PORANDUBA 62 – Almirante

Por Andriolli Costa

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Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast do Colecionador de Sacis sobre as histórias fantásticas do folclore brasileiro. E no programa de hoje vamos conhecer a vida de Henrique Foréis Domingues, o cantor, radialista e folclorista que dominou as rádios cariocas sob a alcunha de Almirante. Vamos conhecer sua contribuição para a valorização e resgate da música popular, a seriedade com que pesquisava e divulgava folclore num tempo em que isso era mal visto pelas elites e, é claro, escutar um pouco do seu grande sucesso: Incrível, Fantástico, Extraordinário, o programa que contava histórias de assombração enviadas pelos ouvintes!

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Apresentação: Andriolli Costa
Edição: Andriolli Costa
Vinheta de Abertura: 
Danilo Vieira Battistini, do podcast O Contador de Histórias.
Logo do podcast: 
Mauro Adriano Muller – Portfólio.

– Canto de abertura e encerramento do povo Ashaninka

  • Neste episódio você escuta Almirante com o Bando de Tangarás cantando As Touradas de Madri, Vamos falar do Norte, Anedotas e Na Pavuna. Ouve também Moreira da Silva com A Dama do Cemitério e Carmem Miranda com Bambo do Bambu.

Poranduba agora faz parte da rede Audiocosmo de Podcasts, do grupo Homo Literatus! Confira os outros programas da rede.

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Leia o roteiro:

Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas do folclore brasileiro. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei seu guia. E no programa de hoje vou trazer um formato diferente. Vamos falar sobre a biografia do cantor, compositor, radialista e, é claro, folclorista Henrique Foréis Domingues, um homem que, sob a Alcunha de “Almirante” se tornou rapidamente conhecido como A Maior Patente do Rádio.

Se você gosta do que eu faço hoje em matéria de divulgação folclórica com o Poranduba, ou de programas como o Aconteceu comigo, do Mundo Freak, saiba que Almirante fazia tudo isso nas décadas de 30, 40 e 50 em transmissões ao vivo, com direito a orquestra, atores de rádio-teatro e um roteiro com muita pesquisa sempre capitaneada por ele mesmo. Atenção, ai vem o Almirante:

E o programa da semana chega até você com apoio do Itaú Cultural, que além de ser um grande fomentador da cultura popular também está com sua própria série de podcasts: o Toca Brasil, que traz um bate-papo sobre música, o escritores leitores, que entrevista escritores renomados – do nível de Conceição Evaristo e Ricardo Azevedo, um mestre contador de histórias, e, é claro, o meu favorito: o podcast Mekrukadja, apresentado por Daniel Munduruku, só com entrevistas com indígenas. Vale muito a pena conhecer! Já pensou, um crossover desses aqui em Poranduba? Quem sabe o que 2020 promete.

Bom, a primeira vez que eu ouvi falar em Almirante foi graças a um dos seus programas de maior sucesso na rádio, que vocês puderam ter um gostinho aí no começo do episódio: Incrível, Fantástico, Extraordinário!. Breve chegaremos a ele. Este foi o auge da carreira deste artista e pesquisador, que enchia as ondas de rádio com histórias de sacis, fantasmas e lobisomens. Mas sua ligação com o folclore e, em especial, com o cancioneiro popular, data de muito antes disso.

Nascido em 1908, Henrique Foreis Domingues era carioca de Engenho Novo. Aluno de péssimo rendimento na escola, também não se deu com a música erudita de primeira. Dizem que chegou a estudar violino com um alemão, ex-prisioneiro de guerra, mas não fez as pazes com o instrumento. Gostava mesmo é de emboladas, modinhas e cateretês. Ao ponto que, em seu primeiro emprego – como lavador de garrafas – era sempre pego assoviando e tirando som das garrafas vazias.

O rapaz nunca foi de deixar passar as oportunidades. Em uma festinha, assistia revoltado a um grupo amador de alunos do colégio batista que se apresentava. Mesmo cariocas, tocavam coco e embolada. Para ele, o pandeirista era muito ruim. Quando o outro saiu para tomar uns goles, Henrique pulou no palco e assumiu o instrumento, entrando de vez para o grupo, mesmo sem ser aluno do colégio. O projeto teria tudo para ser apenas uma aventura de amigos, mas vejam só quem eram os amigos: Alvinho, Henrique Brito, Braguinha e depois, seu grande parceiro, Noel Rosa. Foi essa a base que deu origem ao grupo Bando de Tangarás, em 1929.

O nome do grupo é uma história a parte. Os tangarás dançarinos são uma espécie de passarinho conhecida por ter uma forma muito peculiar de cortejar a fêmea, em uma fila alternada onde cada um faz seu movimento para a dança do acasalamento. No folclore, conta-se que os primeiros tangarás foram os membros de uma família muito fandangueira, que por dançar durante a semana santa foram amaldiçoado por Deus e transformados no passarinho. Braguinha, inspirado, sugeriu inclusive que todos os membros do grupo assumissem nomes de passarinhos, mas só ele seguiu o conselho. Passou a assinar João de Barro. O pseudônimo era uma boa alternativa, uma vez que as músicas não eram bem vistas pela classe média. Foi assim que Henrique assumiu de vez o apelido que ganhara pela pompa com a qual servira por um ano na Marinha: Almirante.

O maior sucesso de Almirante como compositor veio logo em 1930. Homero Dornellas havia acabado de ajudar Noel Rosa a compor Com que Roupa, e apresentou outra ideia para Almirante. De início ele, não ficou impressionado, mas investiu na música. Foi assim que surgiu Na Pavuna, que estourou no carnaval daquele ano. Tive a oportunidade de ouvir o próprio compositor contando essa história durante minha visita ao MIS do Rio de Janeiro, em um áudio de acervo. A música fala de um bairro no Rio, a Pavuna, onde há um samba que só vai gente riúna. Reiúna era o nome da marca de uma bota com elástico usada pelos soldados. Então dá para entender que no tal do samba só ia milico, ou pelo menos gente com pompa de militar. Mas, há de se lembrar, o som do rádio não era lá aquela maravilha, então a bem da verdade ninguém entendia a letra. E Almirante se divertia com a história de um senhor que foi procurar pelo disco com aquela música que dizia: Amapola, tum tum tum! Amapola!

Não ia demorar para Almirante conquistar sua fama de grande pesquisador. Dizem que devorava os livros de folclore, especialmente a série Os Cantadores, de Leonardo Mota. Mas mais do que um grande compêndio musical, ele também se tornou protagonista da história que narrava. Na Pavuna, por exemplo, rompeu com uma barreira técnica da gravação da música popular. Diziam na época que não era possível o gravar o som de percussão em discos de cera, a tecnologia da época. Por insistência de Almirante o técnico de som aceitou gravar desse jeito, e pela primeira vez um estúdio contou com cuícas, surdo e pandeiros. O som era tão diferente que não foi nem chamado de samba pelos críticos da época, mas de um “choro de rua”.

Uma outra interferência direta do nosso querido Henrique Foréis Domingues na nossa cultura: se hoje você canta “parabéns a você” nas festinhas de aniversário, pois saiba que foi justamente ele o organizador do concurso que escolheu a melhor letra para a versão brasileira de Happy Birthday to you! A história aconteceu lá por 1940, quando no Cassino da Urca o maestro Vicente Paiva queria agradar os fregueses estrangeiros que cantavam o estribilho de aniversário para comemorar o nascimento de um conviva. Logo, os brasileiros todos que frequentavam o lugar estavam acompanhando em um inglês todo estropiado. Almirante resolveu dar uma roupagem mais brasileira para aquilo, com um corpo de jurados da Academia Brasileira de Letras e, após seis meses, a quadrinha escrita por Berta Celeste Homem de Melo, de Pindamonhangaba. Berta faleceu em 1999, então faltam ainda 50 anos para a música entrar em domínio público, diferente da americana.

Em 1935, Almirante foi contratado pela rádio nacional como cantor. Aproveitando a oportunidade, pediu para receber um dia para que pudesse se dedicar a falar sobre música. E foi assim que estreou seu primeiro programa como produtor e apresentador, o Curiosidades Musicais. Infelizmente os registros sonoros dos programas de Almirante são muito esparsos ou desorganizados, então o primeiro programa preservado em acervo do Curiosidades data apenas de 1938 – três anos depois da estreia. E é incrível ver como o folclore já atravessava o programa.

Escutei no MIS um dos poucos trechos preservados do programa, dedicado ao Bumba Meu Boi. O estilo era quase professoral: ele citava livros de folcloristas como Edson Carneiro, comparava explicações e chegava a uma tese que defendia ao longo do episódio. No caso, a de que o Bumba Meu Boi, por mais que tivesse inspiração em festas que revivem o ciclo heroico do boi tanto em Portugal quanto entre os negros Bantos, já havia se tornado uma festa tipicamente brasileira. Intercalando a explicação, muita música e, é claro, as anedotas deliciosas de Almirante que ajudavam a manter o público entretido.

Outro episódio de destaque é o dedicado à capoeira da Bahia, que Almirante afirma ter ficado 1 ano inteiro pesquisando antes de levar o programa ao ar, que contou com dois instrumentistas tocando berimbau ao vivo no Rádio. Nesse ponto transparece, infelizmente, uma característica dos que trabalhavam com folclore no século passado: o distanciamento classista. Em vários momentos, Almirante transparece um certo deboche com a cultura popular que ele tanto valorizava. Aquilo era tido como pitoresco, rústico, que deveria ser preservado pela beleza inocente. No caso do berimbau, por exemplo, ele o descreve várias vezes como um instrumento bárbaro e rudimentar, e a capoeira como um jogo igualmente de bárbaros. No entanto, chama atenção para a importância de estudar e compreender seu valor cultural em pleno horário nobre, algo muito importante na época, uma vez que a capoeira, até 1940, ainda estava tipificada no código penal e associada a malandragem.

Existe outra coisa importante para ser avaliada quando falamos de dimensionar a importância de Almirante no folclore. Vamos ouvir agora um trechinho em que ele explica as origens do Zé Pereira, uma brincadeira de carnaval que tomava as ruas do rio de janeiro no início do século passado.

Essa história da confusão de José Nogueira por José Pereira é maravilhosa, e bastante repetida pelos livros de história, mas questionável. O folclorista Theo Brandão, por exemplo, recuperou registros de memorialistas portugueses que mostram que séculos antes já se brincava de Zé Pereira no país europeu. Isso significa que Almirante estava errado? Não necessariamente. Pode muito bem ter existido mesmo o tal bloco de amigos do José Nogueira no Rio de Janeiro do século XIX. O problema está em cravar a origem, algo que é sempre muito menos preciso do que o público gostaria. Folclore não é fácil de se explicar e resumir, Almirante fazia o que podia e com as condições que dispunha.

O radialista tinha uma grande paixão pela música, e vários de seus programas foram dedicados ao resgate e divulgação de ritmos e artistas populares, do coco do nordeste ao Pessoal da Velha Guarda, levando músicos que haviam feito sucesso no choro 30 anos antes para regravações em estúdio. Mas o trabalho com cultura popular de Almirante atravessou também outras manifestações. Recolhendo o Folclore, sua última criação enquanto produtor de rádio, era estrondoso. Não apenas contava com orquestração e rádiatores, mas também com plateia que interagia com os game shows. Algo que Almirante já fazia há muito tempo, oferecendo dinheiro para quem rimasse junto com os repentistas que levava para o ar.

O programa tinha alguns quadros fixos muito interessantes, como o “Faz Mal.” Os ouvintes enviavam crendices de coisas que deveriam ser evitadas sob o risco de má-sorte, bem ao estilo os tabus que eu falei aqui no episódio sobre simpatias. É de um roteiro recuperado desse programa, por exemplo, que conheci a crença de que não se devia fazer a limpeza da casa de noite. É que se algum canto não ficar bem limpo, o próprio tinhoso aparece para o vivente para terminar de varrer a sujeita. Quando compartilhei essa história no Facebook, teve muita gente que disse preferir uma ajudinha do capeta do que limpar a própria casa, heim?

Outras crenças divulgadas no mesmo programa: faz mal rir muito antes do almoço. É sinal de que vai chorar demais antes do jantar. Também faz mal cumprimentar alguém por cima da mesa: é sinal de amizade desfeita!

Um quadro que também era muito interessante se chamava Doutor Saratudo, destinado a ensinar remédios caseiros, conselhos e simpatias. Era a cura para doenças no fato, carne esponjosa e ar preso na carne. E o mais interessante: o final de cada audição, Almirante reforçava: “todo o material enviado para estes programas ficará à disposição dos estudiosos e interessados no nosso folclore”. Um nome que frequentemente recorria a ele era o folclorista Renato Almeida, um dos fundadores da Comissão Nacional do Folclore.

Essa rede de colaborações era fundamental para manter vivas as pesquisas de Almirante, que alimentavam seus programas. Ouvintes mantinham colaboração ferrenha com o radialista, enviando para eles toadas, cantigas e histórias. Mas não houve local onde a participação do ouvinte fosse mais fundamental do que no seu programa mais lembrado até hoje: Incrível, Fantástico, Extraordinário! Foram mais de 15 anos, entre idas e vindas na Rádio Tupi, do programa de terror que dramatizava histórias sobrenaturais. Todas passavam pelo crivo de Almirante: não valia ficção, queria o mais puro relato folclórico. Por isso insistia tanto em divulgar dados que hoje nos parecem estranhos, como o endereço do ouvinte que mandou a história. Era a maneira de auferir valor de verdade ao ocorrido. Vamos ouvir agora um trecho do primeiro episódio que conta, justamente, uma história do nosso querido Saci Pererê.

O sucesso foi tanto que rendeu dois livros com os causos favoritos de Almirante, sendo o primeiro lançado em 1951. Na década de 1980 o Fantástico tentou fazer uma versão televisiva do programa, que não fez o mesmo sucesso. Afinal, ouvir dá uma dimensão muito mais especial para as histórias assombradas. Vocês sabem como é!

Homem das artes, Almirante teve alguma passagem pelo cinema, e foi até mesmo homenageado por Carmem Miranda, que cantou seu bambo do bambu no filme Serenata Tropical de 1940. Os dois eram muito amigos, e chegaram até mesmo a fazer uma turnê pelo nordeste. A pequena notável sempre recorria a Almirante para buscar inspirações de músicas para cantar durante sua estadia nos Estados Unidos – ainda que nem sempre as seguisse.

Aqui cabe destacar dois trabalhos muito especiais de Almirante no audiovisual, mas no âmbito das animações. Em 1938, foi dublador da animação da Disney “Branca de Neve e os Sete anões”, fazendo as vozes do Espelho mágico, do anão Mestre e participando da versão de algumas das músicas. Quase 15 anos depois, participou da história viva novamente. Foi o narrador do documentário que abria as exibições de Sinfonia Amazônica, o primeiro longa metragem em animação do Brasil, por Anélio Latini Filho. O filme intercala 7 histórias de mitos, lendas e contos populares do Norte: da Criação da Noite, presa no coração do tucumã, até os encantos da Iara. Um trabalho hercúleo que durou mais de 5 anos para ficar pronto.

Em 1958, produzindo três programas por semana e com apenas 50 anos de idade, Almirante sofreu um acidente vascular cerebral enquanto dirigia para o estúdio. Esse foi o fim da sua carreira no rádio. Dedicado, o pesquisador passou os próximos anos organizando seu imenso acervo, até que em 1964 foi convencido por Carlos Lacerda a vender seu acervo para o recém-criado Museu da Imagem e do Som. Almirante foi reticente, aquela era a sua vida. Lacerda argumentou que seria melhor para o material ter a estrutura de um museu. Claro que era mentira.

Se de início o MIS já sofria com descaso, imagine hoje. Foi uma experiência muito triste e, em questão de pesquisa, muito pouco frutífera visitar o acervo de Almirante no Rio de Janeiro. O material foi catalogado sem muita precisão, dificultando o acesso ao material digitalizado. O técnico, um terceirizado, não sabia nem me orientar a fazer a busca por documentos. Melhor seria copiar tudo da palavra-chave e pesquisar em casa os trechos que eu precisava, mas para fazer cópias digitais dos arquivos é preciso pagar.  Um acervo admirável, mas inacessível, é um despropósito. E assim, a memória de Almirante permanece em seu mausoléu.

Almirante faleceu em 22 de dezembro de 1980, aos 72 anos de idade. Uma vida dedicada à comunicação e à cultura. Foi então há quase 30 anos que o país disse adeus à maior patente do rádio e do folclore brasileiro.

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