Campanha do Ministério da Saúde compara folclore brasileiro a movimento anti-vacina

 

zé

Por Andriolli Costa

O perfil oficial do Ministério da Saúde no YouTube publicou na última semana um novo vídeo de sua mais recente campanha, #VacinarÉProteger, pensada para conscientizar a população quanto a importância da vacinação. Nele, o mascote Zé Gotinha se reúne a um grupo crianças para “conversar sobre lendas brasileiras”. Ao final de cada história, as próprias crianças alertam: nada disso é verdade, são apenas mitos.

Ainda que o objetivo da campanha seja mais do que louvável, especialmente nos tempos obscurantistas em que vivemos, a mensagem final é problemática. Saci, Cuca, Mula sem Cabeça, Negrinho do Pastoreio e Iara são colocados no vídeo no mesmo contexto que boatos divulgados pelos movimentos anti-vacina, como a ideia de que vacinação aumenta o número de casos de autismo, ou de que vacinar duas vezes faz mal. É tudo equivalente? Folclore brasileiro pode ser entendido como simplesmente uma mentira?

Mais de uma vez já alertamos contra o uso indiscriminado da palavra Mito como sinônimo de mentira, falsidade ou ilusão. O lastro vem de uma ideia que se fortalece na modernidade, em uma explicação bastante comum: “Mito é a forma como os povos que ainda não haviam descoberto a ciência explicavam os fenômenos da natureza”.

Essa explicação fazia sentido para a época. Afinal, era o período das luzes, e o saber institucionalizado e científico aparecia como a única forma válida de acessar a realidade. Todo o resto era escuridão. O saber folclórico, e os mitos especificamente, eram apenas conhecimentos pré-científicos que deveriam ser superados quando a verdade fosse descoberta.

Como efeito colateral, todo o saber não-institucionalizado, calcado no sensível e no simbólico foi marginalizado dos processos intelectuais. Os que advogam essa interpretação ignoram que o saber do povo, esse folk-lore, opera em outra lógica. Encontra sua riqueza no coletivo, na tradição, num imaginário que fala não de um indivíduo, mas da experiência humana. A narrativa de um mito certamente não é factual, mas está longe de ser uma mentira.

Vejamos um exemplo do próprio vídeo do Ministério da Saúde. Após contar a história do Negrinho do Pastoreio, com foco na passagem em que o escravo é lançado ainda vivo a um formigueiro, o roteiro pontua: “Mas ainda bem que isso não aconteceu de verdade, é apenas um mito”. Realmente é reconfortante achar que esta é apenas uma “historinha”. Uma conto narrado para arrancar espanto das audiências mais jovens. Infelizmente, não é bem assim.

A história do Negrinho do Pastoreio não apenas aconteceu, como acontece. É revivida todos os dias, sempre que um negro é preso por um crime que não cometeu apenas pela sua cor; quando se submete a trabalhos desumanos para sobreviver; quando é preso em postes e espancado por “cidadãos de bem” que se julgam a verdadeira voz da justiça. O Negrinho não é um personagem de historinha, é um mito que fala de classe, poder e racismo.

Cultura e ciência não são adversárias. O verdadeiro adversário, de ambas, é a ignorância. Boataria, notícias falsas – fake news, como tanto se anda falando, ou, em última instância, simplesmente mentiras são ótimos termos para descrever o movimento de desinformação que encontra na internet o ambiente adequado para se propagar. Mas os mitos brasileiros, os verdadeiros mitos, enquanto narrativas exemplares, carregam uma grande verdade que deve ser compreendida – e revelada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s