“A corrida sempre parece perdida”: Andriolli Costa investiga os mitos do jornalismo

Em episódio do Papo Lendário, pesquisador explica como Cronos, Zeus, Prometeu e Fausto ajudam a compreender a pressa, a autoridade, o ideal de progresso e a crise simbólica da imprensa

O relógio sempre acompanhou o jornalismo. Na redação industrial, porém, deixou de servir apenas como medida e passou a comandar o trabalho: fechar a edição, chegar antes do concorrente, atualizar a página, publicar em tempo real. Na leitura do jornalista e pesquisador Andriolli Costa, essa fome pelo presente dá forma contemporânea a uma imagem muito mais antiga — a de Cronos, o titã que devora os próprios filhos.

Foi a partir desse encontro entre mitologia e teoria do jornalismo que Costa conversou com Leonardo Tremeschin e Pablo de Assis no episódio 192 do podcast Papo Lendário. O ponto de partida foi sua tese de doutorado, O imaginário do jornalismo: fundamentos epistemológicos para uma crise simbólica, defendida em 2019 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A pesquisa propõe que a crise do jornalismo não se resume à perda de receita, à transformação dos modelos de negócio ou à disputa por credibilidade. Existe também uma crise das imagens pelas quais a profissão aprendeu a se reconhecer: o repórter como testemunha privilegiada, a imprensa como cão de guarda, a notícia como luz lançada sobre a escuridão e a tecnologia como promessa de um progresso que nunca chega por inteiro.

Publicado em 28 de maio de 2019, o episódio tem 1h48min de duração e percorre conceitos da Teoria Geral do Imaginário, mitos gregos e obras fundamentais do pensamento jornalístico brasileiro. Os principais argumentos da conversa foram reorganizados nesta matéria e cotejados com o artigo Jornalismo e mito: fundamentos de uma crise simbólica, publicado posteriormente por Costa.

Mitocrítica não é procurar deuses escondidos

Utilizar mitos para estudar o jornalismo não significa tratar a profissão como ficção, nem procurar correspondências arbitrárias entre personagens gregos e situações contemporâneas. Na perspectiva adotada por Costa, o mito é uma forma discursiva assumida pelo imaginário: uma narrativa que organiza imagens, conflitos e respostas humanas diante de angústias recorrentes.

A mitocrítica permite reconhecer essas imagens quando elas aparecem, mesmo sem serem nomeadas, em textos produzidos por determinada cultura. Em vez de partir de Cronos ou Prometeu e forçar sua presença no objeto, o pesquisador observa metáforas, verbos, antagonismos e recorrências até identificar as famílias míticas que os articulam.

No caso da tese, o corpus reuniu seis obras publicadas em momentos decisivos da história brasileira: A imprensa e o dever da verdade, de Rui Barbosa; O problema da imprensa, de Barbosa Lima Sobrinho; Iniciação à filosofia do jornalismo, de Luiz Beltrão; O espírito do jornalismo, de Danton Jobim; Ideologia e técnica da notícia, de Nilson Lage; e O segredo da pirâmide, de Adelmo Genro Filho.

Escritos em contextos diferentes, esses livros não apresentam uma única definição da atividade. Juntos, no entanto, revelam imagens persistentes sobre o que o jornalismo acredita ser, o que promete à sociedade e quais ameaças enxerga diante de si.

Cronos entra na redação

O primeiro conjunto de imagens se organiza em torno do tempo. A própria palavra jornalismo carrega o jour, o dia, e vincula a profissão à tarefa de narrar o presente. Com a industrialização da imprensa, essa relação foi submetida à concorrência, à periodicidade rígida e à aceleração da produção.

Cronos não aparece apenas na pressa do repórter ou no horário de fechamento. Ele está também no apetite do público por atualizações contínuas. Exige-se rapidez, mas critica-se a superficialidade; acompanha-se uma cobertura minuto a minuto, mas condenam-se mudanças de versão enquanto os fatos ainda estão sendo apurados. O mesmo presente que alimenta o jornalismo ameaça devorá-lo.

A lógica alcança intensidade ainda maior no ambiente digital. A edição que antes terminava quando o jornal seguia para a gráfica dá lugar a um fluxo sem encerramento. A notícia precisa ser publicada, corrigida, atualizada, distribuída e novamente promovida. Quanto mais a tecnologia promete vencer o tempo, mais distante parece a linha de chegada.

Para Costa, essa aceleração não é apenas uma limitação externa. Ela foi incorporada à identidade profissional e naturalizada como prova de eficiência. O perigo surge quando já não existe tempo para interpretar e o trabalho se reduz a manter a máquina em movimento.

Zeus organiza o caos — e disputa o controle

Se Cronos representa a devoração do tempo, Zeus ajuda a compreender a relação do jornalismo com a ordem. Diante de uma quantidade infinita de acontecimentos, a imprensa seleciona, hierarquiza e produz uma narrativa inteligível do presente. Transforma dispersão em sequência; escolhe o que será lembrado; oferece referências para que as pessoas decidam como agir.

É dessa função organizadora que nasce parte da autoridade social do jornalismo. A imagem da imprensa como orientadora, porém, também contém uma disputa por poder. Quem ordena os acontecimentos pode pretender ordenar a própria sociedade. E quem governa — no campo político, econômico ou religioso — pode reagir quando a vigilância jornalística ameaça sua capacidade de controle.

O conflito ajuda a explicar imagens profissionais como os “olhos da nação”, o cão de guarda e o quarto poder. Todas colocam o jornalismo em posição elevada: alguém observa, distingue, denuncia e, de certa maneira, vigia até mesmo os governantes. Essa proximidade com o poder pode produzir enfrentamento, mas também sedução, cooptação e cegueira voluntária.

A mesma busca por ordem, adverte Costa, não garante uma atuação progressista. Uma empresa jornalística pode identificar o caos em um governo autoritário e enfrentá-lo; pode também localizar a ameaça nos movimentos de transformação social e assumir uma posição reacionária. A pulsão organizadora é semelhante. O que muda é a definição de quem ou do que precisa ser contido.

Prometeu leva o fogo da notícia

Outro mito decisivo para o imaginário profissional é Prometeu. Seu nome costuma ser interpretado como aquele que pensa ou vê antes. Na mitologia grega, o titã rouba o fogo divino e o entrega aos seres humanos, rompendo o monopólio dos deuses sobre a técnica e o conhecimento. Por seu gesto, é acorrentado a um rochedo e condenado a ter o fígado continuamente devorado por uma ave.

A imagem se aproxima com facilidade das narrativas que o jornalismo construiu sobre si. O repórter observa para revelar, ilumina o que estava escondido e oferece ao público um conhecimento antes concentrado nas mãos dos poderosos. Ao mesmo tempo, permanece acorrentado à atualidade: cada novo acontecimento consome o trabalho anterior e exige que a tarefa recomece.

Prometeu também encarna a confiança moderna na razão, na técnica e no progresso. Essa herança foi fundamental para a consolidação da imprensa industrial, capaz de ampliar tiragens, alcançar grandes públicos e transformar informação em produto cotidiano. O problema começa quando a eficiência deixa de ser meio e passa a ocupar o lugar da finalidade.

O jornalismo nasce historicamente junto à expansão do capitalismo e dos meios industriais de difusão. Isso não significa reduzi-lo a instrumento automático de uma classe ou negar sua potência transformadora. Significa reconhecer a herança de uma estrutura que cobra velocidade, produtividade, alcance e lucro — mesmo quando esses valores entram em conflito com a apuração, a reflexão e o interesse público.

O que restou no jarro de Pandora?

O episódio também recupera um detalhe frequentemente apagado nas versões populares do mito de Pandora. No relato de Hesíodo, ela não abre propriamente uma caixa, mas um pithos, grande jarro utilizado pelos gregos. De dentro dele escapam os males que passam a afligir a humanidade. Apenas elpis permanece no recipiente.

O termo costuma ser traduzido como esperança, mas também carrega o sentido de expectativa. Essa variação torna menos simples o final da história. A esperança foi preservada para consolar os humanos ou permaneceu aprisionada, fora de seu alcance? E a expectativa representa confiança no que virá ou apenas a capacidade de antecipar novos sofrimentos?

A ambiguidade amplia a reflexão sobre uma profissão acorrentada ao presente. Um jornalismo que corre continuamente atrás do que acaba de acontecer pode perder a capacidade prometeica de “ver antes”: antecipar consequências, acompanhar processos e imaginar possibilidades que não cabem na atualização imediata. Resistir a Cronos não seria simplesmente publicar mais rápido, mas recuperar uma relação menos estreita com o futuro.

Quando Prometeu se transforma em Fausto

Na passagem de Prometeu a Fausto, a confiança na técnica ganha uma dimensão sombria. O personagem da tradição alemã vende a alma em troca de conhecimento, poder e experiências ilimitadas. Nada, entretanto, consegue afetá-lo por muito tempo. Seu movimento em direção à próxima conquista é contínuo.

Essa incapacidade de interromper a marcha oferece uma chave para pensar a desumanização do jornalismo. Novas ferramentas prometem reduzir custos, acelerar processos e multiplicar conteúdos. Mesmo assim, a sensação de atraso permanece. A redação corre atrás do tempo real, das métricas, dos algoritmos e da próxima plataforma sem conseguir perguntar que tipo de vínculo produz com as pessoas.

A crítica não equivale a recusar a tecnologia. O fogo de Prometeu aquece, ilumina e transforma; também pode queimar. O problema está no pacto que subordina todas as escolhas à eficiência e trata o humano como obstáculo. Nesse ponto, o progresso cobra sua moeda: precarização, acúmulo de funções, empobrecimento da experiência e perda da capacidade de se deixar afetar pelo mundo narrado.

Até mesmo alternativas apresentadas como ruptura podem repetir o mito que pretendem superar. O jornalismo empreendedor e independente, por exemplo, abre espaços para novas vozes e formatos, mas também pode esconder jornadas excessivas, remuneração baixa e a transferência de todos os riscos para o profissional. Muda-se a estrutura visível sem necessariamente abandonar a lógica da máquina.

Uma crise de imagens

O diagnóstico de Costa não desemboca em nostalgia por uma suposta idade de ouro da imprensa. O passado idealizado é também uma construção imaginária. O jornalismo industrial produziu reportagens decisivas e ampliou a circulação de informações, mas conviveu com concentração de propriedade, censura, interesses econômicos e exclusões de toda ordem.

A crise simbólica aparece justamente porque as velhas imagens perderam parte de sua força sem que outras tenham ocupado seu lugar. O herói do povo, o interventor, o cão de guarda e a testemunha imparcial continuam sendo acionados, embora já não deem conta de um ecossistema no qual o jornalismo perdeu o monopólio sobre a narrativa da atualidade.

Reconstruir essa identidade exige mais do que encontrar uma nova metáfora publicitária. Significa perguntar a quem o jornalismo serve, que vínculos é capaz de estabelecer e como pode recuperar sua função de orientar a ação coletiva sem se colocar acima da sociedade. No artigo derivado da tese, Costa sintetiza esse compromisso como a capacidade de “orientar a ação no sentido do bem comum”.

Os mitos, nesse percurso, não oferecem receitas para salvar a profissão. Eles tornam visíveis desejos e contradições que as explicações puramente econômicas ou tecnológicas deixam escapar. Cronos recorda o preço da fome pelo presente; Zeus, a ambiguidade da ordem; Prometeu, a potência e o castigo da técnica; Fausto, o risco de conquistar velocidade e perder a alma.

Talvez o primeiro passo para imaginar outro jornalismo seja reconhecer quais histórias antigas a profissão continua repetindo quando fala sobre o próprio futuro.

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