Em palestra no Colóquio de Zoologia Cultural, pesquisador articula memória familiar, Folkcomunicação e o pensamento de Edison Carneiro antes de analisar as imagens simbólicas do boto e do lobisomem.
Quando a palavra folclore é pronunciada, muita gente pensa imediatamente em mitos, lendas e personagens fantásticos. Para Andriolli Costa, essa associação não está errada, mas representa apenas uma parte de um campo que também compreende saberes, gestos, narrativas e formas coletivas de interpretar o mundo.
Professor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, Andriolli apresentou a palestra “Iniciação ao conceito de folclore” durante o VII Colóquio de Zoologia Cultural. Partindo de sua trajetória como jornalista e pesquisador da oralidade, ele recuperou a Folkcomunicação e a folclorística dialética para questionar as visões que reduzem o folclore a curiosidade, mentira ou conhecimento menor.
Publicada em 17 de dezembro de 2022, a apresentação foi dividida em três movimentos. O primeiro retomou as experiências familiares que levaram Andriolli ao estudo do Saci. O segundo discutiu o conceito de folclore e suas disputas políticas. O último aproximou o debate da zoologia cultural por meio das narrativas do boto-cor-de-rosa e do lobisomem.
Uma iniciação, não uma introdução
A escolha da palavra “iniciação” para o título da palestra não foi casual. Andriolli explicou que compreender o folclore exige mais do que conhecer uma definição ou reunir informações sobre personagens e festas.
É necessário atravessar um percurso de sensibilização, formação e consciência. O objetivo da palestra não era encerrar o assunto, mas oferecer os primeiros passos para quem desejasse perceber a presença da cultura popular na própria vida.
“Eu não tenho condição de ser um guia, mas posso ser um orientador inicial para quem quiser percorrer esse caminho”, afirmou.
Esse caminho conduz a uma dimensão que não é apenas intelectual. O folclore também mobiliza afetos, memórias, experiências sensíveis e vínculos comunitários. Por isso, uma iniciação ao conceito deve modificar a maneira como o pesquisador observa o cotidiano.
A palestra também funcionou como uma ponte entre campos distintos. Andriolli vem da Comunicação e trabalha com rádio, mídia sonora, oralidade e poéticas orais. No Colóquio, voltado às diferentes representações dos animais na cultura, essas questões encontraram um novo espaço de diálogo.
O folclore começa antes do nascimento
Ao falar sobre seu primeiro contato com o folclore, Andriolli recusou a ideia de que ele tenha ocorrido em um momento isolado da infância.
“Meu primeiro contato é o mesmo de todo ser humano: o nascimento. Desde antes de nascer, inclusive”, disse.
As crenças relacionadas à gravidez oferecem exemplos dessa presença antecipada. A mãe que não come o alimento desejado poderia ter um filho com a aparência daquela comida. O formato da barriga seria utilizado para prever o sexo do bebê. Antes mesmo de nascer, a criança já está cercada por explicações transmitidas entre gerações.
“Folclore está presente na nossa vida do nascer ao morrer. E permanecerá após a nossa morte”, afirmou.
No caso de Andriolli, porém, uma influência específica orientou sua trajetória. Seu pai, também professor universitário, nasceu em uma família do interior de Mato Grosso do Sul e costumava contar as experiências que viveu com o Saci.
Essas histórias não eram apresentadas para divertir uma criança ou exibir uma tradição considerada exótica. Eram memórias familiares narradas com seriedade.
“Meu pai falava de mitos e lendas não como curiosidade, não como exotismo, não como uma forma de distrair uma criança, mas com respeito”, recordou.
Nas visitas à chácara dos avós, o pai apontava lugares em que teria sido perseguido pelo Saci ou ouvido seu assobio. Os relatos chegavam à adolescência, aos bailes frequentados com os amigos e à vida cotidiana no campo.
Mais tarde, o pesquisador descobriu que a presença do personagem poderia ser rastreada por pelo menos quatro gerações da família, chegando às histórias de sua tataravó.
“Desde sempre esse duende brasileiro estava ali, agitando o cotidiano dos homens e mulheres que formaram a minha família e as minhas raízes”, contou.
Foi essa experiência que conduziu Andriolli à iniciação científica e, posteriormente, ao projeto Colecionador de Sacis. O interesse pelo personagem deixou de ser apenas uma memória familiar e passou a orientar pesquisas sobre jornalismo, imaginário, oralidade e cultura popular.
O folclore como “jornalismo do povo”
Dentro da Comunicação, Andriolli encontrou na Folkcomunicação uma base para suas primeiras reflexões acadêmicas. A teoria foi formulada pelo pernambucano Luiz Beltrão, que procurou compreender como grupos populares criavam circuitos próprios de informação.
Beltrão percebeu o folclore como uma forma de comunicação utilizada por pessoas afastadas dos meios hegemônicos. Festas, versos, objetos, narrativas e lideranças comunitárias poderiam informar sobre acontecimentos do presente, transmitir conhecimentos, ensinar e divertir.
“O folclore pode ser o jornalismo do povo”, explicou Andriolli ao sintetizar essa perspectiva.
A expressão não significa que toda manifestação folclórica deva reproduzir as funções da imprensa. Ela chama atenção para o fato de que a comunicação não ocorre apenas dentro das redações, emissoras ou instituições reconhecidas.
O povo encontra outras maneiras de interpretar o mundo e fazer circular suas experiências. Um cordel, uma cantoria, uma anedota ou um relato de assombração também podem comentar conflitos, denunciar injustiças e organizar conhecimentos comunitários.
Foi a leitura de Beltrão que levou Andriolli a estranhar definições mais estreitas de folclore. A primeira delas identifica o campo apenas com mitos e lendas.
“Folclore é muito mais do que mitos e lendas. O folclore pode ser uma árvore; mitos e lendas, um de seus galhos”, comparou.
As narrativas orais ocupam um lugar importante, mas não esgotam o conceito. Quando o galho é confundido com a árvore inteira, outras práticas, saberes e formas de comunicação desaparecem.
Como o folclore se tornou sinônimo de mentira
A redução do folclore aos mitos e lendas produz outro problema. Desde a consolidação do pensamento iluminista, explicou Andriolli, mito e imaginário passaram a ser marginalizados como formas de acesso ao conhecimento.
O mito foi associado à mentira ou a uma explicação provisória que desapareceria quando a ciência apresentasse a verdade. Se folclore é entendido como sinônimo de mito, e mito como sinônimo de mentira, a consequência lógica é tratar o próprio folclore como falsidade.
Essa associação ainda aparece no jornalismo e nas conversas cotidianas. Determinado relato “entrou para o folclore da política” ou “para o folclore do futebol” porque parece inacreditável, extravagante ou absurdo.
A palavra também pode ser usada para afastar uma prática cultural. O folclore seria sempre a cultura do outro: do interior, das crianças, das pessoas mais velhas ou de uma comunidade vista como distante.
“Essa cultura não é minha. Essa cultura, no máximo, é do outro — e de um outro que eu não reconheço tanto assim”, resumiu.
A exotização produz consequências políticas. Povos indígenas, comunidades negras e outros grupos tradicionais podem recusar a palavra folclore porque aprenderam que ela designa algo inferior, ridículo ou atrasado.
“Por que alguém gostaria que sua cultura fosse vista como folclore, se folclore foi descrito pela cultura hegemônica como algo menor, absurdo ou mentiroso?”, questionou.
Para Andriolli, enfrentar essa rejeição não significa simplesmente convencer as comunidades a aceitar o termo. É necessário recuperar a potência crítica do conceito e combater a hierarquia que transformou seus conhecimentos em objetos menores.
Edison Carneiro e a folclorística dialética
A recuperação proposta na palestra voltou à década de 1950, quando o Brasil já não possuía apenas um movimento formado por artistas, escritores e curiosos interessados nas tradições populares. Começava a se consolidar uma forma sistemática de pensamento sobre o folclore.
Um dos nomes centrais desse processo foi o baiano Edison Carneiro. Estudioso das culturas afro-brasileiras e integrante do círculo intelectual de Jorge Amado, Carneiro recebeu do escritor o apelido de “jovem feiticeiro”.
Marcado pelo pensamento comunista e pelas formulações de Antonio Gramsci, o pesquisador compreendeu o folclore a partir das relações entre classes populares e grupos hegemônicos.
“Folclore não existe como uma categoria a priori. Você não olha para alguma coisa e pensa: ‘Isto é folclore’. O folclore existe em relação”, explicou Andriolli.
Nessa perspectiva, não é possível definir uma manifestação apenas por suas características formais. O folclore aparece na tensão entre os conhecimentos institucionalizados e aqueles que circulam de maneira alternativa entre grupos populares.
São saberes baseados na tradição, na coletividade, na identidade e no pertencimento. Eles não existem fora da história, mas respondem às condições sociais enfrentadas por quem os produz.
Essa relação não impede a circulação entre diferentes classes. As quadrilhas, por exemplo, foram apropriadas e transformadas a partir de danças praticadas nos bailes da corte. No movimento contrário, escritores e artistas do modernismo recorreram intensamente às tradições populares.
Monteiro Lobato promoveu o inquérito e a exposição sobre o Saci antes de incorporar o personagem ao Sítio do Picapau Amarelo. Mário de Andrade e outros modernistas também produziram obras atravessadas por narrativas, músicas e personagens populares.
“Existe uma troca, mas essa troca não é pacífica. Ela se dá a partir de tensões, e essas tensões a gente não pode negar”, advertiu.
A casca do folclore durante a ditadura
Segundo Andriolli, o pensamento de Edison Carneiro marcou a Carta do Folclore Brasileiro de 1951 e influenciou não apenas os pesquisadores, mas políticas, editais e instituições públicas.
Essa trajetória foi interrompida pelo golpe militar de 1964. A estrutura de pesquisa da qual Carneiro participava foi fechada, e sua orientação política passou a ser tratada como ameaça.
“O recado era: ‘Local fechado por ser um antro de comunistas’”, relatou Andriolli.
Para o pesquisador, não interessava ao regime uma concepção de folclore baseada nos conflitos entre povo e classes dominantes. Tornava-se mais conveniente preservar a aparência das manifestações, retirando delas seu conteúdo crítico.
“Era um folclore despido de sentido e de tensão, do qual restava simplesmente a casca, a estética”, definiu.
Isso ajuda a compreender por que instituições dedicadas ao folclore continuaram existindo durante a ditadura. O que estava em disputa não era apenas a presença ou ausência do tema, mas a maneira como ele seria compreendido.
Sem a tensão social, o folclore poderia ser reduzido a coleção de objetos, músicas, roupas e curiosidades regionais. Permanecia como espetáculo, mas perdia força como forma de pensamento.
Andriolli defendeu a recuperação dessa genealogia crítica. Seu objetivo não é retornar mecanicamente às formulações da década de 1950, mas retomar perguntas que foram apagadas: quem produz o conhecimento, em quais relações de poder e contra quais discursos oficiais?
Um saber que corre ao largo da instituição
A partir dessa perspectiva, o folclore pode ser reconhecido como um saber que circula paralelamente às instituições. A referência a Câmara Cascudo ajudou Andriolli a explicar esse movimento.
A igreja, a escola, o Estado e a ciência estabelecem determinadas interpretações do mundo. Ainda assim, as comunidades continuam produzindo conhecimentos alternativos, transmitidos por seus próprios meios.
“Sempre vai existir um saber folclórico em uma comunidade, porque sempre vai haver uma alternativa”, afirmou.
A palavra inglesa folklore reúne folk, povo, e lore, saber. Folclore, portanto, não designa somente um conjunto de manifestações, mas uma forma de conhecimento associada à experiência coletiva.
“É uma forma de conhecimento ligada à tradição e aos afetos, com uma potência simbólica e sensível”, definiu.
Essa potência não pode ser reduzida à função social. Muitas análises procuram explicar que determinada história existe para disciplinar crianças, preservar a natureza ou impor uma regra comunitária. Essas interpretações podem ser importantes, mas não esgotam o mito.
Andriolli citou o Jasy Jaterê, personagem guarani associado à hora da sesta. As histórias dizem que ele persegue ou sequestra as crianças que se afastam dos pais nesse período.
É possível identificar uma função prática: impedir que crianças saiam sozinhas enquanto os adultos descansam. Mas compreender o personagem apenas como instrumento de controle deixa de lado seus afetos, imagens, ambiguidades e relações com a paisagem.
Por que o boto?
O boto-cor-de-rosa permitiu aprofundar essa crítica às interpretações estritamente funcionais. Uma explicação recorrente afirma que a narrativa teria sido inventada para esconder casos de violência sexual e gravidez dentro das comunidades amazônicas.
Andriolli não descartou que a história tenha sido utilizada dessa maneira. “É possível que o boto tenha servido para mascarar alguma situação”, reconheceu. O problema é transformar essa função em origem única e suficiente para o mito.
Se bastasse inventar um culpado para justificar uma gravidez, por que escolher justamente o boto? Por que não um cachorro ou qualquer outro animal próximo das comunidades?
“Existe um lastro mítico muito forte na figura do boto e dos cetáceos”, respondeu.
O corpo do animal, o espiráculo no alto da cabeça e o movimento de subir e descer ao acompanhar as embarcações evocam imagens relacionadas à sexualidade. Em outras culturas, os golfinhos também foram associados ao amor e à sedução.
“Não é simplesmente escolher e inventar. Essas histórias são engendradas a partir da nossa experiência de mundo e das nossas relações com a tradição”, explicou.
O boto sedutor e abandonador também está ligado à colonização da Amazônia. Antes dessa configuração, os povos indígenas que conviviam com o animal produziam outras narrativas e referências.
A imagem do encantado vestido de branco, com chapéu e sapatos, aproxima-o do estrangeiro que chega à comunidade, seduz as mulheres e depois desaparece.
“É a figura clara do estrangeiro que chega a um lugar e toma tudo para si, inclusive, no caso do boto, a virgindade das mulheres locais”, interpretou.
O mito não encobre apenas uma violência individual. Ele pode condensar relações históricas entre colonizadores e populações amazônicas, desejo e abandono, atração e perigo.
“Conseguimos fazer paralelos muito fortes para o entendimento da sociedade quando nos damos o trabalho de pensar e fazer uma leitura do mito”, afirmou.
O lobisomem e a violência sob uma pele conhecida
O último animal analisado foi o lobisomem. A figura encontrada nas narrativas brasileiras costuma ser diferente do lobo popularizado pelo cinema hollywoodiano.
Nos relatos recolhidos em várias regiões do país, o lobisomem pode apresentar uma mistura de cachorro, porco, cavalo, touro e outros animais presentes na vida rural. Uma explicação diz que sua aparência dependeria dos lugares em que ele se espoja durante a transformação.
A composição possui antecedentes na tradição ibérica, mas também se relaciona com os animais que cercam as comunidades brasileiras. O que era familiar adquire uma forma monstruosa.
“O que é o lobisomem senão o mito de uma violência oculta?”, perguntou Andriolli.
Nas histórias, o monstro frequentemente se revela como alguém próximo: o vizinho, o parente, o filho ou o marido. Sob a pele de uma pessoa conhecida encontra-se uma violência capaz de atingir a própria família.
Andriolli recuperou uma das narrativas mais difundidas. Uma mulher carrega o filho ainda envolvido em sua manta quando é atacada pelo lobisomem. Ela consegue proteger a criança e fugir.
Mais tarde, conta o episódio ao marido, que ri da história. Durante a risada, porém, ela percebe entre os dentes dele os fiapos da manta abocanhada pelo monstro.
“Ela descobre as reais intenções do marido”, explicou.
A narrativa transforma em imagem o medo de que alguém íntimo revele uma face violenta. O cavalo, o cachorro e outros animais do convívio doméstico compõem o corpo do monstro, assim como a ameaça nasce dentro do espaço familiar.
Em um levantamento realizado com ouvintes do podcast Poranduba, Andriolli encontrou diferentes versões e desfechos para essa história. As variações mostram que o folclore não é uma peça imóvel preservada do passado, mas um conhecimento continuamente recriado por quem o transmite.
Boto e lobisomem, portanto, não aparecem apenas como animais fantásticos. Seus corpos condensam imagens de sexualidade, colonização, intimidade, abandono e violência. É nessa capacidade de organizar simbolicamente a experiência que o folclore revela sua força como forma de conhecimento.
A palestra “Iniciação ao conceito de folclore” foi publicada em 17 de dezembro de 2022 pelo canal Zoologia Cultural, como parte do VII Colóquio de Zoologia Cultural. Esta matéria foi preparada a partir de uma transcrição editada, com a retirada de repetições e marcas da oralidade, sem alteração do sentido das falas. Assista à apresentação completa no YouTube.