“Hoje a festa é do Saci”: Adiel Luna e Ednaldo Santos celebram o folclore na São Saruê

Cantoria com tema sugerido por Andriolli Costa também guarda a memória do espaço de encontros culturais movimentado pelo artista Zé Andrade, em Santa Teresa

O Saci ganhou uma cantoria em sua homenagem no encontro entre os poetas Adiel Luna e Ednaldo Santos, na São Saruê, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. A partir de uma sugestão do pesquisador e escritor Andriolli Costa, os repentistas improvisaram versos que colocaram personagens do folclore brasileiro em uma disputa brincalhona com o Halloween. A apresentação aconteceu no espaço onde o artista plástico Zé Andrade mantinha seu ateliê e reunia cantadores, cordelistas, artistas e visitantes.

A participação de Andriolli aparece logo na abertura do registro: “Andriolli sugeriu e achei muito bacana”, canta um dos poetas. A sugestão dá início a uma sequência de estrofes nas quais a dupla desenvolve o tema ao som da viola, sempre retornando à afirmação que conduz o improviso: “Hoje a festa é do Saci”.

Nas rimas, bruxas e assombrações encontram o Pererê, o Curupira e a Mula sem Cabeça. As referências ao dia 31 e às fantasias de Halloween alimentam a brincadeira sobre quem merece comandar a festa. Em uma das passagens, o próprio eu lírico admite já ter gostado da celebração estrangeira, antes de reconsiderar suas referências e voltar a atenção para o Saci.

A homenagem se constrói também pela memória. Os versos evocam histórias conhecidas desde a infância e associam os seres do imaginário à experiência de quem canta. Cada estrofe desenvolve uma ideia, encontra suas rimas e precisa chegar novamente ao verso que anuncia a festa do Saci. O tema compartilhado oferece o ponto de partida; os caminhos até ele são criados pelos cantadores durante a apresentação.

Nascido em São Lourenço da Mata, em Pernambuco, Adiel Luna vem de uma família de poetas cantadores e reúne em seu trabalho cantoria de viola, coco, aboio e cordel. Ednaldo Santos participa de encontros de poesia e cantoria no Rio de Janeiro. Os dois nomes aparecem, inclusive, na programação do Ateliê Zé Andrade para o circuito Primavera de Teresa de 2024.

O lugar que acolheu o improviso carrega uma história própria de dedicação à cultura popular. A Casa de Cultura São Saruê foi criada pelo escritor e general Umberto Peregrino, com a participação de sua esposa, Yris. Reunia biblioteca, salas de leitura, acervo de arte popular, atividades educativas e apresentações, além de oferecer hospedagem a poetas que chegavam ao Rio de Janeiro.

Seu nome homenageia o país imaginado por Manoel Camilo dos Santos no cordel Viagem a São Saruê. Nos versos, o poeta descreve uma terra de abundância, onde a pobreza e a privação cedem lugar à fartura. Ao escolher esse nome, Peregrino deu um endereço carioca ao lugar celebrado pela poesia popular nordestina.

Zé Andrade ajudou a movimentar essa casa. No relato do escritor Salomão Rovedo, em De Ubaíra a Santa Teresa, o artista aparece à frente de encontros que acolhiam veteranos e novos talentos. Havia palestras no auditório e, do lado de fora, um pequeno tablado à sombra de uma mangueira recebia cantadores e repentistas. Suas amizades com os artistas alimentavam uma programação frequentada por moradores, comunidades do entorno e visitantes.

Parte dessa trajetória se liga à Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Fundada em 1988, a entidade recebeu de Peregrino, em 1990, o imóvel que passou a abrigar sua sede. Uma parcela de seu acervo também veio da antiga Casa de Cultura São Saruê, vinculando a história do espaço à preservação de folhetos, xilogravuras e instrumentos da produção poética popular.

Nascido em Ubaíra, na Bahia, José Andrade Santos ficou conhecido pelas esculturas em cerâmica que retratavam personalidades com humor e expressividade, chamadas de “caricaturas em três dimensões”. Radicado no Rio por mais de cinco décadas, Zé morreu em fevereiro de 2026, aos 74 anos. Seu trabalho e os encontros que promoveu fazem parte da memória cultural de Santa Teresa.

A cantoria de Adiel Luna e Ednaldo Santos guarda um momento dessa convivência. Uma sugestão vinda do público se transforma em poesia, os personagens ganham novas situações e o improviso reúne quem canta e quem acompanha.

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