“Você já está dentro do folclore. Eu só preciso mostrar como”: Somando Visões discute humor, mercado e responsabilidade

Entre a lembrança escolar de personagens repetidos todos os meses de agosto e a circulação acelerada de memes, o folclore brasileiro costuma aparecer no espaço público de forma estreita. De um lado, é tratado como assunto infantil, preso ao Saci, à Cuca, ao Curupira, à Mula sem Cabeça e à Iara. De outro, vira matéria-prima para uma “zoeira” que depende da caricatura, da desinformação e, muitas vezes, do preconceito. O humor não é necessariamente o problema. A questão é saber se ele abre caminhos para a curiosidade ou apenas confirma que aquela cultura não merece ser levada a sério.

Esse foi o ponto de partida do encerramento da segunda edição do Folclore BR: Somando Visões, transmitido em 31 de agosto de 2018. Conduzida por Anderson Awvas, criador do Folclore BR, a conversa reuniu o jornalista e pesquisador Andriolli Costa, do Colecionador de Sacis, o ilustrador e artista conceitual Mikael Quites e o escritor Ian Fraser. O encontro começou como uma conversa sobre “folclore e zoeira”, mas rapidamente se tornou um balanço crítico de todo o mês de programação.

Ao rever as mesas sobre notícia, mercado, cotidiano, Monteiro Lobato e cultura pop, o grupo voltou a perguntas que atravessaram o projeto inteiro: quem tem o direito de contar uma história, o que muda quando uma tradição vira produto, como devolver algo às comunidades que oferecem seus repertórios e por que a palavra “folclore” ainda é usada como sinônimo de mentira ou atraso. Entre divergências, exemplos e autocrítica, emergiu uma ideia comum: divulgar folclore exige mais do que boa intenção. Exige pesquisa, escuta e responsabilidade sobre os efeitos do que se publica.

Este artigo foi elaborado a partir da transcrição integral da transmissão. As falas foram editadas para retirar hesitações, repetições e falhas próprias do reconhecimento automático, sem alterar seu sentido. O encontro fez parte da segunda edição do Somando Visões, iniciativa apresentada por Anderson Awvas em uma conversa com o Poranduba como um esforço coletivo para ampliar a representação, a diversidade e o respeito na produção cultural ligada ao folclore brasileiro.

Quando rir significa diminuir

A conversa partiu de uma piada recorrente na internet: a ideia de que o folclore brasileiro seria formado por personagens “defeituosos” — o Saci teria uma perna, o Curupira teria os pés virados e a Mula não teria cabeça. A fórmula parece inofensiva porque se apresenta como brincadeira, mas reúne dois gestos de redução. Primeiro, transforma diferenças corporais em motivo de inferiorização. Depois, resume a diversidade do imaginário brasileiro a um pequeno elenco repetido desde os livros escolares.

Mikael Quites chamou atenção para a norma escondida nesse tipo de graça. Tudo o que foge de um corpo branco, íntegro e considerado “normal” passa a ser lido como incapacidade. “Se a pessoa não está naquele quadrado do que se espera, ela é vista como alguém que não serve para nada”, resumiu. O problema não está apenas em uma pessoa se sentir individualmente ofendida. Está na reafirmação pública de que determinados corpos, grupos ou identidades podem ser tratados como menos humanos.

Para Andriolli Costa, a dificuldade é ainda maior porque o riso se encontra com um preconceito já consolidado. Como divulgador do tema, ele dedica parte importante de seu trabalho a mostrar que folclore não é um amontoado de curiosidades pitorescas. Quando retorna ao assunto por meio da comédia, sente o risco de reforçar justamente o enquadramento que tenta desmontar. “Quando eu vou trabalhar com humor, parece que estou agindo contra o meu próprio trabalho”, afirmou.

Ian Fraser contrapôs que o humor também pode ser uma força de ruptura. A piada desarma solenidades, expõe contradições e alcança regiões da experiência às quais uma explicação formal nem sempre chega. “O humor tem uma coisa transgressora”, observou. A distinção necessária, para ele, é saber com quem se ri e de quem se ri. Uma brincadeira compartilhada pode aproximar pessoas. A mesma forma, dirigida de cima para baixo, pode apenas reproduzir a violência em linguagem leve.

O algoritmo transforma a piada em porta de entrada

Na internet, esse processo ganha escala. A possibilidade de qualquer pessoa publicar amplia as vozes presentes no debate, mas não garante que todas tenham pesquisado o que dizem. O conteúdo mais visível tampouco é necessariamente o mais cuidadoso. Métricas de curtidas, visualizações e compartilhamentos recompensam mensagens rápidas, reconhecíveis e emocionalmente eficientes. Uma caricatura pode viajar com mais facilidade do que uma explicação sobre as muitas origens e transformações de uma narrativa.

O efeito é especialmente delicado quando a busca parte de uma criança. Se os primeiros resultados associados ao folclore oferecem apenas montagens, zombarias ou versões mal pesquisadas, a rede ensina que o assunto não merece atenção. A desvalorização passa a alimentar a si mesma: produz-se pouco conteúdo aprofundado porque supostamente ninguém se interessa, e o público encontra pouco conteúdo aprofundado porque os produtores presumem que o tema não interessa.

Anderson Awvas lembrou que a liberdade de publicação precisa caminhar ao lado da responsabilidade. A pergunta deixa de ser apenas “posso fazer esta piada?” e passa a incluir “o que esta piada ensina sobre as pessoas e tradições que utiliza?”. Isso não elimina o humor. O riso pode levar à pesquisa quando desperta uma dúvida ou aproxima repertórios. A zoeira vazia encerra o assunto no instante da risada; o humor interessado deixa uma porta aberta.

“Você já está dentro do folclore”

Um dos principais obstáculos enfrentados pelo Somando Visões era a impressão de que folclore seria um universo externo à vida contemporânea. A palavra costuma evocar criaturas da mata, festas de uma região distante ou costumes preservados por outras pessoas. Contra essa imagem, Andriolli propôs uma inversão: “Você já está dentro do folclore brasileiro. Você está dentro do folclore agora. Eu só preciso mostrar como”.

A afirmação retira o folclore da vitrine. Alimentação, festas, maneiras de falar, crenças, gestos cotidianos, brincadeiras, músicas e formas de organizar a memória coletiva fazem parte desse campo. Uma pessoa pode participar de práticas folclóricas sem reconhecer nelas esse nome. Pode acompanhar o Carnaval, uma festa junina ou o Festival de Parintins e, ainda assim, imaginar que folclore se resume aos cinco personagens mais frequentes em atividades escolares.

Esse confinamento explica por que o assunto desaparece das pautas depois de agosto. Na transmissão, Andriolli criticou a lógica que trata o Dia do Folclore como prazo de validade. Jornais e escolas procuram especialistas na semana da data e, depois, deixam o tema morrer até o ano seguinte. A própria cobertura confirma a falsa ideia de que se trata de uma efeméride, e não de um modo de observar processos vivos durante o ano inteiro.

O jornalismo tem uma responsabilidade particular nesse circuito. Se tentar competir com as redes apenas em velocidade e quantidade, perde justamente aquilo que poderia oferecer de melhor: apuração, contexto e profundidade. Também precisa rever seu vocabulário. A palavra “folclore” aparece com frequência como sinônimo de boato, invenção ou comportamento ridículo; políticos excêntricos são chamados de “figuras folclóricas”, enquanto informações falsas são descartadas como “folclore”. O uso cotidiano da linguagem parece pequeno, mas repete a associação entre cultura popular e falta de verdade.

Como observou o grupo, termos como mito e lenda também carregam sentidos positivos e negativos conforme o contexto. Dizer que algo “é mito” pode significar que é falso; chamar alguém de “lenda” pode ser o maior elogio. O cuidado não exige abandonar essas palavras, e sim perceber o que elas comunicam em cada frase. O sentido não está apenas no dicionário. Está no histórico de usos e nas relações que cada escolha reativa.

Quando a piada exige repertório

Anderson levou à live uma série de ilustrações que combinava capas de discos brasileiros com personagens e narrativas do folclore. A experiência funcionava como um pequeno laboratório sobre os limites da referência. “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, encontrava a lenda do Cabeça de Cuia. Legião Urbana se transformava em “Legião Lenda Urbana”. Secos & Molhados dava origem a “Corpos Secos e Molhados”. Negritude Júnior era aproximado da Negrinho do Pastoreio, e a Loira do Banheiro entrava no universo visual de É o Tchan.

O projeto queria aproximar duas zonas da cultura brasileira que raramente são colocadas na mesma imagem. Em vez de ligar toda criatura nacional a um super-herói estrangeiro, Anderson procurava referências da música popular produzida no país. O resultado, porém, teve uma circulação menor do que ele esperava. Parte do público não conhecia as capas originais; outra parte não reconhecia as lendas regionais. A piada exigia dois repertórios e encontrava, muitas vezes, um duplo vazio.

Andriolli destacou “Corpos Secos e Molhados” como um exemplo particularmente feliz, porque a imagem aproximava dois elementos brasileiros sem transformar um deles em simples decoração. O caso também expunha uma dificuldade editorial. Narrativas muito conhecidas parecem oferecer alcance nacional imediato; histórias ligadas a determinados estados ou municípios exigem apresentação, contexto e confiança de que o leitor aceitará aprender algo novo.

É justamente aí que o humor pode trabalhar a favor da divulgação. Anderson cogitou acompanhar as imagens, em exposições impressas, com pequenos textos explicativos. A graça deixaria de depender exclusivamente do reconhecimento prévio e se tornaria um convite. Quem não conhecesse a capa poderia descobri-la; quem nunca tivesse ouvido falar do Corpo-Seco ou do Cabeça de Cuia ganharia uma primeira pista. A piada não perderia força por ser explicada. Ela passaria a produzir repertório.

Folclore não termina em agosto

O encerramento também revisitou a estrutura da segunda edição do Somando Visões. Ao longo de agosto, o projeto realizou uma transmissão por semana, cada uma organizada em torno de uma pergunta provocativa. A primeira tratou das relações entre folclore, notícia e desinformação. A segunda discutiu produtos, mercado e autoria. A terceira deslocou a atenção das criaturas para as práticas cotidianas. A quarta enfrentou o legado de Monteiro Lobato. A quinta examinou as conexões com a cultura pop e o audiovisual.

O formato permitiu que um assunto reaparecesse sob ângulos diferentes. A mesa sobre notícia levou ao uso depreciativo da palavra “folclore”; a de cotidiano mostrou que o campo não cabe em catálogos de seres fantásticos. O encontro sobre cultura pop discutiu a entrada das narrativas tradicionais em filmes, séries e jogos, enquanto a conversa sobre Lobato ligou memória literária, racismo e educação.

Mais do que oferecer respostas definitivas, as mesas funcionaram como lugares de elaboração coletiva. Andriolli observou que os participantes não se reuniam para repetir fórmulas já prontas. A cada encontro, testavam argumentos e avançavam um pouco no pensamento. Essa disposição contraria a imagem de uma “cúpula” de especialistas autorizada a determinar o que o folclore é. Os convidados falavam a partir de pesquisas e experiências concretas, mas também reconheciam dúvidas, limites e mudanças de posição.

O calendário de agosto era apenas uma estratégia de mobilização. O objetivo mais amplo era manter o tema circulando depois da data oficial. Isso significa reconhecer práticas vivas e criar pontes com públicos que talvez nunca procurem espontaneamente a palavra “folclore”. Significa ainda admitir que a tradição se transforma quando é narrada, vendida, filmada, ensinada ou convertida em piada.

Produto, autoria e contrapartida

Entre os assuntos retomados no encerramento, a transformação de referências culturais em produto gerou uma das discussões mais densas. Livros, estampas, ilustrações, filmes e jogos podem ampliar a presença de narrativas brasileiras e sustentar o trabalho de quem pesquisa e cria. O dinheiro, como ressaltou Andriolli, não é moral por si mesmo. A questão é observar de onde vem o repertório, quem se beneficia de sua circulação e que relação o produtor estabelece com as pessoas que o mantêm vivo.

Anderson formulou o desconforto de modo direto. Ao criar uma peça inspirada em culturas indígenas, africanas ou formadas por encontros históricos entre diferentes populações, o artista pode acabar concentrando o retorno em um grupo capaz de pagar pelo produto. A homenagem declarada não resolve essa desigualdade. Pesquisa, cuidado estético e afeto são importantes, mas precisam ser acompanhados por alguma forma de devolução.

Essa contrapartida pode envolver remuneração, crédito, divulgação, apoio a iniciativas locais ou preservação de acervos. Antes de escolher, é necessário conversar com a comunidade envolvida. Uma ajuda imaginada de fora pode responder mais à consciência de quem oferece do que às necessidades de quem recebe.

Na live, Andriolli recordou o caso de pesquisadores que teriam registrado cantorias de uma comunidade caiçara e publicado um livro sem fins lucrativos. A obra acabou comercializada fora do país, em euros, sem retorno financeiro para os detentores daquele conhecimento. O episódio serviu de alerta: declarar ausência de lucro em uma etapa não encerra a responsabilidade sobre a circulação posterior.

Mikael acrescentou outra tensão. Recusar um projeto problemático pode apenas transferi-lo para alguém menos cuidadoso; aceitá-lo não garante legitimidade. Sua resposta tem sido procurar interlocutores indígenas e pesquisadores, submeter ideias ao diálogo e usar sua posição para reduzir danos. Ele citou Denilson Baniwa, Daniel Munduruku e Aline Potiguara como parte desse processo de escuta.

Andriolli sintetizou o princípio em uma frase: “O respeito não está só na palavra. Ele precisa virar movimento”. Consultar uma pessoa depois de toda a criação concluída, apenas em busca de aprovação, é diferente de permitir que a conversa altere o trabalho. O segundo caminho envolve risco: ouvir que uma escolha está equivocada, renunciar a uma solução visual ou rever uma história. Mas é justamente essa possibilidade de mudança que transforma a consulta em relação, e não em selo.

O monstro não está apenas no passado

A transmissão de 22 de agosto, dedicada a Monteiro Lobato, foi a mais assistida da edição e voltou ao encerramento como exemplo de debate que exigia fugir de respostas confortáveis. O grupo não pretendia absolver o escritor em nome de sua importância histórica, nem reduzir a discussão à retirada de seus livros. A pergunta era como reconhecer simultaneamente sua influência na literatura infantil, a presença de racismo em sua obra e os efeitos atuais de sua leitura nas escolas.

Para Andriolli, transformar Lobato em um monstro excepcional pode aliviar o presente. Se o racismo pertencer apenas a uma figura distante e moralmente incompreensível, leitores de hoje não precisam examinar as violências que continuam reproduzindo. “O monstro está do seu lado. Muitas vezes, o monstro é você”, afirmou. A frase não dissolve as responsabilidades individuais; ela impede que a sociedade trate sistemas violentos como obras exclusivas de personagens extraordinariamente maus.

O mesmo raciocínio atravessa a produção cultural contemporânea. Boa intenção não impede que um artista repita estereótipos, nem que uma editora explore um repertório comunitário sem retorno. Considerar-se respeitoso não substitui pesquisa, diálogo e revisão. A responsabilidade começa quando alguém aceita que também pode errar — e cria condições para que o erro seja apontado antes de se consolidar em obra, produto ou campanha.

No caso de Lobato, a escola pode transformar a controvérsia em instrumento crítico. Isso requer mediação, contextualização e espaço para que estudantes examinem como os personagens são descritos. Entre a veneração e o apagamento existe um trabalho pedagógico mais difícil: ler a contribuição e o dano sem fazer um cancelar o outro.

Plantar repertório para além da zoeira

Ao final, o Somando Visões apareceu menos como uma coleção de palestras e mais como um esforço para criar linguagem comum entre áreas distintas. Ilustradores, escritores, jornalistas e pesquisadores encontraram problemas semelhantes: pouca bibliografia acessível, pressão por referências reconhecíveis, receio de errar e um mercado que prefere aquilo que já provou vender.

O caminho defendido não foi o de esperar uma formação perfeita para começar, mas produzir enquanto se ampliam as redes de consulta e se corrigem rotas. Anderson falou em plantar sementes. Mikael ressaltou que compartilhar uma paixão ajuda outras pessoas a aprender. Andriolli descreveu encontros em que os próprios participantes descobriam relações ainda não formuladas.

Nesse processo, a cultura pop não aparece como inimiga da tradição. Uma série, um jogo, uma capa recriada ou uma piada podem levar alguém a uma narrativa regional, desde que o encontro não termine na superfície. Também não basta substituir referências estrangeiras por símbolos brasileiros e chamar isso de valorização. É preciso perguntar por que aquele elemento está ali, que história carrega e o que a nova obra devolve ao mundo de onde o retirou.

A frase de Andriolli — “você já está dentro do folclore” — oferece uma medida para esse trabalho. Divulgar não é transportar um objeto exótico até um público externo. É revelar vínculos que já existem, mas foram escondidos pelo ensino estreito, pela cobertura sazonal e pela hierarquia que chama algumas práticas de cultura e outras de atraso. O humor pode ajudar nessa revelação porque produz reconhecimento rápido e prazeroso.

Para isso, porém, a zoeira precisa aceitar uma tarefa que parece contraditória com sua velocidade: permanecer depois do riso. Uma boa aproximação não reduz o Saci à perna que lhe falta, a comunidade à imagem que vende ou a tradição ao calendário de agosto. Ela faz o público rir, estranhar e continuar. É nessa continuidade — na vontade de perguntar de onde veio, quem conta e como vive — que a brincadeira deixa de fechar o assunto e começa a somar visões.


Ficha da transmissão

Transmissão: Encerramento do Folclore BR: Somando Visões 2018
Data: 31 de agosto de 2018
Participantes: Anderson Awvas, Andriolli Costa, Mikael Quites e Ian Fraser
Projeto: Folclore BR: Somando Visões — segunda edição
Contexto: Poranduba 13 — Anderson Awvas e o Somando Visões

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