Orixás não são super-heróis?

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Arte em homenagem a Jack Kirby retratando Orixás como Os Vingadores, por Hugo Canuto

Fabio Kabral, do O Lado Negro da Força, publicou no site um artigo intitulado “Os Orixás não são super-heróis” que tem repercutido muito na rede. Tece sua crítica inspirado pelo hype que acompanhou o trabalho de Hugo Canuto ao retratar orixás como personagens da cultura pop. Kabral se preocupa com a dessacralização dos Orixás, que poderiam ser esvaziados pela indústria cultural. Também adoro o trabalho de Hugo, então só peço que não refutem Kabral em antecipação. Vamos refletir sobre o texto por partes.

Perceba a distinção sutil que o autor faz em seu texto. Ele diz que quer sim várias histórias , filmes, livros sobre a temática. Mas “uma coisa são personagens inspirados nos orixás, outra são retratar os próprios orixás”. Esse é um ponto.

É interessante como a relação entre cultura popular e cultura de massa (aquela da indústria cultural, que mastiga tudo para tornar palatável) é sempre uma tensão dual. Ao mesmo tempo em que divulga, leva o elemento cultural para mais pessoas, por outro também esvazia, simplifica, padroniza algo tão rico para que seja de fácil consumo pelo maior número de pessoas possível. Se a versão estandartizada é tão diferente, colaboraria realmente para um “conhecer”? A torcida que fica é que a audiência cativada não fique na leitura de primeiro nível, mas que parta dali para outras leituras.

Outro ponto diz respeito aos orixás serem mitos vivos, que fazem parte da vivencia de pessoas – que inclusive sofrem represálias por essa crença. Não é como tratar das mitologias grega ou nórdica, não são linhas num livro de história. Separo esse trecho:

As pessoas cultuam os Orixás. Acreditam e sentem Orixá em seus corpos. Nossos antepassados sobreviveram aos horrores da escravidão para continuar cultuando Orixá nesta terra. Por isso, Orixá não é brincadeira, Orixá não é fantasia de carnaval, Orixá não é personagem estereotipado de livro da moda. Orixá não é instrumento para você, que sequer pratica a religião, se exibir como “desconstruído” e ainda lucrar com isso. E as nossas comunidades que seguem cultuando de verdade Orixá e enfrentando toda a sorte de preconceitos para manter viva a nossa fé, estão lucrando com o quê?

A conclusão que chego é que concordo com Kabral quanto ao centro de sua crítica. Ela serve de alerta para vários trabalhos. As culturas tradicionais são constantemente vilipendiadas pelos povos dominantes, que lucram, exploram e descontextualizam a narrativa de seu lugar de origem. E o que oferecem em troca?

Mais do que isso, se você retrata de maneira desleixada, sem compromisso com a essência daquela manifestação, pode colaborar para disseminar preconceitos e estereótipos mesmo tentando fazer o contrário. É o caso das várias ilustrações de Ogun extremamente erotizadas que colaboram para a hiperssexualizacao da mulher negra, por exemplo. Claro, existe a liberdade poética, mas é preciso ter consciência de qual mensagem sua história comunica.

Isso se aplica a Hugo? Não, não acredito que seja o caso. Quando escrevi o artigo sobre a importância do pensamento descolonial sobre o folclore brasileiro, tive a oportunidade de conversar com ele. E ficou clara a preocupação em dar a contrapartida. Em se informar, dialogar e conversar com membros da cultura para construir narrativas em que os orixás não sejam mero template a ser aplicado sobre heróis da Marvel, mas personagens únicos e condizentes com suas posturas.

(Observação Nas artes que começaram a viralização a intenção era homenagear o aniversário de Jack Kirby. Depois o projeto ganhou forma)

A contrapartida não é apenas discursiva, mas financeira. Parte dos lucros dos primeiros pôsteres dos Contos de Orun Ayie, Hugo doou para o Ilê Aiyê, “mais antigo bloco afro do carnaval de Salvador e que mantém um grupo cultural de luta pela valorização e inclusão da população afrodescendente” (info do Judão). A intenção, conforme a entrevista, é manter essa relação de parceria.

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