Celebrado em 31 de outubro, o Dia do Saci nasceu como um enfrentamento à crescente presença do Halloween no Brasil. Duas décadas depois, a data ainda provoca reações de quem a interpreta como uma tentativa de proibir bruxas, vampiros e abóboras. Para Andriolli Costa e Anderson Awvas, entretanto, a disputa pode ser mais produtiva quando troca a interdição pelo deboche, pela mistura e pelo convite para conhecer a cultura popular brasileira.
A discussão aconteceu na terceira edição dos Encontros Assombrados, projeto do Recife Assombrado apresentado por Roberto Beltrão na plataforma da Bienal de Pernambuco. Realizada às vésperas do Dia do Saci de 2022, a conversa reuniu Andriolli, pesquisador e criador de O Colecionador de Sacis, e Anderson, ilustrador e responsável pelo projeto Folclore BR — Uma Nova Visão.
Ao longo de pouco mais de uma hora, os convidados discutiram a origem da data, as novas formas de transmissão oral, o papel da cultura pop e os riscos de transformar o imaginário em um catálogo de criaturas. Também mostraram como o folclore permite refletir sobre racismo, desigualdade, violência contra a mulher e intolerância religiosa. Mais do que substituir o Halloween, o Dia do Saci pode abrir uma fresta para outras histórias entrarem na festa.
Do enfrentamento ao convite
A criação do Dia do Saci foi articulada no início dos anos 2000 pela Sociedade dos Observadores de Sacis, a Sosaci, sediada em São Luiz do Paraitinga, no interior de São Paulo. O grupo procurou parlamentares e defendeu a instituição de uma data dedicada à cultura popular brasileira.
Andriolli conheceu alguns dos responsáveis pela iniciativa e ouviu deles uma explicação bem-humorada sobre o contexto político: “O Lula já estava eleito, a gente achou que o Brasil estava resolvido. Então criamos a Sosaci para outro enfrentamento, que era o cultural”.
Formados por jornalistas, militantes e pessoas envolvidas em movimentos políticos, os integrantes do grupo traziam uma linguagem marcada pelas lutas anti-imperialistas das décadas anteriores. O Dia do Saci foi colocado em 31 de outubro para disputar espaço simbólico com o Halloween, cuja presença crescia nas escolas, no comércio e na programação televisiva.
Esse discurso combativo passou a ser interpretado nas redes como uma proposta de proibição. “Ninguém vai impedir você de celebrar o Halloween. A gente não tem esse poder”, respondeu Andriolli. Ele brincou que nenhum defensor do Saci baterá à porta das pessoas exigindo: “Toma essa carapuça e tira essa roupa de vampiro”.
Sua proposta atual é trabalhar a data pelo afeto. Filmes, desenhos, séries e festas criaram uma relação emocional de gerações de brasileiros com o Halloween. Não é necessário negar essa experiência para lembrar que existe outra cultura, anterior às produções audiovisuais, presente em histórias familiares, festas, crenças, brincadeiras e costumes cotidianos.
“Quem sabe você não pode surpreender os amigos e ir a uma festa de Halloween fantasiado de Perna Cabeluda?”, sugeriu. Procissões de Corpo-Seco, caminhadas de criaturas e outras iniciativas já demonstram que o imaginário brasileiro pode ocupar a mesma noite.
Anderson também rejeitou a ideia de que seja possível decretar o fim de uma festa cultural. “A gente não vai chegar e falar: acabou o Halloween, agora é Dia do Saci”, afirmou. A relação de poder entre a indústria cultural norte-americana e as manifestações brasileiras é real, mas não desaparece por ordem de pesquisadores ou ativistas.
Sua estratégia é a infiltração. Em vez de esvaziar o Halloween, o Folclore BR procura ocupá-lo com memes, ilustrações, RPGs, vídeos e provocações. “Vamos entrar nessa festa e fazer a maior farra do universo. Vamos virar o Halloween de cabeça para baixo.”
A brincadeira também precisa evitar o nacionalismo simplificador. Defender a cultura brasileira não significa declarar que ela é superior às demais. Tanto o desprezo automático pelo que vem de fora quanto a afirmação de que “o brasileiro é sempre melhor” impedem uma compreensão mais ampla das trocas culturais.
Um ovo no ninho do Halloween
Para Andriolli, o confronto é coerente com o próprio personagem celebrado. “O Saci é a provocação, o deboche, a impostura. Ele tem que incomodar”, afirmou. Transferir a homenagem para uma data sem concorrência poderia diminuir justamente a força que fez o Dia do Saci se tornar conhecido.
O pesquisador recordou que o Curupira também possui uma data oficial, em 17 de julho, mas poucas pessoas se lembram dela. Um dia exclusivo não garante reconhecimento. A disputa de 31 de outubro, por outro lado, obriga escolas, veículos de comunicação e usuários das redes a discutir por que a celebração existe.
A metáfora escolhida por Andriolli veio da natureza. O pássaro conhecido como saci pertence à família dos cuculídeos e coloca seus ovos nos ninhos de outras aves. O filhote nasce, cresce alimentado pelos pais adotivos e ocupa aquele espaço.
“É isso que a gente está fazendo. Estamos botando um ovo no ninho do Halloween para deixar esse pássaro nascer”, comparou. A cultura popular não permanece viva quando é isolada das práticas contemporâneas, mas quando encontra formas de circular por elas.
O objetivo, portanto, não é oferecer uma substituição obrigatória. É tornar visível uma possibilidade que o poder econômico da cultura pop estrangeira costuma deixar fora do enquadramento.
O áudio de WhatsApp como nova roda de histórias
Roberto Beltrão recordou as noites de sua infância no Recife, durante a década de 1970, quando famílias colocavam cadeiras nas calçadas para conversar. Superstições, assombrações e narrativas locais circulavam naturalmente nesses encontros. “Era o WhatsApp da época”, comparou.
Entre os conselhos transmitidos estava o de nunca deixar uma chinela emborcada, porque isso poderia causar a morte da mãe. O desaparecimento dessas rodas de conversa poderia indicar também a perda de uma forma de transmissão oral.
Anderson ponderou que a oralidade não desapareceu: transformou-se com a tecnologia. “Os áudios do WhatsApp podem substituir aquela história da avó contando para o neto. Ela manda o áudio e ele escuta como se ela estivesse ao lado”, afirmou.
A cultura popular não depende de investimentos milionários para continuar existindo. Festas, saberes e histórias permanecem fortes dentro de seus grupos, mesmo sem ocupar o centro da indústria cultural. Projetos de divulgação ajudam a aumentar sua visibilidade, mas não são responsáveis por criá-los nem por mantê-los sozinhos.
“O sucesso desses projetos mostra como é difícil matar a cultura popular”, disse Anderson. Formas de transmissão surgem conforme as relações sociais se modificam. Vídeos curtos, podcasts, mensagens de voz e memes podem participar hoje do mesmo circuito que já passou pelas rodas familiares, feiras, praças e festas.
O Folclore BR explora essa passagem por meio de referências conhecidas. Em eventos, ilustrações que aproximam os bois Garantido e Caprichoso da linguagem visual dos jogos despertam identificação imediata. Para as crianças, Anderson costuma apresentar os bois como “Pokémons que existem de verdade”.
A comparação funciona como um convite. A criança reconhece a estrutura da cultura pop e descobre que aquela criatura não foi inventada para um desenho: faz parte de um festival realizado em Parintins, com torcidas, músicas, alegorias e histórias próprias.
Entre a ficção individual e a criação coletiva
A circulação do folclore pela cultura pop também provoca confusões. Uma obra ficcional pode apresentar sua própria versão do Saci, da Cuca ou do Corpo-Seco. O problema aparece quando o público desconhece outras narrativas e interpreta aquela adaptação como a forma definitiva do personagem.
Andriolli diferencia a ficção individual produzida por um autor das ficções coletivas formadas pela tradição. Escritores, roteiristas e ilustradores possuem liberdade para criar. Suas escolhas, porém, não devem ser confundidas automaticamente com os relatos que circulam entre comunidades.
Em uma atividade com crianças em Parintins, o pesquisador pediu que elas contassem histórias folclóricas. Uma delas narrou uma aventura de Renato Garcia, produtor de conteúdo que publicava vídeos de supostas explorações sobrenaturais em seu canal Caçadores de Lendas. A criança apresentou a história do youtuber como parte do repertório solicitado.
“Não vou dizer que é errado, mas é curioso”, avaliou Andriolli. O episódio revela que os influenciadores digitais também ocupam o lugar de contadores de histórias. Suas narrativas podem ser recebidas, repetidas e transformadas pelo público, mesmo quando surgiram como encenação.
Anderson acrescentou que o folclore não é mentira, mas também não corresponde necessariamente à verdade material que muitas pessoas procuram. A existência de uma crença, de um relato ou de uma prática não depende de o pesquisador capturar um Saci e apresentá-lo como prova.
“Ele não é mentira, mas também não é a verdade que a pessoa quer encontrar”, explicou. As pessoas podem participar de festas, seguir superstições e contar histórias sem utilizar a palavra folclore. O fenômeno independe da classificação.
Andriolli definiu o folclore como uma categoria do observador. Quem respira não precisa pensar no funcionamento do pulmão; um cientista, de fora, reconhece naquele gesto a biologia em ação. Do mesmo modo, uma pessoa pode vivenciar uma tradição sem dizer que pratica folclore. “Você não precisa chamar disso, mas a gente consegue observar o folclore acontecendo.”
O imaginário não é um álbum de figurinhas
A força de uma narrativa também varia conforme o território. Roberto contou que, depois de apresentar um espetáculo com assombrações da Zona da Mata pernambucana, foi advertido por uma espectadora: faltava a Comadre Fulozinha.
Para aquela mulher, não se tratava de uma personagem distante. Ela dizia ter ouvido a Comadre passar perto de sua casa. Outros moradores relatavam pessoas perdidas ou castigadas por ela dentro da mata. Naquele contexto, observou Roberto, o Saci poderia ser secundário. A Comadre Fulozinha ocupava o centro afetivo do imaginário local.
Produções de grande alcance podem criar aproximações semelhantes. Anderson imaginou uma novela ambientada em Parintins, com uma família torcedora do Garantido e outra ligada ao Caprichoso. Em pouco tempo, espectadores de todo o Brasil estariam escolhendo um boi, acompanhando o festival e discutindo uma tradição que antes conheciam pouco.
Para ele, Cidade Invisível desempenhou papel comparável ao de Vingadores. A série da Netflix fez o público produzir teorias, procurar informações sobre personagens e perguntar quais criaturas poderiam aparecer na temporada seguinte. A adaptação não encerrou o assunto: tornou-se uma porta de entrada.
O remake de Pantanal provocou movimento parecido. Espectadores tentavam identificar Juma como uma onça específica do folclore e perguntavam se o Velho do Rio seria Cobra Norato ou o Minhocão. As questões demonstravam curiosidade, mas também uma expectativa de que todo acontecimento fantástico correspondesse a um item conhecido.
“As pessoas acham que existe um catálogo de cinquenta mitos e que tudo precisa ser encaixado ali”, observou Andriolli. Esse raciocínio aproxima o imaginário de um álbum de figurinhas ou de uma tabela de RPG, com personagens dotados de nomes, habilidades e regras fixas.
O folclore, porém, admite variações e contradições. “Sempre me perguntam quantos tipos de Saci existem. Eu digo que existe pelo menos um para cada brasileiro.” As histórias não estão presas às regras que leitores e produtores procuram impor sobre elas.
“Não existe equilíbrio sem movimento”
Quando Roberto pediu uma narrativa que tivesse marcado sua trajetória, Andriolli tentou obedecer à condição de não escolher o Saci. Não conseguiu. O personagem atravessa as histórias contadas por seus avós, sua pesquisa e a produção do documentário sobre a própria família.
Dessa relação surgiu uma ideia que o pesquisador carrega para outras dimensões da vida: “Não existe equilíbrio sem movimento”. Com apenas uma perna, o Saci precisa saltar continuamente para permanecer de pé. Seu equilíbrio não depende da imobilidade, mas do deslocamento.
“O Saci está sempre em trânsito. Para ele, equilíbrio é mover-se. Isso também serve para nossa vida”, explicou. O personagem ensina ainda a enfrentar situações que parecem maiores do que o indivíduo por meio do riso e da impostura.
Nas narrativas, o Saci costuma derrubar cavaleiros. Quem possui um cavalo na estrutura social do campo não é, em geral, o trabalhador mais pobre, mas o fazendeiro ou alguém em posição de poder. Ao derrubá-lo, o pequeno personagem o coloca no chão e o expõe ao ridículo. “Ele passa uma mensagem de resistência pela impostura.”
A história de Saci que mais impressionou Andriolli foi ouvida no interior de Mato Grosso do Sul. Durante uma apresentação, ele imitou o assovio da criatura. Uma mulher se levantou transtornada e deixou o local.
Ela retornou depois para explicar a reação. Quando criança, reconhecia a chegada do pai por um assovio. Se ainda estivesse acordada, respondia, e ele entrava no quarto para dar-lhe um beijo de boa-noite. Certa noite, ela ouviu o sinal e respondeu, mas o assovio não vinha do pai. O som continuou a persegui-la até que um benzedor identificou a causa: ela havia respondido ao Saci, dono do assovio, que interpretara aquilo como deboche.
O relato reunia medo, memória familiar e afeto. O mesmo som que anunciava o carinho do pai tornou-se a presença de uma entidade perigosa. Para Andriolli, é essa sobreposição que impede o mito de ser reduzido a uma ficha descritiva.
Do Negrinho do Pastoreio aos entregadores
Anderson escolheu o Negrinho do Pastoreio como a narrativa que mais o mobiliza. A história apresenta um menino negro escravizado, castigado sobre um formigueiro e depois transformado em encantado, responsável por ajudar as pessoas a encontrar objetos perdidos.
O ilustrador aproximou a imagem do menino sobre o cavalo da realidade contemporânea dos homens negros que circulam de motocicleta. Dois homens negros em uma moto são frequentemente tratados como ameaça antes que qualquer crime aconteça.
“Eu sei que, numa moto, não sou uma pessoa qualquer numa moto”, afirmou Anderson, que já trabalhou como mecânico. O medo de ser perseguido ou identificado como suspeito é um dos motivos pelos quais não deseja possuir o veículo.
Na atualização proposta por ele, os negrinhos do pastoreio contemporâneos podem ser entregadores de aplicativos. A motocicleta substitui o cavalo, enquanto a exploração do trabalho e a suspeita racial continuam moldando seus deslocamentos.
“Quantas histórias são contadas há anos e ainda têm reflexos na sociedade de hoje?”, perguntou. A comparação não pretende criar uma versão definitiva do mito, mas demonstrar sua capacidade de iluminar experiências que continuam presentes.
“O folclore é a tribuna do povo”
Roberto apresentou outro exemplo de atualização na cidade pernambucana de Glória do Goitá. Grupos de mamulengo passaram a incorporar às apresentações temas como o combate ao racismo e à violência doméstica. Mulheres e adolescentes utilizam uma linguagem tradicional para discutir problemas de sua comunidade.
Para Andriolli, essa capacidade transformadora faz parte do folclore. A partir dos estudos de Edson Carneiro, ele lembrou que a tradição possui uma dimensão de conservação, mas também pode expressar crítica, indignação e desejo de mudança.
“O folclore é a tribuna do povo”, sintetizou. Na Malhação de Judas, figuras políticas chegaram a ser representadas, espancadas e queimadas simbolicamente. A manifestação oferece uma linguagem por meio da qual a comunidade comenta as relações de poder.
Durante muito tempo, porém, essa potência foi negligenciada em favor da aparência. Uma Mula sem Cabeça envolvida em chamas produz uma imagem fascinante para livros, filmes e quadrinhos. A representação perde parte de sua força quando não pergunta o que aquela transformação diz sobre a mulher, o desejo e a culpa.
“Mais do que a estética, é preciso olhar a mensagem”, defendeu Andriolli. O Negrinho do Pastoreio pode falar sobre racismo e violência; a Mula sem Cabeça, sobre a condenação moral e a transformação do corpo feminino em monstro. Uma narrativa folclórica pode ser simultaneamente sensível, estética, simbólica e política.
Quando o horror transforma a diferença em demônio
O uso do folclore pelo terror exige outro cuidado. Criaturas ligadas a culturas populares ou a religiosidades não cristãs são frequentemente apresentadas como manifestações demoníacas que precisam ser eliminadas pelo protagonista.
Anderson relacionou esse procedimento à permanência da moralidade cristã como referência dominante da cultura brasileira. Tudo o que se encontra fora dessa lógica corre o risco de ser representado como mal absoluto.
“Se está fora da sua cultura, se não é religioso como você e não parte dos mesmos princípios, então precisa ser combatido”, resumiu. Em um país marcado pela diversidade, essa estrutura pode transformar muitas identidades em ameaça.
A alternativa exige auto-observação. Escritores e artistas precisam perguntar quais princípios morais estão inserindo em suas histórias e por que determinada criatura foi definida como má. Um antagonista sem contradições pode carregar preconceitos que o autor não percebeu.
“É preciso olhar para o que a gente produz e perguntar: estou generalizando demais? Estou colocando esse personagem como mal supremo sem nenhuma outra camada?”, sugeriu Anderson.
O exercício não elimina o horror nem impede que criaturas folclóricas sejam ameaçadoras. Ele apenas recusa a associação automática entre diferença cultural e demonização. O medo pode surgir do mistério, da violência ou do conflito sem reafirmar que tudo o que escapa da moral dominante deve ser destruído.
É também esse deslocamento que o Dia do Saci pode provocar. A data não precisa expulsar o Halloween para cumprir sua função. Basta interromper por um instante a repetição automática de um repertório e permitir que outras figuras apareçam.
Se o público discutir, reclamar, produzir memes ou decidir comparecer à festa vestido de Corpo-Seco, a provocação já terá funcionado. O Saci entrou no ninho, bagunçou a noite e obrigou todos a olhar novamente para aquilo que parecia familiar.
Nota editorial: esta matéria foi produzida a partir da transcrição dos “Encontros Assombrados”, projeto do Recife Assombrado apresentado por Roberto Beltrão. A transcrição foi editada para retirar hesitações, repetições, interrupções e erros automáticos, preservando o sentido e a oralidade das falas.