Causos de lobisomem – Transcrição do episódio 98 de Poranduba

A transcrição a seguir permite acompanhar essa roda de causos e as diferentes vozes que a compõem. Publicado durante a pandemia de Covid-19, o episódio também presta homenagem aos contadores de histórias e familiares que perdemos naquele período, entre eles dona Uia, liderança do Quilombo da Rasa, em Búzios. Suas narrativas continuam circulando pela voz de quem as guardou na memória.

O episódio 98 do podcast Poranduba, “Causos de lobisomem”, publicado em 4 de junho de 2021, reúne histórias enviadas pelos ouvintes do podcast do Colecionador de Sacis. São lembranças de família, encontros em estradas e aparições em plena cidade, contados por quem viveu o susto ou cresceu escutando os mais velhos. Ao longo do programa, comento as aproximações entre esses relatos e a bibliografia folclórica, passando pelas formas do lobisomem brasileiro, seus hábitos alimentares e os modos de reconhecer e desencantar a criatura. E você, já ouviu o episódio?

O vizinho insuspeito

Ana, de São Paulo: Isso aconteceu no ano de 71, 1971, na casa da minha mãe, da minha avó, meu pai, meu tio. Tinha galinha, tinha pato e começaram a morrer os bichos. Amanheciam mortos, sem sangue nenhum. E minha bisavó, que era viva, falava: “Isso é lobisomem. Isso é lobisomem”.

Meu tio, muito corajoso e valentão, pegou uma arma, se escondeu e ficou esperando na sexta-feira de lua clara. Que que aconteceu? Começou aquele alvoroço de novo no galinheiro, e ele pegou o revólver e deu um tiro. Quase acertou o bicho. Ele disse: “São dois, são dois”, pra minha bisavó. Era a vó dele.

Aí minha bisa gritou: “Vem pra cá, larga com isso, para com isso”. Ele fez o quê? Correu pra dentro e ficou esperando as ordens, porque ela ia brigar com ele. Ela foi no quarto e falou: “Eu sei até quem é que tá aí. Você larga de ser bobo”.

[Vinheta do Poranduba.]

Andriolli Costa: Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o colecionador e treinador de sacis, e serei seu guia.

E no programa de hoje nós vamos ouvir uma série de causos contados pelos nossos ouvintes. Nesse programa mais do que especial, eu vou ou ler pra vocês ou então reproduzir aquele bando de áudio que os nossos queridos ouvintes nos mandaram pelo WhatsApp.

Então vai ser um programa com muitas vozes e que vai nos mostrar o quanto as histórias de lobisomens são recorrentes pelo Brasil inteiro. No começo do programa você escutou o áudio da Ana, de São Paulo, que nos conta um pouco dessa vivência com lobisomem que tinha na família dela.

O monstro amaldiçoado, no caso, era um vizinho muito bondoso e insuspeito, que, assim que se muda de cidade, curiosamente o lobisomem para de aparecer. Isso é uma coisa muito frequente.

O nosso medo, quando estamos falando desse mito, está diretamente ligado à ideia de que todo mundo, inclusive as pessoas próximas, inclusive aquelas pessoas insuspeitas, pode carregar dentro de si um monstro misterioso. Mas há mais recorrências do que essa. Eu vou começar agora reproduzindo um áudio que eu não tinha como não mostrar, que foi enviado pela minha avó.

A vó Marlene, lá de Terenos, no Mato Grosso do Sul. Ela vai introduzir um ciclo de histórias de lobisomem muito conhecido, que eu tenho certeza que você já ouviu em algum lugar. Olha só.

Os fiapos de roupa nos dentes

Marlene Almeida: Tá bom, Andriolli. Vou escrever num caderno aqui pra mim a história, pra mim poder falar pra você do lobisomem.

Uma história do lobisomem que você deve lembrar de eu ter te contado. O [trecho não recuperável] era casado com a moça. Aí ela foi passear na casa da mãe dela na Semana Santa. Os dois passaram dentro da mata. Ele falou pra ela: “Fica aí que eu vou ali no mato e já volto”. E ele foi lá no mato, aí virou o lobisomem.

Aí veio, avançou em cima dela, avançou em cima dela. E ela pulava, foi subir na árvore. Ele rasgou a roupa dela tudo nos dentes. Até que enfim ela escapou dele. Ele foi embora, e ela foi embora pra casa do pai dela.

Chegou lá na casa do pai dela, passado um tempo, [trecho não recuperável]. Aí ela contou a história pra ele. Ele falou: “Ah, não acredito”. Aí ela falou: “É verdade”.

Aí ele foi dar uma risada, que tava o pedaço do vestido dela no dente dele. Aí ela descobriu que ele era lobisomem. Ele era o lobisomem.

Andriolli Costa: Essa foi a história de lobisomem que eu cresci escutando. Mas será que outras pessoas ouviram coisas parecidas? A que você vai escutar agora foi enviada por um companheiro podcaster, Wesley Zoppe, do Chorume. E ele conta algo que se passou com a sua avó em Americana, no interior de São Paulo.

Wesley Zoppe: Eu moro no interior de São Paulo, cidade de Americana. E aqui, na década de 80, comecinho da década de 90, a gente tinha o costume de, à noite, né, os adultos tinham chego do trampo, a gente colocava as cadeiras na rua. Tinha dia que uma ou outra vizinha fazia uns bolos e tal. Então ficava essa galera na rua e a roda de conversa.

E a molecada brincando, jogando bola e tal. Às vezes a gente sentava pra ouvir as histórias dos adultos. E uma dessas histórias é da minha avó, que ela falou que, quando ela era pequena, morava na zona rural, né, num sítio aqui próximo. E no sítio as casas não são umas coladas com as outras, igual é na zona urbana.

Tava de noite, ela quis ir na casa de uma amiga dela. A mãe dela tinha pedido pra ela não ir muito tarde. Ela acabou ficando até muito tarde lá na casa dessa amiga. Já era, acredito, umas dez horas da noite, e ela tava vindo pra casa. Ela escutou alguma coisa atrás dela, e aquela tensão. Ela falou que era mais ou menos um quilômetro da casa dela. E ela vindo, tentava acelerar o passo pra ver se distanciava; acelerava o passo também.

Chegando perto da casa dela, ela falou: “Bom, daqui eu corro, né?”. E ela foi, pegou um pinote, correu e olhou pra trás. Ela falou que viu, mas tava escuro, né? Pensando que na zona rural não tinham postes de luz quando a minha avó era menina. E alguma coisa correndo atrás dela. Ela olhou, falou que viu um vulto grande, tipo de quatro patas, correndo atrás dela, com fé e vontade ali.

Daí, na hora que ela entrou na casa dela, abriu a porta, fechou, bateu a porta assim, alguma coisa puxou o vestido dela. Olhou e rasgou. Rasgou um pedaço do vestido. E ela entrou correndo, trancou a porta, trancou tudo e tal, se enfiou debaixo das cobertas lá.

No dia seguinte, de manhã, alguém chama ela na casa dela. Ela vai atender: é a vizinha. Mas é a vizinha da casa da onde ela tava, da amiga dela.

E ela veio pedir, falou assim: “Ah, acabou meu açúcar. Vocês não têm açúcar?”, não sei o quê e tal. Daí ela falou: “Não, claro que tem”. Só que ela poderia ter mandado entrar, poderia ter falado qualquer coisa, mas era uma porta que ela conta que abria meia porta assim, sabe? Ela abria só a parte de cima ou só a parte de baixo. Então ela abriu só a parte de cima, a pessoa ficou lá do lado de fora, e daí ela foi buscar. Foi buscar o açúcar, voltou com o pote de açúcar e tal.

E, na hora que essa mulher foi agradecer, entre os dentes dela tinha uma sujeira que ela olhou, meio colorida, e que lembrava o vestido dela. Então, ó, tipo, é como se fosse aquela mulher que tinha se transformado em lobisomem e corrido atrás dela no caminho de volta pra casa.

Cara, isso é aterrorizante, bicho. Pensa que o ser seguiu ela todo o caminho e ia pegar ela, bicho.

A criança desaparecida

Marcos Fernando: Eu sou o Marcos Fernando, de Mozo do Sul [2], Espírito Santo. Eu tenho 15 anos, e essa história eu ouvi quando eu estava comentando com a minha mãe sobre Quaresma e sobre, tipo, que normalmente Quaresma é um tempo que, no folclore, acontecem coisas estranhas.

O que acontece é que era uma mulher, e ela tinha um marido e um filho, um filhinho que ela gostava muito. Ele era bebezinho. E um dia, durante a Quaresma, o filho dela sumiu.

Ela procurou pela casa inteira, até que abriu o quarto e viu que o marido dela estava dormindo. E ele tinha vários fiapos e pedaços do pano da roupinha e do lençol do bebê.

E aí ela matou de um jeito meio… Eu não sei se tem um nome pra esse tipo de morte, sei lá, mas é bem comum em histórias do interior, assim. Ela jogou óleo quente no ouvido dele, e ele morreu. É essa a história. Muito obrigado.

O marido e a manta do bebê

Orlandino Aguiar: Mas, voltando a falar em lobisomem, vocês toma cuidado. Volto a falar pra vocês: quem avisa, amigo é. Tome cuidado, porque é verdade. Tem um colega meu que chama Parreira, ele virava lobisomem.

Então esse Parreira saiu com a mulher dele e uma criancinha, a mulher com a criancinha no colo. Aí saiu pelo caminho. Naquele tempo não existia estrada, né? Pelo caminho afora assim, daqui a pouco o cara falou pra mulher: “Ah, fica aqui no caminho, eu vou fazer uma necessidade”. É, [trecho não recuperável], falava aquele outro negócio, né? “Mas daqui a pouquinho eu volto.” E desceu no meio do mato assim, no escuro, à noite já.

Mas desceu, na mesma hora, da onde ele desceu voltou um cachorrão preto, peludo, e avançou na mulher. Avançou pra pegar a criança. A criança naquele tempo andava enrolada com uma manta grande, comprida. E a mulher, pra ficar livre do lobisomem, pensou que era um cachorro mesmo, subiu assim num cupim. Vocês talvez não conhecem cupim.

Cupim é uma casa de formiga alta, assim, quase um metro de altura e tal. Ela subiu em cima daquele cupim pra livrar do cachorro. E gritava o marido, gritava por nome lá. Nada dele vir, nada, nada. E aquele cachorro pulava lá na criança pra pegar a criança. Diz que criança sem batizado é que é mais perigoso ainda. Como que se diz? É mais visado pelo lobisomem. Ele gosta mesmo.

E a mulher gritava, gritava, gritava e pedia socorro. Nada, não passava ninguém. Aquele escuro, aquele cachorro pulando lá e mordendo na manta da criança, que era tempo de noite fria, né? Então, tudo enrolado na manta.

Aí, de tanto gritar, daqui a pouco o cachorro desceu no meio do mato de novo e foi embora. Assim que o cachorro desceu, daqui a pouco veio o homem de lá. Aí veio o pai da criança. Aí ela contando pra ele a história, ela nervosa pra caramba.

E ele só ria, né? A mulher contava pra ele, ele ria, mostrava toda a dentaria, né? Aí, nos dentes, ele tava cheio de fiapo daquela manta que ele mordia na criança lá. Aí que descobriu que o desgramado virava lobisomem.

Andriolli Costa: E pra vocês verem, não é só fiapo de roupa nos dentes que entrega quem é um amaldiçoado que carrega o fado do lobisomem. Nessa história que a gente vai ouvir, vamos encontrar um elemento diferente lá nas comunidades caiçaras. Olha só.

O lobisomem do Quilombo da Rasa

Leandro Araújo: Fala, Andriolli. Eu vou contar uma história que ouvi da dona Uia, que era líder do Quilombo da Rasa, no município de Armação dos Búzios, Rio de Janeiro, que é onde eu moro. Ela conta que tinha um primo lobisomem, que todo mundo sabia que ele era lobisomem, só a mãe dele que não queria acreditar e não queria aceitar.

Era um dia em que eles voltariam da pesca, né, pra deixar o peixe lá na Rasa. E a mãe do lobisomem tinha saído de casa e pegado o caminho pra praia, que era uma picada. Na época era uma picada pelo meio do mato.

E ela foi, né, pegou o peixe e estava voltando sozinha no mato. Ela encontrou um cachorro, um cachorro bem grande que estava raivoso, e esse cachorro atacou ela.

Partiu pra cima dela. Ela não entendeu o que estava acontecendo, se protegeu. Ele mordeu, arranhou, rasgou roupa, até que ela percebeu que ele queria o peixe, e ela deu o peixe pra ele. Ele levou todo o peixe que ela tinha e deixou ela em paz e foi embora. E ela voltou pra casa arrasada, né? Toda machucada, sem peixe e tudo mais.

Voltou pra casa e, quando ela voltou, o filho que o pessoal falava que era lobisomem não estava. Bom, ela fez a comida pra família com o que tinha, né, sem peixe. E já depois do almoço pronto, já depois de todo mundo ter comido, muito tempo depois apareceu o filho, todo machucado, e comeu já a comida fria.

Depois de comer, ele deitou no colo da mãe, como ele sempre fazia, e ela foi fazendo carinho na cabeça dele, e ele foi dormindo, caiu no sono. E nisso que ele caiu no sono, começou a respirar forte, e a mãe percebeu que o filho estava com um hálito forte de peixe cru saindo da boca. E nisso ela abriu a boca dele e percebeu que entre os dentes tinha os fiapos do vestido dela.

Então ela chegou à conclusão de que aquele cachorro grande que tinha atacado ela era o próprio filho, que estava atacando querendo comer peixe cru. E ali ela [trecho não recuperável], né? Fez uns pedidos, fez umas rezas pra tirar dele aquela condição e falou: “Meu filho, por que você não me contou que você era lobisomem?”. E perdoou ele. Desde então ele nunca mais foi lobisomem.

Essa história, quem contou, como repito, foi a dona Uia, né, que era líder do quilombo. A dona Uia é uma das vítimas da pandemia de Covid. Ela foi uma das primeiras pessoas aqui do município a falecer, com 60 e poucos anos [1], cheia de vida, cheia de história pra contar. Ela adorava contar essas histórias. E é isso, né? É uma perda que a gente teve.

Uma homenagem aos que partiram

Andriolli Costa: O fim da história da dona Uia infelizmente tem sido muito comum. A pandemia, que castiga especialmente os mais velhos, tira de nós a oportunidade de estar com esses mestres da cultura popular por mais tempo.

Separo essa história pra deixar aqui também um momento de homenagem às vítimas da Covid-19, às vítimas do abandono, do descaso dos poderosos, e com uma lembrança de que, enquanto as suas histórias viverem, eles nunca serão esquecidos.

Homenageio também o nosso ouvinte Elido Santos [2], que enviou sua história de lobisomem, inspirada em vários casos que aconteceram na sua família, e que escreve que perdeu o pai e a mãe recentemente também pela Covid. E que, com a família devastada, qualquer alento que os honre seria muito caro pra eles. Então tá aqui. Obrigado.

Eu honro a sua família e a de todos aqueles que sofreram e têm sofrido durante a pandemia.

[Inserção musical de “Canção do Lobisomem”, de Guinga e Aldir Blanc, na voz de Maria João.]

As formas do lobisomem brasileiro

Andriolli Costa: Você ouviu a “Canção do Lobisomem”, composição de Guinga e do nosso saudoso Aldir Blanc, na voz da portuguesa Maria João. Eu escolho essa versão da música pra introduzir esse assunto pra vocês. O lobisomem brasileiro, é sempre bom insistir, tem muita influência de Portugal.

Se a gente olha pro mito do lobisomem, encontra várias derivações, desde um amaldiçoado pelos deuses, como foi Licáon, até aqueles feiticeiros que usam couro de animais ou então um cinturão feito de couro, às vezes couro de gente, inclusive, pra se tornar um versipélio, um troca-peles, e assumir a forma de animais diversos, entre eles o lobo.

Em Portugal, a gente tem várias versões dos chamados corredores de fado. Uma delas é as mulheres, as peeiras dos lobos ou fadas dos lobos. Outras são os tardos, os corrilários. Eu explico com mais detalhes sobre eles no programa Popularium 7, “O Lobo do Homem”.

Mas, se a gente se concentrar nos lobisomens, encontra histórias muito interessantes e que têm implicação direta aqui. Uma delas diz respeito às orelhas. Se você quer diferenciar um lobisomem de um cachorro comum, então preste atenção nas orelhas.

Se elas são grandes e você escuta o barulho delas batendo contra o corpo do bicho, pode ter certeza que não se trata de um canino comum. Outra questão é sobre a sua forma, a sua aparência. Em Portugal, você não precisa ter um lobisomem necessariamente assumindo a forma de um homem com lobo.

É muito comum que esse lobisomem assuma uma forma de animais da criação. Então, às vezes é o próprio cachorro, mas também é o cavalo, é o touro, é o carneiro e, é claro, o porco. E as combinações desses animais também formam criaturas muito únicas. E a gente vai ver aqui uma recorrência muito grande desse tipo de história.

Curiosamente, quando a gente olha a obra de alguns autores do Brasil, encontramos também histórias de lobisomens a partir de animais da fauna brasileira, e nunca lobo-guará. Isso é interessante, né?

No Hélio Serejo, o memorialista, a gente encontra o livro O Lobisomem nas suas obras completas. E ele fala ali, sim, de um lobisomem que é touro, de um lobisomem que é porco, de um lobisomem que é capaz de soltar até fogo pela boca. Mas também coloca ali lobisomens que assumem formas de bugio, de anta. Imagine só a força de um lobisomem anta.

O bicho já é enorme, já é forte, né? Não deve ser pra qualquer um.

A parteira e o lobisomem morto

Luan Glasser: Ah, Andriolli, esse aqui é o primeiro causo que a minha avó me contou quando eu era mais novo, assim. Eu era pequenininho, devia ter menos de dez anos de idade. E ele aconteceu na mesma região que eu disse que eu moro, que é a região de Itapiraí [2]. Só que não é uma história recente. A cidade hoje tem uns 60 anos, essa história data dos 80 [2].

Porque ela aconteceu com a bisavó da minha avó ou com a bisavó da avó da minha avó. É alguma coisa assim, né? É uma avó distante, que eu vou chamar de avó por simplicidade aqui.

Então essa avó minha era parteira. E ela recebeu um pedido de ajuda numa noite de chuva, no fim da Quaresma, pra fazer um parto numa casa de uma mulher que ficava mais ou menos uns cinco quilômetros de onde ela morava, nessa região.

Ela pegou os apetrechos dela, pegou a Bíblia que sempre levava, tinha água benta também. Então pegou um monte de coisa, colocou na bolsa, selou o cavalo e partiu a galope, no meio da chuva mesmo. Em algum momento nesse caminho tinha um campo que ela precisava atravessar.

Só que de algum dos cantos do campo, que era cercado de mata, ela ouviu um barulho de coisa batendo assim, como se tivesse uma coisa: “Pá, pá, pá, pá”. E era um som alto, porque tava chovendo, né? Então ela conseguiu ouvir pra além da chuva.

Quando ela olha pra direção, vê uma coisa correndo, trotando assim de joelhos no chão, que parece um homem, mas com as costas peludas. Ela não conseguiu ver a cabeça, porque a cabeça tava meio enfiada debaixo do peito, e corria de joelho e cotovelo no chão. E a orelha que tava fazendo esse barulho, porque a orelha batia, batia uma na outra. E ele era meio desengonçado, porque as orelhas dele eram um tanto grandes, assim, que se enroscavam no cotovelo dele, e ele dava umas tropeçadas.

Minha avó, vendo essa coisa correr, falou assim: “Porra, lobisomem, né?”. E essa minha avó, [trecho não recuperável], fez o que diz a lenda pra fazer, né? Ela berrou pro lobisomem assim: “Lobisomem, amanhã vem pegar sal na minha casa”.

O que ela não esperava que acontecesse era que esse lobisomem fosse um lobisomem morto. Que, como dizia minha avó, era o lobisomem que atacava. Porque diz que o lobisomem vivo não ataca, ele só quer cumprir o fado dele. Agora, quando ele morreu, ele é mais violento, ele tem raiva, então vem e ataca.

E, quando minha avó chamou ele pra pegar sal na casa dela, ele não tinha como vir, né? Ele tava morto. E ele foi pra cima dela, foi a galope pra atacar minha avó. Foi daí, inclusive, que ela descobriu que ele era um lobisomem morto, né? Por causa desse negócio do ataque.

Minha avó, esperta que era, no susto conseguiu sacar a água benta da bolsa dela e tacar nas costas do bicho, um pouco antes do bicho [trecho não recuperável] o cavalo dela. E ela disse que chiava, né? Quando caiu a água nas costas, o bicho chiou, como se tivesse jogado ácido no bicho. Aí saiu fumaça, ele berrou e saiu correndo pro mato.

Andriolli Costa: Essa história que vocês acabaram de ouvir foi enviada pelo nosso ouvinte Luan Glasser, e ela é maravilhosa. Temos aí um lobisomem porco, orelhudo, mas com outro elemento que vale explorar, que é o lobisomem morto. Que que é isso? Bom, o mito do lobisomem é circunscrito à sua maldição.

Isso é, se você é o sétimo filho homem, depois de seis homens ou seis mulheres, né, também tem as variações, você é amaldiçoado a se tornar um lobisomem quando completa 13 anos de idade, caso não cumpra uma certa ritualística.

Isso é, se você não for batizado com o nome de um santo ou então se você não for batizado, e aí é o rito do batismo mesmo, né, pelo seu irmão mais velho. Então tem formas ali de se proteger dessa maldição do lobisomem. Mas, se você não cumpre nada disso, a sina será sua. Outra forma é ser mordido por um lobisomem. Então você recebe o fado dessa criatura.

E uma coisa que de Portugal também a gente tem é a ideia de que esse fado tem uma duração. Então serão sete anos ou 14 anos, sempre alguma coisa múltipla de sete, né? Se você morre antes de cumprir esse fado, volta à vida como um lobisomem morto e continua a vagar, dessa vez sem a capacidade de se transformar em homem de novo.

Você é apenas a criatura, né? Então esse lobisomem é mais violento, extremamente agressivo, e não tem muita racionalidade. Se na forma tradicional ele já não é muito racional, quando tá morto, então, aí é apenas a fera que fala.

Esse lobisomem morto normalmente é descrito como sendo todo branco. E ele vai persistir na sua corrida até que se acabem os anos da primeira maldição. Uma outra versão muito interessante de lobisomem é o lobisomem com o pelo pra dentro e a carne pra fora. Isso tem, inclusive, no O Saci, do Monteiro Lobato.

Então, como essa criatura é mais brutal, eu imagino que se trate também de um lobisomem morto, apesar de não ter a característica do pelo branco, que é sempre mencionada. Um outro elemento interessantíssimo introduzido pelo Luan é a oferta de sal.

A oferta de sal e as formas de desencanto

Andriolli Costa: Isso é bem interessante porque é mais comum pra bruxas, matintas, mas também tem histórias de lobisomem em que, pra você primeiro se livrar do assédio dessa criatura e, em segundo lugar, saber a identidade de quem é essa pessoa que se transforma, você faz uma oferta de sal: “Passa amanhã pra pegar sal”.

E aí vem a bruxa, vem a matinta, vem o lobisomem na sua forma humana, e você descobre se é um vizinho, se é algum desconhecido, alguém que está ali circulando a região.

Por que sal? Isso é uma ótima pergunta. Inclusive parece um contrassenso. Porque, veja, na tradição é muito comum usar o sal pra espantar espíritos, demônios e bruxas.

O sal, enquanto elemento purificador, tá no batismo, mas também tá presente na própria conservação de alimentos. Então, simbolicamente, o sal é muito poderoso como um elemento de proteção, de resguardo, de manter afastadas influências ruins, malignas, né, negativas.

Sempre se diz, por exemplo, que em banquetes de demônios, em banquetes de bruxas, nunca tem pão nem sal. Parece, então, contraditório que a matinta, que uma bruxa ou que o próprio lobisomem, enquanto um ser das trevas, aceite a sua oferta, pare o seu ataque e venha buscar efetivamente o sal.

Se o sal é uma coisa tão nociva pra ele, que serve pra mantê-lo longe, qual é o seu interesse no sal?

Talvez aí a gente possa fazer uma interpretação de que é a própria tentativa do amaldiçoado de se livrar daquela influência negativa que está sobre ele. Não por acaso, é nesse momento que ele se revela. E, ao se revelar, expõe muito da sua fragilidade e se coloca em situação de perigo diante da comunidade.

É o que a gente encontra, por exemplo, na história do seu Orlandino Aguiar, que foi enviada pelo seu neto, o Acácio. A gente já ouviu um pouco do seu Orlandino. Esse daqui é a continuação daquele causo do amigo dele que era um lobisomem e que tentou abocanhar a mantinha do filho. Olha só.

Orlandino Aguiar: A mulher contando pra ele, e ele só fala: “Ah, mulher, você tá com mentira. Isso é bobagem sua. Que isso? Não aconteceu, não. Não tem cachorro nenhum, não, porque eu tava lá, não vi cachorro nenhum, não ouvi latir de cachorro”. E ria com a risadinha amarela, sem graça.

Aí os dentes dele tudo cheio daquele fiapo daquelas mantas que enrolavam a criança. Aí comprovou que era ele que tava pegando a própria criança. Tudo bem.

Aí passou. No dia seguinte ela contando pra comadre dela lá, comadre de confiança. Foi contar pra comadre o que tinha acontecido e tal: “Meu marido, eu acho que ele vira lobisomem”. Aí contou a história todinha pra comadre.

“Ah, comadre, então é mesmo, comadre. Sabe o que você faz? Quando ele sair de noite… Quase toda noite ele sai pra dar uma volta?”

“Sai. Quase toda noite ele tá saindo, arruma uma desculpa e sai.”

“Então, quando ele sair, você dá uma voltinha aí por volta da casa, no terreiro, você vai achar a roupa dele. Que ele sai e tira a roupa e sai pelado. Você olha lá, você vai achar a roupa dele. Aí você pega a roupa, joga dentro do forno e queima. Põe fogo.”

Assim fez. A hora que ele saiu, a mulher deu uma volta lá, achou a roupa dele e jogou tudo no forno, tacou fogo e foi pra dentro de casa.

Aí, sei lá quantas horas, o cara voltou e andou por lá tudo e nada de roupa. E procurava, nada. Aí teve que entrar pelado dentro de casa. Bravo com a mulher, brigando e xingando: “Cadê minha roupa? Cadê minha roupa?”.

E a mulher: “Ah, não sei, não. Eu não sei de roupa, não. Por certo passou alguém lá e roubou sua roupa. Eu não sei de roupa, não”. E bravo, cada vez mais bravo.

E depois disso, então, da vergonha que ele passou, que morreu de vergonha, né? Que aí a mulher descobriu que ele virava lobisomem e tal, morreu de vergonha. Então esse cara parou de virar lobisomem. Com a vergonha que ele passou, nunca mais virou. E assim é a história. Então vocês acredita, porque é verdade.

Andriolli Costa: Essa história do senhor Orlandino é muito boa, porque eu já tinha ouvido falar sobre essa forma de desencantamento, que é a vergonha. Quando o amaldiçoado é exposto enquanto lobisomem, ele fica com tanta vergonha que não se transforma mais.

Essa não é uma das formas mais seguras de você reverter a transformação, porque ele pode ficar furioso e acabar te agredindo, mas no caso funcionou.

Outras formas de desencanto, também igualmente perigosas, são tirar o sangue da criatura, com todo cuidado, porque, se você for exposto ao sangue do lobisomem, pode acabar herdando o fado. Então, atenção.

Vale lembrar, como eu já disse no episódio sobre o Manual de Sobrevivência — Lobisomens, que bala de prata é coisa de Hollywood. O nosso lobisomem brasileiro não é afetado por bala de prata, mas sim por influência cristã.

Então a água benta vai funcionar, como na história do Luan. Mas, pra você realmente feri-lo, envolver a bala em cera de vela rezada na igreja, aí, sim, você vai ter uma arma muito poderosa.

[Vinheta do Poranduba.]

A aparição na Sexta Feira Santa

Ana, de São Paulo: Oi, Andriolli, tudo bem? Meu nome é Ana, eu falo de São Paulo, capital. Eu vi que você tava recolhendo uns relatos de lobisomem e vim aqui contar uma coisa que aconteceu com meu pai.

Meu pai é um senhor de 77 anos, e essa história aconteceu quando ele era pequeno. Então eu chuto que isso tenha acontecido no final dos anos 40, quando ele morava com os meus avós e os meus tios em Itapevi, interior de São Paulo.

Na cidade dele corriam especulações acerca de um morador que as pessoas achavam que era lobisomem, né? Numa Sexta-feira Santa, tal como essa que eu tô gravando o áudio agora, meu pai estava voltando da Via-Sacra junto com a minha avó e a minha tia. E estavam passando por uma rua.

De um lado da rua tinha uma casa com um muro, e do outro lado tinha uma espécie de terreno que ninguém tinha tocado ainda, e era cercado por uma cerca de arame.

De repente meu pai viu uma figura de um cachorrão preto, todo esquisito, saltando do muro da casa direto pra dentro do terreno do outro lado da rua. Tipo, muito rápido. E ele falou que tinha visto isso, né?

Aí aconteceu isso, e ele fala que minha avó só virou pra ele e falou: “Você viu aquilo, menino?”. E meu pai disse que sim. Aí minha avó contou pra ele que o que eles tinham visto era um lobisomem. Meu pai contando essa história, ele se arrepia todo, você não tem noção.

O cerco ao casebre

Rodney Buchemi: Salve, salve, nerdaiada. Aqui é Rodney Buchemi, passando pra contar um relato de lobisomem que meu avô, o major Humberto Buchemi, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, me contou quando eu ainda tinha uns 13 pra 14 anos, mais ou menos.

Ele conta que certa vez estava ele e o irmão dele, meu tio Antônio, tio-avô Antônio. Eles eram adolescentes, estavam voltando pra casa e foram cortar caminho.

Aí, no meio do caminho, avistaram uma sombra agachada, assim, no meio da trilha iluminada por uma lua cheia, né? E viram uma sombra que se levantou, uma sombra escura, meio peluda. Supuseram que fosse um lobo, né? E aí, quando essa sombra virou e olhou pra eles, dois olhos brilhantes, meio avermelhados.

Essa sombra se levantou, ficou de pé, saltou das sombras e correu de quatro patas pra cima deles. Eles saíram correndo em meio ao matagal, uma mata baixa, né? E correram nesse meio de mato até se depararem com um casebre.

Aí adentraram esse casebre. Tinha algumas mobílias lá dentro, e eles colocaram uma barricada com um sofá, uma mesa e algumas cadeiras na porta. É um casebre de dois cômodos, uma sala e um quarto, que tinha um banheiro. E eles ficaram lá e escutaram arranhões nas portas e uma voz gutural falando: “Eu quero a alma de vocês e quero o corpo de vocês”.

Eles viram uma mão peluda atravessando uma das janelas altas. As janelas eram altas, eram basculantes, né, aqueles de abrir e fechar. E essa mão tentando pegá-los de alguma forma. Escutando uivos, rosnados e a voz falando que iria pegá-los assim que saíssem.

E em dado momento essa voz falou assim: “Já marquei o cheiro de vocês e vou achá-los. Vou comer o corpo de vocês. Vou comer as suas entranhas”. Isso meu avô falando, né? E eu me borrando de medo junto com ele.

Então eles ficaram dentro desse casebre até o dia raiar. E não dormiram, porque haviam batidas na porta e arranhões, rosnados, a criatura tentando pegá-los através da janela.

Aí meu avô abriu a porta, olhou, enquanto meu tio-avô olhava por algumas das janelas, o basculante do banheiro, que era um pouco mais baixo. A área tava limpa, eles saíram correndo. Abriram a porta e saíram correndo.

Na corrida, meu tio-avô olha pra trás, pro meu avô. Meu avô chamava Humberto, né? Falou assim: “Humberto, olha pra trás”. Quando eles olharam pra trás, no telhado da casa tava um ser agachado de cócoras, meio peludo. E esse ser pulou, adentrou o casebre e fechou a porta.

Corre que eu tô virando lobisomem

Emerson Alves: Olá, pessoas. Eu sou Emerson Alves, produtor do podcast DQC — Desculpa Qualquer Coisa. Uma vez, quando eu era bem criança, eu e meu irmão voltamos muito tarde da noite, porque a gente ficava vagabundeando pela rua. Culpa da gente mesmo. A gente tinha, sei lá, respectivamente, meu irmão tinha nove e eu tinha sete anos.

Até aí, tudo bem. O que aconteceu? Quando a gente voltou, a gente morava numa favelinha bem distante, uma favelinha chamada Chega Mais, lá em Pernambuco. E essa favelinha tinha sido recém-feita, tinha bem poucas casas e postes muito menos. A gente tinha que passar por uma ponte pra chegar na minha casa. E essa ponte era iluminada pelo único poste nos próximos 200 metros.

E por esse poste a gente conseguiu ver um cara parado no meio da ponte, todo retorcido, o corpo todo retorcido, encolhido, meio que no meio da ponte ali. Qualquer pessoa que passasse ali veria ele. Não estava escondido. Não era uma coisa que ele não quisesse que as pessoas vissem, entende?

Na hora que meu irmão viu esse cara, automaticamente a gente começou, né: “Eu escolho Deus. Eu escolho ser amigo de Deus”. Aquela boa música evangélica pra tentar acalmar o ânimo, que nessa hora o cagaço estava fortíssimo.

Até que a gente chegou perto do cara. Quando a gente chegou bem perto dele, ele, com barulho, se retorcendo, foi chegando pra cima da gente. Chegou bem perto da gente. Tipo, não tinha como não passar por ele. Não tinha, não era uma questão de escolha.

Ele olhou pra gente com o olho bem vermelho, bem arregalado, e falou: “Corre que eu tô virando lobisomem”. Meu amigo, a gente correu, mas correu, que eu sentia que o pé batia na bunda.

Ah, mas aí você vem me dizer: “Ah, mas era um drogado, não era um lobisomem. Lobisomem não vai avisar que é um lobisomem”. Pois então, na hora ninguém quer saber disso não, cara. Até hoje eu acredito plenamente que aquele cara, sim, viraria um lobisomem.

A encruzilhada em São Paulo

Andriolli Costa: Essa história que eu vou ler agora foi enviada pelo André Luiz Fernandes em outubro do ano passado, quando eu tava coletando histórias de saci pro episódio 94, se não me engano, que foi o “Causos de Saci”. Então eu recomendo que você dê uma olhada. E ela se passa, vejam só, em São Paulo, capital, 1940, mais ou menos.

Aconteceu com a avó dele, a dona Mercedes, e com a sua bisavó, que é a dona Leonor, uma espanhola da região de Cáceres. As duas viviam em um bairro chamado Moinho Velho, que fica na região do Ipiranga, às margens da Anchieta, bem próximo de onde hoje fica a estação Sacomã do metrô. O André escreve que até hoje esse bairro é bem residencial, bem tranquilo.

Imagina como era 70 anos atrás, né? As duas estavam voltando pra casa, ele não sabe da onde, até que chegaram no cruzamento da Rua Elba com a Rua Sava, que ele frequenta até hoje e por isso não consegue esquecer. Quando elas chegaram bem na encruzilhada, viram uma cena esquisita: uma roda com dez, 15 cachorros cercando uma figura misteriosa no centro.

Essa figura tinha as pernas cruzadas, parecia até levitar um pouco do chão, mas o que mais chamava atenção é que ela era toda coberta por um pelo escuro e tinha uma cabeça de cachorro ou de lobo. Os olhos eram bem vermelhos, a ponto de parecerem duas lâmpadas.

A jovem Mercedes quase gritou ali na hora, mas foi segurada pela mãe, que disse num portunhol bem baixinho: “Cala-te, anda. Não olha pra trás”. As duas passaram pela cena tremendo e foram chegar em casa cinco minutos depois. Quando olharam no relógio, tinha passado poucos minutos da meia-noite.

A dona Mercedes faleceu em 2007 e deixou essa história de presente pra gente. Muito obrigado, André, por compartilhar as lembranças da sua avó.

Eu separei essa história porque, primeiro, ela se passa numa capital, numa grande metrópole. Então, vejam aí. Outro elemento interessante e que a gente não falou ainda é a meia-noite. São os momentos em que os monstros são vistos no folclore brasileiro.

Se você pensa num horário de transição, sabe que é o momento em que o mundo dos vivos está em contato mais direto com o mundo etéreo. Essas horas de transição, meio-dia, meia-noite, seis da tarde, seis da manhã, são as conhecidas horas mortas. Se você está na rua em uma dessas horas, muito frequentemente irá encontrar alguma coisa misteriosa. Atenção.

O último elemento dessa história que eu destaco é os cachorros. Os animais têm um faro muito especial pra perceber esse tipo de criatura, como a gente vai ver nessa outra história que recebemos por áudio, que também tem a presença de cachorros. Olha só.

Os animais reconhecem o lobisomem

Pedro Galvão: Andriolli, primeiramente, parabéns pelo trabalho. Podcast excelente, muito bom, continua com o bom trabalho. Eu tenho dois relatos de quando eu era criança.

Meu vô tinha um sítio no interior de São Paulo, próximo de Jaú, lá em Itapira [2]. E tinha um funcionário deles lá que trabalhava como carroceiro, e ele jurava de pé junto que já tinha dado um tiro no lobisomem. Descarregou uma cartucheira e falava com todas as letras: “Descarreguei dois cartuchos de chumbo 28 de uma cartucheira de cano duplo no peito do lobisomem, mas não aconteceu nada”.

Ele jurava de pé junto que isso aí era realidade.

O segundo relato é que, perto de Jaú, ali no interior de São Paulo, o pessoal da cidade também… Eu lembro que a gente ia, quando era moleque, tinha uns 15, 16 anos, pra cidade, pra farrear, pra passear. Um cidadão da cidade que o pessoal jurava de pé junto que era um lobisomem.

Quando ele passava, os cachorros ficavam todos agitados, latindo, querendo morder, avançavam nele e tudo. E os cavalos, quando ele passava, ficavam agitados também, empinavam, saíam em disparada com a carroça. Os animais reconheciam a presença dele e ficavam incomodados. Então a cidade inteira falava que ele era o lobisomem.

Andriolli Costa: Essa história foi enviada pelo ouvinte Pedro Galvão. E, pegando o gancho do cachorro, os únicos que seriam capazes de brigar de igual pra igual com o lobisomem são os cachorros pretos, que utilizam de uma estratégia especial: avançam diretamente nas orelhas enormes do bicho. Porque aquele seria o grande ponto fraco pra uma bela mordida.

[Vinheta do Poranduba.]

Dona Melinda enfrenta a criatura

Andriolli Costa: Esse daqui é do Francisco Gorgulho. É o causo da sua avó, a dona Melinda, que é de Cristina, Minas Gerais, mas se passa na cidade de Lambari.

Nessa época a avó do Francisco só tinha duas meninas, que é a tia Neusa e a tia Nádia. Um dia o avô dele tinha saído de casa, e a mãe tava sozinha ali trabalhando no quintal, que era também a cozinha, né, já que o fogão a lenha ficava coberto ali no meio do quintal.

Foi aí que apareceu um cachorro meio porco e começou a comer todo o resto da comida dos cachorros ali da casa. Diz a vó que ele comia fazendo aqueles barulhos, né, aqueles movimentos de porco. Inclusive tinha uma orelha de porco também.

A dona Melinda já tinha visto o lobisomem. Então ela não deu muita bola e continuou levando a vida dela como se não fosse nada. Só que uma hora o lobisomem foi pegando confiança e chegando mais perto da casa, mais perto, até que enfiou a cabeça ali pra dar uma espiada onde ficava a rede em que tavam dormindo a tia Neusa e a tia Nádia.

E aí, movida pela coragem que só as mães têm, a dona Melinda puxou um tição em brasa do fogão a lenha e enfiou na barriga do lobisomem, que saiu correndo, fugido.

Aí o Francisco disse: “Ela contava mais causos, mas esse eu acho impressionante porque foi ela. Pode não ser verdadeiro, mas eu adoro”.

Claro que é verdadeiro, Francisco. E a gente vai ver aqui, pela recorrência desses hábitos alimentares do lobisomem, vocês vão perceber que tem muitas semelhanças no jeito que ele come e nas coisas que ele come. Olha só.

As pegadas no riacho e os restos de churrasco

Relato de ouvinte sem identificação no trecho: Olá. Eu vi o post sobre histórias de lobisomens e na minha família tem algumas histórias, né? Inclusive eu tenho orgulho de dizer que meu vô foi um caçador de lobisomens.

Minha mãe morava no Paraná quando era pequena, antes de se mudar pra cá, pra São Paulo. Quando era pequena, ela morava do lado de um riacho, e a minha avó, a mãe dela, falava que de noite vinha um lobisomem e ficava andando, rondando a casa. Ela e os irmãos morriam de medo.

Numa madrugada tava todo mundo dormindo, e eles começaram a ouvir um barulho no riacho, sabe? De alguma coisa pisando no riacho. E aí, no outro dia de manhã, quando foram ver, tinham várias pegadas de cachorro grande, assim, no riacho, na lama. E ela sempre me conta essa história.

Aí eu fui perguntar pra minha avó, e minha avó confirmou essa história e ainda contou uma outra. Ela disse que, quando morava em uma outra casa, ainda lá no Paraná, era uma daquelas casas de madeira que você conseguia ver o lado de fora, sabe?

Eles estavam fazendo carne assada, tipo do lado de fora, na churrasqueira. Estavam fazendo um churrasco. E a pia da casa era do lado de fora. Então eles fizeram churrasco, tudo, e aí deixaram a louça na pia, né?

Aí, beleza, foram dormir. De noite começaram a ouvir barulho, alguma coisa mexendo lá do lado de fora. E ela disse que olhou pela fresta e viu um cachorro muito grande, preto assim, e era do tamanho de uma pessoa o cachorro. Ele tava agachado, mexendo na louça, procurando algum pedaço de carne, alguma coisa.

O trabalhador da ponte e os cachorrinhos

Orlandino Aguiar: Tem muita história que a gente ouvia antigamente, quando era criança, que os mais velhos contavam, a gente não acreditava, a gente ria. [Risos.] Porque achava que tudo era mentira. Mas depois de um certo tempo a gente foi vendo que a coisa é real.

Então o tal de lobisomem, que você já deve ter ouvido falar, existe. É um cachorrão preto, peludo, que anda nas estradas altas horas da noite, principalmente na Quaresma.

O meu pai ainda contava, na época que foi fazer a ponte de Sousa aqui, ó, que não tinha ponte ali. Vocês pensam que toda vida teve aquela ponte de lá? Nunca teve, não. Aí contrataram uns carpinteiros que vieram de Minas, lá do centro de Minas, pra construir a ponte. Aí veio pedreiro, veio carpinteiro, veio carreiro que puxava tora nos bois, pedra pra construir a ponte.

Um certo dia tinha uma cachorra lá com 12 cachorrinhos, do meu avô. E a turma dormia no rancho, na fazenda do meu avô, na entrada da ponte ali. De manhã a cachorra correndo pra todo lado lá, e nada. E cadê os cachorrinhos? A cachorra que andava lá atrás dos cachorrinhos tava com os peitos estufados de leite. E cadê os cachorrinhos? Nada. Sumiram os cachorrinhos tudo.

E o pessoal lá na ponte, normal, trabalhando. E os carpinteiros, já viu, né? Bebiam as cachaças deles e entravam na bagunça lá. Aí, olha a coisa como é séria. Vocês não acreditam porque é criança, é jovem ainda. Às vezes acha que a gente tá mentindo, mas isso os mais antigos contavam, e os mais antigos não contavam mentira pra gente, não.

Aí chega na hora do almoço, teve um dos pedreiros lá, dos trabalhadores da ponte, que não quis almoçar. [Trecho não recuperável.] “Tô sem fome.” Amarelo, amarelo.

Todo mundo brincando ali, rindo, e o cara não quis almoçar mesmo, realmente. Olha, eu falo uma coisa certa, mas a gente conta assim, ó, chega até a arrepiar o pelo do braço da gente. O cara começou a vomitar. Só vomitou osso de cachorrinho novo.

Vomitou a ossaiada ali perto do povo. Todo mundo encostou suas vasilhas pra lá, saiu, ninguém também quis almoçar. O cara atravessou a ponte, que já tava quase pronta, pegou a estrada de Minas, desapareceu. Nunca mais ninguém viu ele. Tá correndo até hoje.

Seu Firmino guarda a porta

Douglas Rainho: E aí, Andriolli, beleza? Aqui é o Douglas Rainho, do Papo na Encruza, podcast de macumbaria. E eu tenho uma história, sim, com o lobisomem.

Se passava no sítio da minha família. Eu passava alguns finais de semana e geralmente as férias nessa região, que é de Bragança, em São Paulo, e é muito próximo de Joanópolis, que é conhecida como a capital brasileira do lobisomem.

E a gente tinha um caseiro, um saudoso caseiro, que era o seu Firmino. Seu Firmino era um senhor que morava próximo ao nosso sítio, né? Na verdade ele não morava no nosso sítio, cuidava do sítio quando a gente estava ausente, era um funcionário do meu pai. Então ele passava geralmente o dia com a gente lá no sítio e, quando chegava por volta de umas oito horas da noite, ia embora pra casa dele.

E numa dessas vezes ele tava se despedindo da gente, como sempre fazia, com muito bom humor, né? E disse que estava indo embora e voltou esbaforido, de repente, esbaforido.

Meu pai, olhando aquilo, falou: “O que que aconteceu, Firmino? O que que aconteceu? Viu algum bicho?”, não sei o quê. Ele falou: “Fecha todo mundo em casa, porque o lobisomem tá atacando as galinhas”.

Eu lembro que ele se colocou na porta de entrada da casa, do lado de dentro, claro. Trancou toda a casa, pediu pra colocar as crianças pra dormir, coisa que foi impossível, porque a gente tava todo mundo agitado. E ficou a madrugada inteira olhando praquela porta, sem deixar a gente sair.

Meu pai, como uma boa pessoa criada na cidade, fala assim: “Firmino, isso aí é bobeira. Deixa disso, vamos lá fora ver o que tá acontecendo”. E ele: “Não, seu Inácio, não vai sair daqui, não”. E ficou a madrugada inteira na porta, lá de prontidão.

Amanhecido o dia, né, nós estávamos lá todos felizes com as nossas olheiras, que passamos a noite todos agitados com a história do lobisomem. Aí o Firmino resolveu sair da casa e verificar o galinheiro.

Quando nós chegamos no galinheiro, eu lembro de ter ido com meu pai e tudo mais, realmente haviam várias galinhas mortas. Muita pena espalhada, muitas coisas e tal. E aí o Firmino só falou assim: “Tá vendo, seu Inácio? Esse lobisomem tava aqui, por isso que eu protegi vocês”.

Cara, pode ter sido algum outro tipo de bicho, uma raposa, não sei nem se tem raposa naquela região. Algum outro tipo de bicho? Pode. Mas eu prefiro acreditar que foi o lobisomem.

A fome do lobisomem e os perigos da Quaresma

Andriolli Costa: Conseguiram perceber o padrão? O nosso lobisomem normalmente come resto: resto de comida, resto de gordura que vai fazer sabão, resto de farinha que sobra no monjolo. No máximo ele se dá a atacar pequenos animais, como filhotes de cachorro, galinhas e, em casos extremos, bebês não batizados, bebês pagãos.

É por isso que, muitas vezes, de tanto comer porcaria, quando assume a forma humana ela é sempre amarela, enfraquecida, está sempre vomitando. Essa é uma das formas de você identificar, então, quem seria um lobisomem. É uma pessoa muito magra, muito fraca, muito esquisita. Isso, claro, longe da Quaresma.

Quando a gente chega nesse que é o momento mais sombrio do folclore brasileiro, as criaturas ficam especialmente ferozes e poderosas. E nesse momento é mais do que recomendável se recolher. Caso contrário, o lobisomem pode avançar, como a gente vai ver nessa aqui, que é a última história que a gente recebeu da Iara Xavier.

O lobisomem da Rua do Sossego

Andriolli Costa, lendo o relato de Iara Xavier: No distrito de Jurumirim, a Iara escreve:

Era época de Quaresma e meu bisavô, o senhor João Silvério, era ferreiro e domador de cavalos. Apesar de muito católico, ele foi jogar truco e ouvir rádio na Rua Grande, a rua principal da vila.

Minha bisavó, dona Chica, havia advertido pra ele não fazer isso, porque era Quaresma e tinha lobisomem aparecendo na Rua do Sossego e na Rua do Cemitério. Se ele demorasse, que voltasse então pela Estrada dos Caminhões, uma rua baixa, perto do rio e mal falada, porque era onde moravam as prostitutas, e era mais movimentada que as ruas próximas ao cemitério.

Meu bisavô ficou até tarde, apesar de ser dia de semana e ele ter que trabalhar na tenda de ferreiro na manhã seguinte. E, como era teimoso, voltou pela rua vazia. Na tal da Rua do Sossego, pouco habitada, em frente a um terreno baldio com algumas goiabeiras, ainda no início da rua, ele sentiu um cachorrinho, tipo um pinscher, morder seu calcanhar. Ele o enxotou, mas o bicho insistia.

Aqui valem dois adendos. É recomendado não olhar pra trás nas noites de Quaresma, porque os diabos estão esperando pra nos tentar, nos amedrontar. E, na Zona da Mata mineira, dizem que os lobisomens adoram comer goiaba, especialmente goiaba branca.

Meu bisavô não sabia de nada disso. Chutou mais uma vez o animal e se virou pra ver se o espantava de vez. Antes de uma curva descendente na tal da rua, perto de uma amoreira que não dava frutos, o cachorrinho preto virou um cachaço, um porco enorme usado pra reprodução nas fazendas.

Como minha bisavó havia previsto, o lobisomem mineiro atacou seu João. Ele correu o mais rápido que podia, e o bichão atrás. Ele dizia ter se esquecido até de rezar o Credo em Deus Pai e a Salve-Rainha. A sua sorte é que morava perto, e a corrida foi pouca.

Mesmo assim, acabou machucado, porque o cachaço lhe arranhou e rasgou a calça. Ao menos não passou a maldição do lobisomem pra ele também. A criatura só não avançou pelas escadas da casa porque havia uma cruz feita de papel crepom do lado de fora.

Meu bisavô contou tudo pra minha bisavó, que disse: “Bem feito. Você não sabe que não se joga e nem se dança na Quaresma?”. Nunca souberam quem era o lobisomem que o atacou.

Andriolli Costa: Que história maravilhosa, Iara. Ela ainda termina falando que o avô dela, o seu Tito, que era genro do bisavô, também já viu o lobisomem comendo goiaba branca. E, quando ele chegava perto das árvores, tava cheio de marca de garra.

E você, já viu alguma coisa assim? [Trecho não recuperável.] Fica ligado. Cuidado. Como diz um amigo meu: “Não olhe pra trás”.

Agradecimentos e encerramento

Andriolli Costa: Gostou do programa? Eu espero que sim. Se gostou mesmo, faça como os nossos queridos apoiadores, que assinam mensalmente os planos do Colecionador de Sacis no Padrim e no Catarse.

É graças a eles que nós nos mantemos sempre falando de folclore, se não aqui no podcast, nos nossos outros tantos projetos paralelos, que quem nos acompanha no grupo secreto do WhatsApp está sempre sendo atualizado.

Então eu gostaria de primeiro agradecer demais a quem enviou as suas histórias de lobisomem, mesmo que não pôde entrar aqui no programa, e aos nossos queridos apoiadores: Ágatha Urzedo, Alex Mir, Ana Lúcia Merege, Ana Magalhães, Anderson Arnt, André Vazzios, Euclides Veja, Artur Rocha, Bruno Moraes, Camila Piva, Cesar Silva, Daniane Angolini, Daniel Burle, Demian Walendorff, Douglas Rainho, Gabriel Quartin, Geoci Silva, Guilherme Passos, Guilherme Kruger, Hosaná Dantas, Ian Fraser, Karla Godoy, Leandro Araujo, que mandou a história da dona Uia.

Muito obrigado, Leandro.

Luiz Telles, Maico Wolfart, Marcos Nogas, Maurício Filho, Maurício Xavier, Mayara Lista, Maycon Torres, Mickael Menegheti, Nilda Alcarinque, Pedro Scheffer, Rafael Joca Cardoso, Thaynara Oliveira, Thomas Missfeldt, Tiago Chiavegatti, Vinicius Carli, Vinicius Pinton, Vitor Nogueira, Vitorya Silveira, Wadson Freiras, Waldeir Brito, Welma Reis e Zé Wellington.

Muito obrigado, pessoal. Vocês ajudam a tirar o folclore da garrafa. Continuem conosco, tem muita coisa legal vindo por aí, especialmente o meu grande projeto pra esse ano, que vai ser o card game de Poranduba. Tá em produção [trecho não recuperável] e vai ser lançado em financiamento coletivo no segundo semestre. Fica ligado. Aguardo o seu apoio.

Um abraço e até a próxima.

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