Por Andriolli Costa
Felipe Castilho tinha 16 anos quando começou a escrever. Durante as madrugadas em que trabalhava na recepção de uma academia, produziu um romance de 800 páginas que nunca chegou a ser publicado. O manuscrito, no entanto, abriu o caminho para uma carreira marcada pelo encontro entre fantasia urbana e folclore brasileiro.
Nesta entrevista, Felipe reconstrói o percurso que o levou das comunidades de literatura fantástica no Orkut à publicação de O Legado Folclórico. Ele fala sobre as primeiras oficinas de escrita, a participação na antologia Alterego e a criação de um universo em que jovens comuns convivem com sacis, boitatás, curupiras e outras figuras do imaginário brasileiro.
O escritor também explica como as leituras de Câmara Cascudo e as viagens de pesquisa por Sergipe ajudaram a formar esse universo. Ao tratar de personagens de diferentes regiões, raças, corpos e orientações sexuais, Felipe defende que a fantasia precisa reconhecer a diversidade do país. Para ele, esse movimento não nasce do patriotismo, mas da necessidade de fazer justiça às histórias brasileiras que ainda encontram pouco espaço na ficção.
O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 1 do Poranduba, apresentado por mim e publicado originalmente em 17 de maio de 2018. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias, interrupções técnicas e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As referências a livros, eventos e projetos em andamento correspondem ao momento original da entrevista.

Andriolli Costa: Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas do folclore brasileiro. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei seu guia. Hoje eu vim à casa do grande Felipe Castilho, o escritor mais benquisto do Brasil.
Felipe Castilho: Aqui na mansão, né, Andriolli?
Andriolli Costa: Na casa do patrão! Felipe é autor de vários livros. Hoje talvez seja mais conhecido como o grande autor de A Ordem Vermelha, mas, para a gente do Colecionador de Sacis, vai ser sempre o autor da trilogia — logo, quadrilogia — O Legado Folclórico. Felipe, muito obrigado por nos receber.
Felipe Castilho: Eu que agradeço. Oi, galera! É um prazer estar aqui, ainda mais presencialmente. Andriolli é um grande amigo, então é muito bacana ter esta conversa aqui na minha mansão.
Andriolli Costa: A galera deve estar realmente achando que um mordomo me recebeu… Para quem ainda não conhece o Felipe Castilho, fale um pouco sobre você e conte como o folclore entrou na sua vida.
Felipe Castilho: Sou da área de literatura, mas, antes disso, sempre fui da área de livros. Estou no mercado de livros há treze anos. Quando digo isso, as pessoas perguntam: “Você está escrevendo há treze anos?”. Na verdade, tento escrever desde os dezesseis. Faz dezesseis anos que bato de porta em porta de editora.
Desde pequeno eu tinha esse desejo de fazer livros. Minhas referências eram Ziraldo e Marcos Rey, que já é uma coisa mais complexa. Aos dezesseis anos percebi que precisava aprender a escrever de fato: entender narrativa, fazer cursos e participar de oficinas. Nessa época, eu trabalhava em uma academia. Nada a ver!
Andriolli Costa: Uma academia de malhação? Você trabalhava numa academia e isso o levou a escrever?
Felipe Castilho: Imagina o tamanho do trauma! Eu queria fazer Educação Física. Nadava a sério, competia. Trabalhava na tesouraria da academia de manhã. Às cinco horas, eu abria o lugar para as senhorinhas fazerem hidroginástica; à tarde, treinava e, à noite, estudava. Entre cinco e sete da manhã quase não havia movimento. As senhorinhas entravam na hidroginástica e eu ficava ali, escrevendo com caneta e papel.
Comecei uma história que queria fazer desde moleque. Olha a molecagem: chamava-se Rebirth, porque título em inglês parecia mais legal. Era uma fantasia com lendas arturianas. Eu sempre gostei do imaginário de Camelot e escrevi uma história sobre os cavaleiros da Távola Redonda reencarnados nos dias atuais.
Eu não sabia que Deepak Chopra havia escrito O Retorno de Merlin, com uma premissa parecida. Também tinha lido Camelot 3000 e não me lembrava. Quando percebi, pensei: “Puta que pariu, estou fazendo algo parecido”. Eu escrevia esse livro escondido porque tomava bronca quando me viam escrevendo. Foram oitocentas páginas produzidas dentro da academia.
Andriolli Costa: Oitocentas páginas?
Felipe Castilho: Oitocentas páginas — e não iam a lugar nenhum. Existem raríssimas exceções de pessoas que acertam no primeiro romance gigantesco. Normalmente, o tamanho é um sinal de que você precisa olhar de novo. Eu tinha oitocentas páginas e ainda nem estava no meio. Era um adolescente com arroubos de contar uma história.
Eu sempre escrevi minhas coisinhas. Tive uma editora falsa de quadrinhos com meu irmão, a Pop Comics. A gente fazia nossos crossovers; eu roteirizava e desenhava. Tudo muito inocente. Mas, com esse livro, percebi que estava gostando de contar histórias. Mostrava para os amigos e eles piravam: “Isso é tão bom quanto O Senhor dos Anéis”. Era falta de noção também.
Andriolli Costa: E eles liam?
Felipe Castilho: Eu tinha quatro amigos que liam. Alguns são meus amigos até hoje. E tinha aquela coisa de moleque: “Vou colocar meus amigos na história”. Era praticamente um RPG no qual eles não tinham escolha. Eu fazia um personagem para cada um, mas não havia jogo, mesa nem mestre.
Andriolli Costa: Você jogava RPG?
Felipe Castilho: Muito pouco. Eu não tinha muitos amigos para isso. No ensino médio tive mais contato com uma galera que jogava, mas participei pouco. Não venho daquela fantasia do pessoal muito ligado ao RPG. Fui conhecer melhor esse universo depois que comecei a escrever. Minhas referências vinham mais dos livros: Shakespeare, Tolkien, Terry Pratchett.
Andriolli Costa: De que ano estamos falando?
Felipe Castilho: Por volta de 2002. Eu acho que A Cor da Magia, de Terry Pratchett, tinha saído pela Conrad. Talvez esteja confundindo um pouco as datas. A edição de O Senhor dos Anéis da Martins Fontes havia saído em 1999, perto do filme.
Andriolli Costa: Nessa época eu era um pouco mais novo e ganhava uma mesada de cinquenta reais. Antes dos filmes, vi na Dragão Brasil que existia O Senhor dos Anéis. O livro custava trinta e cinco reais. Comprei e passei o resto do mês com quinze. Todo mundo dizia: “Você é louco, gastou tudo isso num livro!”.
Felipe Castilho: Em outros tempos e com outro preço das coisas. Meu salário era de 190 reais, como o de um estágio, e eu ainda ajudava com o aluguel. Minha mãe se virava fazendo doces e artesanato. Eu guardava vinte reais por mês para mim.
Andriolli Costa: Você já morava em São Paulo?
Felipe Castilho: Sim, na Zona Leste. E continuava escrevendo aquele livro de oitocentas páginas que não ia a lugar nenhum. Criei um inimigo que eu não sabia como derrotar. Foi aí que percebi que precisava aprender a escrever.
Andriolli Costa: Ninguém lhe deu o toque de procurar uma oficina? Você não teve um professor ou um mentor?
Felipe Castilho: Não conhecia ninguém que escrevesse. Minha mãe era a pessoa mais crítica. Ela foi muito verdadeira: “Filho, isso não está bom”. Normalmente, a primeira pessoa para quem mostramos é alguém da família ou um amigo, mas ela era bem crítica comigo. Ainda assim, foi uma fase gostosa, quando eu não tinha deadline nem peso algum.
Andriolli Costa: Quando você começa a fazer cursos de escrita, encontra um norte, mas também aumenta a pressão, porque passa a saber o que é escrever bem. Você não travou?
Felipe Castilho: Nada. Eu era empolgado demais. Tinha muito pique. Não que eu não tenha hoje; acho que só estou mais cansado.
Comunidades de fantasia, Alterego e André Vianco
Felipe Castilho: Alguns anos depois, começou uma onda de antologias de fantasia, Orkut e comunidades de escritores. Havia muita gente grossa. Na primeira vez em que tentei dar uma opinião, recebi patada de todos os lados e continuei quieto. Mas foi um período muito fértil. Muita gente que escreve hoje passou por aquelas comunidades. Tinha muita gente ativa, escrevendo para caralho, mesmo sem se encontrar na vida real.
Andriolli Costa: Sua primeira publicação foi numa antologia? Naquela época também havia muitas revistas, não?
Felipe Castilho: Sim. Existia a Scarium Megazine, por exemplo. Tentei participar algumas vezes e não passei. Depois entrei em uma antologia e aquilo me motivou. Não fez quase nada pela minha carreira, mas me mostrou que eu podia seguir.
Foi Alterego, da Terracota, organizada pelo Octavio Cariello. Havia autores convidados, como Roger Cruz, Marcela Godoy e Weberson Santiago. Eu cresci lendo trabalhos do Roger Cruz. Estar numa coletânea com pessoas que admirava me fez pensar: “Estou no caminho certo”.
Andriolli Costa: Marcela Godoy, que escreveu Papa-Capim: Noite Branca. E Roger Cruz, que tem um post mostrando uma versão high-tech do Saci que desenhou em 1997. É fenomenal.
Felipe Castilho: É animal. Mais tarde conheci o Roger pessoalmente e descobri que, além de um artista de quem eu gostava desde moleque, ele era um cara gentil e divertido. É bom quando a gente não se decepciona com nossos ídolos.
A proposta de Alterego era escrever sobre identidades duplas, vidas secretas. Meu conto era sobre um psicólogo atendendo um paciente que dizia ser super-herói. O psicólogo usava todos os clichês possíveis para contestá-lo, e o paciente dava um jeito de responder. Hoje acho simples, mas, na época, foi importante para mim.
Eu já havia escrito outro romance, O Homem, com um pouco mais de conhecimento de estrutura. Pensava: “Esta é minha obra-prima, meu Senhor dos Anéis, minha Torre Negra”. Uma das pessoas que mais me ajudaram a entender o que eu estava fazendo foi André Vianco. Ele apontou clichês imperdoáveis e foi muito generoso comigo.
Andriolli Costa: Você conheceu André Vianco num curso?
Felipe Castilho: Eu já tinha lido Os Sete no ensino médio. Aquilo me marcou: vampiros brigando num terminal de ônibus em Osasco. Para quem é de São Paulo talvez seja diferente, mas o importante era reconhecer aquela realidade. Em Bento aparecia uma Casa da Pamonha. Eu nunca tinha visto aquela franquia na vida, mas já tinha comido pamonha. Isso bastava. Era algo próximo de mim.
Depois passei a frequentar palestras e lançamentos. Ficava no fundão, ouvindo tudo. Um dia André anunciou uma oficina, eu participei e me aproximei dele. É um grande amigo, um cara com enorme disposição para ajudar os outros. Nessa época ele leu O Homem. A partir daí, comecei a procurar tudo o que pudesse me ajudar.
Andriolli Costa: Existe também um peso em fazer o primeiro romance funcionar? Na mídia se fala muito em “o primeiro romance de fulano”. É ótimo para o release. Se é o segundo, já não parece ter o mesmo apelo.
Felipe Castilho: Sim. Você pensa: “Pode haver alguma coisa errada aqui, mas é o meu primeiro romance e eu não vou jogá-lo fora. Vou fazê-lo acontecer”. Hoje, o que mais peço às pessoas é desapego e calma. Todo mundo quer aparecer como um autor jovem, um prodígio, e dizer: “Este é meu primeiro livro”. Gente, relaxem.
Muitas editoras se interessaram por O Homem. Algumas diziam: “Você pode pagar tanto para publicar”. Outras trabalhavam pelo método tradicional, mas pediam: “É legal, porém você precisa diminuir”. Eu não conseguia. Tinha apego. Era um livro enorme — e, spoiler, não era bom. O título também não era muito favorável. A história tinha anjos, demônios e conspirações. Prometi a mim mesmo que voltaria a mexer nele aos sessenta e poucos anos.
André Vianco leu, outras pessoas leram e também fiz um curso com Marcelino Freire. Cada pessoa apontava algo em que eu não havia pensado. Foi assim que passei a enxergar novos aspectos do texto.
Andriolli Costa: Essa é uma vantagem de morar no Sudeste: ter acesso a autores que estão sempre presentes. Para quem vive nas margens do Brasil, nem sempre existem tantos eventos. Hoje há mais coisas on-line, mas naquela época não.
Felipe Castilho: Hoje está mais fácil encontrar essa galera. Eventos como a Casa Fantástica também ajudam muito: por um preço acessível, você consegue participar de oficinas com muitos profissionais. É uma proposta muito bacana.
O nascimento de O Legado Folclórico
Felipe Castilho: Depois de reescrever O Homem várias vezes, mostrei o texto para Gabriela. Ela gostou, disse que havia coisas que podiam ser editadas, mas perguntou se eu não tinha algo mais juvenil. Aquilo me deu um clique. Eu adorava ler literatura juvenil e infantil. Por que estava tentando estrear com um negócio tão pesado? Cada vez que reescrevia O Homem, ele ficava mais complexo. Eu queria ser mais do que conseguia naquele momento.
Também acho que escrever para jovens é mais difícil. Você precisa pensar na formação do leitor. Há uma responsabilidade envolvida, porque o seu pode ser o primeiro livro de alguém. Se o livro for uma merda, você pode traumatizar o leitor e talvez ele nunca mais queira ler. Quem escreve para jovens tem o dever de escrever bem. As informações precisam ser checadas, filtradas e refletidas.
Eu tinha um conto chamado Ouro, Fogo e Megabytes. Na verdade, aquilo nem era um título; era o nome do arquivo. Havia uma Mãe do Ouro, um Boitatá e um moleque que jogava videogame. “Ouro, fogo e megabytes” eram quase hashtags para eu identificar o texto.
Peguei o conto e decidi transformá-lo em romance. Comecei a me empolgar e, algumas semanas depois, entreguei cerca de cinquenta páginas para Gabriela. Ela adorou e disse: “Isso tem tudo para ser o Percy Jackson brasileiro”. Eu não tinha lido Percy Jackson na época. Enquanto outras editoras escutavam “folclore” e não se interessavam, Gabriela se empolgou justamente por haver folclore.
Andriolli Costa: Antes disso, Ouro, Fogo e Megabytes estava apenas no seu computador? Você não havia mostrado a ninguém?
Felipe Castilho: Apenas um amigo tinha lido. Era algo que estava guardado. Quando ela falou que queria uma obra juvenil, pensei: “Eu gostaria de voltar àquela história”.
Andriolli Costa: Essa combinação não surgiu do nada. De onde veio a ideia de reunir o Boitatá, a Mãe do Ouro e Anderson Coelho, um jogador de MMO, numa mesma história?
Felipe Castilho: Eu tinha um amigo chamado Anderson que era viciado em World of Warcraft. Vi que o jogo trazia problemas sérios para ele. Ficar 24 horas sem jogar era muito difícil; existia uma dependência. Ele se abriu comigo e eu quis abordar isso em algum lugar.
Pensei num moleque que estivesse em abstinência, de castigo, proibido de jogar. Então ele cairia no meio de uma aventura e enfrentaria criaturas reais. A princípio, acreditaria que ainda estava num jogo, quando na verdade estaria vivendo tudo aquilo. Primeiro pensei em usar dragões. Depois me perguntei: “Por que não fazer o contrário? Ele pode vir de um jogo, mas eu posso usar as criaturas do nosso folclore”.
Já havia pessoas escrevendo sobre isso. Christopher Kastensmidt desenvolvia o universo de A Bandeira do Elefante e da Arara. Roberto de Sousa Causo já havia publicado A Sombra dos Homens. Eu também escrevia sobre folclore no meu blog, o Poranduba, embora ainda estivesse começando. O trabalho de Causo me deu um panorama muito grande do que vinha sendo produzido. Mas eu ainda não havia encontrado uma aventura contemporânea com folclore do jeito que queria fazer.
Comecei a lembrar das coisas que me foram apresentadas durante a infância. Conheci Câmara Cascudo por meio de Contos tradicionais do Brasil. Para mim, ele marcou mais do que Monteiro Lobato. Nunca fui muito fã de Lobato.
Câmara Cascudo, a mãe leitora e uma coleção de mitos
Andriolli Costa: A edição infantil dos contos de Cascudo também não é uma entrada muito fácil. A editora coloca uma capa e ilustrações infantis, mas mantém o texto tradicional. Cascudo escreve, por exemplo, que alguém pegou um “bisaco”. O que é um bisaco? Uma sacola. Uma criança pode ter dificuldade para entrar naquele texto. As contadoras de histórias usam o livro e fazem adaptações. Por isso é interessante que você tenha começado justamente por ele.
Felipe Castilho: Minha mãe sempre me incentivou a ler com o dicionário ao lado. Ela me dava livros um pouco mais avançados — entre muitas aspas, porque livro não tem idade. Li muito cedo os livros de Agatha Christie e Sidney Sheldon que eram dela. Quando não entendia uma expressão, consultava o dicionário. Se não encontrava, minha mãe dizia: “Deve ser uma expressão potiguar”, procurava alguém do Rio Grande do Norte e ia atrás da resposta. Isso me deixava curioso.
Andriolli Costa: Sua mãe fazia doces e artesanato. Ela era educadora?
Felipe Castilho: Era educadora de coração. Sempre teve uma veia artística, mas trabalhou como secretária até os filhos nascerem. Depois teve dificuldade para se recolocar no mercado. Era uma pessoa incrível, uma guerreira. Fez questão de me dar acesso a essas coisas. Levava-me à biblioteca de manhã e ficava lendo ao meu lado até fechar. Acho que li Cascudo pela primeira vez num livro emprestado da Biblioteca da Penha, na Zona Leste de São Paulo.
Ela também me apresentou uma coleção muito bonita da Editora Ática, a Mitos e Lendas. O Egito foi o primeiro volume que peguei. Tenho o livro até hoje. Há pouco tempo encontrei outro exemplar e comprei para minha namorada, Jéssica, que sempre falava dele. Agora estou com Índios da América do Norte aqui na mão.
Não fui apresentado ao folclore por Monteiro Lobato. As piadas e referências a Lobato que faço em O Legado Folclórico vieram depois. Quero honrar a imagem que as pessoas guardam, mas não quero fazer algo pastelão. Uso o imaginário que ele acrescentou, embora sempre tenha preferido Câmara Cascudo. Para mim, Cascudo é o xarope do folclore — no bom sentido: o puro suco do folclore brasileiro.
Andriolli Costa: Vamos fazendo os disclaimers para ninguém mandar mensagem xingando. “Felipe Castilho chama Câmara Cascudo de xarope do folclore!” O puro suco do folclore brasileiro. E você conheceu Daliana Cascudo?
Felipe Castilho: Foi muito legal. Ela me procurou depois de ver uma matéria sobre os livros. Câmara Cascudo é citado nominalmente em O Legado Folclórico como um grande mestre e inspirador. Ele faz parte do cânone daquele universo: foi amigo do Saci e deixou uma versão “sem cortes” do folclore brasileiro, com coisas que viu, mas não pôde contar. Era minha homenagem à importância dele para todos nós.
Daliana entrou em contato e conversamos bastante. Ela é neta de Câmara Cascudo e dirige o Ludovicus — Instituto Câmara Cascudo. Quando fui a Natal, ela não estava, mas visitei o Instituto, que é maravilhoso. Ela compartilhou muitas memórias do avô. Foi emocionante. Disse que se sentia honrada ao ver alguém tão jovem fazendo aquele trabalho — ela não sabe que eu não sou tão jovem assim.
Andriolli Costa: Mas é um legado mesmo. Cascudo deixou um dos grandes legados do folclore brasileiro. Lembro que conheci Felipe no lançamento do terceiro livro, em Porto Alegre. Chovia muito, quase não havia ninguém, e ficamos conversando por bastante tempo. Resolvi sondá-lo: “Vamos ver se esse cara conhece mesmo”. Contei que escrevia sobre folclore num blog chamado Poranduba — que agora dá nome ao podcast. Felipe respondeu: “Poranduba? Lembro dessa palavra. Está no começo de Literatura oral no Brasil”. Pensei: “Esse leu mesmo”.
Felipe Castilho: Eu guardei a palavra. No lançamento estavam você, César Alcázar e Christopher Kastensmidt. O mundo quase acabando num temporal em Porto Alegre, mas a gente estava ali conversando.
Anderson Coelho entra na Organização
Felipe Castilho: Gabriela leu o primeiro rascunho de Ouro, Fogo e Megabytes e disse: “Isto está muito legal. Tem que ser uma série”. Eu tinha pensado em um único livro. Ela se empolgou antes de o primeiro estar pronto. Depois disso, começaram os prazos: o segundo precisava sair em determinada data, e eu tive que organizar a escrita com mais rigor.
Andriolli Costa: Então conte para o pessoal: qual é a trama de Ouro, Fogo e Megabytes?
Felipe Castilho: O primeiro livro acompanha Anderson Coelho, um menino de doze anos que joga o MMO Battle of Asgorath. Na época, em 2011, esse tipo de jogo fazia muito sentido. Se eu reescrevesse a história hoje, talvez ele estivesse jogando outra coisa. Anderson, cujo avatar é Shadow, ocupa a segunda posição no ranking mundial.
Um dia ele encontra um jogador de nível um, um completo novato, com um nome nada fantástico: José da Silva Santos. Esse sujeito o convida para uma missão fora do jogo, uma missão de verdade. Anderson pensa: “Que porra é essa? Eu não sou hacker, apenas jogo muito bem”. Mas o homem insiste que ele é um líder nato no jogo e quer que lidere uma equipe numa invasão real.
Andriolli Costa: Confesso que, enquanto lia, eu não sabia aonde a história iria chegar. Anderson não era hacker, não era um prodígio à la Mr. Robot. Eu pensava: “Meu Deus, como o Felipe vai resolver isso?”.
Felipe Castilho: Ele é um moleque normal. A justificativa é justamente sua capacidade de liderar pessoas no jogo. Depois de algumas coincidências e de uma suspensão na escola, Anderson viaja para São Paulo acreditando que participará de uma olimpíada de matemática. Lá conhece a Organização, instalada num casarão no Bixiga.
O lugar é habitado por pessoas muito peculiares. Cris é um rapaz cheio de olheiras que fica alterado nas noites de lua cheia; Elis parece ter o poder de sugerir coisas mentalmente; José da Silva Santos, que Anderson conheceu como um anão no jogo, é o primeiro contato com a Organização; Beto é um boto. Os nomes contêm pistas sobre os personagens.
Andriolli Costa: Essa é uma característica dos livros do Felipe: os trocadilhos. Beto, o boto. Cris, por exemplo, vem de Chrysocyon brachyurus, o nome científico do lobo-guará. E há o Patrão, que não tem uma perna, é mal-encarado, usa boina vermelha e tem pouca paciência.
Felipe Castilho: O Patrão é o nosso Nick Fury. Ele comanda a Organização e entrega a missão: invadir uma empresa pertencente a Wagner Rios, um grande empresário inspirado em figuras como Eike Batista. Wagner tem uma mineradora muito bem-sucedida porque sequestrou a Mãe do Ouro e usa o poder dela para encontrar metais preciosos.
Ela está quase morrendo. Se morrer, despertará a fúria do Boitatá, seu guardião, que virá do Norte do país numa rota de destruição até São Paulo. O grupo precisa resgatar a Mãe do Ouro antes que isso aconteça. Ao participar da missão, Anderson descobre que os membros da Organização são criaturas folclóricas ou descendem delas.
Criaturas, mestiçagens e o Brasil percorrido pelos livros
Andriolli Costa: Vamos pensar nessas criaturas. Você disse que não veio de um background de RPG, mas muita gente deve reconhecer uma lógica parecida quando encontra um personagem meio-curupira ou meio-caipora. Essas misturas vieram de onde?
Felipe Castilho: Pensei mais nos semideuses, nos mortais com duas raízes. Para mim, a maior piada do meio-curupira foi fazer um cara com um pé voltado para a frente e outro para trás. É uma imagem bizarra. Prefiro o meio-caipora. O meio-curupira está precisando morrer.
Muita gente pergunta se tirei as categorias do RPG. Não tirei, mas é bom conhecer a referência depois. No universo da série, as criaturas folclóricas estão desaparecendo do Brasil. Algumas linhagens que restaram foram se misturando aos humanos, diluindo-se. Existem os “meio-sangues”, como a meio-iara Elis, além de criaturas que formam uma espécie própria.
Beto, por exemplo, é um personagem de quem gosto muito. Tenho um conto sobre a origem de sua maldição. Em muitas narrativas, o boto já é um animal encantado. No Legado, a transformação é uma maldição transmitida adiante quando ele tem um filho.
No quarto livro quero falar mais sobre o passado e sobre o começo do desaparecimento das criaturas folclóricas no Brasil. Continuará sendo uma aventura como as anteriores, mas as ameaças estão crescendo e quero relacioná-las à história do país.
Andriolli Costa: Recapitulando: Ouro, Fogo e Megabytes introduz Anderson Coelho, ainda com doze anos, a Organização, o Patrão, esse mundo e o vilão Wagner Rios. Depois vem Prata, Terra e Lua Cheia. No segundo volume, Anderson está mais crescido, aprende a usar arco e flecha e deixa de ficar apenas à mercê dos perigos. Conhecemos mais da história ampliada e descobrimos outras organizações. O terceiro é Ferro, Água e Escuridão. Além da “escuridão” do título, o livro realmente desce o tom. Ele entra no dark. Capitão Tapioca está ali como um alívio cômico necessário, porque, sem ele, seria uma história tenebrosa.
Felipe Castilho: É um livro que desce o tom mesmo. A gravidez de Elis, iniciada no primeiro livro, chega a uma resolução. Algo terrível pode se desprender dela, e o grupo precisa tomar uma decisão envolvendo uma criança recém-nascida. Anderson era um menino de doze anos que queria jogar RPG; agora toma decisões adultas, de vida e morte.
Andriolli Costa: Também estamos circulando pelo Brasil. No terceiro livro chegamos ao Nordeste e encontramos Capitão Tapioca, um cangaceiro fazedor de tapiocas.
Felipe Castilho: Ele é uma maluquice absurda. Serve tapioca para os Negos d’Água. Funciona como alívio cômico porque a trama está sempre à beira de dar muito errado. É uma espécie de Virgílio nas águas do São Francisco, um guia para os personagens.
A história se passa no sertão de Sergipe, o que permitiu abordar outras lendas. Aparecem a Boiuna, a Matinta Pereira e uma tradição de bonecos de papel machê do Nordeste, por exemplo.
Andriolli Costa: Você foi ao Nordeste para pesquisar?
Felipe Castilho: Fui. Estive em todos os lugares que aparecem no livro. Isso não é uma lei: ninguém precisa ter visitado um lugar para escrever sobre ele, desde que faça pesquisa. Mas, como falo sobre o Brasil no Legado, sinto necessidade de conhecer as locações.
Sergipe foi um dos lugares que mais me encantaram. O Museu da Gente Sergipana é um dos museus mais bacanas que já visitei. Traz uma carga enorme de informação. Sergipe é o menor estado do país, mas parece ter muito mais lenda por metro quadrado. O folclore está em todo lugar.
À noite, você dobra uma esquina e encontra uma galera tocando forró ou baião. Senta para tomar cerveja com pessoas que não conhece e logo está ouvindo histórias da infância delas, conhecendo o folclore local. Eu pensava: “É para isso que vim aqui”.
É preciso captar o espírito do lugar. Adoro conversar com as pessoas no caminho e nos lugares aonde vou, porque sempre surge alguma coisa. Visitar Xingó e conhecer melhor cenários essenciais para o desfecho do terceiro livro mudou minha visão. Saí de lá querendo escrever uma série inteira, um spin-off do Legado, ambientado no sertão sergipano.
Diversidade não é tapar o sol com a peneira
Andriolli Costa: Em Ferro, Água e Escuridão há uma revelação sobre o passado de um personagem e o livro trata de temas sociais sensíveis. Isso está em toda a série: além de folclore, falamos de relações humanas e de mensagens que você quer transmitir. Antes comentamos a responsabilidade de escrever para crianças. Agora, por causa de A Ordem Vermelha, você também tem sido chamado de “esquerdalha” — afinal, para certas pessoas, se é “vermelha”, só pode ser comunista. Qual é a importância de pensar nessas mensagens e torná-las orgânicas? A história não pode servir apenas de suporte para a mensagem; a mensagem precisa estar subjacente e ajudar a contar a história.
Felipe Castilho: O Legado Folclórico é uma série sobre gente comum fazendo coisas incríveis. E gente comum é gente diversa. Negar que existem pessoas diversas ao seu redor é se recusar a retratar o mundo como ele é.
Quando alguém pergunta: “Nossa, mas precisa colocar tanto negro e gay no livro?”, a resposta é: tem gente negra e gay porque elas existem na vida real. Olhe ao redor. O mundo não é feito apenas de pessoas brancas e heterossexuais. Diversidade é realidade. Não é tapar o sol com a peneira.
Algumas pessoas fazem questão de não enxergar a realidade como ela é. Quando veem personagens tratados simplesmente como pessoas, chamam o autor de “lacrador”. Odeio esses rótulos. Estou contando histórias de gente comum, e é assim que as pessoas comuns são.
Não faria sentido contar uma história do folclore brasileiro com um herói norte-americano chamado Johnny, morando em Nova York, usando nossas criaturas apenas como elementos exóticos. O cenário é o Brasil, e as pessoas fazem o Brasil.
Muita gente diz que escrevi uma série que “resgata” aspectos da nossa cultura, o folclore e as parlendas, e conclui: “Precisamos ser mais patriotas quando escrevemos”. Não é patriotismo. É fazer justiça às histórias brasileiras que não são contadas em detrimento de tantas outras que repetimos sempre.
Patriotismo pelo patriotismo pode se transformar numa bandeira fascista. As pessoas confundem nacionalismo e patriotismo com o que estou dizendo. Foda-se o patriotismo. Eu me importo com as pessoas. Uma bandeira tem funções burocráticas. Amo meu país porque amo as pessoas que o constituem.
É difícil ter tolerância. Não me coloco como um monge zen: é foda ler cada merda, cada porra fascista que alguém posta no Facebook. Ainda assim, muitas pessoas não têm noção do que estão dizendo. Cresceram vendo norte-americanos destruindo alienígenas e comemorando o Dia da Independência. Nosso contexto é diferente.
O Brasil começou com uma invasão. Os vencedores narraram a história até hoje, e agora temos uma consciência maior do que o país sofreu para chegar ao que é. Resgatar essas histórias é fazer justiça. O espírito desta terra é muito grande e não pode ser enterrado tão facilmente. Isso está acima de bandeiras e de orgulho.
Se minha mãe tivesse atravessado uma fronteira no dia em que me pariu, talvez eu fosse paraguaio. Países são linhas imaginárias no chão. Mas o Brasil também é um conceito, uma ideia gigantesca, feita não apenas do que há de bom, mas dos massacres sofridos por quem de fato cultivou esta terra e do que as pessoas continuam sofrendo. Para mim, contar essas histórias é fazer justiça à história do nosso país.
O encerramento de um ciclo
Andriolli Costa: Maravilha, cara. Para encerrar, o que vem por aí?
Felipe Castilho: Preciso terminar o quarto livro. É triste fechar a série, porque é o último e tenho muito carinho pelos personagens. Ao mesmo tempo, dá certo alívio: escrever uma série é difícil para cacete. Só faço isso novamente aos sessenta anos.
A ideia era terminar ainda naquele ano, mas eu não queria correr e entregar o livro de qualquer jeito. Estava escrevendo duas séries ao mesmo tempo: A Ordem Vermelha, que teria dois livros, e O Legado Folclórico, cujo quarto volume encerra a história.
O livro se chama Aço, Vento & Sacrifício. A série foi descendo e ficando mais pesada. O primeiro é mais divertido, tem uma aventura adequada para adoção em escolas e continua sendo o mais vendido. Há professores que trabalham com ele há anos. O segundo já tem outra ação e um clima mais sombrio; o terceiro triplica esse tom. O quarto será uma conclusão para a série inteira, com o retorno de personagens dos livros anteriores. Está sendo um momento muito bacana de fechar o ciclo.