Um Saci muito estranho na Revista Tico-Tico (1937)

A revista infantil O Tico-Tico fez muito sucesso na primeira metade do século XX por ser completamente voltada para o público infantil. Dentro dela, um suplemente específico, o “Meu Jornal” era inclusive produzido por crianças – leitores frequentes que sempre mandavam textos ou desenhos. Abaixo vemos um desses textos, com uma descrição muito única do mito do saci (que, na verdade, está mais para negro d’água nessa história).

Por Warney José de Fontenella
Revista O Tico-Tico, 08/09/1937

Tio Zumba, o vovô índio da aldeia da Serra dos Órgãos, costumava contar lendas dos seus Tamoios. Nessa noite, um menino pediu:

— Tio Zumba, conte-nos a história que o senhor prometeu ontem.

— Ah! – disse Zumba, passando a mão pela face cor de cobre.

Tio Zumba pensou por alguns momentos, olhando para o céu, donde a lua lançava raios argentinos.

— Há muitos anos, quando os portugueses perseguiam os Tamoios, um saci-pererê…

— Que é saci-pererê? – perguntou o menino mais curioso do bando.

— É um bicho – respondeu Tio Zumba – que tem um rabo de cobra, uma perna de touro, um braço de homem, uma cabeça de porco, com um chifre na testa.

Esse saci-pererê vivia metido aos rios e, quando um homem se aproximava do rio, devorava num minuto. Os Tamoios, cercados de um lado pelo saci-pererê e do outro pelos portugueses, morreriam com certeza.

Mas graças ao Grande Espírito (Tupã ou Deus), houve um menino de nome Poty, que querendo salvar seu povo, armou-se de um punhal e encaminhou-se para o rio. O dia findava e a noite começava a estender seu manto negro sobre os montes e vales.

Poty acendeu uma fogueira para afugentar as onças e trepou numa árvore para dormir. Teve um sonho em que apareceu o “Grande Espírito” e disse-lhe que o ponto mortal do saci-pererê era o olho.

Pela manhã Poty acordou, capturou uma pomba, assou-a e comeu. Mais tarde seguiu seu destino à procura do saci-pererê, o monstro fluvial. Pelo meio dia Poty viu do alto de uma árvora em que subira, às margens do rio, lá… muito no horizonte, argentino como um rio de prata.

Pela tarde ouviu um ronco medonho que se seguiu com um sibilo agudo e prolongado. Um rumor de folhas e galhos quebrados se prolongou até que apareceu o saci em pessoa.

Passou, arregalou os lábios crispantes de cólera, mirando com o único olho que tem, com uma cólera indefinida e precipitou-se sobre Poty. Este aparou-o na ponta da faca, a qual cravou-se no olho. O monstro caiu fulminado, inerte qual bloco de granito. O monstro foi morto. Poty salvou seu povo que se retirou para os sertões de Minas, opondo a mais séria resistência contra os criminosos estrangeiros que nunca puseram os pés sobre o seu terreno.

— Pois bem, meu bravo Tio Zumba – disse um garoto. — Também já fostes um guerreiro Tamoio?

— Não – respondeu Zumba. — Nasci no mato, mas meu povo já fizera as pazes com os brasileiros.

— Boa noite, já vamos.

— Boa noite, meus filhos.

Todos desapareceram. A lua continuava a iluminar a aldeia.

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