“O homem que contava as histórias”: Daliana Cascudo relembra o avô e discute a atualidade de sua obra

Foi apenas no ensino médio que Daliana Cascudo compreendeu que o avô com quem convivia diariamente era também um dos maiores pesquisadores da cultura popular brasileira. Até então, as homenagens, os livros e o movimento constante de visitantes na casa da família pareciam parte da rotina de qualquer criança. A dimensão pública de Luís da Câmara Cascudo só se revelou quando ela ouviu um professor apresentar aquele “vovô” como o maior folclorista do país.

Nesta entrevista, Daliana reconstrói a convivência com o avô na casa que hoje abriga o Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, em Natal. Ela fala sobre a rotina noturna de trabalho, as pesquisas realizadas junto a pescadores, mestres e praticantes do catimbó, as brincadeiras com os netos e o sertão potiguar como espaço decisivo para a formação do imaginário do pesquisador.

Daliana também aborda a participação de Cascudo no integralismo, sua ligação com a monarquia e a recusa em concorrer a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. A conversa passa ainda pela retirada temporária de seus livros do mercado, pela republicação das obras, por adaptações audiovisuais, manuscritos inéditos e pela exposição interativa destruída no incêndio do Museu da Língua Portuguesa.

O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 100 do Poranduba, apresentado por Andriolli Costa e publicado originalmente em 12 de julho de 2021. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias, interrupções técnicas e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As referências à pandemia, à reabertura do instituto, à Fundação Cultural Palmares e aos projetos audiovisuais em desenvolvimento correspondem ao momento original da entrevista.

A neta de Câmara Cascudo

Andriolli Costa: Olá, bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei seu guia. Para celebrar o centésimo episódio do programa, tenho o prazer de receber uma convidada mais do que especial, com quem sonho conversar desde o primeiro episódio: Daliana Cascudo. Tudo bem, Daliana?

Daliana Cascudo: É um prazer imenso estar aqui, ainda mais em uma data tão especial. Fico muito feliz por participar do centésimo programa.

Andriolli Costa: Esse sobrenome não está aqui por acaso. Vamos conversar bastante sobre Luís da Câmara Cascudo, o instituto que preserva sua obra e, claro, o folclore, tema que nos aproxima. Se você precisasse dizer a alguém quem é Daliana Cascudo, como se apresentaria?

Daliana Cascudo: Eu me apresentaria como neta de Câmara Cascudo. Isso é uma honra imensa e um grande privilégio. As pessoas perguntam se existe um peso na responsabilidade de levar esse legado, mas o orgulho é maior do que tudo.

Também sou presidente do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, instituição na qual preservamos essa memória e esse legado. O instituto funciona na casa onde ele viveu por quase 40 anos. Temos todo o seu acervo museológico, porque esta é uma casa biográfica, e também o acervo bibliográfico, com sua biblioteca particular.

Além de ser um local de visitação, o instituto é um espaço de pesquisa. A primeira presidente foi minha mãe. Agora estou na presidência e minha irmã atua como vice-presidente. Não há definição melhor para mim.

Andriolli Costa: Muitos ouvintes conhecem esse grande pesquisador, mas alguém pode ter chegado aqui por acaso. Quem foi Câmara Cascudo?

Daliana Cascudo: Foi um dos maiores folcloristas que o Brasil já teve. Talvez a melhor definição seja a de um desbravador. Em uma entrevista, ele disse que havia aberto “a primeira picada no mato”. Acho essa imagem muito bonita.

Ele abriu caminhos em uma época na qual o folclore ainda não era reconhecido como ciência nem considerado digno de estudo. Sua obra nos ajuda a compreender muito do que hoje identificamos como cultura e identidade brasileiras. Foi um dos grandes descobridores do Brasil e de seu povo.

Andriolli Costa: Cascudo morreu em 1986, aos 87 anos. Quantos anos você tinha?

Daliana Cascudo: Eu tinha 21 anos. É difícil chamá-lo de Câmara Cascudo quando estamos conversando dessa maneira. Depois de um início mais formal, ele vira “vovô”.

Vovô teve dois filhos: minha mãe, Anna Maria, e meu tio Fernando. Quando mamãe se casou, permaneceu morando nesta casa com ele. Eu e meus irmãos tivemos o privilégio de crescer aqui. Toda a minha infância e adolescência foram vividas ao lado dele.

Não era um avô que eu visitava de vez em quando. Era alguém com quem convivia diariamente. Isso me deu uma proximidade muito grande com ele.

O próprio vovô foi responsável pelo meu nome. Ele juntou Dália, o nome de minha avó, com Ana, o nome de minha mãe, e criou Daliana.

Há uma história curiosa sobre isso. Quando eu já era adolescente, ele me chamou à biblioteca com um livro de Camões nas mãos e disse: “Minha filha, olha o que descobri. Existe uma personagem chamada Daliana”. Perguntei se ele havia se baseado em Camões para escolher meu nome. Ele respondeu: “De jeito nenhum. Camões me plagiou”. Isso era muito típico dele.

Uma casa aberta ao mundo

Andriolli Costa: Existe uma fotografia clássica do escritório com a placa “O professor Câmara Cascudo não recebe pela manhã”. Como era a rotina de trabalho dele?

Daliana Cascudo: A placa realmente existia e era da década de 1960. Vovô se aposentou da Universidade Federal do Rio Grande do Norte por volta de 1965. Foi professor durante toda a vida e ensinava Direito Internacional.

Depois da aposentadoria, passou a trabalhar durante a noite inteira, quando mais produzia. Da casa, escutávamos a máquina de escrever na biblioteca. Quando os netos estavam saindo para o colégio, ele começava a dormir.

Ele acordava ao meio-dia, almoçava e recebia as pessoas durante a tarde. Por isso a placa dizia que o professor não recebia pela manhã.

Andriolli Costa: Apesar desse horário determinado, ele era uma pessoa acessível?

Daliana Cascudo: Muito. Antigamente, não existia o medo que hoje nos leva a manter a casa sempre fechada. O portão permanecia aberto. Lembro-me de pessoas do Canto do Mangue chegando para trazer um peixe, porque ele adorava peixe. Às vezes, estávamos almoçando e aparecia alguém com uma entrega.

Também vinham pescadores trazer informações que ele havia solicitado. Essas pessoas eram fontes de pesquisa. Vovô queria conversar com elas e foi um grande precursor do que hoje chamamos de pesquisa de campo.

Ele recebia estudantes, pesquisadores, artistas e autoridades. Os alunos diziam que quem visitava Natal precisava conhecer dois monumentos: o Forte dos Reis Magos e Luís da Câmara Cascudo. Presidentes da República, intelectuais e artistas passaram por esta casa. Roberta Close também esteve aqui.

Vovô recebia todos com carinho e sensibilidade. Era muito acessível e bem-humorado. Gostava de brincar e fazer piadas com as pessoas.

Andriolli Costa: O ouvinte Maurício da Fonte Filho perguntou se havia algum causo que Cascudo gostava de contar repetidamente.

Daliana Cascudo: Não era exatamente um causo, mas uma superstição que ele próprio criou. No gabinete de trabalho, diante da escrivaninha, havia três santos. Um deles era uma imagem de São José de Botas.

Quando uma moça visitava a casa, ele perguntava se ela era casada. Se a resposta fosse positiva, a conversa terminava por ali. Se fosse solteira, ele orientava que passasse o polegar direito na bota de São José. Segundo a superstição inventada por ele, a moça estaria casada dentro de um ano.

Andriolli Costa: Já ouvi dizer que São José arranja os melhores partidos. Você chegou a apresentar namorados a seu avô? Ele era conservador em relação às mulheres ou lidava tranquilamente com essas questões?

Daliana Cascudo: Ele era muito aberto. A visita de Roberta Close a esta casa é um exemplo de como estava à frente de seu tempo. Ela veio a Natal como modelo, participou de um desfile e depois foi apresentada a vovô.

Quando Roberta saiu, ele comentou com minha avó: “Que moça bonita”. Vovó Dália explicou que ela era uma mulher trans. Qualquer pessoa de sua idade poderia ter reagido com espanto ou preconceito. Ele apenas respondeu: “Dália, está ótimo. Eu não vi os documentos dela”.

Isso aconteceu na década de 1980, quando ele já tinha mais de 70 anos. Era uma pessoa sem preconceitos e muito à frente do próprio tempo. Não poderia ser diferente. Para estudar a cultura popular e suas diferentes vertentes, não seria possível permanecer fechado e reticente diante da realidade. Ele acolhia toda modernidade que chegava.

Pesquisa entre livros e pessoas

Andriolli Costa: Ainda hoje encontramos pesquisadores que observam a cultura popular como se não fizessem parte do povo estudado. Cascudo parecia ter uma visão mais integradora. Em Meleagro, seu estudo sobre o catimbó, ele acompanhava as sessões e fazia anotações no próprio local. Em um depoimento, chegou a pedir desculpas porque o livro não teria ficado tão bom quanto desejava: quando a polícia invadia as reuniões para reprimi-las, todos precisavam fugir, inclusive ele, e algumas anotações se perdiam.

Daliana Cascudo: Ele precisava estar presente e próximo das pessoas. Não se limitava ao gabinete. Tinha uma pesquisa bibliográfica muito consistente, mas considerava indispensáveis a convivência e o contato direto. Fez isso em praticamente todas as obras.

Andriolli Costa: Como ele reunia as histórias? Recolhia diretamente da boca do povo ou trabalhava principalmente com cartas e correspondências?

Daliana Cascudo: A maior parte das histórias vinha das pessoas e da convivência. Elas apareciam dentro de casa, nas conversas com os pais e os amigos, e também nos lugares que ele visitava.

Há um aspecto de sua infância que considero determinante. Antes de vovô nascer, seus pais tiveram três filhos, todos mortos ainda pequenos em consequência da difteria, chamada na época de crupe. Ele foi o único que sobreviveu e acabou criado com extremo cuidado.

Em Natal, vivia muito protegido. Não podia sair sozinho nem ficar exposto ao sereno. Por isso, entrou cedo no mundo dos livros. Aprendeu a ler ainda criança e lia revistas como O Tico-Tico. Ele se interiorizou muito.

Ao mesmo tempo, seus pais eram de Campo Grande, no sertão do Rio Grande do Norte. Eles o levavam para lá porque acreditavam que a mudança de ares poderia fortalecer sua saúde. Tudo aquilo que não podia fazer em Natal, fazia no sertão.

Esta é uma interpretação pessoal, mas acredito que o sertão tenha sido o grande estopim de sua curiosidade. Ele dizia ter vivido um sertão de açudes, caçadas, pescarias, arribaçãs e árvores. Foi também ali que ouviu histórias de lobisomem, cantadores de viola, aboios, fábulas e superstições.

Esse universo despertou a pergunta que acompanharia sua obra: de onde vêm essas histórias? Qual é a origem de cada costume? O sertão abriu um campo de experiências que ele não encontrava na infância protegida em Natal.

Andriolli Costa: Você mencionou o lobisomem como exemplo, mas essa história realmente o marcou?

Daliana Cascudo: Marcou muito. Em uma passagem, ele pergunta: “Você acredita em lobisomem?”. Depois responde que, dentro de uma sala iluminada, ninguém acredita. Mas, no sertão escuro, sob a lua cheia e ouvindo os uivos, qualquer pessoa acredita. “E eu também”, ele conclui.

O lobisomem fazia parte daquele imaginário e despertou a curiosidade do menino que, mais tarde, transformaria a experiência em estudo.

Andriolli Costa: Imagino que ele tenha contado muitas histórias a você quando era criança. Qual causo ou visagem mais a fascinava?

Daliana Cascudo: Sempre gostei muito do lobisomem, mas a Iara também me chamava a atenção. Ela aparece em Lendas brasileiras. Eu via uma edição rara da Confraria dos Bibliófilos, com ilustrações a carvão muito bonitas. Uma delas representava justamente a Iara.

Quando criança, essas histórias me fascinavam. Mas tive um choque muito grande quando descobri que vovô era Câmara Cascudo.

Eu havia crescido nesta casa. Para mim, vê-lo receber homenagens, escrever livros e conversar com pessoas era algo normal. Achava que todos os avôs eram assim.

No ensino médio, no Colégio Marista de Natal, ouvi o professor de História falar sobre Luís da Câmara Cascudo e apresentá-lo como o maior folclorista do Brasil. Pensei: “Meu Deus, é vovô”. Foi como se o chão desaparecesse.

Comecei a compreender a dimensão de sua obra e a ler seus livros com mais profundidade. Ao mesmo tempo, aquele intelectual fenomenal era meu avô e estava muito próximo de mim. O que mais me marcou foi sua sensibilidade diante das pessoas e sua enorme humildade.

“Material economicamente inútil”

Andriolli Costa: Cascudo chegou a recusar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras?

Daliana Cascudo: Ele foi fundador da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, mas nunca quis presidi-la. Quando defendiam sua entrada na Academia Brasileira de Letras, respondia que seria eternamente noivo da instituição, sem promessa de casamento.

Minha mãe escreveu uma biografia muito bonita, O colecionador de crepúsculos, na qual explica os motivos dessa recusa. O principal era não querer concorrer com os amigos. Ele dizia que votaria nos outros, mas não desejava que os outros deixassem de votar em alguém para escolhê-lo.

Também não queria sair de Natal. Definia-se como um “provinciano incurável” e afirmava que alguém precisava permanecer estudando o “material economicamente inútil”. Recebeu o Prêmio João Ribeiro da Academia Brasileira de Letras e muitas homenagens, mas nunca quis se tornar membro.

Andriolli Costa: Parece ter sido também uma figura um pouco teimosa.

Daliana Cascudo: Era capricorniano, nascido em 30 de dezembro. Mais do que teimoso, era muito determinado.

Começou a estudar Medicina, abandonou o curso e depois se formou em Direito, na Faculdade de Direito do Recife, porque ainda não havia universidade em Natal. Exerceu pouco a advocacia. Quando precisava se definir profissionalmente, dizia que era professor.

Lecionou durante toda a vida. Foi professor do Atheneu Norte-Rio-Grandense, uma escola tradicional que ainda existe, e ensinava História Geral.

Na década de 1920, um colega reclamou ao diretor porque Cascudo falava aos estudantes sobre lobisomens e outros personagens da cultura popular. Para aquele professor, esses temas não eram dignos de uma instituição frequentada pela elite potiguar. Ele chegou a pedir a demissão de vovô.

Andriolli Costa: Não duvido que isso ainda acontecesse hoje. Professores que tentam incluir o folclore no currículo continuam encontrando obstáculos, entre movimentos como o Escola sem Partido e o que poderíamos chamar de uma “escola sem folclore”.

Daliana Cascudo: Exatamente. O diretor não o demitiu, e ele continuou ensinando o que considerava importante. Mas sofreu esse preconceito quando começou a escrever e pesquisar sobre folclore.

Na época, o tema não era considerado digno de estudo. Dizer que alguma coisa “era do povo” servia para classificá-la como menor. Ainda hoje, usamos a palavra “folclórico” de maneira pejorativa ou jocosa para diminuir pessoas e acontecimentos.

O retorno das obras às livrarias

Andriolli Costa: Durante algum tempo, os livros de Cascudo praticamente desapareceram das livrarias. Tenho a impressão de que isso aconteceu na década de 1990 e começou a mudar nos anos 2000, com as novas edições da Global.

Daliana Cascudo: É isso mesmo. Vovô morreu em 1986. Depois da morte do autor, os contratos com as editoras precisavam ser renovados ou receber a concordância dos herdeiros. Como isso não aconteceu, algumas edições continuaram circulando de maneira irregular.

Quando minha mãe e meu tio fizeram o acordo com a Global, foi necessário recorrer à Justiça para retomar essas obras e impedir a circulação de edições não autorizadas. Além de não pagarem direitos autorais, muitas dessas publicações não tratavam os textos com o cuidado e a dignidade que o autor merecia.

Esse processo explica o período em que os livros ficaram fora do mercado. Desde 2000, a Global vem publicando a obra cascudiana. Hoje, além das edições impressas, já temos livros digitais e audiolivros.

Andriolli Costa: Muitos escritores de fantasia que começaram a trabalhar com o folclore no início dos anos 2000 encontravam dificuldade para pesquisar. Obras como Geografia dos mitos brasileiros e o Dicionário do folclore brasileiro estavam esgotadas e apareciam apenas em sebos, por preços elevados.

Daliana Cascudo: Eram edições para colecionadores. Queremos que a obra seja valorizada, mas o mais importante é que circule e seja distribuída por todo o Brasil.

Depois da retomada pela Global, chegamos a cerca de 40 títulos publicados. Isso também ampliou a quantidade de trabalhos acadêmicos, peças de teatro e projetos de contação de histórias baseados em Cascudo. A fortuna crítica cresce quando as pessoas conseguem acessar os livros.

Andriolli Costa: Essa discussão sobre acesso apareceu recentemente quando a Fundação Cultural Palmares decidiu retirar uma edição do Dicionário do folclore brasileiro de seu acervo, alegando que o português estaria ultrapassado. Como se a ortografia de uma edição antiga diminuísse a importância da obra.

Daliana Cascudo: A edição analisada pela fundação era realmente antiga, mas a questão poderia ter sido conduzida com outro critério técnico.

Entramos em contato com a Global, que representa a obra, e solicitamos o envio da edição atual do dicionário para o acervo da Fundação Palmares. Já estávamos na 12ª edição, devidamente revisada e atualizada ortograficamente.

O livro foi publicado originalmente em 1954, mas possui uma edição atualizada de 2012. Não havia necessidade de retirar a obra. Bastava substituir o exemplar antigo pela edição atual.

Integralismo, monarquia e desilusão política

Andriolli Costa: Outra questão levantada com frequência diz respeito à biografia política de Cascudo. Ele participou efetivamente do movimento integralista ou foi apenas colaborador de seus jornais?

Daliana Cascudo: Vovô fez parte do movimento integralista. Sua atuação ocorreu principalmente na esfera intelectual. Acredito que a aproximação tenha acontecido a partir de um convite de Gustavo Barroso, de quem era muito amigo.

Era um momento em que Cascudo buscava afirmar uma identidade nacional e determinados valores brasileiros. Depois, teve uma decepção muito grande com o movimento. Afastou-se e não quis mais participar da política, porque se desiludiu quando compreendeu melhor o que estava acontecendo.

Muito tempo depois, tentaram convencê-lo a se candidatar ao Senado. Ele recusou, dizendo que seus eleitores não votavam. Quando perguntavam quem eram esses eleitores, respondia: o bumba meu boi, o boitatá e o curupira.

Vovô também havia sido eleito deputado estadual no período da Revolução de 1930. A Assembleia foi fechada e ele perdeu o mandato, que teria durado apenas três dias. Brincava que não houve tempo para salvar nem para perder o Brasil.

Depois, surgiu novamente a ideia de levá-lo ao Senado, mas ele repetiu que seus eleitores eram os personagens da cultura popular. A desilusão provocou um afastamento real da participação política.

Andriolli Costa: E sua relação com a monarquia? Cascudo era monarquista?

Daliana Cascudo: Sim. Temos no instituto cartas, fotografias da família imperial e a réplica de uma espada ligada a esse universo. Ele mantinha correspondência com membros da família imperial.

Ao mesmo tempo, circulava por todos os meios que pudermos imaginar. Acima de tudo, era apaixonado pelo Brasil. Dizia que o país não tinha problemas, apenas “soluções adiadas”. É uma frase que continua muito atual.

Ele também se definia como um “otimista incurável” e acreditava que as coisas dariam certo de uma forma ou de outra. Essa paixão pelo Brasil e por seu povo moveu toda a sua obra.

Dos livros para as telas

Andriolli Costa: Os ouvintes elogiaram muito a série História da Alimentação no Brasil, disponível em plataformas de streaming. Existe previsão de novas obras de Cascudo inspirarem produções audiovisuais?

Daliana Cascudo: A série ainda não terminou. O diretor Eugênio Puppo é um gênio. Existe a previsão de uma segunda temporada, embora a pandemia tenha atrasado o projeto.

Os 13 episódios da primeira temporada foram voltados à alimentação no Brasil. Eugênio viajou por diferentes estados brasileiros e por cidades portuguesas. A segunda temporada será concentrada no continente africano, para onde Cascudo viajou em 1963. Há muito material a ser explorado.

Ainda não existe outro projeto confirmado, mas tenho um desejo particular de ver História dos nossos gestos adaptado. Por enquanto, o trabalho planejado é a segunda temporada de História da Alimentação no Brasil.

Andriolli Costa: Se algum diretor estiver ouvindo, Geografia dos mitos brasileiros também renderia uma série incrível. Pode me colocar como roteirista assistente. Você assistiu a Cidade Invisível?

Daliana Cascudo: Assisti e achei muito interessante. A série apresentou esses personagens a pessoas que não tinham tanto conhecimento sobre o folclore e despertou curiosidade.

Vi críticas a determinadas modernizações, mas a principal contribuição foi aproximar os personagens do público. De repente, as pessoas estavam conversando sobre Curupira e Iara.

Também gostei de a produção não tratar esse universo apenas como algo infantil. Ela trabalhou com terror e suspense, sentimentos que já estão presentes em muitos dos mitos registrados por Cascudo. Nesse sentido, Carlos Saldanha foi muito feliz.

Andriolli Costa: O folclore costuma ser associado ao universo infantil. Ao mesmo tempo, algumas edições de Cascudo são difíceis para crianças por causa do vocabulário. As adaptações ilustradas conseguem criar uma primeira aproximação.

Daliana Cascudo: Alguns contos de Contos tradicionais do Brasil, como “Maria Gomes”, “A princesa de Bambuluá” e “O papagaio real”, foram publicados separadamente em pequenos livros ilustrados. Eles passaram a ser adotados como paradidáticos e aproximaram Cascudo das crianças.

Esse primeiro contato pode despertar o interesse para leituras mais aprofundadas no futuro. Eu, minha mãe e minha irmã éramos frequentemente convidadas para feiras de literatura, semanas do folclore e atividades escolares.

Em uma dessas ocasiões, fui chamada para falar sobre Câmara Cascudo em uma escola. Graças a Deus, perguntei antes a idade das crianças. Disseram que tinham quatro anos. Pensei: “Como vou conversar sobre Cascudo com crianças tão pequenas?”. Mesmo assim, aceitei.

A primeira decepção delas aconteceu quando me apresentaram como neta de Cascudo. Na cabeça das crianças, uma neta deveria ser outra criança. Em vez disso, apareceu uma mulher adulta.

Elas estavam sentadas diante de desenhos de Cascudo e haviam escutado os contos ilustrados. Perguntei: “Vocês sabem quem é Câmara Cascudo?”. Todas responderam que sim. Então perguntei quem ele era.

As crianças disseram: “O homem que contava as histórias”. Para mim, essa continua sendo a definição mais perfeita. Ele recolheu contos, mitos e lendas, registrou e tornou a contá-los. Acho que teria ficado muito feliz com a resposta.

Manuscritos, cartas e livros singulares

Andriolli Costa: Existem livros ou manuscritos inéditos de Câmara Cascudo que ainda não foram publicados?

Daliana Cascudo: Há algum tempo, encontramos no instituto dois livros inéditos. Um deles é A Casa de Cunhaú, sobre a família Albuquerque Maranhão e os acontecimentos ligados ao massacre de Cunhaú.

O outro é No caminho do avião: notas de reportagem aérea (1922–1933). Cascudo trabalhou como jornalista e registrou a passagem por Natal dos pilotos e hidroaviões que realizavam as primeiras travessias do Atlântico. A cidade era um ponto importante dessas rotas. Os dois livros foram publicados entre 2007 e 2008.

Continuamos procurando. Um dos primeiros grandes projetos do instituto durou três anos e digitalizou 15 mil correspondências recebidas por Cascudo. Esse material está disponível para pesquisadores e já originou muitos trabalhos acadêmicos, além da publicação da correspondência entre Cascudo e Mário de Andrade.

Também temos um acervo documental imenso, com anotações manuscritas e rascunhos que ainda passarão por digitalização. Quem sabe não descobrimos novos inéditos? Quando se trata de Cascudo, o céu é o limite.

Andriolli Costa: O único romance que ele escreveu foi Canto de muro?

Daliana Cascudo: Foi. Ele era resistente à publicação. Escreveu e guardou o manuscrito em uma gaveta. O amigo Diógenes da Cunha Lima insistiu para que publicasse, mas vovô queria usar um pseudônimo. Depois, acabou convencido a assinar o próprio nome.

É um livro muito singular e diferente. Em vários momentos, ele interrompe a narrativa para dar verdadeiras aulas de biologia sobre os animais. É uma obra que provoca estranhamento em quem conhece apenas seus estudos de cultura popular.

Outra publicação muito diferente, que talvez possa ser chamada de filosófica, é Prelúdio e fuga do real. O livro reúne diálogos imaginários. Os personagens podem aparecer nesta casa, em um hotel, no saguão de um aeroporto ou durante uma viagem.

Cascudo conversa com figuras como Maria Madalena e Dom Quixote. Ao mesmo tempo que apresenta esses personagens, revela muito de si. Pesquisadores que estudam sua obra do ponto de vista autobiográfico consideram Prelúdio e fuga do real um livro especialmente importante para compreender sua visão da vida e do mundo.

Cascudo nas mídias digitais

Andriolli Costa: O instituto pensa em novos projetos digitais, como exposições interativas, aplicativos ou outras formas de apresentar Cascudo?

Daliana Cascudo: Temos muito interesse. Ficamos felizes com a chegada das obras aos formatos de livro digital e audiolivro. Não é possível fugir das mídias digitais.

O Instituto Câmara Cascudo funciona em um prédio tombado, no qual não podemos realizar grandes intervenções. Quando pudermos reabrir após a pandemia, queremos retomar um projeto para criar uma exposição mais digital e interativa na área destinada às mostras temporárias.

Queremos que Cascudo esteja, como ele dizia, “no meio do mundo”. Quanto mais acessível sua obra se tornar, melhor. Somos abertos a novos projetos.

Há algum tempo, por exemplo, foi produzido um videogame baseado em Geografia dos mitos brasileiros. Não me recordo agora do nome, mas o jogo utilizava personagens pouco conhecidos, como o Labatut. Por que não transformar essa obra em um jogo? É um universo muito rico e aberto a diferentes leituras. Essa capacidade de gerar novas interpretações ajuda a tornar a obra imortal.

Andriolli Costa: Lembrei que havia uma exposição sobre Cascudo no Museu da Língua Portuguesa quando o prédio pegou fogo.

Daliana Cascudo: Essa lembrança é triste. A exposição era totalmente interativa e havia sido montada no Museu da Língua Portuguesa como mostra temporária. O espaço era do museu, mas a concepção e a montagem foram realizadas pelo Instituto Câmara Cascudo em parceria com a Casa da Ribeira.

Todo o universo de Cascudo foi recriado. A exposição deveria permanecer no museu por 14 meses, mas durou apenas dois. Havia totens de áudio e diferentes recursos para o público interagir com temas como a sabedoria popular e a alimentação.

Quase ninguém sabe que tínhamos outros planos. Depois de sair do Museu da Língua Portuguesa, a exposição percorreria capitais brasileiras. Em um segundo momento, seria instalada permanentemente em Natal, em um espaço anexo ao instituto. Não poderia ficar dentro da casa porque o prédio é tombado.

Teríamos um espaço inteiramente interativo. Projetos com tanta tecnologia são caros e exigem manutenção constante, mas continuamos sonhando. Queremos reconstruir algo assim.

“A areia da sua terra”

Andriolli Costa: Daliana, foi um prazer gigantesco conversar com você. Para encerrar, deixe seus recados finais e uma palavra de Cascudo para quem deseja conhecer melhor sua obra.

Daliana Cascudo: Primeiro, quero agradecer pela honra de participar do centésimo programa. Não é para todo mundo. Desejo vida longa ao Poranduba, porque ainda temos muito a discutir sobre folclore. Devemos nos orgulhar da enorme riqueza de nossa cultura.

Quem vier a Natal poderá visitar o Instituto Câmara Cascudo quando reabrirmos. Esta casa biográfica fala muito sobre ele. Também estamos presentes nas redes sociais e procuramos sempre divulgar conteúdos relacionados à sua obra.

Quero terminar com uma frase que vovô disse quando completou 80 anos. Ela resume muito de sua vida e daquilo em que acreditava: “Quem não tiver debaixo dos pés da alma a areia da sua terra não resiste aos atritos da sua viagem na vida. Acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos”.

Esse era Cascudo.

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