Live reuniu Anderson Awvas, Andriolli Costa, Lorena Herrero, Mikael Quites e Ian Fraser para discutir os desafios de comunicar o folclore nas redes e anunciar os próximos caminhos do projeto
Dez edições depois, o Somando Visões chegou ao fim de seu primeiro ciclo. No encerramento da programação de 2026, realizado nesta segunda-feira (31), Anderson Awvas anunciou que o evento não continuará no formato atual. A mudança, no entanto, não representa o encerramento do projeto.
“O Somando Visões não vai morrer, ele vai mudar”, afirmou.
A decisão foi apresentada durante a live “O resultado do que somamos”, que reuniu Awvas, Andriolli Costa, Lorena Herrero, Mikael Quites e Ian Fraser. O encontro serviu tanto para avaliar o caminho percorrido desde a primeira edição quanto para discutir os desafios de falar sobre folclore em uma internet organizada por bolhas, frases prontas e disputas de atenção.
A contagem merece precisão: são dez edições realizadas anualmente entre 2017 e 2026. O aniversário de dez anos da primeira edição será completado em 2027, distinção feita pelo próprio Anderson durante a transmissão. O Folclore BR, por sua vez, é anterior: foi criado em 2013 e passou a funcionar como projeto de autoria coletiva em 2017.
A atividade encerrou a décima edição do Somando Visões, que teve como tema “Mãos e Memória”. Ao longo de agosto, a programação recuperou debates anteriores em quatro conversas: “Artesanato é o folclore em produto?”, “Infinitos universos folclóricos”, “Folclore é feito para assustar crianças?” e “‘Mitologia brasileira’ e a mitologia cristã”.
Quando o argumento já chega pronto
A primeira parte da conversa partiu de uma inquietação recorrente no mês do folclore: a circulação de conteúdos que apresentam o próprio termo como necessariamente colonial, ultrapassado ou ofensivo. Para os participantes, o problema não está em investigar criticamente a história da palavra nem em reconhecer os usos pejorativos que ela recebeu. A preocupação aparece quando a simples substituição do nome é apresentada como solução para problemas que permanecem intocados.
Andriolli Costa chamou atenção para o modo como parte desse discurso vem sendo produzida e repetida com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.
Na avaliação do pesquisador, quando o usuário pede apenas argumentos para confirmar uma posição anterior, a ferramenta pode entregar referências e justificativas que reforçam essa premissa, sem apresentar as divergências existentes no campo. A observação não significa que toda resposta produzida por inteligência artificial funcione dessa maneira. O risco discutido na live, porém, encontra paralelo nas pesquisas sobre a chamada “bajulação algorítmica” ou sycophancy, comportamento pelo qual modelos tendem a concordar excessivamente com o usuário, inclusive diante de afirmações problemáticas.
Outro ponto levantado por Andriolli foi a dificuldade de transformar dez edições de discussões em material facilmente localizável. As lives permanecem disponíveis no YouTube e contam com transcrições automáticas, mas uma conversa longa ainda é mais difícil de pesquisar, citar e recuperar do que um texto organizado por temas.
A questão não é afirmar que os vídeos estejam completamente fora dos mecanismos de busca, mas reconhecer que boa parte dos argumentos acumulados permanece dispersa em horas de gravação. Entre os caminhos mencionados estão a edição das lives como podcasts, a produção de cortes contextualizados, a publicação de textos e a seleção das melhores entrevistas para um livro.
O dado não chama atenção apenas pelo volume do material produzido, mas pelo que ele mostra. Enquanto as redes privilegiam respostas rápidas, o Somando Visões construiu um arquivo de conversas longas, marcadas por dúvidas, divergências e mudanças de pensamento.
Uma palavra criada em 1846 — e transformada desde então
A discussão também recuperou a história do termo. A palavra folk-lore foi proposta pelo antiquário inglês William John Thoms em uma carta publicada na revista The Athenaeum em 22 de agosto de 1846. A data correta é 1846, e não 1845, como aparece em alguns textos de divulgação.
Durante a live, Andriolli lembrou que um conceito não permanece restrito à formulação de seu criador. No verbete “Folclore” do Dicionário do Folclore Brasileiro, Luís da Câmara Cascudo argumentava que nenhuma área de investigação fica imobilizada nos limites de seu nascimento. Para mostrar que o folclore não se restringe ao passado ou ao mundo rural, o pesquisador citava o laboratório químico, o transatlântico, o avião atômico e o parque industrial como espaços capazes de produzir experiências folclóricas quando ganham sentidos compartilhados para além de sua função imediata. O trecho pode ser consultado em artigo de Cristina Schmidt que reproduz a definição de Cascudo.
Essa compreensão dinâmica também não é uma formulação isolada do coletivo. A Carta do Folclore Brasileiro de 1995, elaborada no VIII Congresso Brasileiro de Folclore, apresenta a dinamicidade como um dos fatores de identificação das manifestações folclóricas. O documento atualizou a carta de 1951 para acompanhar as transformações da sociedade e os avanços das Ciências Humanas e Sociais.
A equivalência entre folclore e cultura popular mencionada na transmissão também encontra respaldo documental, embora os sentidos dos termos continuem em disputa. Na Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, aprovada em 1989, a Unesco utilizou a formulação “folclore — ou cultura tradicional e popular” para definir as criações baseadas nas tradições de uma comunidade e reconhecidas como expressão de sua identidade cultural e social.
Isso não apaga a história pejorativa de determinados usos. Em reflexão citada por Lorena Herrero no final da live, Luiz Antonio Simas define o folclore como um termo em disputa. Para o historiador, a palavra pode ser mantida desde que seja redimensionada e não reproduza a “simpatia pitoresca” que reconhece as culturas populares sem enfrentar os preconceitos dirigidos contra elas.
Trocar o nome não encerra o problema
O grupo também discutiu algumas alternativas propostas para substituir a palavra folclore. Expressões como “cosmologias indígenas” e “encantados” podem ser adequadas em contextos específicos, mas se tornam igualmente generalizantes quando são aplicadas indistintamente a todos os povos e experiências.
O termo “encantado” aparece em diferentes contextos indígenas, afro-indígenas e populares, mas não designa uma categoria universal e homogênea. Estudos sobre os Munduruku, os Baré e Tukano e os Pankararu, por exemplo, mostram relações e vocabulários próprios. Reunir todas essas experiências sob a mesma classificação pode apagar justamente a diversidade que se pretendia reconhecer.
Ian Fraser abordou o tema a partir de uma passagem de Cartografia para caminhos incertos. No livro, um personagem observa que a substituição de uma palavra não permite escapar automaticamente da ideia associada a ela. Na live, o escritor usou o trecho para defender que a mudança dos nomes pode ser necessária, mas não substitui o enfrentamento das violências, preconceitos e estruturas que permanecem por trás deles.
O grupo também discutiu a possibilidade de discordar sem eliminar o espaço de existência do outro. Para Ian, a empatia não exige que uma pessoa ocupe imaginariamente o lugar de outra ou concorde com todas as suas posições. É possível reconhecer a experiência alheia e, ainda assim, manter a divergência.
Lorena Herrero relacionou essa dificuldade ao modo como as plataformas recompensam respostas agressivas. Ao comentar seu afastamento do Twitter, observou que a mudança também afetou sua maneira de reagir aos conteúdos.
O debate não negou os conflitos associados à palavra folclore. Os participantes defenderam que o incômodo pode levar artistas, pesquisadores e comunicadores a trabalhar com mais cuidado. O problema começa quando toda divergência é convertida em julgamento definitivo sobre pessoas e projetos, sem espaço para revisão, escuta ou aprofundamento.
Ainda querem falar de folclore
Mikael Quites procurou identificar um aspecto positivo no meio da crise de atenção. Apesar da quantidade de conteúdos disputando o olhar do público, as pessoas continuam interessadas em falar sobre folclore.
“A gente vive uma crise imensa de atenção e, mesmo assim, as pessoas estão querendo falar de folclore”, destacou.
Para ele, esse interesse precisa ser acompanhado de perguntas mais concretas. Quem fala? De qual lugar? A respeito de qual povo, comunidade, família ou experiência? O problema aparece quando uma percepção localizada é convertida em explicação para toda a diversidade cultural brasileira.
Mikael também relacionou a polarização à dificuldade de construir pontes. Se as redes incentivam cada pessoa a afirmar a própria identidade por meio do conflito, torna-se mais difícil reconhecer que posições divergentes podem coexistir sem que uma delas precise ser imediatamente eliminada.
Essa disposição para permanecer na conversa tornou-se uma das marcas do Somando Visões. O evento surgiu em 2017, no mesmo período em que o Folclore BR passou de projeto individual a coletivo. Anderson, Andriolli e Mikael buscavam reunir artistas e iniciativas que trabalhavam com folclore, cultura pop, quadrinhos, animação e literatura, mas ainda encontravam poucos espaços para divulgar seus processos e discutir suas escolhas.
Uma pausa para transformar
Ao recuperar a história do evento, Anderson explicou que a estrutura de produção continuou dependendo principalmente de seu trabalho e do apoio de colaboradores. Depois de dez edições, esse modelo deixou de ser sustentável.
“Eu não consigo fazer esse projeto acontecer dessa maneira”, afirmou. “Para honrar de fato esse projeto, eu preciso que a gente financie isso de alguma forma.”
A reformulação pode aproximar o Somando Visões de cursos, oficinas ou encontros destinados a quem deseja aprofundar as discussões. Anderson afirmou ainda que o evento não seguirá no mesmo formato e que talvez não haja uma edição em 2027, justamente o ano em que serão completados dez anos desde sua criação. A decisão ainda não está fechada.
As atividades relacionadas a datas importantes devem continuar. Anderson citou especificamente o Dia do Saci e as ações previstas para o final do ano. Também pretende reorganizar parte do acervo em podcasts, cortes menores e outros formatos de documentação.
Andriolli reforçou que a mudança não deve ser entendida como abandono, mas como um replanejamento estratégico capaz de reconhecer a relevância do evento e criar melhores condições para sua continuidade. Ele também mencionou a possibilidade de selecionar algumas das principais entrevistas para a publicação de um livro.
Lorena destacou que a experiência acumulada já produz efeitos que o grupo nem sempre consegue acompanhar. Postagens, pesquisas e formulações criadas pelo coletivo passaram a circular em outros espaços, muitas vezes sem que a autoria original fosse reconhecida.
“As coisas que a gente escreve têm impacto, e a gente não tem noção de onde elas chegam”, afirmou.
Quadrinho, clube e incubadora
A live também apresentou projetos que indicam a nova fase. Em setembro, o Folclore BR pretende lançar uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar uma história em quadrinhos de Ian Fraser. A parceria já vinha sendo apresentada nas redes do projeto, mas novos detalhes foram revelados durante o encontro.
Desenvolvida há cerca de dois anos, a obra contou com a consultoria do coletivo na abordagem dos elementos culturais e folclóricos. O projeto autoral de Ian será ilustrado pelo quadrinista baiano Daniel Cesart, vencedor do Troféu HQMIX. O título ainda não foi divulgado.
Ian antecipou que a narrativa terá caráter pessoal, poético e soteropolitano. A história também abordará o processo de criação artística, da página em branco à transformação da ideia em um livro. A contratação de Daniel e a produção final dependerão da campanha de financiamento.
O clube de assinaturas do Folclore BR no Catarse também deverá ganhar mais espaço. A campanha recorrente já existe, mas Anderson anunciou que passará por uma divulgação mais intensa e deverá sustentar podcasts, vídeos e outros projetos.
Outro anúncio foi a criação de uma incubadora voltada a quadrinhos, filmes, séries e diferentes universos narrativos relacionados ao folclore e à cultura popular. A partir de 2027, o coletivo pretende receber propostas e oferecer consultoria, curadoria e participação em salas de roteiro.
O quadrinho de Ian funciona, nesse sentido, como o primeiro passo do novo modelo. Em vez de concentrar a atuação apenas na produção de conteúdos para as redes, o Folclore BR pretende colaborar diretamente com projetos culturais e ajudar a transformar pesquisa em narrativas.
O resultado do que foi somado
Ao final da live, os participantes lembraram que a trajetória do Somando Visões não pode ser medida apenas pelo número de edições ou visualizações. O evento aproximou pessoas, formou amizades, ampliou repertórios e criou um espaço permanente de reflexão sobre cultura, identidade e representação.
Mikael destacou que o projeto também transformou a vida de quem participou de sua construção. Foi por meio dele que os integrantes aprofundaram relações, conheceram outros artistas e passaram a ocupar novos espaços profissionais e institucionais. Para Mikael, a pausa é necessária para que o evento possa continuar de maneira sustentável: “Um projeto que soma não pode seguir se diminuindo e sendo subtraído ao longo do tempo”.
Anderson definiu o Somando Visões como uma escola formada por tentativas, debates e encontros com pessoas diferentes. A mudança de formato não abandona essa experiência, mas procura criar condições para que ela continue.
“A gente vai agir em direção à construção de melhores projetos, e não à construção de narrativas vazias”, afirmou.
Depois de dez edições, o resultado do que foi somado se transforma agora em ponto de partida.