras também.” A contradição resume o movimento de apropriação, mistura e reinvenção que atravessou toda a conversa.
Entre ferramentas e substituições
O debate sobre o futuro do artesanato chegou inevitavelmente às impressoras 3D e à inteligência artificial generativa. Anderson relembrou imagens que viralizaram nos primeiros anos de popularização dessas ferramentas. Elas mostravam crianças negras, geralmente situadas em cenários africanos genéricos, ao lado de esculturas supostamente feitas com materiais recicláveis. Parte do público acreditava estar diante de obras reais e elogiava artistas que nunca haviam existido.
Para Marina, a ferramenta usada não determina sozinha o valor de um trabalho. O torno auxilia a criação de uma caneca sem eliminar a presença das mãos. Uma impressora 3D também pode integrar um processo autoral, desde que esteja submetida à pesquisa, à ideia e às decisões do artista. “Qualquer ferramenta que auxilia o artista a executar a ideia dele está dentro”, ponderou.
O problema começa quando a tecnologia deixa de auxiliar e passa a substituir pessoas sem consentimento, proteção ou reconhecimento. “A inteligência artificial tem que ter regulamentação para ontem”, defendeu Marina. Ela criticou a troca de ilustradores e designers por imagens automatizadas e a apropriação indiscriminada de trabalhos usados para alimentar sistemas generativos. “É uma banalização. A arte no Brasil não é tratada com seriedade e não tem proteção para a gente.”
Diego voltou a atenção para aquilo que a imagem digital não consegue mostrar. Uma fotografia pode apresentar a forma da peça, mas não restitui inteiramente o contato com a matéria, os acidentes da queima ou a conversa com quem a produziu. “Tem coisas invisíveis acontecendo que fazem a gente materializar aquele objeto”, afirmou. “Quando a gente vê algo feito artesanalmente, dá para sentir essa coisa invisível.”
Objetos que transformam a casa
Essa dimensão aparece com mais clareza quando o artesanato deixa a feira e passa a participar do cotidiano. Anderson contou que costuma registrar o nome do artista, o lugar e a data de aquisição em cada objeto. Alguns artesãos estranham o pedido de assinatura, como se não se percebessem como autores. “Eu quero saber o nome para colocar na peça. O senhor é o mestre”, costuma explicar.
Para ele, os objetos ajudam a transformar a casa porque guardam histórias de viagens, encontros e pessoas. Não são “meros enfeites”. Mesmo quando sua função é tornar o ambiente mais bonito, já produzem uma experiência. “Parte da artesania é o conforto. É você se sentir em casa”, resumiu.
Diego também se cerca de obras de amigos e de artistas encontrados em feiras. O ateliê, no entanto, permanece quase vazio. Ele trabalha melhor diante de um espaço limpo, que funciona como papel em branco. Marina faz escolha semelhante. Sua sala é ocupada por quadros e objetos de diferentes autores, mas o lugar de produção tem poucas imagens.
As próprias obras provocam uma relação mais complicada. Marina mantém os tabuleiros guardados porque, diante deles, não vê apenas o resultado: recorda o esforço, as peças quebradas e as noites sem dormir. Diego preserva alguns dos primeiros trabalhos, embora lamente ter autorizado a mãe a jogar fora uma escultura encontrada numa caixa, feita quando ele ainda era criança.
A história levou os participantes de volta ao ponto de partida. O fazer manual antecede as classificações, o mercado e os algoritmos. Diego sente que, ao modelar o barro, retoma uma brincadeira iniciada na infância. “Somos adultos, mas podemos continuar brincando”, disse.
Na despedida, Marina deixou um conselho a quem tenta encontrar uma linguagem própria: “Prática, muita prática e muito estudo”. A liberdade criativa, ressaltou, não nasce sem domínio das técnicas, pesquisa e repetição. Entre a criança que modela sem nomear o que faz e o artista que precisa vender, divulgar e explicar seu processo, existe um longo aprendizado. O futuro pode ser artesanal, mas será construído no ritmo das mãos.
A conversa abriu a décima edição do Somando Visões, evento anual do Folclore BR dedicado ao debate contemporâneo sobre folclore e cultura popular. O trabalho de Marina Torrecilha pode ser conhecido no perfil Copa de Barro. A participação de Diego ocorreu depois de sua estreia como expositor na 26ª Fenearte, realizada de 8 a 19 de julho de 2026.