“O leitor brasileiro quer se ver”: Ian Fraser e Andriolli Costa discutem brasilidades na literatura fantástica

O primeiro alerta apareceu antes mesmo de a conversa começar. Ao ver a imagem da Procissão do Fogaréu escolhida para divulgar a live, Andriolli Costa observou que os capuzes dos farricocos poderiam ser confundidos com os da organização racista Ku Klux Klan. A tradição goiana com mais de dois séculos oferecia, assim, uma amostra do desafio daquela noite: nenhum elemento cultural fala sozinho, fora de seu contexto.

Mediada pelo professor Alexandre Meireles no canal FantastiCursos, a live reuniu Andriolli e o escritor Ian Fraser para discutir como as culturas brasileiras podem inspirar narrativas fantásticas. A conversa partiu da própria definição de folclore, passou pelo crescimento da ficção folclórica e chegou à formação de professores, à pesquisa de campo e à influência de modelos estrangeiros sobre a literatura produzida no país.

No centro do debate estava a impossibilidade de transformar a diversidade brasileira em uma fórmula. Para Ian, cada escritor precisa descobrir quais experiências, territórios e tradições podem atravessar sua obra. Andriolli acrescentou que o folclore não oferece apenas um catálogo de criaturas: ele permite compreender os modos coletivos pelos quais as pessoas sentem, pensam e agem. Criar a partir dessa matéria exige imaginação, mas também escuta e responsabilidade.

Esta matéria foi produzida a partir da transcrição editada da live “Como usar a cultura brasileira nas narrativas fantásticas”, transmitida pelo canal FantastiCursos. As falas foram reorganizadas e tiveram repetições e marcas excessivas de oralidade retiradas, sem alteração de sentido.

Um país que não cabe em uma definição

A pergunta inicial de Alexandre Meireles foi aparentemente simples: seria possível falar em uma única cultura brasileira dentro de um país com dimensões continentais? Para Ian Fraser, qualquer tentativa de reunir todas as experiências nacionais em uma definição inevitavelmente deixa pessoas e territórios de fora.

As diferenças não estão apenas entre regiões. A vida de um pescador, de um morador da periferia e de uma pessoa de classe média de uma grande cidade pode produzir relações muito distintas com um mesmo lugar. “Quando a gente fala ‘o brasileiro é isso’, está tentando reduzir uma ideia muito plural a um conceito só”, afirmou Ian.

O escritor não precisa, portanto, representar sozinho todo o país. Precisa descobrir qual parte desse país consegue conhecer e transformar em experiência artística. “Todo escritor brasileiro precisa passar por um processo de descobrimento da própria brasilidade”, defendeu. Isso significa pesquisar aquilo que lhe parece próximo, relevante ou capaz de produzir um diálogo verdadeiro.

“A arte, acima de tudo, é conversa. Se a gente pudesse colocar a arte em uma palavra, seria diálogo”, resumiu Ian. O movimento seria semelhante ao de desmontar uma receita para reconhecer seus ingredientes: retirar, pouco a pouco, as generalizações até encontrar as brasilidades que realmente atravessam o autor.

Andriolli observou que a palavra cultura já pode ser entendida como um termo coletivo, assim como uma alcateia reúne diferentes animais. Escrever “culturas populares”, no plural, ajuda a evidenciar essa diversidade, mas nenhuma cultura existe isoladamente. Toda manifestação resulta do encontro entre práticas, memórias, territórios e grupos sociais.

É também por isso que ele continua empregando o termo folclore, apesar das críticas que a palavra recebe. Tomando como referência a Carta do Folclore Brasileiro, definiu-o como “os modos de sentir, pensar e agir de um povo que caracterizam sua identidade e são transmitidos pela tradição”.

A ênfase está no povo, e não no indivíduo. “Quando a gente fala de folclore, está falando de algo maior do que nós”, explicou. Há comportamentos que não surgem de uma decisão inteiramente pessoal, mas são aprendidos, repetidos e transformados no interior de grupos sociais. A cultura não apenas expressa quem somos: também participa de nossa formação.

O fantástico como caminho para descobrir o Brasil

A presença do folclore na literatura fantástica brasileira tornou-se mais constante a partir da década de 2010. Andriolli identificou nesse período uma ampliação do número de romances, quadrinhos e coletâneas publicados por pequenas editoras ou de maneira independente.

Autores como Christopher Kastensmidt, Felipe Castilho, Gustavo Rosseb, Márcio Benjamin e tantos outros ajudaram a demonstrar que havia espaço para histórias inspiradas pelo imaginário nacional. Plataformas digitais e campanhas de financiamento coletivo também permitiram que projetos encontrassem seus leitores antes de receber o reconhecimento de editoras tradicionais.

Andriolli fez, entretanto, uma distinção importante: escrever uma ficção inspirada no folclore não transforma automaticamente o autor em folclorista. A pesquisa acadêmica procura compreender como práticas e narrativas circulam em determinados grupos. A ficção pode utilizar esse conhecimento como ponto de partida, mas possui outros compromissos e objetivos.

O crescimento de obras regionalmente situadas não deveria ser interpretado como fragmentação da literatura brasileira. Ele permite justamente que os leitores conheçam diferentes partes do país. Andriolli citou um conto de Márcio Benjamin construído em torno do alfenim, doce moldado com açúcar, água e limão. Uma prática desconhecida por muitos leitores torna-se acessível por meio do terror.

“Quantas pessoas não conhecem o alfenim, mas se envolvem pela fantasia, pela literatura, e passam a conhecer?”, perguntou. Não se trata de converter o romance em cartilha. “Nossa preocupação é fazer as pessoas desbravarem esse Brasil, descobrirem o Brasil que existe a partir da fantasia.”

Ian concordou que o fantástico não representa uma fuga completa da realidade. Ao colocar João Grilo diante de um julgamento sobrenatural, por exemplo, Ariano Suassuna continuava discutindo fome, poder, desigualdade, fé e justiça. O extraordinário pode deslocar a realidade, mas permanece atravessado por ela.

Essa foi também a experiência de Ian ao escrever Araruama. O processo de criação o levou a imaginar uma relação com matas, rios e noites estreladas que não fazia parte de seu cotidiano urbano. “Se você leu Araruama, conhece um pouquinho de mim”, afirmou. A pesquisa não serviu apenas para acumular informações: modificou o próprio escritor.

“Isso aqui vende, só nunca foi apresentado para vender”

A existência de um público interessado nessas narrativas nem sempre foi reconhecida pelo mercado editorial. Antes de lançar Araruama por financiamento coletivo, Ian ouviu repetidamente que o livro não venderia. A resposta dos leitores demonstrou outra possibilidade.

“Eu falei: isso aqui vende. Só nunca foi apresentado como produto para vender”, recordou. O desempenho da campanha não significava que todo projeto obteria o mesmo resultado, mas questionava a convicção de que leitores brasileiros rejeitariam histórias relacionadas à própria cultura.

Para Ian, existe uma demanda por reconhecimento que o mercado ainda subestima. “O leitor brasileiro quer se ver muito mais do que a gente dá valor a ele”, afirmou. Esse desejo não deve produzir personagens decorativos ou cenários reduzidos a cartões-postais. A identificação depende de conflitos, gestos e experiências capazes de ultrapassar a representação superficial.

Ao mesmo tempo, nenhum dos convidados defendeu que escritores abandonassem referências estrangeiras. Ian comparou esse uso a um movimento do judô: apropriar-se da força de uma tradição dominante e transformá-la em ferramenta própria. “É pegar esse poder e dizer: agora ele é nosso.”

Andriolli sugeriu que os autores procurassem compreender por que determinadas obras estrangeiras funcionam, em vez de apenas reproduzir sua aparência. Criar “o God of War do folclore brasileiro” não garante a mesma força narrativa. É preciso entender o sentimento de pequenez diante de uma criatura gigantesca, o contato com o mistério ou os símbolos mobilizados pela experiência.

O mesmo princípio vale para Star Wars, a jornada do herói e outras estruturas muito repetidas pela indústria cultural. “As pessoas pensam no final e não pensam no princípio”, observou. Uma fórmula comercial é apenas a simplificação de relações simbólicas muito mais antigas.

A construção de uma literatura mais autorreferenciada também exige recuperar autores brasileiros esquecidos ou pouco associados ao fantástico. Além de Machado de Assis, a conversa mencionou Emília Freitas, Coelho Neto e João Simões Lopes Neto. Durante décadas, Monteiro Lobato ocupou quase sozinho o lugar de referência quando se falava em literatura e folclore, apesar de suas conhecidas posições racistas e eugenistas. Ampliar esse repertório permite reconhecer outras linhagens.

Machado, lembrou Ian, não precisa ser lido somente como autor realista. Seu experimentalismo, sua ironia e suas incursões pelo insólito podem alimentar romances policiais, fantasias e ficções especulativas. “Machado é bom em qualquer receita”, brincou.

Pesquisa é aproximação, não coleta de enfeites

A mudança na trajetória de Ian começou com uma frase ouvida da então namorada. Ele planejava escrever um faroeste ambientado no Álamo quando ela respondeu: “Estou cansada de ver brasileiro escrevendo para americano”. O comentário o levou a perguntar por que precisava situar aquela história nos Estados Unidos.

A procura por uma alternativa conduziu o escritor a Canudos. Ian leu sobre o conflito, viajou da capital baiana até a região e conversou com moradores. A experiência não apagou sua condição de homem urbano, mas o aproximou de um território que antes conhecia apenas por representações produzidas por outras pessoas.

Esse percurso reapareceu em projetos posteriores, da ficção científica situada em uma Bahia hipotética ao romance inspirado pelo carnaval. Em outra narrativa, ao decidir que uma personagem seria filha de Oxalá, Ian percebeu que a pesquisa bibliográfica não bastaria. Procurou conversar com pessoas ligadas ao candomblé e participou de experiências que o ajudaram a compreender melhor aquela relação religiosa.

Pesquisar, nessa perspectiva, não é recolher nomes de orixás, comidas ou celebrações para ornamentar uma trama. É aceitar que o contato pode modificar escolhas narrativas e revelar limites que o escritor não percebia. “A gente tem cabrestos que não enxerga”, afirmou Ian ao defender a importância da leitura crítica.

A questão torna-se especialmente delicada diante de culturas indígenas. Andriolli chamou atenção para um erro recorrente: representar povos originários apenas em um passado distante, como se não fossem contemporâneos. “Os povos indígenas estão no mundo conosco. Eles mesmos estão produzindo o tempo todo.”

A recomendação foi procurar autores indígenas, ouvir o que as comunidades dizem sobre si próprias e reconhecer a origem das narrativas utilizadas. Em vez de tratar “o indígena” como uma identidade genérica, o escritor pode identificar povos, territórios e pessoas.

Ian contou que, ao participar de atividades escolares relacionadas à colonização, preferiu levar Daniel Munduruku para conversar com os alunos. Ele próprio poderia falar de seu processo de criação, mas não substituir a experiência de quem vive e produz literatura a partir de uma identidade indígena. “Eu posso falar sobre como me sensibilizei pesquisando. Quem vai falar sobre a vivência indígena é quem sabe.”

Isso não significa que a ficção esteja proibida de se inspirar em outras formas de ver o mundo. Araruama, explicou Andriolli, não utiliza diretamente a cosmologia de um povo específico. Ian criou sociedades, tradições e seres próprios a partir de uma sensibilidade aprendida no contato com narrativas ameríndias. Inventar uma cultura coerente pode oferecer mais liberdade do que produzir uma representação empobrecida de um povo existente.

Folclore não é uma atividade para o fim de agosto

Quando o debate chegou às escolas, Andriolli identificou uma distância entre a exigência de trabalhar culturas populares e a formação oferecida aos professores. O resultado costuma ser a repetição de atividades limitadas: desenhos para colorir, pesquisas genéricas sobre regiões e personagens confeccionados com materiais recicláveis.

“O folclore não se restringe ao mês de agosto. Ele está em toda a nossa vida”, afirmou. Em vez de criar necessariamente uma disciplina isolada, o tema pode atravessar diferentes áreas do conhecimento.

Um passeio de biologia a um bambuzal, exemplificou, pode explicar a estrutura e o desenvolvimento do bambu enquanto apresenta histórias sobre o nascimento do Saci. A literatura oral ajuda a fixar a experiência sem transformar o mito em mero recurso didático.

As possibilidades também incluem investigar as receitas das famílias, entrevistar moradores, registrar histórias da comunidade, produzir livros coletivos e trabalhar com figurinos ou performances. Uma pesquisa sobre os pratos preparados pelas avós dos estudantes pode revelar migrações, formas de trabalho, relações religiosas e memórias familiares. “Tudo isso também é folclore.”

Ian relatou uma experiência escolar diferente, na qual datas comemorativas não organizavam todo o trabalho pedagógico. A cultura aparecia em discussões mais amplas sobre a formação brasileira e a violência da colonização. Ainda assim, ele reconheceu que se tratava de uma realidade específica, distante das condições enfrentadas por muitos professores.

O cuidado principal seria não repetir automaticamente as mesmas práticas que cada docente conheceu como estudante. “Aquilo que a gente aprendeu como certo ontem pode parecer errado hoje”, ponderou Ian. Por isso, formação e atualização não representam acusações ao professor, mas parte necessária do trabalho.

Arquétipos não são receitas

A jornada do herói apareceu na live como exemplo de uma estrutura frequentemente transformada em manual de escrita. Ian lembrou que o monomito de Joseph Campbell foi elaborado a partir da comparação entre narrativas de diferentes culturas. Hollywood converteu esse trabalho em uma sequência de etapas facilmente reproduzíveis, mas a pesquisa original era mais ampla.

Andriolli acrescentou que a jornada do herói corresponde apenas a um tipo de narrativa. Histórias organizadas em torno do trickster, por exemplo, operam de outra maneira. Personagens como Exu e Saci não avançam necessariamente pelo mesmo percurso do herói que recebe um chamado, atravessa provações e retorna transformado.

O arquétipo também não deve ser confundido com um personagem pronto. Ele reúne possibilidades contraditórias demais para caber integralmente em uma única obra. Cada narrativa seleciona alguns elementos e deixa outros de fora. Quando esse processo é reduzido a características repetidas sem reflexão, o arquétipo vira estereótipo.

A saída, mais uma vez, passa pela pesquisa. Não para colocar a criatividade sob vigilância, mas para ampliar o número de escolhas disponíveis. Ler Câmara Cascudo pode ajudar a localizar registros e variações de seres fantásticos; Edson Carneiro permite compreender o folclore como prática viva e sujeita à transformação; Luiz Beltrão mostra como os saberes populares também constituem processos de comunicação.

A literatura fantástica cresce quando deixa de procurar uma essência única do país e reconhece a multiplicidade de experiências que o formam. Para Ian, a pergunta decisiva não é se uma obra parece suficientemente brasileira, mas qual Brasil o autor deseja colocar no papel.

A resposta não precisa ser definitiva. Pode mudar de um livro para outro, conforme o escritor conhece novos territórios, escuta outras pessoas e revê suas próprias certezas. “O processo de descobrir-se escritor passa por uma questão coletiva”, concluiu Ian. A brasilidade mais ampla não substitui as diferenças, mas oferece um espaço no qual elas podem entrar em diálogo.

É nesse encontro que o folclore deixa de ser uma prateleira de criaturas disponíveis para adaptação e volta a ser compreendido como vida coletiva. A literatura não precisa representar o Brasil inteiro. Precisa saber de onde fala, com quem conversa e quais mundos deseja tornar visíveis.

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