O Saci retorna à aldeia – Egon Schaden e as imagens do mito entre os Guarani

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Página do livro “Dossiê Saci”, de Margareth Marinho

Muito se fala sobre os fundamentos que constituem o mito do saci terem se dado entre os indígenas. Teria derivado a partir do Jasy Jateré, duende Guarani anão, branco, loiro e de olhos claros que com seu cajado mágico sequestrava mulheres e crianças. O saci pererê que assombra o caboclo seria uma mescla do imaginário do Jasy indígena com o imaginário dos negros (especialmente com os orixás Exu, Ossaim e Aroni) e Europeu (herdando a carapuça e poderes dos gnomos, trasgos, fradinhos da mão furada e pesadelos)

No entanto, décadas de midiatização do saci pererê  fizeram o mito tomar o caminho de volta até as aldeias, criando novas formas no imaginário dos povos originários. Passam a surgir relatos de um kambá’í (negrinho, em Guarani), que une as características de Jasy e Saci. Um relato ímpar sobre este processo foi colhido por Egon Schaden no livro “Aspectos Fundamentais da Cultura Guarani”, de 1974. Diz ele:

A figura do Saci, outrora encontrada também entre os Tupinambá litorâneos e de há muito integrada no folclore rural brasileiro de todas as regiões, registrei-a entre o Ñandéva e os Kayová. Os primeiros, no Araribá, chamavam-no de atsýyguá, por causar doença ou dor a quem o encontre; ninguém o vê, ouve-se-lhe apenas o assobio, que mete medo; não fala com ninguém, tem aparência humana e é provido de duas pernas, mas pequeno, pretinho (por isso também é conhecido por kambá’í); não fuma.

A variante Kayová, colhida em Benjamim Constant, parece já ter sofrido influências culturais brasileiras ou paraguaias. Aí o nome é xaxim-taterê, sendo o ser descrito como meninote de seus cinco anos de idade, duas pernas e tal qual uma criança, até nas feições. Manifesta-se por um assovio penetrante, que dá arrepios e faz estremecer a quem o ouça; não é ouvido no meio do mato, mas somente nos caminhos (nume viarum!).

Quando o xaxim-taterê assovia, não se deve arremedá-lo, nem duvidar de sua existência; do contrário, ele aparece, armado de um pau a fim de castigar a quem não creia nele e a quem dele faça troça; Há xaxim-taterê de pele branca e outros de cor preta; não se fala em xaxim-taterê de pele bronzeada.

É tido como espécie de guarda da noite, pyharê rupiguá. A sua força está no bastãozinho que leva consigo. Tirando-se-lhe o bastãozinho perde a força que possui. Gosta muito de fumo e de pinga. Se a gente quer vê-lo, basta por uma garrafa de pinga e um pouco de tabaco no lugar em que se ouve o assobio. Embebedar o xaxim-taterê é o recurso para lhe tirar o bastão.

É evidente que a primitiva representação indígena aí se transformou em consequência dos contatos culturais. Não obstante, não chega a identificar-se com o Saci corrente na região, entre a população rural de origem ibérica que, segundo me contaram, é um negrinho monópodo, assoviador, de chifrinho na testa e ladrão de crianças louras.

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