[Resenha] Maria, cadê você, Maria?

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Tenho uma satisfação especial em ler obras que retratam mitos e lendas brasileiros que fogem das criaturas tradicionais do sudeste brasileiro. O bestiário fantástico nacional está recheado de seres maravilhosos com histórias interessantíssimas e, muitas vezes, desconhecida por boa parte do país continental em que vivemos.

Por isso fiquei especialmente interessado no conto Maria, cadê você, Maria?, de R. B. Montenegro. A história, como o próprio texto de abertura informa, adapta a lenda do Cabeça de Cuia. “Um monstro cruel e sanguinário que assola as margens dos rios, sobretudo no Nordeste do Brasil, especialmente o Piauí”.

A narrativa é levada pelo ponto de vista de Maria, uma jovem sertaneja que em 1924 só queria pensar em se casar com seu amado e terminar de ler a cópia de Os Miseráveis que ganhou das freiras. Infelizmente seus planos serão interrompidos pela terrível criatura que a ataca na beira do rio.

Problemas

O conto, certamente, tinha como proposta um recorte de cena. Assim, não é justo exigir que ele tenha profundidade no desenvolvimento de personagens ou no antagonista. O que é o grande problema da história, no entanto, é que na tentativa de ser sumária, ela resumiu elementos fundamentais quando se escreve sobre um mito mais desconhecido: o contexto.

Para começar, “cabeça de cuia” é mencionado apenas no texto de abertura, não no conto em si. Mais do que isso, diversas características da criatura ficam implícitas no texto, mas só fazem sentido para um leitor de segundo nível – como diz Umberto Eco. Ou seja, aquele que já tem um conhecimento de fundo ao qual pode compreender a obra de outra luz.

Eu conheço o Cabeça de Cuia, mas o escritor não pode fiar a história no conhecimento prévio do leitor. A lenda conta que um menino muito pobre e mal educado mata a mãe com um pedaço de osso após ela servir mais uma vez sopa de jantar. Antes de morrer, a mãe amaldiçoa o garoto, transformando-o num humanoide deformado, com uma grande cabeça oval. A única forma de se livrar da maldição é devorar sete moças virgens de nome Maria.

Na história de Montenegro os elementos estão ali. O osso, a Maria, a quebra da maldição. No entanto estão jogados sem contexto ou explicação. Dá para compreender, mas falta a referência à lenda para que a leitura seja redonda e fechada em si. Ressalto que não se trata de mastigar o texto para o leitor, mas que a própria estrutura interna do conto deve ser capaz de se sustentar sozinha – especialmente ao retratar uma lenda pouco conhecida.

Nota: 2,5/5

 

 

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