Andriolli Costa discute a cobertura do invisível

Cobrir o folclore impõe ao jornalismo um problema que não cabe na oposição simples entre verdade e mentira. Como narrar uma crença sem transformá-la em curiosidade exótica? Como tratar uma aparição sem prometer uma prova que a reportagem não pode oferecer? E como reconhecer a importância de uma história mesmo quando ela não descreve um acontecimento verificável? Para o jornalista e pesquisador Andriolli Costa, as respostas começam quando o repórter deixa de perguntar apenas se o monstro existe e passa a investigar o que aquela narrativa produz na vida de quem a conta.

Esse foi o eixo da palestra A Cobertura do Invisível: erros e acertos na cobertura de mitos e lendas pela mídia, apresentada na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em 28 de junho de 2018. Convidado pela professora Tamires Coêlho, Andriolli conversou com estudantes de Jornalismo, Rádio, Cinema e Publicidade, além de professores da instituição. Depois da atividade, concedeu uma entrevista aos alunos da TOCA – Agência Experimental de Comunicação, sob coordenação da professora Pâmela Sanders Craveiro.

Na conversa, ele distinguiu mito e lenda, explicou por que nem toda criatura viral se torna folclore, relembrou a descoberta das próprias referências familiares e contou como uma pesquisa no Twitter deu origem ao Colecionador de Sacis. Também discutiu o projeto fotográfico Folclore Nu e apontou dois vícios recorrentes da imprensa: recorrer a uma “moldura erudita” para legitimar a cultura popular e limitar sua cobertura às efemérides do calendário.

Quando a lenda pertence a um lugar

As fronteiras entre mito e lenda não são rígidas. Andriolli ressalva que as definições mudam conforme a corrente teórica e que dificilmente uma fórmula dará conta de todas as narrativas. Ainda assim, uma distinção ajuda a observar o modo como essas histórias circulam: a lenda costuma estar ancorada em um tempo e em um espaço determinados, enquanto o mito possui uma estrutura mais móvel, capaz de reaparecer sob novas formas.

Ele toma como exemplo a Salamanca do Jarau, narrativa ligada ao Cerro do Jarau, no Rio Grande do Sul. Retirar a história daquele território não significaria apenas trocar o cenário. Seria remover parte do que lhe dá nome, memória e sentido. O mesmo ocorre com o Negrinho do Pastoreio, cuja força está associada à escravidão, às relações de violência e ao espaço do pampa gaúcho.

“Se você tira o Negrinho do Pastoreio desse tempo e desse espaço, ele perde muito do seu significado”, afirma. A lenda, nessa perspectiva, não é apenas uma trama reproduzida de geração em geração. Ela funciona como uma forma de lembrar, reelaborar ou até ocultar conflitos inscritos na história de uma comunidade.

O mito, por sua vez, consegue atravessar fronteiras com mais liberdade. A Salamanca do Jarau é uma lenda localizada, mas carrega uma imagem muito mais antiga e disseminada: a mulher encantada que, submetida a uma maldição, assume a forma de serpente ou lagarto. Esse motivo aparece em narrativas de diferentes povos e períodos. “Os mitos vão se transformando o tempo inteiro”, resume Andriolli.

Por isso, a pergunta mais fértil não é somente de onde veio uma criatura ou qual seria sua versão “correta”. É preciso observar quais estruturas simbólicas sobreviveram à viagem. Uma lenda pode fixar a história numa geografia e numa experiência social; o mito fornece imagens para que medos, desejos e tensões voltem a ser narrados em contextos diferentes.

Nem todo monstro viral vira folclore

A velocidade das redes sociais tornou comum o aparecimento de criaturas inventadas para uma piada, um meme ou uma notícia falsa. Perfis que imitam jornais populares anunciam monstros absurdos, moradores entram na brincadeira e, em poucas horas, a personagem parece ter conquistado uma biografia própria. Mas circulação, por si só, não é sinônimo de folclore.

Para Andriolli, um elemento é indispensável: a crença. Não necessariamente uma crença uniforme, literal ou permanente. O que importa é que a narrativa seja capaz de interferir na maneira como alguém interpreta o mundo. Nos casos produzidos apenas como sátira, todos conhecem desde o início o mecanismo do deboche. Há compartilhamento e repetição, mas não existe adesão ao universo apresentado.

“Não basta falar sobre a crença; a crença é muito importante”, observa. Ele contrapõe esses fenômenos ao Slender Man. Nascida na internet, a figura alta, sem rosto e vestida de preto ultrapassou o espaço da ficção colaborativa e passou a afetar comportamentos fora da tela, chegando a inspirar um ataque violento nos Estados Unidos. A história era recente, mas mobilizava um medo antigo: o encontro com o estranho sem identidade, impossível de ler ou reconhecer.

É nesse ponto que surge um segundo critério: a antiguidade. Andriolli não usa o termo como simples contagem de anos. Uma narrativa pode ter sido criada ontem e, ainda assim, reativar imagens, emoções e conflitos muito anteriores. O que lhe dá espessura não é apenas a idade do personagem, mas a ligação com repertórios que uma coletividade já conhece, mesmo quando não consegue nomeá-los.

A Perna Cabeluda ilustra esse processo. A criatura teria surgido em Pernambuco, numa invenção radiofônica sobre uma perna separada do corpo que perseguia e chutava pessoas na rua, sobretudo homens que vagavam à noite, bêbados ou infiéis. O absurdo ganhou relatos de aparição, entrou no imaginário popular e foi levado por Chico Science aos palcos.

O sucesso não dependeu somente da força da rádio. A Perna Cabeluda atualizava narrativas antigas sobre punições sobrenaturais dirigidas a homens que traem, abandonam ou desrespeitam mulheres. Andriolli aproxima essa estrutura de histórias europeias sobre carneiros encantados e da Porca dos Sete Leitões, presente em tradições portuguesas e brasileiras. A criatura era nova; o medo que a sustentava, não.

O dicionário que devolveu a história da família

O interesse de Andriolli pelo folclore não começou com uma disciplina acadêmica. Na infância, ele ouvia histórias dos avós e do pai, que vinha do interior. Como o pai também era ligado à universidade, aquelas narrativas nunca lhe pareceram incompatíveis com estudo ou conhecimento. Faziam parte da casa, da memória familiar e do modo como pessoas próximas explicavam suas experiências.

A virada ocorreu durante a graduação em Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Depois que uma colega foi selecionada pelo programa Rumos Itaú Cultural, o departamento recebeu uma caixa de livros. Entre eles estava o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo.

Ao abrir o volume, Andriolli encontrou, organizadas como verbetes, histórias que conhecia da família. A experiência modificou a escala daquelas lembranças: o que parecia pertencer apenas aos avós também integrava um repertório compartilhado em diferentes partes do país. “Eu comecei a folhear e vi ali as coisas que meu avô falava, que meu pai falava”, recorda.

O contraste veio logo depois. Na universidade, colegas confundiam Saci com Curupira ou tratavam o folclore como um conjunto de personagens infantis, distantes da vida contemporânea. O problema, concluiu, não era somente falta de informação. Faltava escuta. Faltava perceber que as narrativas não sobrevivem porque seus personagens compõem uma lista, mas porque permitem falar de experiências difíceis de formular de outro modo.

“Quando você começa a entender que mitos e lendas não são sobre monstros encantados, são sobre nós mesmos, sobre os nossos medos, sentimentos e emoções, muda completamente a forma como você enxerga”, diz. Por isso, ele considera especialmente valioso alcançar quem chega com desconfiança. Convencer alguém que julgava o folclore ridículo pode ser mais transformador do que falar apenas para um público que já reconhece sua importância.

Da coleta no Twitter ao Colecionador de Sacis

O Colecionador de Sacis nasceu de uma combinação entre pesquisa acadêmica, tecnologia e vontade de conversar fora da universidade. Durante o doutorado, por volta de 2015, Andriolli cursava uma disciplina que propunha uma experiência de etnografia virtual. Para acompanhar como o Saci aparecia nas redes, programou um mecanismo que coletava publicações feitas no Twitter sobre o personagem.

Da ideia de “coletor” surgiu a de “colecionador”. Um artigo intitulado Colecionadores de Sacis ajudou a consolidar o nome que depois seria adotado pelo site e pelas iniciativas associadas ao projeto. O procedimento técnico, porém, era apenas o ponto de partida. Mais importante era observar o que as pessoas faziam com a figura: como contavam histórias, ironizavam, lembravam da infância, expressavam identidade regional ou disputavam significados.

O site também respondia a uma limitação conhecida por pesquisadores. Uma tese, um artigo ou uma apresentação em grupo de trabalho pode produzir conhecimento rigoroso e, ao mesmo tempo, circular entre pouquíssimas pessoas. Andriolli queria transformar parte desse conteúdo em diálogo público, sem reduzir a complexidade do tema. Passou a chamar essa prática de “divulgação folclórica”, em aproximação com a divulgação científica.

A expressão contém uma tomada de posição. Ciência e folclore são frequentemente colocados em lados opostos, como se reconhecer uma crença significasse abandonar a razão. Para Andriolli, a oposição é enganosa. “O verdadeiro adversário tanto da ciência quanto do folclore é a ignorância.” A pesquisa pode investigar a experiência social da crença sem precisar declarar verdadeiro o fenômeno sobrenatural descrito por ela.

O problema aparece quando instituições e governos adotam uma visão estreitamente utilitária da cultura e do conhecimento. Nesse raciocínio, só merece investimento o que apresenta retorno financeiro imediato. Fundações científicas e projetos culturais tornam-se alvos da mesma lógica. “Tudo aquilo que não é martelo e prego parece não ter funcionalidade”, critica.

Comunicação para aquilo que não é palpável

Andriolli se define primeiro como jornalista. A formação orienta suas perguntas, os formatos que escolhe e o esforço para construir pontes entre pesquisa e público. Embora dialogue intensamente com a antropologia, ele reconhece que um etnógrafo formado em outra tradição faria perguntas diferentes. O olhar da comunicação o leva a pensar não só no significado de uma narrativa, mas também em como ela circula e como pode ser contada.

Esse percurso incluiu a formação como mediador de leitura e contador de histórias. O contato com crianças tornou evidente algo que a linguagem acadêmica às vezes suaviza: o imaginário tem efeitos concretos, mesmo quando não pode ser segurado nas mãos. Em uma atividade para centenas de crianças, por exemplo, o público convocava criaturas folclóricas com palmas e batidas dos pés. A presença nascia da narrativa compartilhada.

“Tem coisas que não são palpáveis, mas que a gente sente”, afirma. A frase também oferece uma chave para a cobertura jornalística. Uma reportagem não precisa atestar a existência física de uma entidade para mostrar que o medo, a devoção, a lembrança ou o vínculo comunitário associados a ela são reais. Ignorar esses efeitos porque a criatura não pode ser fotografada é confundir o objeto material com a experiência social.

O Colecionador de Sacis passou a combinar texto, podcast, redes sociais, literatura e atividades presenciais. Cada linguagem alcançava um grupo diferente: crianças nas rodas de histórias, jovens nas plataformas digitais, pesquisadores nas referências bibliográficas. Ainda faltava, porém, dialogar com um público acostumado a encontrar mitologia nas artes visuais.

Como fotografar aquilo que não se vê

Foi dessa inquietação que nasceu Folclore Nu – Desnudando a Cultura Brasileira, projeto de fotografia de nu artístico inspirado em mitos e lendas. Andriolli percebia que seres da mitologia grega eram representados com frequência em ensaios de forte apelo estético, enquanto o folclore brasileiro permanecia preso a ilustrações escolares e fantasias infantis.

A proposta não era provocar apenas pela nudez. Era romper a infantilização do tema e produzir imagens capazes de despertar desejo, desconforto, curiosidade e estranhamento. Cada ensaio reunia sete fotografias acompanhadas por legendas explicativas e referências bibliográficas. Assim, a elaboração artística não aparecia separada da pesquisa.

“Como é que a gente pega a singularidade de um mito? Como é que a gente fotografa um mito, que é invisível?”, pergunta. A resposta precisava ser construída em luz, corpo, paisagem, objeto e atmosfera. Num ensaio sobre o Boitatá, por exemplo, o fogo entrou na composição material da cena. O desafio não era criar uma fantasia que reproduzisse literalmente a criatura, mas traduzir visualmente sua energia e os sentidos acumulados pela narrativa.

O projeto também funcionava como demonstração prática. Depois de investigar erros e acertos da imprensa, Andriolli não queria permanecer apenas no diagnóstico. Interessava-lhe experimentar modos de fotografar e filmar o invisível sem reduzir as histórias ao deboche, à ilustração genérica ou ao susto sensacionalista.

A “moldura erudita” e o calendário da imprensa

Na avaliação de Andriolli, o interesse da grande mídia pelo folclore ainda é pequeno e condicionado. Um dos gatilhos mais comuns é o que ele chama de “moldura erudita”: a cultura popular se torna notícia quando recebe a chancela de um produto, uma instituição ou uma personalidade reconhecida pelo mercado cultural.

Ele cita a repercussão de uma notícia sobre um produtor estrangeiro, associado a um filme premiado com o Oscar, que teria adquirido os direitos de uma história sobre o Saci. A possibilidade de adaptação ganhou espaço não somente por causa da personagem brasileira, mas porque vinha enquadrada pelo prestígio internacional do cinema. “É a moldura erudita”, sintetiza. A chancela externa autoriza o veículo a olhar para algo que já existia e circulava no país.

O segundo gatilho é o calendário. Festas juninas, Semana Farroupilha, dia de Santo Antônio e outras datas oferecem uma justificativa previsível para abordar tradições populares. “As pautas sobre cultura popular são agendadas pelas datas”, afirma. Fora desses períodos, práticas, festas e crenças continuam vivas, mas raramente recebem a mesma atenção.

As duas molduras produzem uma cobertura descontínua. O folclore aparece quando alguém de fora o legitima ou quando a efeméride abre uma janela na agenda. Em ambos os casos, corre-se o risco de tratar a cultura popular como exceção: algo que merece curiosidade por alguns minutos, não uma dimensão permanente da vida social.

Uma cobertura mais responsável exige inverter essa lógica. Em vez de procurar somente o personagem fantástico, o jornalista pode investigar os vínculos comunitários, as disputas de memória, os usos políticos, as transformações tecnológicas e os afetos organizados ao redor da narrativa. O invisível deixa, então, de ser sinônimo de inexistente. Torna-se uma forma de observar aquilo que orienta comportamentos sem aparecer como objeto diante da câmera.

“O folclore não está lá no mato”

Ao final da entrevista, Andriolli convida o público a conhecer o site Colecionador de Sacis e o podcast Poranduba, nos quais aproxima narrativas brasileiras e referências de outros lugares. O objetivo não é reunir criaturas como peças isoladas de um catálogo, mas revelar conexões e devolver contexto a histórias frequentemente resumidas a descrições escolares.

Reconhecer essas relações também ajuda a combater a associação automática entre crença e ignorância. Alguém pode narrar um encontro com o Saci, um lobisomem ou outra entidade sem que sua experiência se reduza a uma falha de informação. A história pode carregar memória ancestral, ensinamento moral, percepção do território, dor familiar ou uma linguagem disponível para expressar o que não encontra outra forma.

“O folclore não está lá no mato. Ele está aqui”, afirma. Para ele, folclore diz respeito a modos de sentir, pensar e agir orientados pela tradição. As pessoas não repetem práticas como autômatos. Elas as mantêm, alteram ou abandonam porque essas práticas significam alguma coisa, porque as tocam e as movem.

É justamente essa vida em movimento que o jornalismo perde quando transforma o mito em fraude a ser desmentida ou em monstro a ser exibido. Cobrir o invisível não significa renunciar à apuração. Significa ampliar a pergunta. Às vezes, a notícia não está em provar que a criatura caminhou por uma estrada, mas em compreender por que tantas pessoas continuam encontrando, naquela imagem, uma maneira de falar sobre si mesmas.


Nota editorial: Esta matéria foi produzida a partir da transcrição editada da entrevista concedida por Andriolli Costa aos estudantes da TOCA – Agência Experimental de Comunicação da UFMT, depois da palestra A Cobertura do Invisível: erros e acertos na cobertura de mitos e lendas pela mídia, em 28 de junho de 2018. A atividade foi realizada a convite da professora Tamires Coêlho, e a cobertura da TOCA foi coordenada pela professora Pâmela Sanders Craveiro. As falas foram editadas para eliminar repetições, hesitações e erros da transcrição automática, sem alteração de sentido. Leia a publicação original sobre a atividade no Colecionador de Sacis.

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