Ele que saltita entre nós – Apresentação do livro “Reabertura do Inquérito do Saci”

No primeiro semestre de 2017 fui convidado pelo companheiro Carlos Carvalho Cavalheiro a escrever um texto de apresentação para seu livro que reunia 10 anos de depoimentos sobre o saci nos tempos modernos. A tiragem limitada, de apenas 100 exemplares, vem em uma data muito especial: o ano em que celebramos os cem anos da abertura do Inquérito lobatiano. Confira abaixo meu texto na íntegra.

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Por Andriolli Costa

A primeira vez que ouvi falar no trabalho de Carlos Carvalho Cavalheiro foi em 2007. Eu havia acabado de iniciar minha pesquisa sobre cultura popular, com foco no Sítio do Picapau Amarelo, quando descobri que alguém tentava refazer o histórico Inquérito sobre o Saci para celebrar os 90 anos da pesquisa lobatiana. “O mundo é redondo para que os homens não se escondam nos cantos”, me disse Carlos tempos depois. Em um giro do mundo nos encontramos, gravitando em torno da força das histórias.

Perambulei encantado pelas páginas virtuais do Inquérito atualizado de Carlos, devorando cada narrativa. Acompanhei ao longo dos anos a evolução do trabalho. Aberto em 2006 para as celebrações do ano seguinte, o site do Inquérito continuou recebendo colaborações em fluxo contínuo. Em uma década foram cerca de 40 depoimentos, entre textos, artigos, ilustrações, poesias e letras de música. O plano era transformar tudo em livro para aproveitar a data, projeto finalmente concluído com a publicação deste volume, celebrando o centenário da obra.

Após examinar o trabalho, percebi que ao longo de todas as histórias narradas por e-mail e publicadas em ambiente digital colhidas pelo pesquisador, estava algo que acredito e defendo desde o início de minha vida acadêmica: a atualidade dos mitos e lendas brasileiros. Folclore não é lembrança do passado, é experiência do presente. Não é algo a ser preservado, como intocada peça de museu, mas a ser vivido, transformado, sentido.

Investigar o folclore é mergulhar na alma do povo (que também nos inclui, é importante ressaltar). É ser tocado pelo Comum. É comungar do outro e sentir o pertencimento. Lobato fez isso com seu Inquérito sobre o Saci, abraçando as diversas facetas desde duende tão brasileiro. As histórias colhidas por Carlos, em sua homenagem, mostram a mesma vivacidade.

Diferente do que dizem por aí, o saci não se acovardou com a luz elétrica. O saci que some com o dedal da costureira e trança a crina dos cavalos é o mesmo que dá nó no fone de ouvido que fica no bolso. O mesmo que faz cair o 4G do celular. O Saci não ficou na roça, saltita entre nós. Não está restrito ao dia do folclore nas escolas, nem às discussões contra Halloween que povoam as redes sociais. Saci não é discurso, é mito vivo.

Podemos encontrá-lo nos grafites pelos muros de São Paulo – e quero ver prefeito algum tentar cobri-lo de cinza. Podemos encontrá-lo nas músicas, nas histórias em quadrinhos, na literatura e até nos videogames. Saci está nas brincadeiras, na cultura pop, nas histórias de nossos pais e que logo serão as de nossos filhos. Saci está aí. Basta encantar o olhar, abrir bem os ouvidos e escutar aquele assobio que arrepia a alma.

Dentre todos os depoimentos colhidos neste livro, o que mais me inquieta é o relato de um gaúcho, que provoca: se antes Lobato podia atestar que não há menino que em dia de vento não arregale o olho para um rodamoinho de poeira e não veja nele, com os olhos da sugestão, o moleque de uma perna só, hoje, “é raro encontrar um piá que troque os truques de um Pokémon pelas peraltices do Saci”.

A pergunta que fica é, será que realmente precisamos trocar um pelo outro? A cultura popular existe e resiste para além das demandas oficialescas, das expectativas dos mercados, dos interesses de consumo. O bestiário folclórico não diz sobre monstros encantados, mas sobre nós mesmos. Nossos medos, nossas angústias, nossos sonhos e desejos. E isso é maior do que qualquer produto pode gerar.

Interessante pontuar também que uma das críticas feitas ao trabalho seminal de Monteiro Lobato é a mesma que incide sobre a pesquisa de Carlos. Quem responde ao chamamento do autor em seu questionário são homens letrados, assinantes do Estado de S. Paulo, e o recorte tecnológico é uma deficiência também presente no Inquérito 90 anos depois. Afinal, nem todos possuem o domínio das redes para enviar suas histórias pelo computador. Mais raros ainda são aqueles com disposição para traduzir um causo da oralidade para o texto escrito, e enviar o resultado para outrem – seja por correio físico ou eletrônico.

Infelizmente, qualquer pesquisa mais abrangente, com ambições de panorama, sofrerá do mesmo mal. Apenas uma parcela da população que se expressa e é representada, jamais o todo. É uma contingência do formato, que não tira sua validade, mas que deve ser reconhecida.

Os mitos, vale lembrar, são mutantes e mutáveis. Nenhum dicionário ou folclorista é capaz de cravar uma versão “verdadeira” de um ser que não habita o texto do vernáculo, mas sim vive no imaginário do povo. Assim, Lobato capturou com seu Inquérito um registro de seu tempo, um momento que mostra toda a riqueza de um personagem que diz sobre o Brasil de tantas formas diferentes. Aqui, temos mais uma amostra desse valor.

Por fim, não vejo espaço mais adequado que este para fazer um convite. Ocorre que, sempre que se fala em saci, nas casas, nas escolas, ou mesmo na internet, o mais comum é ensinar ao mesmo tempo os modos de capturá-lo. De contê-lo.

Ora, o Saci é um mito do caos. Traz a variação na vida pacata do caboclo, que seguia sempre sua lida diária com a terra. A tentativa de capturar um saci, prendê-lo com peneira e garrafa, é a busca por recuperar a ordem do mundo. De manter o status quo. Acontece que sem caos não há transformação, não há mudança.

Sua carapuça vermelha, herança do barrete frígio recebido pelos escravos libertos na Roma antiga, se tornou símbolo de liberdade adotada por revoluções em toda a Europa. Tirar a carapuça do saci e condicioná-lo aos desejos do captor é tirar sua magia. Sua liberdade.

No Brasil de hoje, que trocou o universo caipira pela metrópole, é também a rotina que domina a vida do assalariado – eternamente preso no trajeto casa-trabalho até finalmente morrer na indústria, substituído qual peça desgastada na máquina do capital.

Mais do que nunca, precisamos de sacis. E soltos. Quem sabe assim, possamos nos libertar também.

————-

Andriolli Costa é jornalista natural de Mato Grosso do Sul. Atualmente é doutorando em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, investigando as interfaces entre jornalismo e imaginário. Centraliza sua discussão sobre mitos e lendas o blog O Colecionador de Sacis. 

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Uma resposta para “Ele que saltita entre nós – Apresentação do livro “Reabertura do Inquérito do Saci”

  1. O resgate dos mitos brasileiros, feito pelo Colecionador Andriolli Costa, é uma das coisas mais interessantes da internet.
    Trás, dos mitos, as raízes e também seus usos antigos e atuais.

    Curtir

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