Batismo, uma prática folclórica

Por Andriolli Costa

O compadrio sempre foi uma estrutura importantíssima para o povo brasileiro. Oferecer uma criança para ser batizada por alguém, como lembra Antônio Cândido, era uma forma de alargamento dos laços sociais. Os compadres e comadres passavam a fazer parte da família, partilhando – espiritualmente e com a comunidade – as responsabilidades com seus afilhados. Era mais alguém para se recorrer em caso de adversidade.

Na cultura popular, encontramos diversas narrativas – das mais fantásticas às mais mundanas – envolvendo suas figuras. Por vezes é um compadre abastado ou poderoso que vai intervir pelo protagonista; em outras o compadrio é oferecido à um ser mágico. Fadas madrinhas? Também, mas podemos pensar em histórias em que a criança é batizada pela Morte, por São Pedro ou por um animal encantado. O resultado vem na idade adulta.

Também com frequência se fala na importância de que a criança seja batizada para evitar a influência das forças externas. O lobisomem, que corre seu fado nas noites de quinta para sexta-feira, não é mais que um comedor de galinhas – mas tem apetite voraz por crianças “pagãs”. É também pelo batismo que a criança fica livre de amaldiçoamentos como a própria licantropia sertaneja.

Mas há outra importante marca folclórica dentro da estrutura do compadrio e que, ainda hoje, se apresenta: a diferença entre o batismo de casa e o batismo de igreja. Entre meu círculo de convivência, em Mato Grosso do Sul, fui dos poucos que partilhava dessa tradição. Antes batismo institucionalizado, junto a um padre, fui batizado no lar.

Por certo que ambos os ritos têm fundamento católico, mas é interessante perceber as peculiaridades do batismo de casa – que, na literatura, também é chamado de batismo informal, privado ou, mais recentemente, de consagração. Seu fundamento é profano (no sentido de mundano, claro) e passa ao largo das imposições da igreja. Qualquer pessoa pode conduzir a cerimônia, mesmo leigos, excomungados e infiéis, o que fez com que durante séculos o clero tolerasse a prática, mas condenasse as pessoas que não confirmassem seu batismo com um padre.

Cláudia Fonseca, da Antropologia Social da UFRGS, reflete em um artigo sobre os motivos históricos que orientavam essa tradição. Por certo que nem sempre havia padres disponíveis na região, então era comum demorar meses ou anos para que uma criança fosse batizada. Mas há mais do que isso:

É possível que ainda outro motivo tenha vindo reforçar o batismo de casa: uma rejeição às inúmeras restrições impostas pelos cânones da Igreja. Primeiro, quanto aos padrinhos – deviam ter uma idade mínima (12 anos para meninas; 14, para homens em 1707; 13 anos para todos em 1915); não podiam ser escolhidos entre “os acatólicos, os não batizados […], os amasiados ou unidos só civilmente e as mulheres mal vestidas [sic]”. Pelo menos uma fonte pretende que negros não eram aceitos como padrinhos nos primeiros anos da Igreja.

Ao entender folclore como propõe Câmara Cascudo, como a prática cultural identitária que passa sempre ao largo das instituições (seja o governo, a igreja, a escola), podemos entender o batismo de casa como uma estratégia folclórica para o batismo tradicional. A igreja não aceita? Tudo bem, em paralelo aceitamos. É uma informalidade formalizada.

Minha vó, que foi minha madrinha de casa, conduziu minha celebração. Junto a ela, um grande amigo dos meus pais que tinha o apelido de “Diabão”. Certamente não era daqueles que colaboraria para minha formação católica, mas alguém cujo desejo era agregar ao compadrio. Já no caso de minha irmã, uma prima ainda criança assumiu esse papel. Manifestações do desejo de ampliar a família ou de reforçar seus laços, independente da regra.

A cerimônia é relativamente simples: uma vela acesa em frente à criança, com os padrinhos entoando pai nosso, ave maria e salve rainha. Feito o batismo, utilizando um raminho sobre a testa da criança, guarda-se a vela. Ela poderá ser acesa mais tarde, em uma oração voltada para a cura da criança. Minha avó usou a mesma velinha em todos os seus quatro filhos.

E você, tem padrinhos de casa? Compartilhe sua experiência!

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