Designer transforma lendas brasileiras em monstros do cinema

Por Andriolli Costa

Primeiro veio a Cobra Grande, derrubando pontes, devorando carros. Depois veio o Curupira, levando a vingança da natureza para o centro de Manaus. O exército se mobiliza, por fim, para deter um gigantesco Mapinguari que em sua fúria derruba prédios como se fossem de papelão. Enquanto as criaturas permaneciam confinadas no imaginário dos ribeirinhos, tudo se mantinha tranquilo. Mas quando as lendas resolvem vir para cidade, o resultado só  pode ser um: destruição!

Essa foi a premissa do diretor de arte Daniel Figueira ao criar o primeiro cartaz da série “Se nossas lendas fossem verdade”, em 2012. De lá para cá, Caipora e Boto vieram dar continuidade a essa proposta que une a estética dos cartazes de filme desastre com o folclore brasileiro. Em entrevista exclusiva ao Colecionador de Sacis, Daniel conta um pouco de suas influências e sobre sua relação com nossa cultura popular. Confiram.

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Colecionador de Sacis: De onde veio a inspiração de trabalhar com essas lendas na série de ilustrações que você produziu?
Daniel Figueira: Sou profissional de Design e também Diretor de Arte, trabalho muito com manipulação de imagens e sou fã de uma cara que trabalha muito com manipulação de destruição, o Alex Koshelkov . Então, vendo alguns vídeos dele veio a ideia de fazer uma manipulação com as nossas lendas, que realmente são muito ricas. Comecei a fazer o trabalho sobre a Cobra Grande e me fiz a pergunta: “e se nossas lendas fossem verdades”? A partir daí comecei a criar nesse caminho.

Colecionador: Você costumava ouvir mitos e lendas locais quando criança? Qual a que você mais gostava?
Daniel Figueira: Bom, quando eu tinha 13 anos, meu pai foi chamado para ser gerente da Telamazon em Itapiranga, interior do Amazonas, onde morei 3 anos da minha vida. Ouvia dos mais velhos sobre as lendas, como se elas existirem mesmo. Era tanta convicção que eu acreditava. Um barranco que caia era a cobra se mexendo, por exemplo. Era louco, cara. Daí eu fui me apaixonando por nossas lendas. A que eu mais gosto, sem dúvida nenhuma, é a do “Curupira”.

Colecionador: Você trabalha no mercado publicitário. A cultura popular do Amazonas, e aí entrando seus mitos também, tem tido algum espaço na publicidade? Ou essa é uma vertente que a mídia ainda não aderiu?
Daniel Figueira: Como profissional posso dizer que depende muito do trabalho ou público que vamos trabalhar. Não sei te falar qual a aceitação ao certo, mas posso te dizer que tem muitos que gostam e outros não. Tem cliente que não gosta de colocar coisas regionais por achar que o público dele irá rejeitar. Só que às vezes a rejeição está no próprio cliente.

Mas lógico que temos uma grande parte que gosta e valoriza nossa cultura. Atualmente vejo isso mudando um pouco, as pessoas estão começando a dar mais valor ao que é da terra e se apaixonando cada vez mais. Pessoalmente, sou muito apaixonado pelo Amazonas e nossa cultura.

Colecionador: Qual sua opinião sobre a forma que o folclore vem sendo apresentado em nossa sociedade (pela escola, pela mídia, etc)?
Daniel Figueira: Bom, hoje perdemos muito pelas coisas atuais. A criança e o jovem de hoje são bombardeados de informações todos os dias pelas redes sociais e mídia em geral, o que fomenta uma cultura de momentos. Só olham quando acontece algo referente, depois esquecem. Hoje perdemos muito, antigamente tínhamos mais informações e envolvimento com a questão do folclore.

Colecionador: O folclore foi uma grande inspiração para a arte brasileira durante o Modernismo. Hoje, parece haver uma série de iniciativas em games, quadrinhos, etc que fazem esse mesmo resgate. O que acha dessa nova leva?
Daniel Figueira: Como tinha dito, percebo esse movimento acontecendo aos poucos. Penso que só tem a crescer e a contribuir com certeza, atingindo crianças e jovens que ainda não têm tanta informação do nosso folclore.  Acho muito positivo para o crescimento dos nossos filhos.

Colecionador: Tem algum projeto para envolvendo folclore além das ilustrações? Recebeu algum convite para transformar os posteres em curtas ou longas de verdade?
Daniel Figueira: Projeto novo ainda não, por motivo de tempo mesmo, mas estou vendo alguma coisa para começar. Convite recebi para fazer alguns outros cartazes de filmes (o trabalho das lendas foi bem comentado sobre se iria ser mesmo um filme, foi legal isso!). A arte da Cobra Grande também virou capa de CD de uma banda local.

Colecionador: Para você, o Brasil ainda precisa descobrir suas lendas?
Daniel Figueira: Acredito que sim, principalmente as novas gerações. O trabalho que desenvolvi de certa forma contribuiu e ainda está na mente das pessoas.

Colecionador: O que podemos aprender com elas?
Daniel Figueira: Acho que eu aprendi a ter mais amor à nossa cultura, que é muita rica. Tem muita coisa que não conhecemos, e muitas vezes já queremos conhecer outras culturas. Isso eu acho errado, as pessoas preferem viajar para o exterior sem conhecer seu país primeiro, por exemplo. Por outro lado, tem muitos profissionais que conheço fazendo um belo trabalho com a cultura brasileira e se dando bem, sem ter que sair para fazer projetos fora. Aqui temos tudo, só precisamos saber ver de um jeito diferente.

Clique aqui para acessar o Portfólio do Daniel Figueira

Veja outra entrevista com o artista no Mapingua Nerd

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