Os palhaços das Folias de Reis ocupam um lugar de fronteira dentro da celebração. Vestidos com roupas coloridas, máscaras de monstros, chifres, pelos e adereços luminosos, eles assustam, dançam, improvisam versos e provocam o público. Também carregam uma desconfiança antiga. Dependendo da comunidade e da história contada, podem ser soldados de Herodes, perseguidores de Cristo, penitentes, convertidos ou brincantes que escondem o rosto porque traíram o rei para proteger a Sagrada Família.
É dessa figura contraditória que parte Arquivo Folclore 2 – Palhaço de Folia (os Marungos de Deus), documentário sonoro publicado pelo Colecionador de Sacis em 25 de abril de 2023. Com apresentação, roteiro e edição de Andriolli Costa, o episódio acompanha uma viagem a Monnerat, distrito de Duas Barras, no Rio de Janeiro, durante um encontro que reuniria dezenas de Folias de Reis da região.
Ao lado de Gláucia Garcia e Rogério Willians, Andriolli percorre a festa, recupera experiências de pesquisa iniciadas ainda na graduação e entrevista mestres, músicos, palhaços e trabalhadores do evento. O programa combina gravação de campo, depoimentos, pesquisa bibliográfica e memória pessoal para mostrar que não existe uma explicação única para o personagem. Cada nome, máscara e versão acrescenta uma camada à pergunta que atravessa o episódio: afinal, quem é o palhaço da Folia de Reis?
Esta matéria foi produzida a partir do roteiro e da transcrição integral do segundo episódio de Arquivo Folclore. As falas foram editadas para eliminar hesitações, repetições e erros da transcrição automática, sem alteração de sentido. O episódio e seu roteiro estão disponíveis no site Colecionador de Sacis.
Entre a devoção e a desconfiança
O episódio começa com um convite para que o ouvinte olhe a Folia de Reis como uma síntese da vida popular brasileira. A manifestação é inseparável da devoção católica, mas não se esgota no que uma instituição religiosa determina. É também tradição familiar, organização comunitária, memória, promessa, música, alimento partilhado e vínculo com o território.
É nesse caminho em direção ao sagrado que surge o palhaço. Ele está dentro da Folia, mas raramente ocupa uma posição tranquila. Sua roupa pode aproximá-lo do diabo, sua máscara provoca medo e sua liberdade para brincar ameaça a solenidade da visita. Ao mesmo tempo, é ele quem dança, diverte as crianças, pede contribuições e atrai o olhar do público.
“O palhaço é aquele que nos lembra que, no fundo, somos apenas humanos. E humanos até demais”, afirma Andriolli na abertura. A frase não serve apenas como efeito narrativo. Ela resume a interpretação construída ao longo do documentário: o personagem concentra fé e irreverência, arrependimento e tentação, disciplina e excesso.
Essa ambiguidade aparece até entre pessoas que acompanham a Folia há anos. Há quem admire as roupas, as rimas e as acrobacias. Outros preferem companhias sem palhaços, por considerarem que a figura introduz desordem num rito de devoção. “Não era uma coisa de Deus” é uma explicação que Andriolli escuta mais de uma vez, inclusive de brincantes que depois assumiram a máscara.
Cirineu, Bastião, Marungo
A variedade de nomes oferece as primeiras pistas sobre a complexidade do personagem. Quando encontrou uma Folia pela primeira vez, em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, em 2010, Andriolli usou numa reportagem a palavra “cirineu” para designar os mascarados. Treze anos depois, ao retomar o texto, percebeu como aquela denominação conduzia a uma interpretação específica.
Cirineu remete a Simão de Cirene, o homem obrigado pelos soldados romanos a carregar a cruz de Cristo até o Gólgota. O palhaço entendido como cirineu é, portanto, um penitente. A máscara e a farda não representam apenas liberdade para brincar. Podem materializar uma promessa e o peso de uma dívida assumida diante do sagrado.
Em Três Lagoas, Andriolli conheceu José Carlos de Souza, cujo irmão havia prometido sair como palhaço durante sete anos consecutivos. Depois de três anos de farda, o irmão foi assassinado. José Carlos decidiu cumprir os quatro anos restantes. “Promessa é dívida”, observa o narrador. Assumir a máscara significava, naquele caso, assumir a cruz interrompida pela morte.
Outro nome frequente é Bastião, encontrado também em manifestações como o Cavalo Marinho e ligado historicamente à representação de personagens negros. Mais revelador para o episódio é “marungo”, variação de “malungo”, termo usado entre africanos escravizados para designar companheiros, irmãos de criação ou pessoas submetidas à mesma condição.
Andriolli relaciona a palavra a radicais de línguas do Congo associados às ideias de vizinho e navio. Autores como Pereira da Costa interpretaram “malungo” como uma referência aos que atravessaram juntos o Atlântico nos navios negreiros. Chamar o palhaço de marungo, portanto, também permite reconhecer a presença negra na formação das Folias de Reis — não como influência periférica, mas como parte de sua linguagem, de seus ritmos e de sua organização.
Os soldados que traíram Herodes
Uma das interpretações mais recorrentes transforma os palhaços em soldados ou espiões de Herodes. Enviados para seguir os Reis Magos, eles deveriam descobrir onde Jesus havia nascido e retornar com a informação necessária para que o rei mandasse matar a criança. A narrativa popular, porém, prolonga uma passagem que os Evangelhos não contam: diante do menino, os perseguidores se arrependem.
José Vicente Rangel, conhecido como palhaço Ventania, aprendeu essa versão dentro da Folia Estrela de Belém, de Cambuci. Aos 12 anos, ele queria ser mestre ou regulador. Precisou assumir a função de palhaço quando os pais dos dois meninos escolhidos proibiram a participação, temendo que o papel estivesse ligado ao demônio.
José Vicente aceitou vestir a máscara, mas impôs uma condição: não usaria o capacete com chifres, apresentado a ele como “a coroa do diabo”. Quarenta anos depois, continuava brincando como Ventania e mantendo a mesma restrição. Sua permanência mostra que a tradição não exige adesão automática a todos os símbolos. O brincante também negocia com aquilo que recebeu.
Na história contada por Ventania, os soldados se convertem ao encontrar Jesus. Depois, durante a fuga da Sagrada Família para o Egito, dançam, contam piadas e fazem acrobacias para distrair os guardas da fronteira. Começam como agentes de Herodes e terminam protegendo aqueles que deveriam denunciar. São perseguidores arrependidos, “os Marungos de Deus”.
A conversão ajuda a explicar por que determinadas tradições orientam as Folias a nunca voltar pelo mesmo caminho usado na ida. Os brincantes repetiriam o gesto dos antigos espiões, que precisavam despistar os perseguidores. O trajeto pelo território deixa de ser somente deslocamento e passa a reencenar a narrativa sagrada.
Cada Folia conta uma origem
A versão de Ventania não encerra a questão. “Existem outras histórias, praticamente uma para cada Folia”, adverte Andriolli. O mestre Cláudio Xaxo, da Brilhante Estrela de Belém, no Morro da Formiga, no Rio de Janeiro, também identifica os palhaços como soldados de Herodes, mas situa a conversão no fim da vida de Cristo.
Segundo a história preservada em seu grupo, esses soldados participaram das agressões e da crucificação. Quando um deles perfurou o corpo de Jesus com uma lança, a água que escorreu da ferida caiu sobre seus olhos e provocou uma revelação. A narrativa se aproxima da hagiografia de São Longuinho, o soldado romano que reconhece a natureza divina de Cristo depois de atingi-lo.
Arrependidos, os soldados ainda precisavam escapar de uma multidão revoltada. Reuniram panos, cobriram as roupas e esconderam o rosto. Desse disfarce teriam surgido as fardas e máscaras. O que em uma versão começa como recurso para despistar Herodes aparece, em outra, como proteção contra aqueles que desejavam punir os algozes de Jesus.
O documentário não tenta decidir qual delas seria historicamente verdadeira. “É a comunidade que dá legitimidade a uma narrativa”, afirma Andriolli. Se uma história estabelece pertencimento, orienta práticas e continua sendo transmitida, ela possui verdade dentro daquele grupo. Comparar versões permite compreender as comunidades, não organizar uma competição em busca de um relato oficial.
Quanto mais feio, mais bonito
A origem associada ao disfarce ajuda a compreender a estética dos palhaços. “Para eles, quanto mais feio, mais bonito”, resume Cláudio. A máscara deve esconder o brincante e produzir impacto. Por isso, o repertório incorpora livremente monstros, animais, personagens da televisão, figuras natalinas e materiais oferecidos pelo mercado contemporâneo.
Numa fotografia comentada no episódio, os palhaços se destacam entre cerca de 50 integrantes da Folia de Cláudio. Um usa a máscara do Vingador, personagem do desenho Caverna do Dragão. Outro parece um lobisomem. Uma criança surge como um Papai Noel de olhos vazados e escuros, apoiado num cajado decorado com festões de Natal.
O Papai Noel poderia parecer incompatível com a posição do perseguidor arrependido. Para Cláudio, porém, a escolha funcionou como provocação e pesquisa. A criança desejava aquele personagem, e o mestre procurou elementos da história de São Nicolau para integrá-lo à festa. A tradição não permaneceu intacta apesar da máscara contemporânea; continuou viva justamente porque conseguiu incorporá-la.
Outros palhaços usam tênis e adornos iluminados por LED. Máscaras industrializadas convivem com couro, lã, chifres e peças confeccionadas pelos próprios brincantes. A aparência se transforma, mas preserva a função de produzir estranhamento. O palhaço precisa ser reconhecido como alguém que deixou temporariamente a identidade cotidiana para entrar em outro regime de comportamento.
É esse efeito que assusta Ludmilla Caetano, responsável por serviços de áudio no encontro de Monnerat. Ela diz admirar a Folia, mas teme os palhaços “grandões”, com dentes exagerados, orelhas, chifres e cobras de madeira. Ludmilla não conhece as explicações tradicionais para o personagem. Conhece aquilo que a máscara faz com ela — e, no documentário, essa reação também é uma forma válida de conhecimento.
Uma festa cristã atravessada pela presença negra
Embora as Folias de Reis sejam manifestações cristãs, suas práticas revelam cruzamentos que ultrapassam as fronteiras institucionais da Igreja. Rogério Willians explica que os grupos visitam casas, igrejas, terreiros de Candomblé e espaços de Umbanda. Diante de cada altar, observam as imagens e adaptam os versos às entidades e aos moradores encontrados.
O episódio apresenta o improviso de Giliard, palhaço da Folia dos Borges, de Leopoldina, em Minas Gerais, diante de um terreiro. Vestido com farda verde, azul e vermelha, máscara de tigre e cabelos loiros, ele reverencia Exu e pede que os caminhos sejam desobstruídos. A Folia não deixa de ser cristã ao entrar naquele espaço. Reconhece a composição religiosa da comunidade que a recebe.
Essa capacidade de estabelecer relações ajuda a compreender por que a influência negra não pode ser medida apenas pela quantidade de pessoas negras nos grupos ou pela presença de determinados instrumentos. Ela está nos ritmos, nos movimentos, nos nomes, nas relações de irmandade e na circulação entre casas de diferentes matrizes religiosas.
O palhaço torna essa trama especialmente visível. Chamado de Bastião ou Marungo, ele reúne referências da catequese cristã, da experiência negra e das reelaborações comunitárias. Sua existência contesta qualquer tentativa de explicar a Folia como simples reprodução brasileira de um modelo português.
O brincante que pode estragar a visita
A liberdade do palhaço é também a origem de sua má reputação. Enquanto a bandeira entra na casa e os cantadores apresentam versos de devoção, o mascarado pode brincar com moradores, improvisar sobre a aparência de alguém e pedir dinheiro para si ou para a Folia. Uma contribuição generosa rende elogios. Uma moeda pequena pode virar motivo de deboche.
O sanfoneiro Gilson José, que acompanhava havia 23 anos a Estrela do Oriente, de Bom Jardim, conta que seu grupo deixou de trabalhar com palhaços por causa de comportamentos considerados incompatíveis com a visita religiosa. “O dono da casa fica todo feliz porque recebeu uma cantoria para Jesus. Aí vem o palhaço e estraga tudo”, relata.
Também existe a associação com a bebida. Correr, dançar, saltar e improvisar durante horas exige resistência, e alguns brincantes recorrem à cachaça. Ventania insiste que o problema não está na função, mas na falta de discernimento. Ele mantém um repertório e escolhe o que cabe em cada lugar. “Se eu vou brincar na igreja, vou falar de Deus. Tenho que saber o repertório que vou usar ali.”
As antigas disputas entre grupos reforçaram a imagem perigosa. O episódio recupera uma passagem de Alceu Maynard Araújo, publicada em 1965, segundo a qual os palhaços deveriam semear a discórdia por serem “espias de Herodes” e “satanases”. Nos encontros, grupos adversários disputavam cantos, instrumentos, máscaras, fardas e até a bandeira. Rasteiras, golpes de capoeira e chicotadas faziam parte dos confrontos.
As brigas físicas se tornaram menos comuns, mas a rivalidade encontrou novo espaço nas redes sociais. Cláudio Xaxo relata que palhaços de cidades diferentes enviam versos e provocações uns aos outros pela internet. Fora das fardas, conversam normalmente. Quando vestem a roupa da Folia, assumem posições que podem reativar conflitos antigos.
A jornada não termina no Dia de Reis
O documentário também corrige uma simplificação recorrente nos livros. A Folia não necessariamente começa no Natal e encerra todas as atividades em 6 de janeiro. Durante o restante do mês, muitos grupos continuam visitando casas e reunindo recursos para a festa de arremate, quando instrumentos e fardas são guardados e a comunidade partilha comida e bebida.
Em regiões do Rio de Janeiro onde São Sebastião é padroeiro, a jornada pode prosseguir até 20 de janeiro. Cláudio explica que, até o Dia de Reis, sua cantoria trata dos Magos e do nascimento de Jesus. Depois, passa a narrar a vida e o martírio de São Sebastião.
A mesma bandeira acompanha os dois períodos, mas troca de véu. Primeiro recebe o verde associado à Folia. Depois, o vermelho de São Sebastião. A mudança altera cantos e referências sem interromper a continuidade do grupo. É como se uma única bandeira abrigasse duas etapas da jornada.
O arremate também produz suas próprias memórias. Gláucia e Rogério recordam a primeira vez em que visitaram a Folia Estrela de Belém do Norte, de São Fidélis. Conduzidos com solenidade a um quarto nos fundos da casa, encontraram um caixão coberto por um tecido. Temendo que o mestre adoecido tivesse morrido, levantaram o pano e descobriram dezenas de frangos preparados para alimentar os convidados da festa.
A cena concentra novamente os contrastes que movem o episódio: susto e riso, morte e comida, cerimônia e brincadeira. Nas Folias, o sagrado não permanece separado da experiência cotidiana. Ele é sustentado pelo trabalho comunitário, pelas histórias de família e pelas refeições que encerram a jornada.
A espera, o encontro e uma pedra no caminho
A viagem a Monnerat dá ao episódio uma estrutura de busca. Andriolli, Gláucia e Rogério saíram do Rio de Janeiro às 6h30, preocupados com a possibilidade de perder as primeiras apresentações. Depois de quase cinco horas de estrada e alguns caminhos errados, encontraram a praça vazia. A festa começaria apenas às 18h. A Folia de São Fidélis que esperavam encontrar chegaria às nove da noite, não às nove da manhã.
A espera abriu espaço para outras vozes. Andriolli conversou com operadores de áudio, moradores, antigos cantadores e integrantes de grupos que ainda se preparavam para a apresentação. Seu Luiz Carlos Henrique, então com 84 anos, disse gostar dos cantos e da bateria, mas rejeitou o palhaço. Mestre Messias, da Folia Boa Lembrança, do Quilombo do Carmo, falou da herança recebida do pai e de curas atribuídas à devoção.
Quando as primeiras Folias finalmente desceram a rua em direção ao presépio, o narrador já sentia fortes dores. Ainda gravou Mestre Anélio, da Estrela do Oriente, e conseguiu conversar com David Souza Silva, o Gordinho de Itaperuna. Para Gordinho, a maioridade havia sido uma condição imposta pela mãe antes que assumisse a farda. “Brincar de palhaço é compromisso. É coisa séria”, afirma.
O compromisso também orientou o próprio documentário. Andriolli se apoiou numa árvore, pressionou o gravador contra a barriga e continuou registrando até encontrar o palhaço que procurava. Mais tarde, descobriu que atravessara a festa durante uma crise de pedra nos rins. A madrugada terminou numa unidade de pronto atendimento, com tramadol na veia.
O imprevisto não aparece apenas como curiosidade de bastidor. Ele aproxima o narrador da humanidade que atribuíra ao personagem desde o início. A pesquisa não se realizou a distância, protegida do cansaço, do erro de horário, da frustração ou da dor. Foi construída no encontro e nos limites do corpo.
Ao final, nenhuma definição resolve completamente o palhaço. Ele continua podendo ser Cirineu, Bastião, Marungo, soldado, espião, penitente ou provocador. Pode trazer o medo para dentro da festa e, ao mesmo tempo, proteger a passagem do sagrado. É justamente essa impossibilidade de fixá-lo que faz dele o centro do episódio — e uma imagem tão potente das contradições humanas.
Ficha do episódio
Programa: Arquivo Folclore 2 – Palhaço de Folia (os Marungos de Deus)
Publicação: 25 de abril de 2023
Apresentação, roteiro e edição: Andriolli Costa
Arte da capa: Bruno Brunelli
Produção: Colecionador de Sacis
Fonte: ouça o episódio e consulte o roteiro integral