[Resenha] Sepé Tiaraju – O Herói Guarani

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O primeiro jogo que baixei quando comprei um smartphone, em 2011, foi um tower defense – aquele onde você deve construir torres para se proteger de várias hordas seguidas de inimigos. O jogo era Kingdom Rush, grande expoente do gênero, e desde então se tornou meu favorito em dispositivos móveis.

Tudo isso para vocês verem como  minha empolgação foi grande quando, no fim de novembro, apareceu como resultado de minhas buscas por outros tower defense o jogo Sepé Tiaraju – O Guerreiro Guarani. Era a união de meu gênero favorito com minha temática favorita, o folclore brasileiro! Sim, pois Tiaraju, mesmo que personagem histórico, tornou-se lendário no Rio Grande do Sul como um ícone de liberdade e resistência.

O jogo foi desenvolvido por Plínio Quartim e Daniel Dourado, com créditos para o Mangaba Game Studio. Disponível para iOS e Android, o texto na loja de aplicativos informa que ele é resultado de um projeto selecionado no INOVApps 2015, concurso realizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – MCTIC. A proposta é contar a saga de Sepé Tiaraju, “o herói Guarani em sua árdua missão de defender seu território contra a demarcação imposta pelas coroas portuguesa e espanhola referentes ao Tratado de Madrid”.

A expectativa foi alta. Normalmente, esta é a receita pronta para a decepção.

Pode copiar, mas não faz igualzinho

Demorei dois dias para finalizar o jogo para poder falar sem cometer alguma injustiça, mas tendo o experimentado tanto no iOS quanto no Android, posso dizer sem erro: Sepé Tiaraju é um pastiche incompleto de Kingdom Rush. Veja bem, buscar inspiração ou referência numa versão mais famosa é frequente e até aceitável, desde que sob a estrutura prévia do anterior se busque trazer algo de diferente. Não é o que acontece. O jogo é apenas um template regional sob um esqueleto antigo, um mod que venceu um prêmio de inovação.

As semelhanças são absolutas: da visualização da tela às torres – infantaria, arqueiros, cavaleiros, magos e bombardeiros. Os especiais também são idênticos, inclusive a invocação de meteoros (que faz muito mais sentido do cenário medieval do jogo original). Os inimigos, nesse caso, não são orcs ou monstros, mas soldados espanhóis encouraçados de design pouco inspirado.

Tal como em Kingdon Rush Origins, você também controla um herói – no caso, Sepé e seus amigos. No entanto, ele de pouco serve. Não é possível evoluir seu herói ou comprar novos talentos para ele. E se Sepé morre, revive imediatamente, o que faz sua preservação não influenciar em nada na partida. Detalhe: ao movimentar Sepé, ele grita “Avante, Guaranis!”. Aconteceu que Guarani, como nome de etnia indígena, não forma plural.

O pouco refinamento na jogabilidade logo fica evidente. Basta fortalecer as defesas do início da fase que ser derrotado se torna extremamente difícil. A partir da 4ª onda, já é possível estabelecer esse perímetro de segurança, o que faz com que as outras ondas de inimigos (entre 10 ou 12) se tornem completamente monótonas. Isso, aliado ao fato de não ser possível acelerar a vinda dos inimigos ou mesmo a duração da partida, torna rapidamente o jogo chato, não incentivando que ele seja completado.

Outro índice deste caráter casual é que a cada vitória, você não é redirecionado pra o mapa com novas fases ainda a derrotar, mas sim para a tela inicial (!). A cada vitória é preciso abrir o jogo novamente para continuar jogando. Ainda assim insisti e fui até a última fase em busca do recompensador final… que não existe. A fase final encerra como todas as outras.

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Quem foi Sepé Tiaraju?

Em 1750, Portugal e Espanha firmavam o Tratado de Madri, que estabelecia – entre outros termos – a troca da região de Missões pela Colônia de Sacramento. Com isso, cerca de 50 mil índios da região Sul do país foram obrigados a deixar as terras de seus antepassados para atender aos desígnios da política dos colonizadores.

Neste contexto surge Sepé Tiaraju, índio criado entre os Guarani cuja lenda diz ter nascido com uma lua na testa.Habituado ao convívio dos homens brancos, as versões dizem que recebeu educação inclusive militar pelos espanhóis. Com a explosão da Guerra Guaranítica, o talento do índio como estrategista logo ganhou destaque, servindo como líder da resistência. A ele, inclusive, é atribuída a frase “Essa terra tem dono”, estampada num mural em frente ao Mercado Público de Porto Alegre.

Apesar de toda a luta, Sepé pereceu junto de 1,5 mil guaranis na batalha do Caiboaté. Simões Lopes Neto, folclorista gaúcho, conta que ao morrer, Deus lhe tirou o lunar da testa, transferindo-o para o céu dos pampas a fim de guiar os gaúchos. Por isso, em noite escura, ao olhar para o céu, lembre-se que o herói guarani missionário rio-grandense Sepé, agora São Sepé, olha por você.

O Mangaba Estúdio perdeu uma ótima oportunidade de unir narrativa e jogabilidade com uma estrutura já testada e bem-sucedida. Há tentativas de contextualização em cada fase, mas muito insuficientes. Pena.

Baixe aqui a versão para iOS e para Android.

Nota: 01/05

 

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