Lena Martins conta como criou as bonecas Abayomi e contesta mito dos navios negreiros

Por Andriolli Costa

Era a segunda metade da década de 1980 quando a artesã Lena Martins começou a transformar retalhos em pequenas figuras humanas. Na época, ela trabalhava como animadora cultural nos CIEPs e participava do movimento de mulheres negras no Rio de Janeiro. Feitas sem cola nem costura, as bonecas receberam mais tarde o nome Abayomi e se espalharam por todo o país.

Nesta entrevista, Lena reconstrói o caminho que levou à criação das Abayomi, iniciado na infância entre os retalhos da confecção de sua mãe, em São Luís. Essa trajetória passa pelas experiências com palha de milho, pelas oficinas realizadas com crianças e pela descoberta do artesanato como forma de materializar questões ligadas à identidade e à memória.

Lena também contesta a versão de que as bonecas teriam surgido nos navios negreiros. Segundo essa narrativa, mulheres africanas escravizadas rasgavam as próprias roupas para criar brinquedos durante a travessia. Para a artesã, a história romantiza uma experiência marcada pela violência e apaga a autoria de uma mulher negra viva.

O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 104 do Poranduba, apresentado por mim e publicado originalmente em 16 de agosto de 2021. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias, interrupções técnicas e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As referências a redes sociais, encomendas e pontos de venda correspondem ao momento original da entrevista.

Retalhos, bonecas e encantamento

Andriolli Costa: Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e no programa de hoje tenho o prazer de receber a artesã Lena Martins, criadora das bonecas Abayomi. Lena tem uma trajetória fantástica de criação, que a gente vai conhecer melhor nesta conversa. Tudo bem, Lena?

Lena Martins: Olá, tudo bem? Sou Lena Martins, tenho 70 anos e me dedico há muitos anos ao artesanato. Acho que desde os 16 ou 17 anos.

Andriolli Costa: Queria que você contasse aos nossos ouvintes como começou essa relação não apenas com o artesanato, mas também com as bonecas. Desde a infância você costumava fazer os próprios brinquedos?

Lena Martins: Nasci em São Luís, no Maranhão. A gente tinha uma vida confortável. Minha mãe tinha uma loja, meu pai era técnico de enfermagem num hospital psiquiátrico e a gente brincava muito. Tinha o bumba meu boi, meu pai comprava aqueles fogos e as coisas relacionadas à festa.

Eu sempre conto a história da loja da minha mãe porque ela é muito marcante pra mim. Atrás da loja havia um galpão onde ela e as costureiras trabalhavam. Era uma confecção, principalmente de roupas masculinas. As costureiras geralmente eram minhas tias, além de uma pessoa de fora, e havia também um alfaiate. Era um ambiente muito familiar. A gente saía da escola e ia pra lá. Eu ficava naquele mundo maravilhoso dos retalhos.

Andriolli Costa: Então a boneca de pano foi a sua primeira boneca?

Lena Martins: Não apenas. Eu também tinha aquelas bonecas que mexiam o pescocinho. E havia uma referência muito bonita da minha avó. Ela gostava de fazer bolo de tapioca, que é tradicional no Maranhão, e dava ao bolo o formato de bichinhos e de bonecas. Coisa de avó, não é? Ela modelava, e aquilo também era um encantamento pra mim.

Andriolli Costa: Você já viu aqueles doces de açúcar chamados alfenins?

Lena Martins: Aquilo é uma maravilha. É do Sul que vem, não é?

Andriolli Costa: Sei que a origem é portuguesa, mas, em todo lugar onde tem cana-de-açúcar, o pessoal acaba fazendo. Na minha terra também se fazia, bem no interior.

Lena Martins: Além de gostosos, são lindos. Não dá nem vontade de comer.

Andriolli Costa: Uma vez, vendo o seu trabalho com as bonecas de pano, fui pesquisar como se fazia boneca de palha. Achei bem difícil. Comprei milho, peguei a palha, fiquei dobrando, mas ela rasgava. Você também trabalhou com palha de milho?

Da palha de milho à Abayomi

Lena Martins: O meu trabalho vem desse caminho. Já adulta, comecei a fazer bonecas de pano costuradas, como as que minha mãe fazia nas horas de lazer. Ela fazia pra dar às pessoas, não pra vender. Era uma coisa que fazia bem a ela.

Depois de adulta, comecei a fazer essas bonecas conhecidas em muitos lugares do Brasil como bruxinhas de pano. Elas são costuradas, recheadas com algodão e podem ter bordados. Eu fazia a boneca, mas já vestia sem costurar a roupa: criava as peças só com amarrações. Acho que a palha de milho foi o grande pulo para eu chegar à Abayomi.

Andriolli Costa: As Abayomi são bonecas de pano feitas sem costura e sem cola, criadas por você nos anos 1980. Como a palha levou a essa técnica?

Lena Martins: Comecei a fazer um tipo muito simples de boneca de palha de milho. Eu aproveitava o próprio movimento da palha seca, que fica um pouco enrugada, e aquilo já virava os pés e outras partes do corpo. Era uma estrutura simples, que eu ensinava às crianças nos CIEPs, dentro do projeto de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola para os centros de educação aqui do Rio de Janeiro.

Na oficina, não havia cola nem costura. A roupa era de tecido e também toda amarrada. Isso mexeu com alguma coisa dentro de mim, junto com o que eu vivia naquela época, por volta de 1986 e 1987. Eu estava muito envolvida com o movimento de mulheres negras, que organizava o primeiro Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em 1988. Como animadora cultural e ativista, também participava dos encontros de preparação para a marcha que parou o Rio de Janeiro e discutiu os cem anos da Abolição.

Era uma organização muito interessante porque não ficava centralizada apenas no centro da cidade. Circulava por vários bairros. Em Jacarepaguá, onde eu morava, havia um grupo que ajudava a preparar os espaços para as reuniões.

Foi nesse contexto, buscando a minha identidade e tentando entender se eu era branca, se era negra, o que eu era, que comecei a fazer aquelas bonecas de palha que encantavam tanta gente.

Também descobri que gostava de fazer coisas junto com outras pessoas, na dinâmica das oficinas. Quando chegava em casa, ficava completamente mobilizada e não conseguia parar. Queria fazer mais e mais. Comecei a embolar pedaços de pano, sem saber muito bem por quê, até que eles foram ganhando a aparência de um corpo humano.

Uma dessas experiências foi a primeira boneca que chegou mais perto de uma referência de corpo humano. Quando fiz, fiquei completamente apaixonada. As anteriores eram apenas uns embolados de pano que eu criava por vontade. Depois daquela, deslanchei. As bonecas foram ganhando mais contorno e mais cores.

Quando comecei a levá-las às reuniões e aos encontros, as pessoas ficavam encantadas e diziam: “Eu quero comprar”. Eu ainda não estava vendendo nada. Ficava muito feliz, porque tinha feito uma coisa que todo mundo queria ter.

Materializar o que está dentro da gente

Andriolli Costa: De que maneira colocar a mão na massa, fazer arte e produzir uma peça ajuda a gente a entender melhor a própria identidade? Você contou que, naquele momento, estava tentando se compreender como mulher negra.

Lena Martins: Acho que existe uma questão de se reconhecer no objeto. É alguma coisa que brota. Não tenho conhecimento acadêmico; vou falar do meu lugar de artesã.

Tenho a sensação de que as coisas que a gente materializa com o artesanato, os objetos que vão tomando forma, sempre trazem alguma notícia do nosso inconsciente. É como materializar algo muito subjetivo, conseguir dar forma àquilo.

O que eu vivia me provocava, e toda aquela provocação estava dentro de mim. Acho que ela se materializou num objeto que era uma boneca. Nunca tinha pensado assim. Estou formulando isso agora.

Andriolli Costa: Achei muito bonito. E você criou a boneca já pensando nas crianças ou não necessariamente? Afinal, os adultos também se encantavam com ela.

Lena Martins: Pra falar a verdade, nunca pensei diretamente na boneca como um brinquedo. Acho que ela não se destina a isso. Como não tem cola nem costura, alguma pecinha pode se soltar e ser ingerida. Ela também é frágil no sentido de poder se desfazer.

Costumo dizer que é um brinquedo mais à altura do olhar do que das mãos. Num quarto de criança, você pode colocar uma trapezista, um Saci, um galinho, alguma coisa para ser vista, não necessariamente manuseada. Quando a criança é maior, aí pode colocar na mão e seja lá o que Deus quiser.

Andriolli Costa: Se uma parte da Abayomi se soltar, é fácil amarrar de novo?

Lena Martins: Depende da habilidade da pessoa. Eu amarro muito as coisas e gosto de esconder as amarrações. Não gosto que os nós fiquem muito aparentes, a não ser quando isso fica bonito. Gosto que a boneca engane um pouco: “Será que tem cola? Será que tem costura?”.

Fazer, vender e reaproveitar

Andriolli Costa: Quando você percebeu o interesse das pessoas e decidiu começar a vender?

Lena Martins: Não demorou muito, porque o apelo era muito grande. Comecei a colocar as bonecas numa loja em Jacarepaguá. Naquela época eu fazia peças grandes e ainda não sabia calcular o valor.

Andriolli Costa: Imagino que o preço tenha mais relação com o tempo necessário para criar cada objeto do que com o material.

Lena Martins: É principalmente isso, porque continuo trabalhando apenas com sobras e materiais reaproveitados. Em último caso, se não consigo a base do trabalho, que é a malha preta ou a lycra preta, talvez tenha que comprar alguma coisa. Mesmo assim, primeiro vou a um brechó para ver se encontro alguma peça.

O trabalho reúne muitas questões. Além da identidade, penso que já existe coisa demais no mundo virando lixo. É muito tecido, muita roupa, tudo muito descartável. Também trago isso para o meu trabalho.

Claro que a maior parte das pessoas não percebeu tanto essa dimensão. O que mais chamou atenção foi ser uma boneca sem cola e sem costura. Por isso ela se replicou de ponta a ponta no Brasil. É uma técnica viável e simples, que não exige muitas ferramentas.

Andriolli Costa: Por que você acha que tantas pessoas negras se identificaram com a boneca?

Lena Martins: Principalmente naquela época, em 1987, eu observava que as bonecas vendidas nas lojas, essa primeira relação de afeto que a criança tem para além de quem cuida dela, não tinham a cara das pessoas nem dos nossos parentes. Eram aquelas bonecas clássicas, brancas, de cabelo louro e olhos claros.

Quando a gente consegue trazer alguma coisa com a qual se identifica, isso dá muita satisfação.

A criação e o nome Abayomi

Andriolli Costa: Você chegou a pesquisar roupas de povos africanos para vestir a Abayomi ou as peças surgiam da sua criatividade?

Lena Martins: Nunca fiz isso por conta própria. Só pesquiso uma imagem quando alguém encomenda algo específico. No meu processo, trabalho com o que está na mão, com o que está na roda, com o que acontece aqui e agora.

O nome Abayomi veio da minha comadre Ana Gomes, uma mulher do movimento de mulheres negras. Ela estava grávida. Se tivesse um menino, ele se chamaria Abebe Bikila; se fosse menina, Abayomi.

Andriolli Costa: Abebe Bikila foi o corredor etíope que venceu a maratona olímpica correndo descalço.

Lena Martins: Isso. Ele foi campeão e voltou a vencer na Olimpíada seguinte. Minha comadre teve um menino, Abebe Bikila, de quem sou madrinha. E vou contar uma coisa que quase nunca falo: esse Abebe é o rapper BK.

Andriolli Costa: Que demais! Então Ana é a madrinha das Abayomi, e você é a madrinha do Abebe.

Lena Martins: Exatamente. Quando Ana me deu o nome, disse que, segundo a pesquisa que havia feito, significava “meu presente”, no sentido daquele momento que a gente vivia.

Andriolli Costa: Eu tinha certeza de que significava algo como “um presente” ou “uma dádiva”.

Lena Martins: Algumas pessoas dizem isso. Eu não falo iorubá, então já pesquisei algumas vezes. Na Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, de Nei Lopes, Abayomi também aparece como nome ou sobrenome. Poderia existir, por exemplo, uma Lena Abayomi. Ele já conhecia as bonecas e sabia do trabalho.

Andriolli Costa: Quando recebeu o nome, a boneca já existia?

Lena Martins: Já existia havia mais de um ano. Até então, era apenas uma boneca negra sem cola e sem costura. Não tinha um nome.

A falsa origem nos navios negreiros

Andriolli Costa: Existe uma história muito repetida segundo a qual as bonecas teriam surgido durante a travessia de pessoas africanas escravizadas. As mães arrancariam pedaços das saias para fazer bonecas para as crianças. Muita gente desconhece que você criou a Abayomi em 1987. Como recebeu essa versão?

Lena Martins: Inicialmente, foi um espanto. Quando ouvi pela primeira vez, há muitos anos, pensei: “Nossa, eu devo ser uma supermédium. Como pude criar uma técnica, dar um nome e descobrir que tudo isso já existia? Deve ter sido uma entidade muito poderosa que baixou aqui”.

Andriolli Costa: Num primeiro momento, você acreditou que a história fosse verdadeira e que tivesse repetido uma técnica antiga?

Lena Martins: Não. Achei a história um absurdo. E não estou dizendo que não acredito em guias ou encantados; claro que acredito. O absurdo seria imaginar que uma entidade tivesse me transmitido tudo aquilo sem que eu conhecesse uma história supostamente antiga.

Até hoje, a gente não tem certeza sobre a presença de crianças naquelas travessias. Quando vemos uma representação de um navio negreiro, dá para imaginar uma criança ali, ao lado da mãe, enquanto ela rasga a própria roupa para fazer uma boneca?

Andriolli Costa: É muito difícil imaginar que isso tenha acontecido.

Lena Martins: Não era uma viagem turística. Era a condição mais perversa possível. Acho que essa história é uma forma de romantizar uma experiência tão dramática e tão violenta.

Vejo aí o poder do racismo sobre a nossa subjetividade, a nossa vida e as nossas histórias. Quando aparece alguma coisa com autenticidade, tentam derrubá-la por meio de uma narrativa romantizada. Colocam aquela mãe num lugar incrível: mesmo submetida à pior condição, ela rasga a saia e produz a boneca. O ato de rasgar a roupa cria uma cena dramática, uma imagem muito forte.

Não sei definir exatamente o sentimento, mas tenho certa tristeza ao ver tantos professores repetindo essa história, inclusive professores de História.

Não culpo os professores. Culpo o sistema educacional em que a gente vive, que muitas vezes nos conduz aos piores lugares e não oferece oportunidades para pesquisar e aprofundar.

Andriolli Costa: Como a Abayomi exige pouco material e é facilmente replicada, ela funciona muito bem em sala de aula. É possível fazer uma oficina com as crianças durante uma tarde, e assim a técnica chega ao Brasil inteiro. Infelizmente, às vezes ela chega acompanhada dessa versão distorcida.

Lena Martins: Muita gente me procura para saber mais. Atualmente há três ou quatro pessoas fazendo pesquisas de mestrado, além de outras dissertações que já conheço. As pessoas começam pela história do navio, depois descobrem que Lena existe e vêm conversar comigo.

Não quero convencer ninguém. Estou aqui, no caminho da minha sinceridade, e vou segui-lo até o fim.

Um parto feito de tecido

Andriolli Costa: Quais foram as peças que você mais gostou de fazer?

Lena Martins: Uma cena de parto. Foi um verdadeiro parto fazer aquela peça. O Museu do Folclore chegou a comprar uma delas.

Fiz uma mulher agachada, com um homem atrás dando apoio e segurando-a por baixo. Diante deles, havia uma senhora de cabelos brancos, com um tecido bonito sobre o colo, aparando o bebê. Ela ficava entre o pai e a mãe. O cordão umbilical ainda ligava o bebê à mãe, enquanto ele estava no colo da avó.

Andriolli Costa: Tudo no estilo Abayomi, apenas com tecido, sem cola e sem costura?

Lena Martins: Tudo Abayomi. Não fiz muitas cenas assim, talvez umas oito ao longo da vida. Também criei um pequeno vídeo com um texto que chamei de O parto do princípio. Há uma dessas peças no acervo do Museu do Folclore.

Andriolli Costa: E aquele Saci grande que comentamos no começo? Quando você começou a criar outros personagens por meio da técnica Abayomi?

Lena Martins: Naquela época, eu convivia com um grupo de oito mulheres que aprenderam a fazer as bonecas comigo. A maioria era bem mais jovem. Ficamos juntas durante 16 anos.

Começamos a querer fazer fadas, gnomos, anjos, sereias e outros seres. Pensávamos: dentro do imaginário de uma criança preta, como é um anjo? Ele não precisa ter olhos azuis. Queríamos criar todo esse mundo encantado com bonecas negras. O Saci grande foi feito especialmente por Flávia Berton, que aprendeu comigo.

Visagens e histórias da infância

Andriolli Costa: Você ouvia histórias de Saci na infância? Os encantados faziam parte das narrativas que escutava?

Lena Martins: Totalmente. A gente falava em histórias de visagem.

Andriolli Costa: No Maranhão vocês usavam a palavra “visagem”?

Lena Martins: Sim. Acho que visagem também tem a ver com espíritos e com esse mundo. Lembro da gente correr para colocar o pé dentro da rede, porque dormíamos em redes. O pé não podia ficar do lado de fora.

Andriolli Costa: Quem contava essas histórias?

Lena Martins: Minha avó gostava de contar, minhas tias também. Às vezes, eram as pessoas que tomavam conta da gente.

Andriolli Costa: Você se lembra de alguma história que tenha marcado muito? Pode ser de Saci, de lobisomem ou de outro ser.

Lena Martins: Há uma história que me impactou completamente. Ela circula em várias partes do Brasil e até fora do país. É a história da menina que foi enterrada viva e cujo cabelo virou capim. Quando alguém vai cortar o capim, ela canta: “Jardineiro de meu pai, não me cortes o cabelo”.

Andriolli Costa: Essa é pesada. Você acha que a infância influenciou a sua produção artística?

A criatividade como herança

Lena Martins: Minha mãe era extremamente criativa. Ela dizia: “A única coisa que ainda não fiz em costura foi bata de padre; todas as outras coisas eu já fiz”.

Na nossa casa havia muitos materiais. Ela também criava broches de parafina em formato de frutas perfeitas.

Acho que recebi influência dos dois. Meu pai era técnico de enfermagem num hospital psiquiátrico, mas também era uma pessoa de extrema delicadeza e atenção. Durante a semana, quando chegava do trabalho, ele preparava as pipas. Cortava e raspava o bambu, montava tudo e deixava o cerol pronto. No fim de semana, ia soltar pipa.

Andriolli Costa: Ele soltava pipa com vocês?

Lena Martins: Não. Ele mesmo ia soltar. Aquela era a brincadeira do meu pai.

Andriolli Costa: Você tem filhos? Chegou a fazer bonecas para eles?

Lena Martins: Tenho dois filhos que vieram do meu ventre e uma filha que entrou no meu coração. O André está com 51 anos, a Isa com 46 ou 47, e a Cris mais ou menos com a mesma idade. Quando comecei a fazer as Abayomi, eles já eram grandes.

Às vezes faziam alguma coisa comigo. André nunca conseguiu se envolver muito. Isa trabalhou por um curto período na cooperativa, fazendo bonecas. Minha neta tem 26 anos e fiz de tudo para que também se interessasse. Ela entrou um pouquinho, mas não é o jeito dela. O caminho dela é outro.

Andriolli Costa: O que é necessário para ser uma boa bonequeira? Paciência, habilidade nas mãos?

Lena Martins: É difícil responder o que faz uma boa bonequeira. Acho que, quando a gente tem um mínimo de capacidade de concentração e de estar dentro de si, consegue fazer alguma coisa que encante. Vejo mais por aí do que por uma habilidade específica de bonequeira.

Movimento de mulheres negras

Andriolli Costa: O nome e os princípios da Abayomi estão muito ligados ao movimento negro. Você continuou participando e acompanhando esses debates? Isso ainda faz parte da sua vida?

Lena Martins: Não estou diretamente ligada a uma organização, mas colaboro sempre que posso. Tenho uma relação muito boa com a Casa das Pretas, onde faço algumas oficinas aqui no Rio de Janeiro. Também participei da Marcha das Mulheres Negras.

Tive a felicidade de estar na República Dominicana no encontro em que foi instituído o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho. Organizei-me, pedi ajuda para conseguir viajar, levei muitas bonecas e vendi praticamente tudo. Naquela época, eu trabalhava com o grupo.

Andriolli Costa: Para encerrar, gostaria que você deixasse uma mensagem para quem deseja levar cultura e arte às crianças negras e pode encontrar na Abayomi um caminho de encantamento.

Uma criação que passa pelo coração

Lena Martins: A Abayomi é um objeto que provoca muitos sentimentos. Primeiro, pela facilidade de fazer e porque os materiais são simples de conseguir. Não precisa de uma grande ferramenta; basta uma tesoura, que muita gente tem.

Com o próprio corpo da Abayomi, podemos trabalhar vários aprendizados sobre tamanhos, harmonia e contornos. Dá para fazer muita coisa. Muitos professores e professoras já trabalham assim. A boneca é inspiradora. Acredito que seja inspiradora.

Qualquer trabalho que a gente faça para outra pessoa precisa estar bem assentado dentro de nós. Precisa nos mover e nos tocar em algum lugar. Num trabalho de cultura, principalmente quando relacionado à cultura afro, aquilo tem que fazer parte da gente.

A gente precisa se emocionar e sentir para conseguir trocar com o outro. Não pode ser uma coisa que vai apenas de cabeça para cabeça. Tem que passar pela linha do coração para alcançar a outra pessoa. Estou falando como artesã.

Andriolli Costa: A gente aprende muito ouvindo você. Lena, foi um prazer gigantesco conversar contigo.

Lena Martins: O prazer também foi meu. Muito obrigada pela paciência comigo.

Andriolli Costa: Eu é que agradeço. Quer deixar um site ou uma rede social para as pessoas encontrarem o seu trabalho?

Lena Martins: Não sou muito ligada às redes sociais, mas tenho o Facebook Lena Abayomi Martins e, no Instagram, o perfil @abayomi.lena. É onde publico algumas coisas, principalmente fotografias das bonecas.

Andriolli Costa: E para comprar? Você vende diretamente ou é melhor procurar uma loja?

Lena Martins: Não sou uma grande vendedora de bonecas. Aqui em Santa Teresa, a loja La Vereda vende algumas peças, e também recebo encomendas. Não faço entregas pessoalmente: envio pelo correio ou a pessoa combina de buscar aqui.

Andriolli Costa: Perfeito. Lena, muito obrigado pela conversa.

Referência da entrevista

MARTINS, Lena. Bonecas Abayomi. Entrevista concedida a Andriolli Costa. In: Poranduba 104: Boneca Abayomi. Apresentação: Andriolli Costa. 16 ago. 2021. Podcast.

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