E se fosse hoje? Jornal reconta lendas gaúchas nos tempos atuais

Na semana farroupilha de 2014, o mais importante feriado do Rio Grande do Sul, o jornal O Pioneiro convidou sete escritores para contarem – e recontarem – histórias da cultura gaúcha. O resultado foi um lindo trabalho que tomou a forma de um especial on-line que vale a pena ser conferido.

O ilustrador e designer Charles Segat, que participou do projeto, conta em sua página no Behance que a proposta foi idealizada e produzida por uma equipe enxuta: uma repórter, um ilustrador, um diagramador e um web designer, que iniciaram os trabalhos cerca de dois meses antes da publicação.

A consultoria foi de João Claudio Arendt, especialista em Regionalidade, e de Paulo Bocca Nunes, que produziu uma dissertação sobre a formação das lendas do Rio Grande do Sul.Na bibliografia – enviada a cada escritor – estavam nomes como Simões Lopes Neto e Barbosa Lessa.

Confira abaixo a reinterpretação das lendas. Para ver o trabalho completo, não deixe de visitar O Pioneiro.

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O Negrinho vencedor

– José Clemente Pozenato

O menino nasceu numa casa muito pobre. Muitas noites ia dormir com fome e com frio, como se tivesse formigas correndo pelo corpo. Um dia a mãe o levou pelo braço até a escola, onde encontrou meninos como ele. Não eram bem como ele, não tinham a pele de cor escura, como ele. E o chamavam de Negrinho.

Lá descobriu os livros e afundou neles. Na escola, tirava sempre as melhores notas. Uma noite chegou a sonhar que estava num formigueiro, que nem o Negrinho do Pastoreio da história que tinha lido. Olhou para o lado e viu um cavalo baio. Atrás dele trinta tordilhos, todos carregados de livros. Cada livro que abria, no sonho, soltava uma luz que o iluminava.

Quando acordou, decidiu que ia ser um Negrinho do Pastoreio. Ele ia montar no baio e seguir, não campo a fora, mas livros afora, até encontrar o seu lugar na vida. Foi assim que ele se tornou um vencedor, o Negrinho.

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Todos somos São Sepé

– Pedro Guerra

Sepé Tiaraju pode ser qualquer homem predestinado, que vai à guerra e volta dela todos os dias – e sempre vence. Sepé Tiaraju pode ser qualquer criança, com sonhos, anseios e aquela vontade típica de querer mudar o mundo. Sepé Tiaraju pode ser qualquer personagem fantástico: um Harry Potter da vida, por que não? Ambos carregam na testa um fardo que lhes marca a vida.

Sepé Tiaraju pode ser qualquer gaúcho que, independentemente da batalha, vê a conquista de um amanhã melhor como ideal. Sepé Tiaraju pode ser qualquer mulher que encara a vida sozinha – por escolha ou por destino -, e muitas vezes desdobra-se em diversas guerreiras para vencer o dia a dia.

Sepé Tiaraju existiu. Sepé se tornou lenda. Ficou marcado na história de nosso Rio Grande para que pudéssemos, todos os dias, buscá-lo como exemplo. Para isso, basta olhar para o céu.

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O canto da saracura

– Flávio Luis Ferrarini

Diz a lenda que naquela manhã sinistra, o mundo de Dendera não foi despertado, como de costume, pelo canto da saracura, ave que tem os verbos sarar e curar no próprio nome e que tem um canto límpido e majestoso que bota na sombra sabiás e canários cantadores. O canto daquela manhã não era o canto vibrante da vida, mas o da desolação completa. Era o canto das motosserras que perseguiam árvores em fuga. Galhos espalhavam-se no chão com os ramos ainda vivos. O cenário cortante arrancava uma dor aguda de carrapato ingurgitado dos moradores de Dendera, quando apareceu, assim do nada, a Cobra de Fogo – também conhecida como Boitatá, mais comprida do que a árvore mais alta da floresta. Deu-se que o Boitatá engoliu as motosserras todas antes de chamuscar os homens que as operavam. Quem viu jura que o formato da língua do Boitatá é incrivelmente idêntico a um enorme sabre de motosserra. O certo é que depois disso ninguém mais ousou cortar uma única árvore da floresta sem plantar outra no lugar. Assim, o canto da saracura tornou a se repetir todas as manhãs no mundo de Dendera e talvez se repita para sempre.

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O joão-de-barro solteirão

– Luiz Carlos de Lucena

Entre os índios o cadamento representava um compromisso muito sério. Jaebé, filho de inteligente caçador, teria que construir sua futura morada para merecer a jovem a quem pretendia desposar. Ele ra um hogoraitai, pássaro cujo nome de joão-de-barro foi escolhido pelos homens brancos. Já voando e gritando “sou filho dos bosques e canto o hino do trabalho”, foi à luta. Muitas luas e sóis se passaram até o término. O mais idoso dos silvícolas, conhecido como Pagé, se dirigiu ao joão-de-barro:

– Negativo. Não tens direito à jovem.

João-de-barro ficou depenado com a notícia. Calmamente, um por um dos índios apontava um defeito. A casa estava fora dos moldes exigidos pela natureza, desde a localização da porta até o material usado que inalava um forte cheiro, como vinagre. Persistente, foi pesquisar a origem dos defeitos. Descobriu que o barro usado havia absorvido o líquido de um garrafão de vinho ali derramado. Ao transportar o material, o cheiro o deixou sob forte estado etílico, tirando-o de seu juízo e aí ocasionando a falha na qualidade exigida. Assim sendo, ficou registrado para todo o sempre que nesta lenda surgiu o primeiro joão-de-barro pinguncho e solteirão.

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O quero-quero retirante

– Lauro Teodoro

Quando a família interiorana do Rio Grande do Sul, Seu Zé e Dona Maria, com seus dois piazitos, um ainda de colo, deixava o campo rumo a cidade grande em busca de sonhos, levava nas costas os poucos pertences, partindo acuada aos roncos de tratores, deixando casa e terras tomadas pelo banco, com secura na alma e a poeira encobrindo os rastros.

O calor demasiado do sol obrigava uma sesta pra um sono do piá no colo da mãe à beira da lagoa. Seu Zé, matava a sede sem gestos, nem palavras, sentindo cada palmo de chão que ficou pra trás. Os bichos entendiam a penosa partida da família em silencio. A rã, quieta como uma pedra nas águas. Um casal de socós nem mudava os passos. Mas o afoito casal de quero-queros, com voos rasantes atacavam a familia, não deixando o piazinho ninar com os gritos agudos de quero, quero, quero…

Não era hora para “tanto querer”. A mãe, sentindo-se incomodada, amaldiçoou: – Tu também hás de “deixar o campo com seus filhos”, quero-quero! Por isso que, atualmente, nas idas e vindas pela cidade, encontram-se, na torreira do sol forte, os quero-queros, num viver emprestado, trato racionado, nos pátios das casas e trevos de asfalto, correndo atrás dos filhos para livrar de gatos e pneus de carros… Mas continuam afoitos querendo e querendo!

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O sal amargo de Blau

-João Claudio Arendt
Era uma vez um gaúcho chamado Blau, que andava mais quebrado do que arroz de pilão. Já tinha empenhado o lenço vermelho, as esporas e o chapéu… Mas num dia em que tropeava no brejo campeando um boi barroso, deu de cara com um banqueiro que prometia dinheiro milagroso.

No cartão de crédito era baixo o juro e o prazo esticado!…

Blau até emprestou um pouco a mais e saiu logo a pagar os credores. Com o que sobrou, ainda comprou avios para o mate, ferraduras para o cavalo e berloques para a piazada. Por 30 dias, Blau andou pilchado!

Agora, porém, a toda hora lhe batem à porta: é o carteiro com a fatura, o banqueiro com o juro, o oficial com a intimação. Já não dorme mais nem come o pobre Blau… E quando mandou alguém buscar remédio para azia, o dono da farmácia purganteou:

Sal amargo para azia,
magnésia pra digestão!…
Fiado morreu de velho,
paga à vista, Velhacão!…

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A erva-mate como uma ponte

– Marcos Mantovani

Os próximos 800 caracteres são possíveis apenas em primeira pessoa… Por conta dos meus estudos recentes, estou em conversa entranhada com a antropologia. Meu orientador, o grisalho Rafael José dos Santos, jogou em mim uma frase provocadora de Terry Eagleton: “Para uma pessoa, seu modo de vida é simplesmente humano; são os outros que são étnicos, idiossincráticos, culturalmente peculiares”.

Tal frase é uma fagulha para minha releitura da lenda da erva-mate. Na contemporaneidade, o chimarrão não seria uma companhia para a solidão, mas sim um mecanismo para a interação de grupos culturalmente distintos. Aceitação das diferenças. É isso. Visualizo uma roda de mate com caxienses, senegaleses, ganeses, haitianos. A erva-mate como uma espécie de ponte. Travessia.

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