Marcos Moura apresenta a Escola Afro-Amazônica

Por Andriolli Costa

Marcos Moura se define como um “ex-moreno”. Filho de um paraibano negro, sanfoneiro e contador de histórias, o cientista político e produtor cultural diz que passou a se reconhecer como afrodescendente depois de ingressar no movimento negro. Essa descoberta também transformou sua atuação na música, no folclore e nos movimentos sociais de Parintins.

Nesta entrevista, Marcos apresenta a Escola Afro-Amazônica, projeto criado pelo Instituto Cultural Ajuri para levar às escolas a história e as culturas negras, indígenas, quilombolas e ribeirinhas do Baixo Amazonas. A iniciativa reúne cadernos pedagógicos, revista, histórias em quadrinhos, músicas, videoaulas e um show didático produzido pelo Grupo Ajuri.

Marcos também discute o apagamento da presença negra na Amazônia, as disputas por representação no Festival de Parintins e a responsabilidade social da cultura popular. Ao tratar da patrimonialização e do avanço de movimentos conservadores sobre a educação, ele defende políticas construídas com as comunidades e uma escola capaz de enfrentar o racismo e a intolerância religiosa.

O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 105 do Poranduba, apresentado por Andriolli Costa e publicado originalmente em 30 de agosto de 2021. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias, interrupções técnicas e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As referências à execução do projeto, à distribuição dos materiais e à programação da live Amazônia Viva correspondem ao momento original da entrevista.

“Hoje sou um ex-moreno”

Andriolli Costa: Olá, bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei seu guia. No programa de hoje, tenho o prazer de receber o sociólogo Marcos Moura, de Parintins, que já esteve aqui para falar do Boi Garantido. Desta vez, ele vem apresentar o projeto Escola Afro-Amazônica. Tudo bem, Marcos?

Marcos Moura: Oi, tudo bem, meu amigo? Saudações a todos os internautas que acompanham este diálogo tão rico. É uma honra e uma alegria estar aqui compartilhando as nossas aventuras com você.

Andriolli Costa: Maravilha. Para começarmos, gostaria que você se apresentasse aos nossos ouvintes. Quem é Marcos Moura?

Marcos Moura: Marcos Moura é um ex-moreno. A partir do momento em que ingressei no movimento negro e tive a oportunidade de estudar, fui me entendendo e me reconhecendo como afrodescendente. Percebi também a necessidade de me engajar cada vez mais na luta por transformação, visibilidade e orgulho negro.

Sou cientista político, sociólogo e especialista em gestão e produção cultural. Presido o Instituto Cultural Ajuri, que está próximo de completar 13 anos na cidade de Parintins. Também sou poeta, compositor, percussionista e integrante do Grupo Ajuri. Além disso, criei o movimento Grito da Periferia, em 2005. Em sua última edição, o evento reuniu centenas de artistas para celebrar a diversidade cultural do Baixo Amazonas.

Andriolli Costa: Que apresentação bonita. A palavra “Ajuri” aparece tanto no nome do grupo quanto no do instituto. O que ela significa?

Marcos Moura: Ajuri é um termo de origem tupi que significa reunião. É unidade, união e aliança: todos juntos em torno de um objetivo comum. Esse é o sentido da palavra.

O nome foi escolhido primeiro para o Grupo Ajuri, uma banda que trabalha com ritmos amazônicos. Estou no grupo há 27 anos. Comecei como dançarino e percussionista e, depois, passei a atuar também na produção cultural.

O grupo foi fundado em 1984 e completou 37 anos de história. Ele nos inspirou a batizar o Instituto Cultural Ajuri, que já tem 12 anos de estrada e a missão de trabalhar com as culturas indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Desenvolvemos projetos, ações e programas como a Escola Afro-Amazônica, sobre a qual viemos conversar.

Andriolli Costa: Antes de chegarmos à escola, é importante entender esse seu movimento de reconhecimento como pessoa negra. Isso influenciou suas ações culturais? O que mais mudou em sua vida?

Marcos Moura: Sou filho de um negro paraibano, sanfoneiro e contador de histórias. Meu falecido pai, José Clementino, nasceu no município de Bonito de Santa Fé, no sertão paraibano. Chegou a Manaus aos seis anos de idade, fugindo da fome e da miséria, e se criou na cidade.

Quando conheceu minha mãe, ele já era viúvo e tinha nove filhos. Minha mãe, que havia sido freira, ajudou a criar todos eles. Eu fui o único filho dos dois.

Desde criança, eu ouvia Luiz Gonzaga. A influência da zabumba, do triângulo, da sanfona e das músicas desse embaixador do Nordeste abriu minha cabeça para o orgulho pela cultura popular brasileira. Aquilo virou uma paixão.

Depois, tornei-me folclorista e pesquisador das danças brasileiras, mergulhando particularmente na cultura amazônica. Passei a conviver com comunidades indígenas e trabalhei por muitos anos no Boi Garantido, na equipe de pesquisa e fundamentação e também como coreógrafo. Estou no Garantido desde 1994. Aprendi muito nesse processo e ajudei a construir espetáculos apresentados na arena do Bumbódromo.

Tudo isso fortaleceu minha identidade e meu reconhecimento como brasileiro. O movimento negro, em particular, fez com que eu me percebesse como negro. Hoje eu sou um ex-moreno. Antes, dizia: “Sou moreno, sou pardo”, toda essa história. Quando entendemos como a estrutura funciona, encontramos o orgulho.

Esse orgulho aparece em nossas obras, ações, músicas e toadas de boi-bumbá. Procuramos colocar nossa vida dentro da arte. Com o amadurecimento, também construímos um projeto que leva essa reflexão e esse reencontro com a ancestralidade para outras pessoas negras da Amazônia, muitas das quais ainda não se reconhecem dessa forma.

A presença negra na Amazônia

Andriolli Costa: Quando alguém de fora pensa no Amazonas, geralmente se lembra primeiro das populações indígenas e ribeirinhas. Como se constituiu a presença negra e quilombola na Amazônia e, mais especificamente, no Amazonas?

Marcos Moura: A presença negra se intensificou na região sobretudo a partir do chamado período pombalino, por volta de 1750. O Marquês de Pombal implementou uma nova política para o Brasil e, em particular, para a Amazônia. Houve uma série de mudanças em relação ao modelo anterior, incluindo a expulsão dos jesuítas que atuavam nas missões com os povos indígenas.

Vieram outras congregações religiosas e o comércio passou a se concentrar nos produtos da região. Foi criada a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, que negociava as chamadas drogas do sertão. Cacau, cumaru, castanha, mixira de peixe-boi e outros produtos eram exportados e enriqueceram muita gente.

Esse sistema utilizou mão de obra negra escravizada. Pessoas foram trazidas para trabalhar nas fazendas de cacau e nas experiências de criação de gado que estavam sendo implantadas. Como ocorreu em outras partes do Brasil, houve resistência e luta. Também houve união com outros grupos oprimidos, como indígenas, ribeirinhos e brancos pobres.

Segundo a pesquisadora Patrícia Sampaio, quando incluímos a parte do Maranhão que integra a Amazônia, encontramos 416 quilombos na região. Essa história precisa ser contada. Os materiais didáticos da Escola Afro-Amazônica trazem essas informações e investigam os resultados da presença negra na constituição de nossa riqueza cultural.

Outro exemplo desse protagonismo é a Cabanagem, ocorrida entre 1835 e 1840. Para muitos historiadores, foi a maior revolta popular do Brasil. Ela reuniu negros, indígenas, ribeirinhos e outros grupos oprimidos em torno do projeto de uma república amazônica.

Durante as campanhas, os cabanos invadiam fazendas e libertavam pessoas escravizadas das senzalas. Isso também produziu novos deslocamentos pela região. Mais tarde, no fim do século XIX e no início do século XX, houve outro fluxo migratório, com a chegada de nordestinos para trabalhar no ciclo da borracha. Vieram milhares de cearenses e também muitos negros maranhenses, que trouxeram suas influências culturais.

Não é por acaso que encontramos manifestações como o marambiré, o gambá e o carimbó. O carimbó surgiu de um ritual tupinambá, mas foi transformado pelas populações negras da região do Salgado em um batuque que depois se espalhou por outros territórios. Essas manifestações dão identidade negra à Amazônia.

É muita história para contar. Fico feliz quando as pessoas começam a se reconhecer como negras amazônicas, mas também precisamos compreender os desafios. Essa população foi marginalizada e teve direitos negados ao longo da história.

Acredito que a superação passa pela educação, pelos movimentos sociais e pela nossa capacidade de exercer o controle social sobre as políticas públicas. Quando criamos a Escola Afro-Amazônica, estamos propondo uma política pública e uma educação popular libertadora, construída em diálogo com os movimentos e irmanada com os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

O apagamento das identidades

Andriolli Costa: Antes de entrarmos diretamente no projeto, quero perguntar sobre o apagamento racial. Durante boa parte do século XX, historiadores afirmaram que já não existiam povos indígenas no Ceará porque todos teriam se tornado “caboclos”. Algo semelhante aconteceu com a população negra. Nos maracatus, por exemplo, justificava-se o uso do blackface com a afirmação de que não havia negros no estado, como existiriam no Maranhão. Depois, percebemos que ocorria um apagamento das identidades negras e indígenas. Como esse processo aparece no Amazonas? Os povos indígenas ainda enfrentam dificuldade para se reconhecer? A experiência da população negra é parecida?

Marcos Moura: Esse apagamento faz parte de um projeto de branqueamento do Brasil, implementado por diferentes iniciativas. Posso pontuar duas delas que tiveram reflexos na região.

A libertação das pessoas escravizadas foi uma conquista do movimento abolicionista, resultado de muita luta. Não foi favor de ninguém. Depois da abolição, porém, não houve um projeto de desenvolvimento destinado à população negra. Foi um prolongamento da senzala: “Agora você está livre, mas continuará marginalizado”.

Ao mesmo tempo, existiam incentivos para a imigração de italianos e outros europeus. Muitos já chegavam com acesso à terra e a salários, enquanto não havia uma política semelhante para a população negra.

Outro ponto estratégico são os livros didáticos. A escola é um aparelho ideológico do Estado, e o projeto educacional esteve a serviço de um Estado burguês, construído e controlado por elites brancas. O racismo estrutural nega oportunidades de modo perverso, silencioso, disfarçado e dissimulado.

O mito da democracia racial é uma falácia transmitida a todos nós, inclusive por intelectuais negros que aderiram a essa interpretação. A identidade negra não diz respeito apenas à cor da pele. Ela também envolve a afrodescendência, a origem e o reconhecimento. Eu não sou uma pessoa de pele preta, mas sou negro. Meu pai era negro e minha mãe é branca. Essa autoafirmação é necessária.

Para isso, precisamos de formação. A consciência se constitui na família, no convívio, nas oportunidades e nas experiências dentro dos movimentos sociais. Ela também passa pelo projeto educacional, que durante muito tempo foi construído para que não tivéssemos orgulho negro, indígena, amazônico ou nordestino.

Na nossa região, ainda percebemos a negação da presença negra. Basta observar o Festival de Parintins. Existem comunidades quilombolas próximas, mas onde está o negro no festival? Durante muito tempo, ele apareceu somente nas figuras de Pai Francisco e Mãe Catirina, representadas de maneira caricatural e muitas vezes com blackface.

É possível discutir separadamente o recurso de pintar artisticamente a pele, mas estou falando de conteúdo. O boi-bumbá tem 22 itens de julgamento, porém o Auto do Boi, Pai Francisco e Mãe Catirina não constituem um item específico. Na criação dos espetáculos, muitas vezes se deixa de explorar a história desses personagens e tudo o que existe para além deles.

Há muitos anos enfrentamos internamente essa situação, propondo ideias e disputando conteúdos. Uma dessas ações foi a toada “Quilombolas da Amazônia”, de nossa autoria. Conseguir aprová-la exigiu uma disputa grande. Todos os anos, compositores de diferentes partes do país inscrevem cerca de 250 ou 300 obras, das quais são escolhidas entre 18 e 22.

Quando uma toada como “Quilombolas da Amazônia” entra no festival e chega à arena, estamos educando. A cultura precisa cumprir sua função social. Muitas pessoas não têm acesso ou hábito de leitura, mas conseguem aprender por meio de uma canção.

[Marcos canta um trecho de “Quilombolas da Amazônia”.]

A toada menciona manifestações de comunidades quilombolas, como o carimbó, o Onça-te-Pega, o gambá, o marambiré, os cordões de pássaros, o siriá, o marabaixo e o boi-bumbá. É uma maneira de levar todo esse conteúdo para dentro do festival.

Também aprovamos “As Cores da Fé”, que enfrenta a intolerância religiosa e a antiga predominância de uma religião oficial. A composição defende o respeito à diversidade. Vamos educando por meio da vida e da arte. Eu e meus parceiros, Enéas Dias e João Kennedy, acreditamos que a parceria artística deve refletir nossa vida e nossas causas.

Uma escola nascida da falta de materiais

Andriolli Costa: Agora que estamos inteirados do assunto, precisamos entender como surgiu a ideia de criar um projeto voltado à produção de materiais didáticos para trabalhar essas questões com crianças e jovens nas escolas.

Marcos Moura: O projeto nasceu da causa. Costumo dizer que só podemos gostar daquilo que conhecemos. Quando tivemos acesso a essas histórias, começamos a nos encantar. Procuramos referências, mas não encontramos materiais suficientes, especialmente sobre as temáticas negra e indígena.

As escolas demonstravam interesse, mas continuavam distantes e, de certa forma, desvalorizavam os conteúdos regionais. Isso nos incomodou bastante. Começamos a dialogar com outros parceiros, entre eles o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, o CEAP, do Rio de Janeiro.

O CEAP reúne grandes educadores e referências do movimento negro, como Éle Semog, Ivanir dos Santos e Helena Theodoro. Levei a ideia do projeto e expliquei que precisaríamos de ajuda especialmente no que diz respeito à história da África.

Conhecemos a história negra da região porque somos curiosos, pesquisamos e viajamos bastante pela Amazônia. A Escola Afro-Amazônica, no entanto, também pretende contribuir para a implementação das leis 10.639 e 11.645, que tornaram obrigatório o ensino das histórias e culturas africana, afro-brasileira e indígena.

Não tínhamos a mesma formação sobre a África. Precisávamos reconhecer isso com humildade, porque apresentar um projeto ao poder público exige responsabilidade e qualidade. Por isso, buscamos parceiros estratégicos. O CEAP abraçou a ideia e embarcou conosco nessa grande aventura.

O projeto é ousado porque reúne muitos produtos. Temos um CD didático com ritmos e músicas africanas, indígenas, quilombolas e ribeirinhas, além de composições autorais relacionadas a esses temas.

Produzimos também o caderno Perspectivas Pedagógicas, que propõe reflexões e atividades para que os professores possam trabalhar com as duas leis. Elas abrem espaço para um ensino mais popular, com a cara do povo brasileiro e das populações negras e indígenas que foram historicamente excluídas dos conteúdos oficiais.

Outro caderno aborda a intolerância religiosa na contemporaneidade, uma violência cruel que atinge principalmente praticantes de religiões afro-brasileiras e de matriz africana. Recentemente, um jogador da seleção brasileira marcou um gol e homenageou seu orixá, Oxóssi. Em seguida, tornou-se vítima de ataques.

Podemos nos benzer a toda hora e ninguém questiona. Quando alguém manifesta sua liberdade de culto de outra maneira, porém, torna-se alvo de preconceito, racismo e intolerância. Isso precisa ser debatido em um espaço estratégico como a escola, onde formamos cidadãos mais preparados para enfrentar as grandes questões de nosso tempo.

Temos ainda a revista Etnias, Folclore e Cultura Afro-Amazônica. Conseguimos reunir mais de dez professores, entre doutores, pós-doutores e mestres, além de mestres populares. O material promove justamente esse cruzamento de saberes.

Também produzimos uma revista em quadrinhos intitulada Histórias e Mitos Indígenas da Amazônia. Eu organizei o trabalho, ilustrado pelo talentoso Levi Gama, com roteiro de Rafa Pimentel e pesquisa de fundamentação realizada em diálogo com lideranças indígenas.

Andriolli Costa: Tenho certeza de que muita gente está ouvindo essa lista e pensando: “Quero esse material”. Ele ficará disponível pela internet ou será distribuído apenas localmente?

Marcos Moura: Nesta primeira etapa, o projeto foi aprovado por meio de uma emenda parlamentar da deputada estadual Alessandra Campêlo. O recurso foi direcionado por meio de um instituto parceiro, o Instituto Marajó, para a realização de um projeto-piloto.

Quando apresentamos a proposta à Secretaria de Educação, ela causou certo espanto pelo volume e pela ousadia de oferecer uma série de materiais didáticos novos, regionalizados e diferentes. Isso foi positivo.

O projeto-piloto será realizado em Borba, município situado às margens do rio Madeira, onde pretendemos atender 375 estudantes. Também chegaremos a 200 alunos de Parintins, às margens do rio Amazonas.

A ideia, para além dessa ação pontual vinculada ao convênio, é dar volume à Escola Afro-Amazônica e transformá-la em uma escola aberta e popular. Já convidei muitas pessoas dos movimentos sociais para somar conosco. Queremos organizar o conteúdo de maneira que as pessoas possam estudar o que estamos produzindo.

A sala de aula tem um alcance maravilhoso para a socialização de informações, mas também pretendemos promover diálogos virtuais sobre os temas da escola e realizar ações diretamente nas comunidades.

Um exemplo foi a Caravana Amazônia, realizada em 10 de julho, quando visitamos Matupiri, o maior quilombo do rio Andirá, próximo a Parintins. Houve um encontro de culturas quilombolas, com manifestações como lundum, gambá, Onça-te-Pega, marujos de São Benedito e boi-bumbá.

Também distribuímos cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade e oferecemos oficinas gratuitas. A programação terminou com uma mostra cultural muito bonita.

Música, videoaulas e cultura local

Andriolli Costa: Você também mencionou um show didático. Como ele funciona?

Marcos Moura: Por causa da pandemia, estamos preparando o show em formato virtual. Será uma apresentação do Grupo Ajuri com músicas tradicionais quilombolas e composições relacionadas a essas culturas.

Durante o show, explicamos o significado de determinados termos, a origem das músicas, os rituais aos quais estão ligadas e os nomes dos instrumentos tradicionais. Apresentamos as influências negras, indígenas, quilombolas e ribeirinhas na cultura amazônica.

Também permeamos a apresentação com poemas, canto, música e informações históricas. É uma mistura de show, poesia e palestra. Já havíamos experimentado o formato presencialmente antes da pandemia e agora precisamos transformá-lo em vídeo.

Além disso, teremos 14 videoaulas sobre temas como cultura africana, presença negra na Amazônia, capoeira no Amazonas e o gambá. Este último é um ritmo tradicional com mais de 250 anos de história na região, mas muita gente ainda não o conhece.

Nossa previsão é iniciar o projeto nas escolas por volta de 20 de setembro, assim que os materiais impressos estiverem prontos. O CD não apresentará somente as letras das músicas, mas também a história das comunidades e das manifestações. Sempre tentaremos transformar esses conteúdos em materiais de acesso virtual para todo mundo.

Andriolli Costa: Qual é a importância de as crianças amazônicas conhecerem histórias, músicas e culturas que estão próximas delas? Encontramos materiais sobre o movimento negro e a história da população negra no Brasil, mas é muito mais difícil encontrar algo tão local.

Marcos Moura: A importância está na ampliação do orgulho afro-amazônico e indígena. Embora o projeto seja direcionado às escolas de Ensino Médio, esses materiais podem alcançar toda a população. A história em quadrinhos, por exemplo, utiliza uma linguagem juvenil, mas não precisa ficar restrita aos jovens.

O projeto não teria sentido se não fosse legitimado pela região. Não podemos apenas reproduzir conteúdos de outros lugares. Precisamos valorizar a história do Brasil como um todo, mas também fazer um esforço para revelar a riqueza existente na Amazônia.

Dou o exemplo de uma comunidade que visitei há bastante tempo, chamada Terra Preta do Mamuru. O Mamuru é um rio muito bonito da região de Parintins. Eu ouvia dizer que havia carimbó por lá e me perguntava: “Carimbó no Amazonas, tão perto de Parintins? Preciso conhecer”.

Fui até a comunidade para entender aquela história. Havia muitos anos eles faziam um esforço para dançar carimbó, mas estavam perdendo a prática de fabricar instrumentos de percussão e compor as próprias músicas. Na apresentação que assisti, coordenada por um professor local, a coreografia já estava distante do carimbó mais tradicional. Eles dançavam ao som de uma música da Banda Calypso reproduzida em CD.

Como trabalhei por muitos anos no Pará e conheci o carimbó e outras manifestações de Santarém e Alter do Chão, propus uma oficina. Voltei em outra oportunidade e passei uma semana na comunidade. Conversamos sobre a origem do carimbó, a região do Salgado, no litoral paraense, e os caminhos pelos quais a manifestação chegou a outros territórios.

Também observamos as semelhanças entre o curimbó e o gambá, estudamos os tambores e trabalhamos os passos tradicionais da dança. Na pisada indígena do carimbó, por exemplo, encontramos movimentos para a frente e para trás. As pessoas foram fazendo essas descobertas e se orgulhando.

Durante aquela semana, compusemos uma música que se tornou uma espécie de carro-chefe da comunidade.

[Marcos canta um trecho do “Carimbó da Terra Preta”.]

A música fala de São José, padroeiro da comunidade, do artesanato, do rio Mamuru, das castanheiras, dos batuqueiros e das pessoas de lá. Quando alguém pode cantar a própria terra, uma semente fica plantada.

Não é raro encontrar pessoas de comunidades tradicionais que deixam de cantar suas canções para reproduzir músicas de fora. Quando alguém encontra em um CD uma faixa composta na própria comunidade, percebe que aquela história tem valor. Isso estimula o orgulho e a criação de novas músicas. Ver essa alegria se espalhar também nos alegra.

Patrimônio e participação comunitária

Andriolli Costa: Quero fazer uma pergunta mais espinhosa. Alguns pesquisadores criticam os processos de patrimonialização. Quando uma dança é reconhecida como patrimônio e passa a receber mais atenção, festeiros e brincantes podem modificar sua maneira de brincar porque entendem que precisam corresponder ao modelo patrimonializado. A oficialização se transforma em uma intervenção direta. Como você enxerga essa crítica?

Marcos Moura: De maneira geral, nossa cultura popular e nossa identidade já são patrimônios reais. Quando entram na burocratização estatal e na oficialidade, o resultado depende muito do governo e da condução do gestor. Em algumas situações, o reconhecimento atrapalha mais do que ajuda.

Já vi muitos patrimônios culturais brasileiros receberem um título e continuarem sem o devido apoio. A comunidade responsável pela manifestação reconhecida como patrimônio imaterial nem sempre está politicamente articulada para cobrar e exercer o controle social sobre as políticas públicas.

Não basta conquistar uma lei. Precisamos estar organizados e ter representantes que nos ajudem nos parlamentos e no Poder Executivo. Muitas vezes, não participamos da construção das políticas públicas nem dos planos plurianuais.

Fiz um levantamento, há cerca de quatro anos, das manifestações reconhecidas como patrimônio cultural imaterial no Amazonas. Encontrei, por exemplo, a Festa do Repolho. Era uma festa sem tradição ou referência histórica significativa para a região, mas ligada a pessoas politicamente influentes e, por isso, reconhecida pelo Estado.

Ao mesmo tempo, temos os Marujos de São Benedito da Freguesia do Andirá, uma tradição com mais de 150 anos, com barcos e cantorias de louvação ao santo, que quase ninguém conhece. Preparamos um documento e o enviamos à Assembleia Legislativa para tentar convencer os deputados a reconhecer a manifestação. Depois, teremos ainda de acompanhar o processo para fazer valer esse reconhecimento.

Tudo isso é muito relativo. Algumas manifestações menos significativas conseguem se articular rapidamente, elaborar projetos e acessar recursos. Não quero generalizar, mas às vezes são justamente as mais articuladas que tendem a se descaracterizar.

Isso não significa que a cultura deva permanecer parada. Ela se transforma, mas é preciso bom senso. Cada caso é um caso. Quanto maior nossa capacidade de exercer o controle social e participar dessa dinâmica, maior a possibilidade de avançarmos sem perder nossas identidades.

É uma questão de informação e articulação. Se as comunidades tradicionais estão desorganizadas e deixam de protagonizar o processo, outras pessoas decidem por elas. Precisamos estar atentos e dialogar com as universidades e com diferentes instituições para construir políticas de desenvolvimento e salvaguarda das festas tradicionais.

Essas alternativas precisam ser construídas em consulta com as comunidades. Não adianta o maior intelectual do mundo decidir, sozinho em seu gabinete, o que seria melhor para nós. Precisamos participar. Caso contrário, a proposta pode até se transformar em lei, mas não terá legitimidade.

Educação em tempos conservadores

Andriolli Costa: Em um contexto marcado pelo movimento Escola sem Partido, como implementar uma Escola Afro-Amazônica que pretende discutir racismo, pertencimento, religião e tantos outros temas em disputa?

Marcos Moura: O conteúdo incomoda. Ele atravessa um momento conservador e de ameaça à democracia. Mesmo fora dessa conjuntura perversa, já encontraríamos resistência. Agora vamos começar a implementação e as pessoas compreenderão melhor a proposta quando tiverem os materiais nas mãos.

Ao abrir a revista, por exemplo, o leitor encontrará um texto do professor Ivanir dos Santos sobre o que está acontecendo com as religiões de matriz africana. Também encontrará referências a Davi Kopenawa e versos que pedem liberdade a “Jesus, Tupã ou Oxalá”. Isso certamente provocará um debate nas escolas, e esse debate é necessário.

Não se faz omelete sem quebrar os ovos. Precisamos passar por isso. Não estamos fazendo nada além de exercer um direito. É necessário encarar a situação de frente e protagonizar aquilo que devemos fazer.

Também trabalhamos com músicas como “Nós, o povo!”, que começa apresentando personagens brasileiros: Pedro, pescador; Zenaide, professora; Davi Kopenawa, cacique; Mário de Andrade, folclorista; Dandara, quilombola; Marielle, feminista; entre outros.

Certamente alguém questionará a presença de Marielle e acusará o material de “doutrinação”. Mas, se não provocarmos essa discussão, quem fará? A escola formal? O poder público? Nós também somos parte da esfera pública e estamos fazendo aquilo que nos cabe, com responsabilidade, verdade, alegria e amorosidade.

Enquanto houver racismo estrutural, desigualdade e opressão, não conseguiremos avançar na construção de uma educação libertadora.

Amazônia Viva

Andriolli Costa: Marcos, foi um prazer conversar com você. Para encerrar, deixe um abraço aos nossos ouvintes e faça o convite para a live do Dia da Amazônia que vocês estão produzindo.

Marcos Moura: No dia 5 de setembro, Dia da Amazônia, o Instituto Cultural Ajuri, em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, a Coiab, realizará a segunda edição da live-show Amazônia Viva.

Será um encontro para celebrar as histórias, as culturas, as lutas e as reivindicações dos povos da Amazônia e da floresta. Dezenas de artistas de diferentes partes do Brasil aderiram voluntariamente e enviaram materiais.

Teremos participações do Olodum, da Bahia; do Salgueiro e do Jongo da Serrinha, do Rio de Janeiro; do Arraial do Pavulagem e de mestres de carimbó do Pará; além de artistas indígenas como Márcia Kambeba e Daniel Munduruku. Também haverá artistas de Parintins, o Grupo Ajuri, repentistas, grupos de xaxado, maracatus e muitas outras manifestações.

A programação começará às 18 horas, no horário de Brasília. Queremos uma Amazônia viva.

Um beijo e um abraço para todos os ouvintes que nos acompanham. Parabéns, meu amigo Andriolli, pelo trabalho. Estamos distantes e próximos ao mesmo tempo, festejando a vida e as transformações que construímos com alegria. Saudações a todos.

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