Por Andriolli Costa
Conhecida como Terra das Culturas Diversificadas, Ijuí, no Rio Grande do Sul, construiu parte de sua identidade pública em torno do encontro entre diferentes povos e tradições. Essa experiência, materializada em centros culturais, festas e ações comunitárias, serviu de ponto de partida para a criação da pós-graduação Folclore e Artes Populares: Cultura, Desenvolvimento e Gestão, lançada em 2021 por meio de uma parceria entre a Unijuí e a Organização Internacional de Folclore e Artes Populares (IOV).
Nesta entrevista, o professor e ex-reitor da Unijuí Adelar Francisco Baggio apresenta a proposta do curso, estruturado em três grandes eixos: cultura, desenvolvimento e gestão. A conversa aborda desde o estudo do patrimônio e das manifestações populares até a elaboração de projetos, a prestação de contas, a administração de organizações culturais e as relações entre identidade, turismo, educação e economia.
Baggio também reconstrói a formação multicultural de Ijuí, discute a presença indígena na região e explica como o Movimento das Etnias transformou a diversidade cultural em uma estratégia de mobilização comunitária. Para ele, preservar uma tradição não significa retornar ao passado, mas reconhecer heranças, atualizar práticas e criar condições para que o conhecimento produzido pelas comunidades participe do desenvolvimento social.
O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 102 do Poranduba, apresentado por Andriolli Costa e publicado originalmente em 26 de julho de 2021. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias, interrupções técnicas e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As informações sobre calendário, inscrições e funcionamento do curso correspondem ao momento original da entrevista.

Quem é Adelar Francisco Baggio
Andriolli Costa: Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei o seu guia. No programa de hoje, tenho o prazer de receber o professor Adelar Francisco Baggio, coordenador da pós-graduação em Folclore e Artes Populares, uma parceria da IOV com a Unijuí. Tudo bom, professor?
Adelar Francisco Baggio: Olá, tudo bem com você e com os ouvintes? É uma satisfação podermos conversar sobre esse novo empreendimento, que é de interesse de todos.
Andriolli Costa: Com certeza. Esse é um tema sobre o qual muita gente sempre me pergunta. Iniciativas desse tipo já foram mais frequentes, mas acabaram se tornando sazonais. É muito bom que agora tenhamos uma proposta como essa retornando. Antes de falarmos sobre o tema principal, queria que você se apresentasse aos nossos ouvintes. Quem é Adelar Francisco Baggio?
Adelar Francisco Baggio: Sou professor universitário desde 1971. Fui o primeiro reitor da Universidade de Ijuí e também um dos principais articuladores da criação do Movimento das Etnias de Ijuí, que hoje envolve 14 entidades culturais reunidas na União das Etnias de Ijuí, a UETI.
Atualmente, sou assessor da UETI e assessor especial para assuntos internacionais. Também atuo na coordenação institucional deste curso internacional de Folclore e Artes Populares e no trabalho da IOV. Temos em torno de 40 grupos folclóricos de diferentes etnias e mantemos relações com grupos da Europa, da Ásia, da África, do Oriente Médio e da América do Sul.
Estamos muito envolvidos com esse trabalho, buscando integração, paz e alegria e procurando fomentar o desenvolvimento e a internacionalização das iniciativas dos grupos folclóricos brasileiros.
Ijuí, terra das culturas diversificadas
Andriolli Costa: Ijuí foi formada por imigrantes de quais países?
Adelar Francisco Baggio: Em primeiro lugar, temos os povos indígenas, de diferentes etnias, e os caboclos, que resultaram principalmente do encontro entre portugueses e indígenas. Temos ainda o gaúcho rio-grandense e a presença de argentinos e uruguaios. Ao todo, identificamos cerca de 40 grupos que enviaram pessoas para cá no processo de colonização e que hoje também participam de nossos encontros e atividades.
Mantemos uma articulação muito forte com países europeus, como Alemanha, Itália, Bélgica, Áustria, Portugal, Suécia e Espanha. Temos também grupos vinculados a países africanos, aos japoneses e aos povos árabes. No Parque de Exposições, há casas típicas, grupos folclóricos, vestimentas, culinária e o ensino de diferentes idiomas. Queremos ampliar esse movimento e chegar a 25 ou 26 representações até o final do próximo ano.
Andriolli Costa: Só para eu entender: todos esses povos participaram da formação da cidade?
Adelar Francisco Baggio: Sem dúvida, participaram da formação do município e da região. Em 1890, no processo de migração e colonização, foi criada a Colônia de Ijuhy. O nome, de origem guarani, significa “rio das águas claras” ou “rio das águas divinas”.
Foi uma das primeiras experiências de colonização da região a reunir várias etnias. Em lugares como São Leopoldo e Novo Hamburgo, predominavam os alemães; em Caxias do Sul, os italianos. Aqui foram instaladas inicialmente 13 linhas com diferentes grupos, e a experiência deu certo.
Seis anos depois, em 1896, o padre Antônio Cuber, que escreveu sobre a história de Ijuí e da região, celebrou uma missa na qual estavam presentes pessoas que falavam 19 idiomas. Os caboclos faziam a intermediação entre os grupos. Por isso, na Europa, a colônia chegou a ser chamada de “Babel da América”: havia uma mistura enorme, e ninguém sabia muito bem como as pessoas conseguiriam se entender.
Evidentemente, os imigrantes começaram a derrubar o mato e a explorar a terra. O primeiro grupo de austríacos que chegou naquela década, por exemplo, era formado por funcionários de uma empresa que fabricava armas. Imagine alguém sair da Áustria com a família, sabendo trabalhar apenas com armas, e chegar aqui precisando derrubar árvores, plantar mandioca e milho, enfrentar onças e lidar com doenças. Algo semelhante aconteceu com muitas etnias.
À medida que essa experiência se difundia na Europa, outras pessoas vieram, porque se havia criado um caminho para o entendimento, a ajuda mútua e a cooperação. Essa marca permanece até hoje. Ijuí ficou conhecida como a terra das culturas diversificadas.
Diversidade, cooperação e patrimônio vivo
Andriolli Costa: Você trouxe duas palavras-chave: cooperação e diversidade. Como essa diversidade de etnias influenciou o folclore da região?
Adelar Francisco Baggio: Na década de 1980, começamos a trabalhar a ideia das culturas diversificadas de Ijuí. Na mesma época, nasceu a proposta de termos uma universidade na cidade, e não apenas uma cidade universitária. Procuramos uma forma de operacionalizar essa ideia, e o caminho foi estudar a história.
Percebemos que tínhamos diversidade de sangue e de origem. Católicos e evangélicos já se entendiam e se ajudavam desde antes do Concílio Vaticano II. Também éramos conhecidos pela resistência à ditadura. Tínhamos como referências a diferença, a democracia e a miscigenação de culturas e etnias, vividas com tranquilidade, paz e colaboração mútua.
Eu, por exemplo, sou descendente de italianos e me casei com uma descendente de alemães. Um de meus filhos se casou com uma pessoa de origem portuguesa; o outro, com uma descendente de espanhóis e indígenas. Essa mistura está presente em quase todas as famílias.
Temos 14 centros culturais, com casas típicas, culinária, dança, canto e vestimentas. Nove idiomas são ensinados em Ijuí. Mantemos uma rede de comunicação com consulados em Porto Alegre e São Paulo, com embaixadas e com grupos culturais dos países de origem. Pessoas desses países já vieram conhecer nosso trabalho.
Uma das parcerias que estavam mais adiantadas naquele momento era com a Letônia. Pretendíamos formalizar um acordo de cidades-irmãs, envolvendo universidades, prefeituras e empresários, especialmente na área de estudos latino-americanos. A pandemia adiou parte dessas ações, e nossa Festa Nacional das Culturas Diversificadas, a Fenadi, precisou ser realizada virtualmente em 2020. Ainda assim, alcançamos milhões de pessoas em 26 países.
Essa internacionalização abre caminhos principalmente para os jovens. Nosso trabalho parte de quatro pilares do desenvolvimento contemporâneo: o econômico, o social, o ambiental e o cultural. Já temos cerca de 40 grupos folclóricos, casas típicas, apresentações e jantares das diferentes etnias.
Desde 2019, coordenamos também o Movimento Étnico do Mercosul, com a participação de Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil. Mantemos canais com o Parlamento Europeu e com integrantes de sua Comissão de Cultura. Essa interlocução tem aberto portas para outros países.
Andriolli Costa: Você fala muito em integração, mas infelizmente isso não é tão frequente. No choque entre identidades, muitas vezes um grupo procura se afirmar negando o outro: “Você faz parte daqui, então não se misture com aquele grupo”. Vemos isso pelo Brasil inteiro. Por que aconteceu de forma diferente em Ijuí? Foi apenas por causa do convívio? O que fez com que a integração não negasse as identidades?
Adelar Francisco Baggio: Essa é uma questão muito interessante e peculiar. Várias cidades, inclusive capitais como São Paulo, têm um número enorme de etnias. Em outras, predomina um único grupo: Gramado é fortemente marcada pela presença alemã, por exemplo. Há ainda municípios com três, quatro ou cinco etnias que não estão congregadas numa entidade comum. Italianos, poloneses, alemães, austríacos, chineses e japoneses seguem caminhos paralelos.
Em Ijuí, com a criação da universidade na década de 1980 e a valorização da diversidade e da miscigenação, fizemos um trabalho cultural baseado na ideia de que somente cresceríamos e construiríamos uma identidade nacional e internacional se caminhássemos juntos. Uma etnia é importante para as outras, e todas são importantes para cada uma.
Essa mentalidade foi exercitada na culinária, com jantares conjuntos; no esporte; nas apresentações culturais; nos eventos locais, regionais e nacionais; e nas parcerias internacionais. A Fenadi acontece junto da Expo-Ijuí, uma exposição econômica. Essa combinação fez com que os grupos precisassem uns dos outros.
Não existe uma separação rígida. Como eu estava dizendo, mais de 90% das famílias de Ijuí apresentam alguma mistura desde o início da colônia, em 1890. Nossa marca está na diversidade das expressões culturais e muito mais no patrimônio imaterial do que no material. Muitas igrejas e construções antigas foram derrubadas. O patrimônio vivo, por sua vez, permanece na dança, no canto, na música, na culinária, nas vestimentas, nas lendas, nos mitos e nos sonhos.
Se você observar um grupo cultural italiano formado por 30 pessoas, verá que ali também existe mistura. Meu neto, por exemplo, poderia ser situado numa das etnias de seus pais ou numa terceira. Não há um limite rígido. Construímos uma consciência global e complementar.
Depois de passar um dia em nosso parque e conhecer nossas experiências, um embaixador da Palestina me disse: “Aqui está demonstrado, na prática, que é possível haver paz e cooperação entre povos de sonhos, ideais e culturas diferentes”. Temos muitos testemunhos como esse.
Nosso propósito não é voltar a ser italianos ou alemães. Somos brasileiros e estamos contribuindo para a criação e a consolidação da etnia brasileira, ao mesmo tempo que construímos uma cidadania global. Não vivemos apenas do passado: trabalhamos o presente e o futuro numa perspectiva de brasilidade. A beleza do país é justamente ser fruto de uma miscigenação extraordinária e do intercâmbio entre tantas expressões culturais e folclóricas.
A presença indígena
Andriolli Costa: Para encerrarmos este primeiro bloco, quero fazer uma última pergunta sobre identidade. Você mencionou os povos indígenas e fez questão de lembrá-los como os primeiros habitantes dessas terras. Como as etnias dos povos originários aparecem nas festas e manifestações locais? Essa presença também existe?
Adelar Francisco Baggio: Existe, sim. As duas etnias indígenas com participação histórica mais destacada na região são os Kaingang e os Guarani. O próprio nome Ijuí, escrito antigamente como Ijuhy, vem da língua guarani e significa “rio das grandes águas”, “rio das águas claras” ou “rio das águas divinas”. De fato, temos um grande rio chamado Ijuí.
O primeiro slogan da Fenadi, em 1987, foi “Diversas vertentes fazem o rio das grandes águas”. É uma imagem muito bonita. Tivemos a participação de representantes indígenas em diferentes momentos.
A universidade mantém o Museu Antropológico Diretor Pestana, com um acervo importante sobre os processos de imigração e colonização e sobre as Missões Jesuíticas, articuladas aos Sete Povos das Missões, à Argentina e ao Paraguai. Existem restrições institucionais para determinados tipos de ação junto às comunidades indígenas, mas mantemos algumas frentes de trabalho.
Temos estudantes indígenas na universidade e iniciativas ligadas ao ensino de línguas e à formação acadêmica. Não é hoje uma presença tão forte e viva dentro do movimento quanto gostaríamos, mas é uma presença histórica, e algumas pessoas e comunidades seguem trabalhando conosco.
Como surgiu a pós-graduação em Folclore e Artes Populares
Andriolli Costa: Para quem está nos assistindo, nossa roupa e a cor do fundo mudaram porque tivemos um problema técnico e retomamos a gravação em outro dia, quando conseguimos conciliar as agendas. Agora está tudo certo e vamos terminar nosso papo conhecendo melhor essa inovadora pós-graduação em Folclore. Adelar, como surgiu a parceria entre a Unijuí e a IOV para criar o curso?
Adelar Francisco Baggio: Novamente, minha saudação especial a você e a todos que estão nos ouvindo. Em 2020, realizamos virtualmente a Fenadi, a Festa Nacional das Culturas Diversificadas. Nossos arquivos e atividades tiveram milhões de acessos provenientes de 26 países.
Na feira virtual, reservamos uma sala especial para a IOV. A organização realizou seis eventos e participou de outras salas temáticas. Eu coordenei duas videoconferências internacionais. A primeira reuniu representantes do Mercosul — Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil —, além do presidente da IOV Brasil e de representantes do município de Gramado.
A segunda contou com a IOV Brasil, a vice-presidente da Comissão de Cultura do Parlamento Europeu, dois ministros do Uruguai, um ministro da Argentina, a Secretaria Nacional de Cultura do Paraguai e a representante da Unesco no Brasil. Discutimos como os movimentos estavam trabalhando com a cultura, principalmente com o folclore e as culturas étnicas e populares.
Os participantes perceberam algumas particularidades de nossa experiência. A região recebeu mais de 30 grupos étnicos ao longo do processo de colonização. Temos um museu antropológico com um acervo expressivo sobre imigração, colonização e as Missões Jesuíticas. Somos também uma das poucas cidades brasileiras em que as etnias se encontram organizadas numa entidade comum, a União das Etnias de Ijuí.
Há cidades com uma diversidade muito maior, como São Paulo, mas os grupos nem sempre trabalham de maneira integrada ou constroem juntos uma política para a cultura. Em Ijuí, temos a salvaguarda do passado e, ao mesmo tempo, uma experiência viva: cerca de 40 grupos folclóricos, 13 casas típicas no Parque de Exposições, jantares de diferentes povos e um grande palco para apresentações.
A Fenadi acontece ao lado de uma exposição econômica, e essa integração entre economia e cultura chamou muita atenção. Também apareceu com força a discussão sobre economia da cultura. A cultura não pode permanecer isolada: deve participar do desenvolvimento, e o desenvolvimento também precisa incorporar a cultura.
A partir dessas conversas, recebemos o convite para assumir o desafio em parceria com a universidade e lançar o Curso Internacional de Folclore e Artes Populares. Trabalhamos até março de 2021 para elaborar um modelo novo: uma pós-graduação em Folclore e Artes Populares organizada em três módulos — Cultura, Desenvolvimento e Gestão.
A proposta recebeu o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, do Conselho Estadual de Cultura, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, da IOV e da União das Etnias de Ijuí. Fizemos um lançamento preliminar em julho, com a participação de dirigentes da IOV e de centenas de pessoas.
O Movimento Tradicionalista Gaúcho, a Secretaria de Cultura e o Conselho Estadual de Cultura também aderiram à iniciativa. O conselho tem representantes de diferentes expressões culturais do Rio Grande do Sul e compreendeu a importância da proposta.
Pouco antes, durante uma reunião internacional que reuniu representantes de Argentina, Paraguai, Uruguai, México, Colômbia, Venezuela e Chile, surgiu o pedido de uma edição em língua espanhola. Pretendíamos avançar com essa ideia no segundo semestre de 2022.
Já existem propostas para novas edições e cursos específicos. A dança, uma das maiores expressões culturais, é uma delas. Outra demanda é aprofundar a economia da cultura: como transformar iniciativas culturais em bens e serviços capazes de gerar trabalho, renda e inclusão.
Nesse mesmo sentido, estávamos lançando em Ijuí o projeto Guardiões da Cultura, com a intenção de envolver mil crianças dos bairros, prioritariamente as que tivessem menos oportunidades. Conseguimos apoio para adquirir mais de 300 instrumentos musicais e pretendíamos capacitar pessoas nos diferentes bairros. Em quatro ou cinco anos, queríamos que Ijuí estivesse entre as cidades com mais conjuntos musicais, grupos de dança e pessoas em situação de vulnerabilidade incluídas em processos culturais.
Estrutura, calendário e formas de ingresso
Andriolli Costa: Conte os detalhes da pós-graduação. Ela será a distância? Como funcionará e até quando poderão ser feitas as inscrições?
Adelar Francisco Baggio: O curso tem três módulos, cada um composto por dez disciplinas e uma atividade de sistematização. A aula inaugural estava marcada para a manhã de 21 de agosto de 2021, com um painel internacional. Pretendíamos contar com representantes da IOV, do Parlamento Europeu, da Unesco, do Conselho Estadual de Cultura e de secretarias de Cultura. Precisávamos conciliar os horários do Brasil, da Europa e do Oriente Médio.
As aulas começariam nos dias 23 e 24 de agosto. Os encontros síncronos ocorreriam às segundas e terças-feiras à noite e aos sábados pela manhã. Nos demais dias, os alunos teriam tempo para leituras, vídeos, textos e outras atividades orientadas. Aos sábados, seriam realizados debates, revisões e o fechamento das disciplinas. Também incluiríamos manifestações culturais, como apresentações de dança, música e canto.
As disciplinas seriam oferecidas, de preferência, a cada duas semanas, com duas matérias por mês. Naquele ano, as atividades seguiriam até dezembro e seriam retomadas em fevereiro. Todas as informações sobre cronograma, valores, formas de pagamento e professores estavam disponíveis na página da Unijuí.
As inscrições ficariam abertas até 8 de agosto de 2021. Quando gravamos esta conversa, já havia mais de 50 pessoas inscritas.
Andriolli Costa: Como funcionava o pagamento? Por boleto, empenho ou cartão?
Adelar Francisco Baggio: Era possível pagar por cartão ou boleto. Preocupamo-nos especialmente com as pessoas que atuam na cultura popular, muitas vezes de modo autônomo, produzindo artesanato e participando de feiras nos fins de semana, sem uma empresa formalizada. Por isso, havia diferentes possibilidades, e uma equipe estava preparada para atender e negociar cada situação.
Nota da edição: As datas, os valores e as condições de ingresso mencionados refletem o momento da gravação, em julho de 2021.
Professores, mestres e manifestações culturais
Andriolli Costa: Vamos falar dos ministrantes. Vocês convidaram mestres da cultura popular para dar aulas ou o corpo docente está mais concentrado na academia?
Adelar Francisco Baggio: Nossa primeira opção foi reunir doutores e pós-doutores. Cerca de 80% dos docentes tinham essa formação, e os demais eram mestres ou profissionais com experiência reconhecida. Havia professores de centros universitários do Brasil e do exterior que falavam português, porque essa seria a língua principal do curso. Quando participassem autoridades estrangeiras, teríamos tradução.
Ao mesmo tempo, cada professor teria liberdade para convidar mestres do samba, lideranças de grupos folclóricos e pessoas capazes de relatar experiências concretas. Queríamos ouvir quem desenvolve ações de inclusão social, quem articula grupos de arte com processos de desenvolvimento e quem vive essas manifestações.
Nossa previsão era apresentar cerca de 105 manifestações culturais ao longo do curso. A parceria com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas é um exemplo. O estado indicou um professor doutor para desenvolver a parte teórica, mas também colocaria à disposição eventos, grupos e experiências locais.
Mantínhamos contato com diferentes estados para incluir manifestações de todas as regiões. Queríamos, em primeiro lugar, que os estudantes adquirissem uma visão nacional e conhecessem grupos folclóricos e artísticos de diversos lugares. Esses grupos também passariam a conhecer o Rio Grande do Sul. A partir de 2022 e 2023, pretendíamos desenvolver um programa de intercâmbio cultural dentro do Brasil e, mais tarde, ampliá-lo para outros países.
O Brasil é um grande espetáculo cultural. Por isso, colocamos como pano de fundo do curso as contribuições das diferentes culturas para a formação da etnia brasileira e para a construção de uma cidadania global. É raro encontrar uma iniciativa local e municipal com uma projeção internacional dessa natureza.
Andriolli Costa: Se não me engano, o Rio Grande do Sul já teve uma especialização em Folclore, oferecida pela Faculdade de Música Palestrina, há algumas décadas. Paula Simon Ribeiro foi uma das professoras daquela formação. Você se lembra disso?
Adelar Francisco Baggio: Ela estará conosco desde o início. Naquele momento, estava enfrentando um pequeno problema de saúde e pediu que aguardássemos, mas já havia confirmado a participação em duas videoconferências e duas disciplinas.
Teremos várias vertentes: música, dança, tradicionalismo gaúcho, línguas, redes sociais e cultura. Também vamos trabalhar com o patrimônio cultural mundial e com os processos de institucionalização. Os estudantes terão uma visão das principais organizações internacionais, como a Unesco, e compreenderão como esse campo funciona e quais espaços podem ocupar.
O módulo Cultura
Andriolli Costa: Vou ler algumas disciplinas para que o público compreenda a proposta. No primeiro módulo, dedicado à Cultura, teremos Patrimônio Cultural Popular I e II; Manifestações da Cultura Popular I, II e III; Institucionalização do Folclore e Artes Populares; Estado, Políticas Públicas, Folclore e Artes Populares; Dimensão Econômica da Cultura; Folclore e Artes Populares no Mundo; Folclore e Artes Populares da América Latina e Brasil; e, ao final, a sistematização do módulo. Imagino que essa última atividade funcione como um fechamento, no qual os estudantes organizam o que construíram ao longo das disciplinas.
Adelar Francisco Baggio: Exatamente. A sistematização tem dois objetivos. O primeiro é ajudar o estudante a organizar o conhecimento produzido. O segundo é possibilitar a avaliação exigida pela legislação. Num curso on-line, avaliar não significa necessariamente aplicar uma prova tradicional. A ideia é fazer as pessoas avançarem e estimular sua entrada nesse campo, porque muita gente ainda não sabe como começar.
Cultura, desenvolvimento e economia
Andriolli Costa: O segundo módulo é dedicado ao Desenvolvimento. Ele começa com Folclore, Artes Populares e Desenvolvimento e segue com disciplinas sobre desenvolvimento social, educação e lazer; inclusão e participação social; desenvolvimento econômico; turismo; festas populares, identidade e culinária; e experiências de desenvolvimento no Brasil e no mundo. Há uma separação entre “desenvolvimento” e “desenvolvimento econômico”. Qual é a diferença?
Adelar Francisco Baggio: A disciplina sobre desenvolvimento oferece uma visão abrangente, envolvendo diferentes setores. Podemos falar de transporte, tecnologia, agricultura, arquitetura, culinária e muitas outras áreas prioritárias. A questão é entender como a cultura penetra no desenvolvimento de uma comunidade.
No caso de Ijuí, a Fenadi lançou a cidade para o mundo. Por trás do movimento, existem reconhecimentos culturais, empresas que financiam e apoiam as atividades e mais de 1.200 pessoas diretamente envolvidas. Você cria algo semelhante ao que hoje se discute na Europa como economia circular: uma iniciativa passa a multiplicar conexões e oportunidades econômicas.
Muitas famílias, por exemplo, aproveitam a Fenadi para realizar grandes encontros. Isso estimula a pesquisa de árvores genealógicas, movimenta os centros culturais, fortalece a culinária e envolve os filhos e netos. Durante os dias de festa, chegamos a ter cerca de 250 apresentações culturais de Ijuí, de outras partes do Rio Grande do Sul, do Brasil, do Mercosul e do exterior. O impacto é muito grande.
Quando nove idiomas são ensinados na cidade, surgem intérpretes e mediadores para diferentes atividades e negócios. Há tradutores oficiais de línguas pouco difundidas no Brasil, e o trabalho dessas pessoas passa a ser demandado em processos institucionais. Também tínhamos pessoas aprendendo mandarim e um projeto de aproximação com a China.
Língua, cultura, culinária e conhecimento se conectam e estimulam cada pessoa a perguntar: “Quem sou eu?”. Essa é uma questão muito bonita. Em uma videoconferência sobre a criação de irmandades entre cidades, um participante começou a recordar suas ligações familiares com diferentes países. A pergunta sobre a herança cultural abre caminhos.
Não queremos que alguém volte a ser italiano ou alemão. Queremos valorizar o legado do passado, vivê-lo e aperfeiçoá-lo, sabendo que contribuímos para a construção da etnia brasileira em solo brasileiro. Essa riqueza não pode ser perdida.
Gestão de organizações e projetos culturais
Andriolli Costa: Sua própria disciplina aparece no terceiro módulo, dedicado à Gestão e Produção Cultural. Você trabalhará com administração de organizações e coletivos culturais, certo?
Adelar Francisco Baggio: Sim. Tenho cerca de 30 anos de experiência assessorando cooperativas, redes de cooperação, associações rurais e outras organizações. Quero mostrar aos estudantes que existem sistemas de cooperativas, associações e redes baseados no trabalho conjunto e coletivo.
Precisamos discutir o que isso significa, qual é a filosofia por trás dessas organizações, como elas se constituem, como se formalizam e como são administradas. Também é necessário estabelecer critérios claros para evitar brigas e conflitos e pensar no retorno oferecido à comunidade.
Outro ponto importante é a elaboração de projetos culturais. Esse é um grande problema para muita gente. Existem recursos disponíveis, mas muitas pessoas não sabem transformar uma ideia em projeto. É preciso definir o título, a justificativa, os objetivos, o custo, as formas de controle e gestão e a contribuição que aquela ação oferecerá à cidade ou à comunidade.
Andriolli Costa: E também construir todo o plano financeiro.
Adelar Francisco Baggio: Exatamente: investimentos, despesas, receitas, contabilidade e prestação de contas. Tudo precisa estar bem elaborado. Não adianta receber dinheiro público, realizar as atividades e achar que o trabalho terminou. Há órgãos públicos responsáveis pela fiscalização. Se você comete erros na prestação de contas, pode ficar impedido de participar de outros editais.
Para quem é o curso
Andriolli Costa: Para encerrarmos, a quem essa pós-graduação se destina? Que tipo de pessoa ou profissional poderia participar?
Adelar Francisco Baggio: Esta é a primeira edição e, como você percebeu, reúne três módulos amplos, articulados com a experiência dos professores e com o universo da arte, do folclore e das práticas cotidianas. É uma formação generalista, mas também muito vinculada à participação.
Nossa prioridade são as pessoas que já trabalham com folclore e artes populares. Queremos ajudá-las a se qualificar, ampliar sua visão, oferecer suporte teórico e mostrar como institucionalizar iniciativas nos municípios, estados e países.
Em segundo lugar, o curso se destina a quem deseja ingressar nesse campo. Em terceiro, pode contribuir com quem quer ensinar. Precisamos de mais pessoas que saibam trabalhar e organizar essas expressões e que tenham, no mínimo, uma formação de especialização. Essa qualificação pode fazer diferença nas comunidades.
Com uma visão mais ampla e uma instrumentalização técnica e administrativa, os participantes poderão atuar em secretarias de Cultura, coordenar projetos e desenvolver iniciativas em suas comunidades.
Para receber o título de especialista, é necessário ter concluído a graduação e integralizar o curso. Quem tem formação superior e cumpre ao menos 180 horas pode, conforme as regras da universidade, receber um certificado de aperfeiçoamento. Também existe a possibilidade de cursar disciplinas isoladas e receber certificado de extensão universitária. Pessoas sem graduação interessadas no tema podem participar das modalidades compatíveis com sua formação e receber a certificação correspondente.
É importante porque o estudante estará em contato com a IOV Mundial, secretarias de Cultura, o Conselho Estadual de Cultura e outras instituições. Não se trata de uma iniciativa pequena: o curso tem uma dimensão internacional e pode contribuir para a transformação das pessoas e de suas comunidades.
O rio das grandes águas
Andriolli Costa: Adelar, foi um prazer conversar com você hoje — ou, melhor, nos dois dias em que estivemos juntos. Queria que você se despedisse dos ouvintes, mandasse um abraço e deixasse sua mensagem final. A palavra é sua.
Adelar Francisco Baggio: Gostaria de dizer aos ouvintes que queremos muito que vocês estejam conosco. Estamos começando um empreendimento internacional, e não um trabalho apenas local. Tenho certeza de que vocês gostarão de participar e encontrarão conhecimentos importantes para suas vidas.
Consultem o site da Unijuí, onde estavam disponíveis todas as informações. Também havia a possibilidade de conversar comigo, com o coordenador acadêmico e com a equipe administrativa.
Quero encerrar lendo um pequeno texto que escrevi sobre o Rio das Grandes Águas. A palavra Ijuí tem origem guarani e pode significar “rio das grandes águas”, “rio das águas claras” ou “rio das águas divinas”. A partir dessa ideia, escrevi o seguinte:
Nota da edição: Leitura de texto de Adelar Francisco Baggio.
Adelar Francisco Baggio: “Somos expressões do mesmo leito do rio. E, para ser o Rio das Grandes Águas, ele somente o será se for alimentado por muitas, fortes e diversificadas vertentes e afluentes. Este é o momento da ativação de novas vertentes, da revitalização de muitos afluentes e de tornarmos irresistível, forte, integrada e energizada a corrente do Rio das Grandes Águas. Ele fluirá com beleza, soberania, pureza, sustento, bebida, charme e estilos peculiares para o oceano, que, por sua vez, fornecerá os elementos básicos para a continuidade e a sustentabilidade do ciclo da vida no planeta Terra.”
Muito obrigado. Desejo saúde a todos. Cuidem-se durante a pandemia. Vamos trabalhar juntos, com alegria e amor. Não queremos fazer uma coisa fria, mas algo que aqueça e favoreça a vida das pessoas. Muito obrigado também a você pela integração e pelo trabalho extraordinário. Saúde e sucesso.
Andriolli Costa: Muito obrigado. Espero que todos tenham gostado. A gente se vê na próxima semana. Um abraço e até lá.
Referência da entrevista
BAGGIO, Adelar Francisco. Pós-Graduação em Folclore. Entrevista concedida a Andriolli Costa. In: Poranduba 102: Pós-Graduação em Folclore. Apresentação: Andriolli Costa. 26 jul. 2021. Podcast.