Rui de Oliveira – Estudos de Personagens para o Picapau Amarelo de 1976

Por Rui de Oliveira
Publicado na BNDigital

Quindim, Rabicó

Gostaria de aproveitar este momento, em que estamos apresentando os desenhos preparatórios para a criação dos bonecos do rinoceronte Quindim e do porquinho Rabicó, para mencionar uma questão conceitual muito importante ocorrida com a novela, em seu período inicial.

Em 1976, quando eu ainda estava esboçando o estilo da abertura, os figurinos e os bonecos, a TV Globo me enviou para Los Angeles, para trabalhar na Croft Corporation. Essa fábrica produzia e criava os bonecos do Muppet Show e da Disneylândia. Foi um grande aprendizado que tive. Uma experiência riquíssima entender e representar o personagem em três dimensões, e até mesmo a própria essência do espetáculo televiso para crianças. Vale mencionar que, naquele momento, a TV Globo pensava no Sítio basicamente em gravações internas, em estúdio, tal como haviam feito, com muito sucesso, o Vila Sésamo. Era, portanto, esta a direção em que eu trabalhava os meus projetos.

Pouco tempo depois, quando os bonecos já estavam prontos, a emissora foi gradualmente transferindo as gravações para o exterior — na verdade uma grande solução. O cenário do Sítio, construído em Pedra de Guaratiba pelo grande cenógrafo Arlindo Rodrigues, se transformou no Éden perdido. Era a natureza que as crianças urbanas desconheciam, além de um profundo apelo ao seu imaginário e uma saudade de algo que elas não viveram. A luz do sol mudava toda a concepção de figurinos, e bonecos, no que se refere às questões da forma, cor, materiais, mobilidade e estrutura. Em síntese, todo o chamado ethos do personagem, que é a sua maneira de ser.

Os figurinos tinham que ser bem arejados, leves, resistentes à passagem por galhos e plantas. Lembro que, quando desenhei o boneco do personagem “Major agarra e não larga mais”, que era um sapo, utilizei pequenos e silenciosos ventiladores dentro do boneco para refrigerar o ator devido ao intenso calor de Guaratiba.

Sinceramente, não lamentei ter que começar tudo de novo. O que aprendi na Croft pude adaptar às circunstâncias da gravação, ao ar livre. Foi possível, com essa experiência, criar outros bonecos para a novela, em especial aquele que considero o melhor e o mais simbólico deles: a Cuca. Que até os nossos dias permanece sendo usada de diversas maneiras, algumas absurdas e prosaicas. A criação deste emblemático personagem é o tema do nosso próximo painel.


A Cuca e o Príncipe Escamado — O seu processo de criação

Acredito que todos os figurinos que desenhei num primeiro momento — os da Emília, Visconde de Sabugosa, Príncipe Escamado — afora os outros bonecos que criei para a novela, o que teve maior impacto, a maior empatia junto às crianças, sem dúvida, foi a Cuca. Reproduzo alguns estudos que fiz à época para criação deste carismático personagem, e que, até hoje, permanece revivido de todas as maneiras, por vezes até com soutien! — algo que jamais eu desenharia. A Cuca seria uma personagem para uma aventura, apenas, mas, pelo seu grande sucesso, permaneceu e foi desenvolvida em outras aventuras. Em Lobato, ela aparece somente no livro O Saci.

Gostaria, pela primeira vez, de relatar ao grande público, passados tantos anos, alguns conceitos que me orientaram em sua criação. Todo personagem, todo figurino tem que possuir, conforme já disse antes, um ethos, em outras palavras, uma personalidade. Uma origem histórica, social, cultural e até mesmo mitológica. O ator é, e será sempre, o sujeito, mas o figurino não é apenas um simples objeto. A primeira compreensão do interior de um personagem é por meio de seu aspecto plástico — a construção de seus significados vai ocorrendo ao longo do texto que, de certa forma, é uma extensão de seu figurino. E como fazer um figurino de sucesso? Não existem regras. Existem caminhos, não atalhos. A palavra mágica, caso ela exista, são o trabalho na prancheta e a pesquisa.

O aspecto cromático da Cuca é um contraponto de cores quentes e frias, além do vermelho e sua complementar verde, como é caso da região peitoral do personagem. Acredito, sinceramente, que um dos motivos da grande atração do personagem no vídeo foi o uso do vermelho como cor regente, e de sua complementar o verde. Cores altamente simbólicas. O vermelho do sangue humano e o verde da seiva das plantas. O encontro destas duas cores foi muito utilizado pelos pintores italianos, antes do Pré-Renascimento. Eles sabiam muito bem usar o dualismo simbólico destas duas cores fundamentais. Temos sempre que ter consciência de que não trabalhamos unicamente com os aspectos físicos das cores, mas com os seus simbolismos, seus contrastes, seu passado e cultura, sua relação com as outras cores e, principalmente, com a sua temperatura: cores quentes e cores frias, por exemplo — existe uma metafísica das cores. A história da pintura está repleta de grandes exemplos disso.

O figurino da Cuca foi projetado já para o ar livre, considerando a sua relação com o ambiente natural e com os cenários construídos. Era preciso criar espaço no boneco para a plena desenvoltura e comodidade do ator. O ator é o fundamento. Nenhum personagem, nenhum boneco sobrevive, por melhor que ele tenha sido desenhado e construído, sem a presença e o talento do ator. Certamente, este foi um dos componentes do sucesso da Cuca. A atriz, Dorinha Duval, era extraordinária na sua maneira de agir e falar. Junto com o figurino, ela criava uma simbiose, um physique du rôle perfeito. O figurino não é uma obra acabada em si mesma — ele está a serviço do ator; jamais o contrário. O figurino narra a história em silêncio. Resumindo: a alma de um figurino será sempre o ator.

Gostaria de citar o nome do, infelizmente já falecido, Eloy Machado. Ele foi o costureiro que construiu a Cuca. Estive em sua casa várias vezes acompanhando a montagem do boneco todo feito em espuma, feltro e fibra de vidro. O cabelo era de rabo de cavalo legítimo. Ele construiu outros personagens que desenhei. Não havia dificuldade técnica na minha criação para a qual ele não encontrasse uma solução.

Ainda como estudante em Budapeste, vi num livro escrito por Alexander Puskin e ilustrado por Ivan Bilibin, grande mestre russo da ilustração, uma representação da bruxa Baba Yaga. Fiquei bastante impressionado com a concepção do ilustrador, principalmente com os cabelos esvoaçantes da bruxa. Todos nós conhecemos a força e o simbolismo dos cabelos. A criança convive bem, diferente do adulto, com o universo visual do horror e do bizarro. Outro aspecto importante na concepção visual da Cuca, e talvez isto também explique o seu fascínio com as crianças, se deve ao fato de o jacaré lembrar muito um animal pré-histórico. No caso, um dos mais temíveis: o Tiranossauro. Eu não poderia perder este detalhe de ligação com o imaginário infantil. Os esboços que fiz à época, e que aqui estão expostos, demonstram bem esta origem pré-histórica da personagem.

O PRINCIPE ESCAMADO

Para desenhar o Príncipe Escamado, quis fazer algo próximo de um herói de quadrinhos. Lembrei de personagens de minha infância: o filme O Monstro da Lagoa Negra, Príncipe Submarino e tantos outros. Você não representa a aparência, mas sim a essência dos personagens. O figurino é um personagem que fala sem ter voz. O Príncipe Escamado era algo que vinha do Reino das Águas Claras, portanto, um príncipe com escamas e barbatanas. A sua cor regente seria o verde-amarelo até o verde azul, o turquesa. Muitos contos de fadas representam príncipes e princesas que habitam no mar, e por algum motivo eles vêm até a terra. Todo este imaginário visual, eu não poderia deixar de pesquisar e desenhar.


O casamento de Narizinho com o Príncipe Escamado –A ilustração e os símbolos

Até onde pude saber, penso que seja esta uma das primeiras representações em nossa literatura para crianças, escrita por um brasileiro, que nos apresenta de forma tão maravilhosa um dos momentos mais emblemáticos e misteriosos dos contos de fadas: o noivo animal. Como histórias clássicas e exemplares, neste segmento, portanto referentes aos chamados ritos da iniciação e do autoconhecimento, nós temos o A Bela e a Fera, O Rei Sapo e muitos outros. Realizei esta ilustração para a mostra “As Visões da Emília”. O olhar de sete ilustradores brasileiros – Centro Cultural Banco do Brasil – Foyer – 1996. Fui o organizador e o curador daquela exposição. Sobre o tema tão importante dos símbolos na ilustração de livros para crianças e jovens — para o qual esta ilustração do casamento de Narizinho com o Príncipe Escamado é um belo exemplo —, eu gostaria de fazer algumas reflexões finais sobre o símbolo e a arte de ilustrar.

Eu diria incialmente que ilustrar é supor. Ver também é uma suposição. Um ato essencialmente pessoal, uma intransferível vivência. Em qualquer que seja a imagem, o que vemos realmente são os nossos desejos. Os nossos símbolos pessoais. Algo muito além, e bem diferente do devaneio original do artista que realizou a ilustração. Vemos o nosso anseio. A forma por nós desejada, a imagem que se origina em nossas internas volições. O que construímos diante dos olhos é a nossa expectativa. Ver é tirar o disfarce desta ansiedade.

Portanto, a ilustração jamais será a visão unilateral de um artista ou de um texto. Em termos simbólicos, ela é uma Hidra com infinitas cabeças de serpentes, e destas, sem parar, outras nascem sucessivamente. Isto significa que, quanto mais plural em suas singularidades, quanto mais indagativa for a ilustração, mais ela desperta narrativas ao olhar do pequeno e grande leitor. Certamente, a bela ilustração é aquela que revela e estimula as palavras, e as imagens interiores e anteriores de quem as vê.

Como se configura simbolicamente a imagem que vemos? Podemos dizer que ela é uma esfinge. Um ser geralmente híbrido que devora todos aqueles que não elucidam seus segredos. E como poderíamos situar a ilustração neste caso?

Ela é, da mesma forma, uma esfinge a partir de um texto. Onde só nós possuímos a chave para o desnudamento de seu mistério. Mesmo a ilustração não sendo a imagem similar e espelhar do texto, apesar disso, podemos nos referenciar à Alice, ou seja, não vemos a imagem por meio do espelho, e sim, através do espelho. Ver é imergir em nossos símbolos pessoais.

Emília e Visconde

Visualizando a Emília para a TV


Para a criação dos bonecos e dos principais figurinos da novela, acredito que a maior dificuldade que tive, bem diferente dos ilustradores clássicos de Lobato, foi dar forma aos personagens em três dimensões. Aquilo que resultava bem nos desenhos de Voltolino, Belmonte, Villin, J. U. Campos e Andre Le Blanc não reagiam bem como figurinos para serem utilizados por atores. Aqui, os personagens seriam vistos de todos os ângulos, sempre lembrando que estávamos fazendo um espetáculo para a TV, com suas normas e convenções. Por outro lado, eu não poderia romper radicalmente com as já tradicionais imagens quase cristalizadas por meio de gerações e gerações de leitores. O primeiro problema, quando comecei a desenhar a Emília, foi a sua tradicional e desalinhada cabeleira preta. Nas ilustrações, era realmente engraçada, mas, na TV, com a movimentação da atriz, resultaria em uma imagem feia e meio fantasmagórica. Utilizei, então, após muitos desenhos e testes, uma cabeleira de recortes de panos irregulares, como se fosse uma bruxinha. As cores eram de tons quentes de cádmio. A paleta de cores que fiz para todo o figurino da Emília era devido aos efeitos especiais obtidos no chroma key. A cabeça da personagem ficou alegre, os cabelos se movimentavam — tudo isso criou uma dinâmica que reagiu plasticamente muito bem no vídeo. Esse gênero de figurino é uma escultura em movimento, uma verdadeira arte cinética. Gostaria também de citar que os outros personagens da novela, e os cenários, eram do extraordinário e saudoso Arlindo Rodrigues.



Visualizando Visconde de Sabugosa para a TV

O bom figurino de um personagem fantástico é quando ele possui uma verossimilhança com o real, isto não significa ser realista. A criança aceita e se identifica com o personagem bizarro se ele for crível ao seu olhar, à sua imaginação e ao seu coração. Este é caso do Visconde de Sabugosa. Sem dúvida, do ponto de vista de sua confecção, pelas mãos de Tia Anastácia, é um dos mais fantásticos personagens criados por Lobato. Mas a questão central era a mesma: ele é interessante como imagem ilustrada nos livros, mas como ele seria vestido por um ator? Poder andar, gesticular, correr… – o figurino é a versão física e silenciosa da alma de um personagem.

Não acredito, sinceramente, em criação sem pesquisa. Lembro que, naquela época, eu estudei muito os personagens de animais com roupas humanas desenhadas por Grandville (1803-1847). Mas, novamente, o binômio memória e imaginação funcionou. Lembrei de um livro que li quando criança e que muito me impressionou: O Barão de Munchhausen. O desenho de Gustave Doré (1832-1883) para o Barão se eternizou em minha memória. Todas estas confluências resultaram na forma final que encontrei para o Visconde de Sabugosa. Apresento aqui algumas versões que desenhei.

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