
Adaptado do texto publicado no Sobre o Tatame
Em 15/07/2016
Ilustrador paraibano, Pedro Indio Negro produziu uma releitura das 22 tradicionais cartas de tarô, substituindo os arquétipos de cada uma das lâminas por um correspondente no folclore do nordeste brasileiro. A arte foi feita no Photoshop, imitando a estética da xilogravura.
No Tarô, os 22 arcanos maiores descreveriam as 21 etapas evolutivas da vida do homem (representado pela última carta, o Louco). Na galeria abaixo, você confere a representação de cada uma das cartas e uma interpretação de seu significado escrito por Paloma Reis, do Sobre o Tatame.
A FORÇA. Simboliza a força moral, resistência e coragem na figura de Maria Bonita (Maria Gomes de Oliveira foi uma mulher polêmica. De temperamento forte, foi pioneira no seu métier, cangaceira. Ela entrou no cangaço com 18 anos, e morreu menos de nove anos depois, em 28 de julho de 1938, junto com Lampião e mais nove cangaceiros na Grota do Angico, em Poço Redondo, Sergipe).
A IMPERATRIZ. Criatividade, sucesso, amabilidade, fecundidade e sabedoria são representadas na imagem da Rainha do Maracatu (o Maracatu é um ritmo tradicional do nordeste do Brasil. Nas cidades Recife e Olinda, no coração do estado de Pernambuco, o maracatu desenvolveu-se a mais de 500 anos da musica e tradição das escravos proveniente da Africa).
A MORTE. A carta que usualmente têm a simbologia de grandes mudanças, criação e destruição, é aqui representada no elemento Jaraguá – Figura fantástica, integrante do folguedo do mesmo nome e, costuma desfilar no Carnaval de rua, junto com boizinhos, bonecos e outras figuras. Como a do Maneiro-Pau também, do mineiro-pau, encontrados nas zonas rurais de Alagoas, Campos e São João da Barra, estado do Rio de Janeiro e, também, em áreas do litoral do Espírito Santo e sul da Bahia. O Jaraguá é uma das principais manifestações folclóricas da cidade de Anchieta, localizada no litoral sul do Espírito Santo.
A RODA DA FORTUNA. Carta que representa boa sorte, louvor, animação e bom humor aparecem na figura de uma Ciranda (dança muito conhecida como brincadeira infantil, porém na região Nordeste, principalmente em Pernambuco, é uma dança de rodas de adultos. Os participantes podem ser de várias faixas etárias e as crianças também podem participar. Típica das praias. Desde 1961 a ciranda faz parte de todas as festas folclóricas do Recife. É uma dança de roda, cantada e dirigida pelo Mestre Cirandeiro, responsável por tirar as cantigas. Forma-se uma roda e de mãos dadas todos seguem na batida do bumbo ou zabumba).
A TEMPERANÇA. Tolerância, paciência, praticidade, aceitação dos acontecimentos na figura da Lavadeira do rio, (a história das lavadeiras começou por volta dos anos 60, quando donas de casa e suas filhas lavavam as roupas no rio, ou buscassem água para lavá-las em casa. Ao lavarem as suas vestimentas no rio, as mulheres da cidade se inspiravam nos canoeiros que passavam pela região e cantavam para entrar em sintonia no ritmo das remadas).
A TORRE. A carta que representa mudanças, subversões, desmoronamento e liberdade aparecem na figura da Carranca (a presença das carrancas era marcante na proa das embarcações do rio São Francisco, do final do século XIX até meados do século XX. As figuras “zoantropomórficas”, meio bicho e meio gente, eram assustadoras, mas com o poder de espantar mau-olhado, espíritos brincalhões, azar e assombrações, de acordo com os moradores locais. Eles, também, contam que as carrancas eram capazes de afastar jacarés, que na época habitavam o rio, e outras coisas ruins. Os primeiros exemplares de que se tem notícia datam 1880).
O CARRO. Carta que simboliza a vitória, o triunfo, talento e competência foi representada pelo Mateus (personagem típico dos reisados – Folia de Reis, Reisado, ou Festa de Santos Reis é uma manifestação cultural religiosa festiva e classificada, no Brasil, como folclore; praticada pelos adeptos e simpatizantes do catolicismo).
O DIABO. Figurando as tentações, provocações, a luxúria e o egoísmo temos a figura da lenda de Catirina (figura fundamental do Bumba meu boi, a escrava Catirina, grávida e desejosa, pede ao marido Chico (ou Pai Francisco) para comer língua de boi. O escravo atende ao desejo da esposa, matando o boi, e sendo preso a mando do dono da fazenda. Com a ajuda de curandeiros, o boi é então ressuscitado)
O ENAMORADO. Envolvimento afetivo, livre arbítrio, união figuram nos ícones de Coco de Roda (Dança tradicional do Nordeste, o coco de roda tem sua origem na união da cultura negra com os povos indígenas no Brasil. Ela é formada por uma roda onde, em pares, os participantes dançam conforme o ritmo do tirador, a pessoa que tira os cocos, que canta e improvisa versos no meio da roda. Os que participam da roda não precisam de uma vestimenta própria e podem dançar calçados ou descalços. Além disso, acompanham com palmas e tocam instrumentos de percussão, mas ajudam no canto apenas no refrão).
O EREMITA. A austeridade, sobriedade, concentração e prudência que a carta representa aparece na imagem de Preto Velho (uma entidade de umbanda, espíritos que se apresentam em corpo fluídico de velhos africanos que viveram nas senzalas, majoritariamente como escravos que morreram no tronco ou de velhice, e que adoram contar as histórias do tempo do cativeiro. São divindades purificadas de antigos escravos africanos. Sábios, ternos e pacientes, dão o amor, a fé e a esperança aos “seus filhos”. São entidades que tiveram, pela sua idade avançada, o poder e o segredo de viver longamente através da sua sabedoria, apesar da rudeza do cativeiro demonstram fé para suportar as amarguras da vida, consequentemente são espíritos guias de elevada sabedoria).
O JULGAMENTO. Simboliza a santidade, a exaltação espiritual e atos prodigiosos é representada pela figura do Caboclo de Lança (personagem do Maracatu Rural ou de Baque Solto – também conhecido como Maracatu de Orquestra. O Caboclo de Lança obedece a um ritual antes de sua apresentação, e toda sua vestimenta tem uma explicação, uma razão de ser. Há uma cerimônia em terreiros, com a bênção da lança e da flor que carrega na boca, além da consagração da calunga. Os homens cumprem uma abstinência sexual alguns dias antes da apresentação)
A experiência de ultrapassar limites, espontaneidade, despreocupação representadas pela figura do Boneco de Olinda (chegaram ao Brasil com os portugueses, desfilando inicialmente em procissões e festividades religiosas na figura de bufões ou reproduzindo santos católicos. Em Olinda, a brincadeira começou com O Homem da Meia-Noite no ano de 1931. Segundo o conhecimento popular, todos os dias, exatamente à meia-noite, um homem muito bonito seguia a pé pela Rua do Bonsucesso).
O MAGO. O carta que simboliza o impulso criador, espontaneidade, destreza, habilidade e eloquência foram figuradas por João Grilo (personagem fictício dos contos populares de Portugal e do Brasil. Apareceu com destaque na Literatura de Cordel brasileira e, na condição de pícaro invencível, reapareceu na obra Auto da Compadecida, escrita por Ariano Suassuna em 1955).
O PAPA. Carta que simboliza benção, moral, mansidão, equilíbrio e generosidade na figura do Babalorixá (o mais alto grau hierárquico, chefe do terreiro que também pode ser denominado Diretor de culto. Aquele ou aquela que dirige o terreiro e que exerce toda a responsabilidade espiritual dentro dele. É o pai ou a mãe-de-santo responsável pela feitura dos médiuns, os filhos-de-santo.)
O SOL. A vitalidade, clareza, calor, sucesso e os bons sentimentos da carta são representados na figura do Frevo (ritmo musical e uma dança brasileira com origem no estado de Pernambuco, misturando marcha, maxixe, dobrado e elementos da capoeira. Declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2012).