Episódio reúne entrevistas com Severino Vicente, César Baia e Lourdes Macena para discutir os desafios da Comissão Nacional de Folclore, o trabalho do CNFCP e o compromisso com as comunidades tradicionais

Não basta admirar uma dança tradicional, reproduzir seus movimentos ou lamentar que determinadas manifestações estejam desaparecendo. Para a professora Lourdes Macena, quem trabalha com folclore também precisa se comprometer com as condições de vida das comunidades responsáveis por esses saberes.
Isso significa discutir território, reforma agrária, escolas, acesso aos editais e reconhecimento político. “Você não tem como ficar mais em cima do muro. Você tem que dizer de que lado está”, afirmou.
A fala integra o episódio “Poranduba 2024 – Comissão de Folclore”, publicado em 8 de setembro de 2024. Apresentado por Andriolli Costa, o programa reuniu três entrevistas gravadas durante o Congresso Nacional de Folclore realizado no ano anterior.
O primeiro entrevistado foi Severino Vicente, então presidente da Comissão Nacional de Folclore. Na sequência, César Baia apresentou o trabalho desenvolvido pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e pelo Museu de Folclore Edison Carneiro. Por fim, Lourdes Macena refletiu sobre educação, salvaguarda, apropriação cultural e a atuação junto aos povos originários.
O episódio foi organizado a partir da eleição de uma nova diretoria para a Comissão Nacional de Folclore, conduzida por Marlei Sigrist. Depois de dois mandatos consecutivos de Severino Vicente, a mudança colocava em pauta não apenas a continuidade institucional, mas um desafio mais amplo: tornar a Comissão novamente conhecida para além do círculo de pesquisadores e integrantes das comissões estaduais.
Uma instituição sem recursos próprios
Historiador, escritor e folclorista do Rio Grande do Norte, Severino Vicente permaneceu por dez anos na presidência da Comissão Nacional de Folclore. Na entrevista, apontou a falta de recursos como uma das principais dificuldades enfrentadas pela entidade.
A realização dos congressos dependia de apoio dos governos estaduais e das instituições que recebiam cada edição. Mesmo assim, os participantes normalmente precisavam pagar as próprias passagens para chegar aos encontros.
A pandemia acrescentou outro obstáculo. Durante dois anos, os eventos presenciais foram interrompidos, mas a Comissão realizou um simpósio nacional on-line e participou de encontros e seminários virtuais.
Severino contou que acabou se adaptando às reuniões remotas. Num período em que as pessoas não podiam sair de casa, as atividades se tornaram uma oportunidade de reencontrar amigos e pesquisadores de diferentes regiões. O ambiente virtual também permitiu que a Comissão permanecesse presente em encontros para os quais, em outras circunstâncias, as dificuldades financeiras poderiam impedir o deslocamento.
Entre as tarefas que permaneceram para as gestões seguintes, ele destacou a necessidade de reorganizar comissões estaduais e recuperar a interlocução com o governo federal. Antes do governo Jair Bolsonaro, segundo Severino, a Comissão mantinha relações com o Ministério da Cultura e participava de espaços institucionais. A ruptura desse diálogo reduziu ainda mais sua capacidade de atuar na formulação de políticas públicas.
“Nós temos o conhecimento. Isso é muito importante”, defendeu.
Cinco minutos com Câmara Cascudo
Durante a conversa, Severino também recordou as visitas que fez a Luís da Câmara Cascudo nos últimos anos de vida do pesquisador. Cascudo já tinha dificuldades para ouvir, por isso as perguntas precisavam ser escritas em pequenos bilhetes.
As visitas eram breves. Severino entregava uma pergunta, Cascudo lia e respondia. Depois de alguns minutos, o pesquisador avisava que já era hora de o visitante seguir para outro lugar e deixá-lo em paz.
O episódio recupera ainda uma declaração de Cascudo sobre a dedicação aos próprios temas de pesquisa. Ao ser questionado sobre como havia conseguido produzir tantos livros, ele teria relacionado a extensa obra à decisão de não abandonar suas investigações cada vez que surgia uma novidade.
“Compreendi a minha vida e vivo a minha vida. Não vivi a vida dos outros. Estudei o que amei. Pesquisei e discuti sobre os assuntos que eu queria escrever”, afirmou Cascudo na entrevista recuperada por Severino.
A lembrança funciona como um comentário sobre a própria continuidade dos estudos de folclore. Mais do que seguir sucessivos modismos acadêmicos, o trabalho exige tempo, observação e compromisso com os temas pesquisados.
Um centro de pesquisa que também possui um museu
A segunda entrevista foi realizada com César Baia, pesquisador do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
César começou esclarecendo uma confusão frequente. O Centro não se limita ao Museu de Folclore Edison Carneiro. Trata-se de um órgão de pesquisa, documentação, preservação e difusão que, entre suas diferentes estruturas, mantém também um museu.
A origem institucional remonta ao movimento folclórico organizado no país a partir da década de 1940. Em 1947, foi criada a Comissão Nacional de Folclore, vinculada às diretrizes da Unesco. Em 1958, surgiu a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, primeiro órgão permanente do Estado dedicado ao campo. Ao longo das décadas, a instituição recebeu diferentes nomes até chegar ao atual Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.
O Museu de Folclore Edison Carneiro, criado em 1968, concentra-se na preservação e na exposição da cultura material. O Centro, por sua vez, desenvolve pesquisas que ultrapassam os objetos guardados nas reservas técnicas.
Um exemplo é o programa Sala do Artista Popular, criado em 1983. As equipes identificam artistas e comunidades artesanais em diferentes partes do país, realizam pesquisas nos territórios e organizam exposições no Rio de Janeiro.
As peças ficam disponíveis para venda e o valor é revertido aos próprios artistas. Depois do encerramento da exposição, o Centro continua funcionando como ponto de comercialização para aquela pessoa ou comunidade. Algumas obras também são adquiridas para o acervo do Museu, mantendo a reserva técnica em permanente atualização.
A pesquisa, portanto, não serve apenas para explicar uma peça depois que ela entra no museu. Ela acompanha o artista, o território, as relações comunitárias, os modos de produção e os sentidos atribuídos ao trabalho.
César também relacionou essa abordagem à ampliação do conceito de cultura ocorrida a partir da década de 1980. Sob a influência de pesquisadoras como Lélia Coelho Frota, o Centro aproximou-se do olhar antropológico e passou a observar não somente o artista individual, mas o conjunto de relações nas quais sua produção está inserida.
“Cada comunidade diz de si”
A terceira entrevista deslocou a discussão institucional para o campo da educação e da ação política. Professora do Instituto Federal do Ceará, Maria de Lourdes Macena de Souza atua há mais de quatro décadas com manifestações tradicionais, danças dramáticas e formação de professores. Também presidiu a Comissão Nacional de Folclore entre 2008 e 2012 e coordena o Grupo Miraíra.
No IFCE, contribuiu para a criação de disciplinas voltadas às culturas tradicionais nos cursos de Turismo, Teatro e Artes. As atividades aproximam os estudantes de mestres, grupos, comunidades quilombolas e povos originários.
Para Lourdes, esse contato exige que pesquisadores e professores reconheçam os limites de sua própria autoridade. Não cabe ao intelectual determinar de fora como uma comunidade deve classificar sua cultura.
“Eu parto do princípio de que não é função do intelectual estar dizendo para as comunidades o que é o quê. Cada comunidade diz de si”, afirmou.
A discussão aparece com frequência quando povos indígenas recusam a classificação de suas práticas como folclore. Na avaliação da professora, a resposta precisa ser compreendida dentro de uma história de preconceito e desqualificação dos saberes tradicionais.
Se uma comunidade afirma que sua cultura não é folclore, mas cultura indígena ou cultura de um povo originário, essa definição deve ser respeitada. A preocupação não está em determinar se a manifestação atende ou não a uma lista externa de características, mas em reconhecer o direito de cada povo falar de si.
Salvaguardar é inserir na vida
Lourdes também questionou a ideia de que preservar um patrimônio significa apenas documentá-lo, descrevê-lo ou mantê-lo dentro de um museu. No caso dos saberes imateriais, a salvaguarda depende da continuidade das práticas na vida cotidiana.
Ela recorreu a exemplos simples: oferecer cajuína em vez de refrigerante industrializado ou preparar uma tapioca em lugar de um alimento comprado pronto. Os saberes tradicionais permanecem vivos quando são praticados, compartilhados e incorporados às experiências contemporâneas.
A mesma lógica orienta o ensino. Um estudante pode ler diferentes textos sobre o Maneiro-Pau, mas dificilmente compreenderá a manifestação sem segurar o bastão, experimentar o ritmo, cantar e tentar construir os versos improvisados.
“Ele só vai saber o que é no momento em que experimentar”, resumiu.
Essa defesa da experiência ajuda a compreender o trabalho de grupos que apresentam danças inspiradas em culturas às quais nem todos os integrantes pertencem. Para Lourdes, a questão não pode ser reduzida a uma proibição. Em muitas escolas, a alternativa a essas experiências não seria receber diretamente um mestre ou uma comunidade, mas não ter contato algum com aquelas referências.
O protagonismo deve permanecer com os detentores dos saberes. Entretanto, eles não conseguem estar presentes em todas as escolas. Cabe aos educadores buscar sua participação sempre que possível, estudar os sentidos das práticas, reconhecer sua origem e desenvolver um trabalho comprometido com as comunidades.
O envolvimento é muito mais que dança
Apropriação cultural, para Lourdes, acontece quando alguém retira um elemento de seu contexto porque o considera bonito, mas não procura conhecer os sentidos que ele possui nem as lutas do grupo que o produziu.
A solidariedade segue o caminho contrário. Quem apresenta uma dança indígena, trabalha com um grafismo ou ensina uma cantiga também deve se comprometer com os povos aos quais essas manifestações pertencem.
A professora contou que atividades envolvendo o toré ajudam a aproximar os estudantes das discussões sobre o marco temporal e os direitos territoriais. Uma conferência convencional pode atrair poucas pessoas. Quando a atividade começa com uma roda e uma dança, o público se aproxima. Depois, com os representantes indígenas no centro da conversa, torna-se possível escutar e compreender suas reivindicações.
Não se trata de substituir a voz das comunidades. Trata-se de utilizar a arte para criar condições de escuta e, a partir daí, devolver a palavra aos “donos da história”.
Lourdes também criticou a nostalgia que transforma a precariedade em imagem romântica. Diante da reprodução de uma pequena casa rural com fogão a lenha, visitantes podem suspirar e dizer que antigamente a vida era melhor. Depois da visita, entretanto, retornam para suas casas confortáveis.
Valorizar uma cultura não significa desejar que seus detentores permaneçam sem acesso a moradia, educação, tecnologia ou políticas públicas. “A questão do envolvimento é muito mais que dança”, afirmou. “É também um espaço de luta política.”
Ao reunir as três entrevistas, o Poranduba apresenta diferentes dimensões de um mesmo campo. Severino Vicente fala das dificuldades para manter uma instituição nacional sem recursos próprios. César Baia mostra como a pesquisa pode alimentar acervos e construir relações duradouras com artistas e comunidades. Lourdes Macena lembra que nenhum desses trabalhos se completa sem compromisso político.
O folclore aparece, assim, não como uma coleção de objetos antigos ou uma sequência de apresentações coloridas, mas como um campo atravessado por instituições, políticas públicas, conflitos, direitos e escolhas. Estudar os saberes tradicionais também exige perguntar quem pode continuar praticando-os, em quais territórios e sob quais condições.