[Clipping] As raízes de uma gravidez

O curioso caso da árvore grávida de Rodilândia, em Nova Iguaçu, no Estado do Rio, que virou curtametragem e foi parar até na tevê

 

nova_iguacu_arvore_gravida_ika0645Por Renata Melo
Revista Overmundo #4

Madrugada em Rodilândia, pequeno bairro de Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro. Estamos na Travessa Estrada de Ferro. Seria só mais uma rua como as outras, não fosse a existência de um elemento estranho: uma árvore com formas de uma mulher, ou melhor, com as formas de uma mulher grávida. Em noite de apagão, só as velas ao redor dela iluminam o lugar. Passos apressados, olhares apreensivos, respirações ofegantes. Quem jogou areia? De onde vem o barulho de criança chorando? É só o vento ou a árvore está se mexendo? Uma voz ao relento avisa que é melhor ser rápido, antes que a mulher vestida de noiva possa alcançar.

“Eu não tenho medo, mas que parece com uma mulher, parece, né?”, brinca dona Maria de Lourdes Mendes, de 63 anos e, há mais de 20, moradora da região. Será mesmo assombrada a mangueira com ares de gestante que habita Rodilândia? As formas da planta intrigam até os mais céticos. O tronco arredondado, os galhos como dois braços abertos, até as “costas” lembram as de uma mulher.

Reza a lenda que uma moça grávida foi assassinada no local onde nasceu a árvore. Ela, a árvore, teria essas curiosas formas porque guardaria a alma da mulher morta, vítima dos ciúmes do marido. Para muitos, a árvore é motivo de medo. Mas não para os meninos de pés descalços que, sob a sombra da assustadora mangueira, se divertem ao lembrar das travessuras realizadas: “No dia do apagão, a gente botou um monte de velas na árvore e uma garrafa de vinho do lado. Quando alguém passava, a gente jogava de cima da árvore uma boneca vestida de noiva [risos]”, conta Jaílson Rodrigues, de 14 anos. “O Gabriel chorou e o pastor mandou a gente ir para igreja”, interrompe Erick Maciel, de 13 anos. O vinho era ki-suco; e a areia, peripécia de Ricardo, amigo de Jaílson.

Com uma sacola de pão nas mãos e expressão triunfante, Felipe Costa, de 13 anos, se aproxima e esclarece o mistério. “Essa árvore é mais velha do que eu”, diz indiferente. E explica a origem do mito: “Falaram que uma mulher grávida morreu aqui e logo nasceu uma árvore nesse formato.” Quem “falaram” não se sabe. Como toda lenda, esta também surgiu espontaneamente, fruto da necessidade das pessoas de explicar alguns fenômenos e, agora, pertence ao coletivo. Assim como Felipe, qualquer morador de Rodilândia é capaz de contar o tal “causo”.

A mangueira já se tornou ponto de referência, no repetido mantra “logo ali, perto da árvore grávida”. É a grande atração no bairro. Dona Manoela Luiza Passos da Silva, proprietária da casa em frente à árvore, conta que vem gente de longe para tirar fotos e conferir se uma árvore realmente engravidou. Ela já vive no lugar há 24 anos e diz que, quando chegou, a lenda já existia. “De primeiro, todo mundo tinha medo. Ninguém passava por aqui de noite, não”, lembra. Acostumada com tanta badalação, a dona de casa não hesita em contar mais uma vez a história aos visitantes e curiosos: “Ah, minha filha, os antigos falaram que no lugar onde existe a árvore foi morta uma mulher…”

A menção aos “antigos” está sempre presente na fala dos moradores da rua. “Eu acredito, porque as pessoas mais velhas, meus vizinhos que já morreram, viram”, afirma a nordestina Maria de Lourdes. A lendária mangueira já foi também um símbolo de fé. Houve quem rezasse para ela e quem fizesse “macumba”.

A população se divide entre o amor e o medo. “O fruto que ela dá é muito gostoso”, garante Manoela. Ela conta que já pensou em cortar a árvore para construir um muro, mas não teve coragem. “Essa árvore tem muita história”, suspira a moradora da casa em cujo terreno fica a árvore.
Jaílson, apesar de ser um dos protagonistas das cenas de medo que envolve a árvore, reproduz com respeito e em tom de mistério: “Meu irmão disse que um dia estava passando por aqui, não estava ventando nem nada e a árvore começou a mexer sozinha, se tremendo toda”. Erick, também da turma que gosta de assustar as pessoas, diz desconfiado: “Eu passo aqui de noite numa boa… se não tiver falta de luz, claro”, afirma rindo.

Seu José Marques da Silva é vizinho da árvore. Aos 78 anos, caminha com dificuldade, encosta a bengala na parede, e, com olhar compenetrado em direção à mitológica mangueira, afirma: “Vi ali de madrugada um homem de chapéu todo de couro”. E ai de quem duvidar dele! “Eu já vi e não sou de andar com mentira.” Apesar dos quase 30 anos no Rio de Janeiro, o sotaque pernambucano permanece. Se tem medo? Franze logo as sobrancelhas e, com a voz gasta pelo tempo, resmunga: “Medo de quê? Medo de nada. Dizem que também aparece uma mulher por ali, mas eu só acredito naquilo que eu vejo”. Mas o homem, esse ele garantiu ter visto.

A árvore como inspiração

A lenda da árvore grávida já inspirou a produção de dois vídeos. Um apresentado ao ar livre em Rodilândia, o outro, uma animação feita por alunos da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, exibido na TV, no programa Fantástico. Tudo começou em 2008, com uma redação escrita por Luana Mendes, que mora a poucos metros da famosa mangueira. Na época, com 22 anos e aluna do Pro jovem, Luana participou do “Minha rua tem história”, um programa da Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu que reuniu cerca de 3 mil jovens para contar histórias sobre seus bairros. Entre essas histórias, a de uma árvore grávida chamou atenção. Por sua redação, Luana ganhou 10 horas de internet em uma lan house próxima à sua casa e um mp4 player, mas o grande orgulho da jovem foi ver na tela a história que crescera ouvindo protagonizada pelos próprios personagens do bairro. A motivação para escrever sobre o tema veio de um desejo antigo do vizinho, marido de dona Manoela e dono do quintal que abriga a árvore: “Já tentaram cortar a árvore, mas o Seu Baixinho nunca deixava. O sonho dele era ver a história no cinema e na televisão”, lembra Luana. Luiz Carlos, o Seu Baixinho, não sobreviveria para ver seu sonho realizado. Ele faleceu num trágico acidente na Rodovia Presidente Dutra, antes que a história virasse notícia.

Mas a lenda iria também para a televisão como sempre quis o Seu Baixinho. Para a matéria do Fantástico, foram três os temas sugeridos. A escolhida, é claro, foi a pauta sobre uma certa árvore que habita Rodilândia. “Escolhemos o tema da árvore grávida porque era o mais curioso. Como pode uma árvore engravidar?”, questiona Jonathan Lacerda de Jesus, um dos integrantes da equipe de reportagem mirim que produziu um curta- -metragem sobre a história. O vídeo foi exibido no programa no dia 8 de outubro de 2009. Além de Jonathan, mais quatro alunos da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu participaram da reportagem: Michele, Wagner e Roni, na época, todos com 10 anos de idade. Jonathan, os mais velho, com então 14 anos, contou que, chegando em Rodilândia, a turma ficava apreensiva diante de qualquer árvore. “Não fiquei com medo, até porque era de manhã”, desconversa o jovem cineasta.

Sabiamente, do auge dos seus 16 anos, Jonathan garante que não é preciso se amedrontar, afinal “essa árvore já se tornou parte da cultura do bairro”. Há seis anos ele lida com a sétima arte na Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu. O talentoso rapaz conta que, apesar de gostar de criar roteiros, seu forte mesmo é produzir, e confessa, envergonhado, que precisa se dedicar mais à leitura. “Faz parte de mim já. O cinema me encanta de um jeito que não dá para explicar”, diz o menino. “Eu pensava que filme era feito só nos outros países. Só que não! Descobri que se produzia também no Brasil, perto de onde eu morava. Então, eu achei o máximo estar aqui”, revela o rapaz, os olhos brilhando de encantamento.

O aqui ao qual ele se refere é especificamente Miguel Couto, um dos principais bairros de Nova Iguaçu. Lugar onde vive e onde funciona a Escola Livre de Cinema. Entre pastelarias e o comércio informal, em meio à característica poeira das ruas e à quase morta linha do trem, se faz cinema. Lá, se produzem e se reproduzem histórias fantásticas e reais – fabulosas como a de uma árvore que é capaz de engravidar. Como a árvore, que quase foi cortada, a Escola também esteve amea- çada de fechar as portas no final do ano passado. Com novo fôlego e novos patrocinadores, agora está mais fértil do que nunca.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s