Em fevereiro de 2015, uma jovem de 19 anos chegou com hemorragia a um hospital de São Bernardo do Campo, em São Paulo, depois de interromper uma gestação. Já tinha um filho de quatro anos e disse que não teria condições de criar outra criança sozinha, depois que o pai se recusou a assumir responsabilidade. Enquanto ela ainda se recuperava, o médico que a atendera chamou a polícia. A jovem deixou o hospital detida e só foi liberada depois do pagamento de fiança. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo abriu uma sindicância por possível violação do sigilo profissional. O caso foi noticiado em fevereiro daquele ano.
Dois anos depois, o episódio abriu uma transmissão do podcast Popularium. O caso não foi apresentado apenas como exemplo de criminalização do aborto. Serviu de ligação com uma narrativa do folclore brasileiro: a Porca dos Sete Leitões, mulher condenada a assumir forma animal depois de interromper gestações. Cada leitão que a acompanha seria a materialização de um filho que não nasceu.
Realizada durante o projeto Somando Visões, do Folclore BR, a live reuniu o jornalista Andriolli Costa, a podcaster Mariana Bandarra, do Talvez Seja Isso, e o psicólogo e podcaster Pablo de Assis, de Mitografias e Horrores Urbanos. Durante quase duas horas, os três discutiram se o mito apenas reproduz uma moral misógina ou se também preserva, sob a imagem monstruosa, uma história de sofrimento, abandono e falta de autonomia.
Esta matéria foi produzida a partir da transcrição integral de Popularium ao Vivo – Aborto, Misoginia e a Porca dos Sete Leitões, publicada em 14 de setembro de 2017. As falas foram editadas para eliminar repetições, hesitações e erros da transcrição automática, sem alteração de sentido. A gravação original está disponível no Colecionador de Sacis.
Quando o mito transforma a mulher em monstro
A Porca dos Sete Leitões é descrita em parte dos registros como uma aparição noturna que percorre ruas e estradas, soltando gritos e acompanhada pelos filhotes. Na versão escolhida como ponto de partida para a live, a criatura teria sido uma mulher que realizou sucessivos abortos. A metamorfose aparece como punição, e o número de leitões corresponde ao de gestações interrompidas.
A imagem concentra um mecanismo frequente em narrativas sobre mulheres. Um comportamento condenado pela moral religiosa deixa de ser uma ação e passa a definir integralmente a personagem. Ela não é alguém que enfrentou um conflito, viveu uma violência ou tomou uma decisão dentro de circunstâncias específicas. Torna-se o próprio monstro.
Andriolli relaciona essa estrutura à Mula sem Cabeça. Em sua versão mais conhecida, a mulher é amaldiçoada por manter uma relação sexual com um padre. Outras variantes mencionam incesto ou perda da virgindade antes do casamento. Em todas, a monstruosidade recai sobre o corpo feminino, enquanto o homem envolvido tende a permanecer fora do castigo.
Foi justamente essa desigualdade que levou Andriolli a criar o Popularium. Ao assistir a uma websérie inspirada no folclore, encontrou uma Mula sem Cabeça representada por uma menina de 13 anos. A narrativa perguntava o que teria levado a garota a cometer “atrocidades”, em vez de dirigir a pergunta ao adulto que se relacionara com ela.
“A menina de 13 anos não seria o monstro. Não seria a culpada”, afirma. A adaptação reproduzia valores herdados sem examinar o que significavam no presente. A inquietação resultou no episódio-piloto do podcast e em uma pesquisa sobre os mitos misóginos do folclore brasileiro.
O mito é misógino ou reflete uma sociedade misógina?
Antes de interpretar a Porca, os participantes enfrentam um problema conceitual. É possível atribuir misoginia a uma narrativa, como se o mito tivesse intenção própria? Ou seria mais preciso dizer que uma sociedade misógina produz e transmite histórias marcadas por seus valores?
Para Mariana Bandarra, a desvalorização das mulheres atravessa tantos espaços que o folclore não deve ser entendido necessariamente como sua origem. Ele é um dos lugares onde a estrutura se manifesta. “A gente conta as histórias desse jeito porque todo mundo aprende as mesmas regras”, explica.
Essa compreensão também impede que o machismo seja tratado apenas como defeito individual. Pessoas educadas numa cultura desigual podem reproduzir seus códigos mesmo quando se reconhecem como feministas ou defendem direitos das mulheres. Identificar esse mecanismo não elimina a responsabilidade, mas permite transformá-lo sem reduzir o debate a uma disputa entre pessoas puras e culpadas.
Pablo de Assis apresenta três caminhos de interpretação. Uma leitura funcionalista perguntaria qual regra o mito ensina ou reforça. Nessa perspectiva, a maldição da Porca serviria para condenar o aborto e fixar a mulher na posição de mãe. A narrativa seria misógina porque transmite e legitima uma hierarquia.
Uma leitura estruturalista mudaria a direção da pergunta. O mito não criaria sozinho a desigualdade. Refletiria estruturas anteriores de uma sociedade que já atribui posições diferentes a homens e mulheres. Se a organização social é misógina, suas histórias também carregarão essa marca.
Já a abordagem arquetípica permitiria observar imagens recorrentes ligadas ao corpo, ao nascimento, ao cuidado, à morte e à transformação. Pablo adverte, porém, que essa leitura se torna perigosa quando diferenças culturais são apresentadas como hierarquias naturais. O arquétipo não determina que o feminino seja inferior. Essa valoração pertence à sociedade que interpreta e organiza as imagens.
Andriolli aproxima o debate do “trajeto antropológico” do imaginário: uma circulação contínua entre impulsos humanos e formas sociais. O mito não nasce apenas de uma estrutura externa nem de uma essência imutável. É produzido no encontro entre medos, desejos, experiências corporais e as maneiras pelas quais cada cultura lhes dá forma.
A mulher castigada que também persegue os homens
A história da Porca possui uma contradição decisiva. A mulher é transformada em animal como castigo pelo aborto, mas a assombração não aparece prioritariamente para atacar outras mulheres. Ela persegue homens casados que voltam tarde, frequentam bares, visitam bordéis ou traem suas companheiras.
“Ao mesmo tempo em que a Porca é uma mulher castigada, ela se torna um agente moralizador dos homens que pulam a cerca”, observa Mariana. A criatura condenada pela ruptura do ideal materno passa a vigiar aqueles que podem abandonar outras mulheres na mesma situação.
Esse segundo núcleo altera a leitura. A Porca não precisa representar apenas a ameaça destinada a impedir abortos. Sua perseguição também pode ser entendida como tentativa de evitar que outras mulheres sofram abandono, gravidez sem apoio e condenação social. A personagem que foi punida volta para cobrar responsabilidade dos homens.
Mariana identifica sob a narrativa a solidão histórica da maternidade. A mulher da notícia apresentada na abertura já conhecia o trabalho necessário para criar um filho e sabia que não contaria com o pai da nova criança. Interpretar sua decisão sem considerar essa realidade significa isolá-la novamente, agora no campo moral.
Andriolli recupera ainda uma narrativa inserida por Camilo Castelo Branco no romance Anátema. Nela, uma mulher mantém por anos uma relação com um fidalgo, tem filhos que desaparecem por ação do amante e, depois da morte, retorna como uma porca acompanhada pelos leitões para persegui-lo. A assombração liga-se menos ao aborto voluntário do que à negação da maternidade, à violência masculina e ao destino imposto aos filhos.
As versões não se anulam. Reunidas, revelam um campo de tensões em torno de sexualidade, maternidade, abandono e legitimidade familiar. A mulher continua marcada como corpo que deve responder pelas consequências, mas sua volta noturna denuncia que outros agentes participaram daquela história.
A baronesa criada por Monteiro Lobato
Uma das versões hoje mais difundidas aparece em O Saci, de Monteiro Lobato. Nela, a Porca teria sido uma baronesa cruel com pessoas escravizadas. Um feiticeiro negro a transforma em animal e converte seus sete filhos em leitões. O grupo passa a procurar um anel enterrado que poderia desfazer o encantamento.
Andriolli ressalva que não encontrou essa história repetida em fontes anteriores consultadas por ele. Como a repetição de elementos entre diferentes registros ajuda a identificar os núcleos de um mito, a ausência da baronesa e do anel em outras variantes sugere uma criação literária de Lobato.
A mudança elimina justamente a ligação com o aborto e a sexualidade. O mesmo ocorre com a Mula sem Cabeça apresentada pelo escritor, transformada numa rainha associada a práticas macabras em cemitérios. Ao adaptar as criaturas para crianças, Lobato preservou o monstro, mas substituiu o conflito sexual por outras formas de transgressão.
Essa ficcionalização alcançou enorme circulação e passou a ser recebida por muitos leitores como a própria tradição. O processo demonstra como um autor consagrado pode interferir no repertório coletivo. A versão literária não é “falsa”, mas precisa ser reconhecida como interpretação particular, produzida por alguém, num contexto e para determinado público.
Ao recuperar variantes menos conhecidas, o Popularium devolve à Porca o conflito que a adaptação infantil apagou. O que reaparece não é somente o aborto. São as disputas sobre quem controla o corpo feminino, quem pode exercer a sexualidade e quem suporta sozinho as consequências da reprodução.
A construção da “antimãe”
O debate encontra apoio nas pesquisas da historiadora Mary Del Priore. Em texto citado na live, ela relaciona a Porca dos Sete Leitões à longa campanha religiosa contra práticas abortivas. A criatura teria funcionado como o inverso da mulher idealizada: a mãe casada, protegida pelo matrimônio e dedicada à criação dos filhos dentro da moral cristã.
“O aborto passava a ser visto como uma atitude que emporcalhava a imagem ideal que se desejava para a mulher”, escreve Del Priore no trecho lido por Andriolli. A escolha do verbo evidencia a passagem da condenação moral para a forma animal. A mulher que rompe o modelo não apenas se comporta mal; torna-se porca.
Andriolli recua ainda ao século XVI e lê uma carta de José de Anchieta que descreve práticas de interrupção da gravidez entre mulheres indígenas. O missionário as interpreta a partir dos interesses da catequese e utiliza expressões como “crueldade desumana”. A live, porém, devolve a pergunta: a desumanidade estava necessariamente nas mulheres ou na ordem colonial que classificava suas escolhas sem reconhecer as condições em que viviam?
O registro é importante não porque ofereça uma descrição neutra das comunidades indígenas. Ele demonstra como o olhar religioso produziu uma linguagem de culpabilização desde o início da colonização. O corpo feminino aparecia como território de catequese, controle familiar e salvação de almas.
Mariana chama atenção para a precariedade da palavra “escolha”. Um aborto não equivale a decidir entre opções disponíveis em condições iguais. Pode decorrer de abandono, violência, pobreza, risco, coerção familiar ou ausência de alternativas. Mesmo quando decidido pela própria mulher, possui custos físicos e emocionais que desaparecem quando o debate a transforma apenas em acusada.
Por que uma porca?
Se outros animais também perseguem homens durante a noite em narrativas europeias, por que as tradições portuguesa e brasileira escolheram a porca? Câmara Cascudo registra paralelos com carneiros e cães gigantes, mas Andriolli lembra que imagens diferentes não são intercambiáveis. Cada animal mobiliza relações específicas.
Uma pesquisa etnográfica citada na live observa que, em comunidades rurais de Minas Gerais, o porco integra historicamente o espaço doméstico. Diferentemente do gado, criado mais distante, ele permanece no quintal, alimenta-se dos restos da casa e participa do cotidiano atribuído às mulheres. Depois, torna-se comida da família.
Essa proximidade produz uma imagem incômoda. Mariana recorda que o grito do porco abatido parece humano e que seus olhos facilitam a identificação. Ele ocupa uma fronteira entre animal familiar e carne destinada ao consumo. Ao transformar uma mulher em porca, o mito aproxima dois seres sobre os quais a sociedade se acostumou a tomar decisões: quando reproduzir, como utilizar e quando descartar.
Pablo acrescenta que o animal não é intrinsecamente sujo. Ele se adapta ao ambiente em que é criado e recebe os restos produzidos pelos humanos. A sujeira do chiqueiro também é nossa. Ainda assim, o porco foi associado à gula, ao excesso, à sexualidade e aos chamados “baixos apetites”.
Numa cultura que trata o prazer sexual como impureza, a ligação se fortalece. A metamorfose não pune apenas a interrupção da gravidez. Animaliza uma sexualidade feminina que escapou ao casamento, à reprodução obrigatória e ao controle dos homens.
A Porca também pode carregar a dor da maternidade. A imagem do animal acompanhado pelos leitões permite perceber a mulher não como criminosa insensível, mas como alguém que continua cercada pelo que perdeu. “Talvez a gente esteja falando do tipo de dor e de angústia de uma mulher que se preparou para ter aquele filho, mas não pôde”, propõe Mariana.
Um símbolo não se esgota numa explicação
Ao longo da conversa, o porco passa a representar sujeira, desejo, alimentação, proximidade doméstica, animalidade, maternidade, sofrimento, vida e morte. A multiplicação não é um problema a ser corrigido. É justamente o que diferencia o símbolo de um sinal com significado fixo.
“O símbolo é a melhor forma de dizer uma coisa que não consegue ser dita de nenhuma outra forma”, explica Pablo. A Porca não funciona como uma placa que aponta para uma única mensagem. Ela condensa sentidos que podem entrar em conflito e mudar conforme a comunidade ou o período histórico.
Por isso, decifrar o mito como se houvesse uma resposta escondida seria insuficiente. A personagem pode ser instrumento de controle religioso e, simultaneamente, memória de sofrimento. Pode condenar a mulher que aborta e perseguir o homem que abandona. Pode representar a sujeira atribuída ao corpo e revelar que essa sujeira foi produzida pela própria sociedade.
A polissemia também impede que a crítica resulte no simples descarte da narrativa. Se a Porca fosse somente uma moral ultrapassada, bastaria abandoná-la. Como reúne imagens mais profundas, a história pode ser retomada para produzir perguntas que seus narradores anteriores não formularam.
Recontar para não ser criado pela história
Pablo compara o mito à memória. Lembrar não significa recuperar uma gravação intacta do passado. Cada lembrança revive e reconstrói a experiência. O mesmo ocorre quando uma história é contada: os elementos retornam, mas são reorganizados pelas necessidades do presente.
“Para transformar o mito, a gente precisa revivê-lo constantemente”, afirma. Narrativas que deixam de ser contadas parecem permanecer preservadas, mas perdem a possibilidade de mudança. Já aquelas revisitadas criticamente podem ganhar novos sentidos.
Andriolli lembra que esse trabalho encontra resistência. Em um grupo dedicado ao folclore, uma participante questionou por que somente a mulher se transforma em Mula sem Cabeça, enquanto o padre permanece impune. Recebeu como resposta acusações de “mimimi” e reclamações de que nem o folclore escaparia das feministas.
A pergunta, contudo, está longe de ser recente. Em 1939, Basílio de Magalhães já dizia que seu sentimento de justiça rejeitava o “horrível fadário” imposto somente à “frágil filha de Eva”, enquanto o sedutor tonsurado permanecia livre. Problematizar a distribuição desigual do castigo não é aplicar uma moda contemporânea a histórias antigas. É continuar uma crítica existente dentro dos próprios estudos de folclore.
“Permitam-se ouvir as histórias, viver as histórias e retrabalhar esses mitos”, defende Andriolli. A consciência permite que a narrativa deixe de operar apenas como trauma repetido e possa ser convertida em instrumento de compreensão.
É nesse ponto que a live retorna à jovem presa em São Bernardo do Campo. A história da Porca pode ser usada para reiterar que uma mulher que aborta merece punição. Também pode conduzir o olhar à solidão, à ausência do pai, ao risco físico, à desigualdade e ao julgamento enfrentados por ela.
“Aquela garota não precisava ser punida e presa. Ela precisava ser acolhida, porque estava em sofrimento profundo”, afirma Andriolli. Relido dessa maneira, o mito não desaparece. A Porca continua percorrendo a noite com seus leitões, mas deixa de ser apenas a ameaça construída contra as mulheres. Torna-se também uma acusação contra a sociedade que produz seu sofrimento e depois o chama de monstruoso.
Ficha da transmissão
Programa: Popularium ao Vivo – Aborto, Misoginia e a Porca dos Sete Leitões
Projeto: Folclore BR: Somando Visões
Publicação: 14 de setembro de 2017
Participantes: Andriolli Costa, Mariana Bandarra e Pablo de Assis
Fonte: assista à transmissão no Colecionador de Sacis