“A festa pode ser um amálgama de várias festas folclóricas”: Hora Folk imagina como celebrar o Dia do Saci

Anderson Awvas, Andriolli Costa, Lorena Herrero e Ian Fraser propõem comidas, fantasias, brincadeiras e enfeites para transformar o 31 de outubro em uma celebração criada coletivamente.

Criar uma data comemorativa é relativamente simples. Mais difícil é fazer com que as pessoas saibam o que celebrar, como participar e quais práticas podem ser repetidas todos os anos. É esse o desafio enfrentado pelo Dia do Saci desde sua criação.

Na segunda parte de uma edição especial do Hora Folk, Anderson Awvas reuniu Andriolli Costa, Lorena Herrero e Ian Fraser para responder a uma pergunta frequente entre professores: afinal, o que fazer no Dia do Saci? Em vez de apresentar um manual pronto, o grupo imaginou coletivamente uma festa feita de comidas, pegadinhas, fantasias, narrativas e brincadeiras populares.

Gravado em 31 de outubro de 2021 e publicado em 5 de novembro daquele ano, o programa também procurou escapar do confronto simplista entre Saci e Halloween. A proposta não era proibir uma festa para colocar outra em seu lugar, mas pensar como as referências brasileiras poderiam produzir uma celebração viva, divertida e conectada às diferentes culturas do país.

A pergunta que chega das escolas

O ponto de partida foi um comentário publicado nas redes do FolcloreBR: “Até hoje não entendi o que o Dia do Saci comemora. O Saci ou o folclore em geral? A gente já tem o Dia do Folclore para isso”.

A dúvida vinha acompanhada de outra crítica. No Halloween há fantasias, doces e brincadeiras. No Dia do Saci, muitas escolas reconhecem a data, mas não sabem o que propor às crianças.

“Então, atenção, professores da rede pública e particular: finalmente temos um lugar na internet onde será respondida esta pergunta. O que diabos eu faço no Dia do Saci?”, anunciou Awvas.

O comentário também questionava a escolha de 31 de outubro. Para parte do público, colocar o Saci no mesmo dia do Halloween contribuiria para que a celebração brasileira permanecesse esquecida.

O grupo lembrou, porém, que o Halloween também não possui uma presença imemorial no Brasil. Sua popularização é relativamente recente, assim como a consolidação de outras imagens hoje consideradas tradicionais, entre elas o Papai Noel associado à decoração natalina.

A antiguidade, portanto, não determina sozinha a capacidade de uma festa criar raízes. Celebrações se tornam relevantes quando são praticadas, apropriadas e transformadas pelas pessoas.

Uma das possibilidades mencionadas foi separar simbolicamente os horários: travessuras do Saci durante o dia e Halloween à noite. Mas a conversa rapidamente mostrou que o mais interessante seria permitir o encontro, e não produzir uma divisão rígida.

“Se a festa for boa, ela começa de dia e vai até a noite”, resumiu um dos participantes.

Uma celebração que começa pela comida

A primeira decisão foi organizar a festa em torno de uma refeição compartilhada. O almoço apareceu como um momento especialmente brasileiro de encontro, capaz de atravessar a tarde e chegar à noite.

Não seria necessário inventar um cardápio oficial. Cada região, escola ou família poderia trabalhar com os alimentos que já fazem parte de sua experiência. O importante seria transformar a comida em narrativa.

A sugestão de Andriolli foi reservar um momento para que cada pessoa explicasse o prato que levou, os ingredientes utilizados e a maneira como aprendeu a prepará-lo.

“Não pode ter receita de segredo. Nesta festa, a pessoa precisa entender como o prato que está na frente dela foi produzido”, propôs.

A partilha permitiria colocar em circulação conhecimentos familiares que normalmente permanecem restritos às cozinhas. O prato deixaria de ser apenas algo a ser consumido e se tornaria uma história sobre técnicas, territórios e relações entre gerações.

Como o Saci é conhecido pelas travessuras, a comida também poderia incluir pegadinhas. Uma bandeja de pastéis teria diferentes sabores, mas um deles seria inesperado. Surgiram sugestões como jiló, fígado, quiabo ou jaca.

A mesma lógica poderia ser aplicada a uma rodada de coxinhas. Uma delas receberia bastante pimenta, e o desafio seria descobrir quem a comeu enquanto a pessoa tentava disfarçar.

“Acho que a gente tem que seguir pela linha de sacanear as pessoas”, brincou o grupo.

Os nomes dos pratos também poderiam dialogar com os personagens. Entre as ideias apareceram abóbora com Corpo-Seco, Cuca, biscoitos em forma de carapuça, brigadeiros vermelhos, paçoca e preparações feitas com mandioca.

O objetivo não era estabelecer um repertório obrigatório, mas mostrar que qualquer comida poderia participar da festa quando associada a uma narrativa, uma memória ou uma brincadeira.

Carrancas, bebidas e enfeites que participam da festa

Os enfeites não precisariam permanecer imóveis nas paredes. O grupo imaginou uma carranca capaz de interagir com os convidados.

Inspirada no brinquedo Pula Pirata, ela poderia abrir e fechar a boca de maneira imprevisível. Cada pessoa tentaria retirar algo de seu interior até que a carranca finalmente “mordesse” a mão de alguém.

A mesma ideia poderia ser adaptada à Bernúncia, personagem do Boi de Mamão conhecida por engolir crianças durante as apresentações.

As bebidas também receberam nomes inspirados em personagens e lendas. O Bloody Mary poderia ser transformado em um drinque da Loira do Banheiro. Outro teria referência ao Curupira, enquanto uma bebida com pequenas esferas lembraria os muitos olhos devorados pelo Boitatá.

Mais do que copiar um cardápio de Halloween e trocar os nomes, a proposta era observar as características das narrativas brasileiras. As receitas deveriam surgir das imagens evocadas pelos personagens.

O Boitatá, por exemplo, poderia inspirar cores, movimentos ou formas associadas ao fogo e aos olhos. A carranca poderia orientar uma decoração voltada à proteção. A carapuça do Saci poderia aparecer em biscoitos e doces.

A festa começava, assim, a produzir sua própria linguagem visual.

Fantasias que fazem as histórias circularem

No momento de pensar as fantasias, o grupo procurou ir além das caracterizações mais conhecidas. Seria possível se vestir de Saci, Cuca ou Corpo-Seco, mas também de assombrações e lendas urbanas específicas de cada região.

“Deveríamos praticar mais no Brasil essa fantasia de visagens e assombrações”, defendeu Andriolli.

Uma das experiências lembradas ocorreu em Mato Grosso do Sul. Uma integrante da Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore foi fantasiada à escola como a Noiva de Ladário.

Segundo a narrativa, uma mulher teria sido assassinada com a família depois de seu casamento, no final do século XIX. Os criminosos cortaram o dedo em que ela usava a aliança e, posteriormente, teriam aparecido mortos, também com os dedos mutilados.

Para representar a personagem, a professora vestiu-se como uma noiva e fez uma maquiagem ao redor do dedo anelar, simulando o ferimento. Sempre que alguém perguntava o que havia acontecido, ela contava a história.

“A fantasia fazia com que todo mundo perguntasse. E aí ela contava a lenda”, explicou Andriolli.

O exemplo mostrou que uma caracterização pode funcionar como dispositivo de transmissão. A roupa desperta curiosidade, a pergunta abre espaço para a narrativa e a lenda volta a circular.

A mesma lógica apareceu no Cortejo Visagento realizado em Belém. Entre as fantasias lembradas estava a de um casal que construiu um táxi de papelão para representar a Mulher do Táxi, uma das lendas urbanas mais conhecidas da cidade.

Não era preciso pertencer ao Pará para perceber a força da imagem. Um motorista, uma passageira vestida de branco e um carro improvisado eram suficientes para transformar a história em presença pública.

“Principalmente quando é uma coisa famosa na sua região, as pessoas batem o olho e sabem o que é”, observou o grupo.

Toda fantasia deveria contar uma história

A partir desses exemplos, surgiu a ideia de reservar um momento da festa para que cada participante apresentasse sua fantasia.

As luzes poderiam ser apagadas, algumas velas acesas e todos se reuniriam em círculo. Cada pessoa explicaria quem era o personagem representado e contaria uma história relacionada àquela figura.

O desafio seria separar as narrativas pesquisadas das invenções criadas especialmente para a festa. Se a pessoa tivesse modificado uma lenda, deveria assumir sua autoria, sem apresentar a criação como um relato tradicional.

Dessa maneira, a fantasia deixaria de ser apenas uma aparência. Ela exigiria pesquisa, escuta e capacidade narrativa.

A atividade também ajudaria a ampliar o repertório para além das figuras nacionais mais conhecidas. Noivas fantasmas, mulheres de branco, assombrações de estradas, seres de rios e personagens específicos das cidades poderiam ocupar a celebração.

Uma festa realizada em Ladário seria diferente de uma festa em Belém, Porto Alegre ou Rio de Janeiro. O Dia do Saci funcionaria como uma ocasião para cada comunidade contar suas próprias histórias.

Brincadeiras não precisam existir em apenas um dia

O grupo também procurou reunir brincadeiras associadas a diferentes festas e momentos da infância. Corre Cutia, Batatinha Frita 1, 2, 3, amarelinha, pau de sebo e jogos com estilingue apareceram entre as possibilidades.

Algumas ideias eram deliberadamente exageradas. A brincadeira de Corre Cutia foi imaginada como uma versão brasileira de Round 6, enquanto o pau de sebo foi lembrado pelas tentativas frustradas, tombos e roupas sujas.

Por trás do humor havia uma questão importante: por que determinadas brincadeiras só podem ser realizadas durante uma festa específica?

“Parece que você só pode brincar de uma brincadeira em um dia do ano. Nos outros, não pode”, criticou um dos participantes.

O pau de sebo não precisaria permanecer restrito às festas juninas. A amarelinha poderia participar do Dia do Saci. O boi mecânico poderia ser aproximado do Bumba Meu Boi ou do Boi-Bumbá.

“Quero ver, daqui a alguns anos, as crianças lembrando da amarelinha no Dia do Saci”, provocou o grupo.

A repetição seria fundamental para criar a memória da data. Se as escolas começassem a associar certas brincadeiras ao Dia do Saci, os estudantes passariam a esperar por elas no ano seguinte.

Não se tratava de retirar essas práticas de suas festas de origem. O objetivo era permitir que circulassem por novos contextos, adquirindo outras relações e significados.

Do Bumba Meu Boi aos bonecos de Olinda

A festa do Saci imaginada no programa não seguiria uma ideia de pureza cultural. Ela poderia reunir referências do carnaval, das festas juninas, das Folias de Reis, dos festejos de boi e de outras celebrações brasileiras.

“A festa pode ser um amálgama de várias festas folclóricas”, definiu Awvas.

Os bate-bolas do carnaval carioca, com suas roupas volumosas e máscaras, já possuem uma aparência capaz de produzir medo e fascínio. Palhaços de Folia de Reis também podem se tornar figuras inquietantes quando observados fora do cortejo.

Os bonecos gigantes de Olinda oferecem outra possibilidade. Durante a pandemia, uma fotografia do Homem da Meia-Noite circulando sozinho pelas ruas vazias chamou atenção justamente por deslocar a figura de seu contexto habitual.

“Quando você tira o boneco de Olinda daquele contexto específico, ele já fica assustador”, observou o grupo.

Em uma rua movimentada durante o carnaval, o gigante participa da festa. Encontrado sozinho à meia-noite, porém, ele se aproxima de uma aparição.

Esses deslocamentos ajudariam a produzir o ambiente do Dia do Saci sem depender de monstros importados. A cultura brasileira já possui figuras mascaradas, gigantes, caveiras, seres híbridos e personagens que transitam entre a brincadeira e o medo.

Até as premiações poderiam aproveitar esse repertório. Uma sugestão enviada pelo público foi entregar o “prêmio Mula sem Cabeça” à última pessoa colocada em uma corrida.

“E o último leva a mulher do padre”, completaram os participantes, retomando com humor uma das versões mais difundidas sobre a origem da criatura.

Um corredor de superstições

As superstições serviram de inspiração para a entrada da festa. Os convidados poderiam atravessar um corredor formado por objetos tradicionalmente associados ao azar.

Uma escada seria posicionada de modo que todos precisassem passar por baixo. Chinelos virados, gatos pretos e outros sinais poderiam aparecer pelo caminho.

“Você vai passando e só vê coisa que dá azar”, explicou Awvas.

A experiência daria aos organizadores a oportunidade de perguntar o que cada superstição significa, quem a ensinou e se ela continua sendo praticada. Mais uma vez, a decoração se converteria em conversa.

Cuias, cabaças e porongos também poderiam receber rostos e formar personagens semelhantes a cabeças encantadas. A mandioca poderia ser esculpida como alternativa à abóbora do jack-o’-lantern.

Andriolli aproximou a lanterna estrangeira das carrancas brasileiras. Nos dois casos, uma face assustadora é produzida para afastar presenças indesejadas.

“A carranca é como se fosse a prima brasileira do jack-o’-lantern. É uma cara feia feita para espantar alguma coisa”, comparou.

A aproximação não procura dizer que as duas tradições são iguais. Ela permite observar soluções simbólicas semelhantes produzidas em contextos diferentes.

O medo também aparece na religiosidade popular

O catolicismo popular forneceu outro conjunto de imagens. Ex-votos em forma de cabeças, mãos e pés, esculturas de cera, caveiras, túmulos e corpos de santos podem provocar estranhamento quando são retirados de seus contextos devocionais.

“Eu amo o catolicismo popular porque ele pode ser estranho e bisonho”, comentou um dos participantes.

Entrar em uma igreja repleta de membros de cera ou caminhar sobre túmulos produz uma experiência sensorial distinta daquela transmitida pelas explicações abstratas sobre religião. A iluminação, as imagens e os objetos afetam o corpo de quem visita o espaço.

O esqueleto também foi definido como uma imagem direta do destino humano. Ele não representa apenas uma pessoa morta, mas a própria morte encarnada e a perda da identidade individual.

Esses elementos poderiam inspirar a atmosfera de uma festa, mas o grupo alertou para a diferença entre dialogar com um símbolo e ridicularizar a fé.

A espada-de-são-jorge, por exemplo, poderia aparecer como objeto de proteção. Seu sentido não deveria ser apagado em nome da decoração.

“Você não vai zoar com a espada-de-são-jorge nem com a fé. Está trazendo aquilo para outro contexto justamente pelo símbolo que ela tem”, explicou Awvas.

A festa precisaria reconhecer que muitos objetos não são simples adereços. Eles participam de crenças vivas e devem ser tratados com respeito.

O confronto não precisa significar apagamento

Ao final do programa, Anderson Awvas retomou a disputa entre o Dia do Saci e o Halloween. Em 2021, o debate havia adquirido um tom mais amargo, atravessado pela polarização política e por discursos de nacionalismo exacerbado.

Para o grupo, reconhecer o conflito não significa exigir o desaparecimento do Halloween. O 31 de outubro tornou o Dia do Saci mais visível justamente porque colocou duas celebrações em confronto.

Awvas comparou a situação ao Dia do Curupira, comemorado na mesma data dedicada à proteção das florestas. Como não existe uma festa concorrente, a ocasião permanece restrita às pessoas que já acompanham o tema e dificilmente rompe suas bolhas.

O Dia do Saci, ao contrário, atrai comentários até de quem nunca participa das discussões sobre folclore. Parte desse público aparece para defender o Halloween como se a valorização do personagem brasileiro representasse uma ameaça.

“Gente, não é sobre isso”, afirmou Awvas. “O confronto não é necessariamente apagamento.”

Lorena Herrero também propôs repensar tanto o Dia do Saci quanto o próprio Halloween. As pessoas não precisariam deixar de consumir uma celebração da qual gostam, mas poderiam transformá-la para que dialogasse melhor com suas experiências.

“Não é com o intuito de negar ou impedir alguém de consumir uma coisa que acha divertida”, explicou. “É pensar como esses eventos podem ficar ainda mais interessantes e conversar mais com a gente.”

A festa imaginada pelo Hora Folk não oferece uma fórmula definitiva. Ela mostra que o Dia do Saci se fortalece quando deixa de ser apenas uma data inscrita no calendário e passa a estimular práticas reconhecíveis.

Comidas acompanhadas de histórias, fantasias de lendas locais, brincadeiras populares, carrancas, superstições e personagens de diferentes regiões formam um repertório aberto. Cada comunidade pode escolher, modificar e acrescentar seus próprios elementos.

A edição “O que fazer no Dia do Saci?” foi gravada em 31 de outubro de 2021 e publicada em 5 de novembro pelo FolcloreBR. Participaram Anderson Awvas, Andriolli Costa, Lorena Herrero e Ian Fraser. Esta matéria foi preparada a partir de uma transcrição editada do segundo episódio especial sobre a data, com a retirada de repetições e marcas da oralidade, sem alteração do sentido das falas. Assista ao programa completo no YouTube.

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