“Comida é cultura, e cultura é comida”: Rudá K. Andrade revisita Oswald à mesa

Historiador, documentarista e escritor, Rudá K. Andrade cresceu entre histórias de uma família decisiva para a cultura brasileira. Neto de Oswald de Andrade e Patrícia Galvão, a Pagu, ele transformou lembranças domésticas, documentos e passagens da literatura modernista em A arte de devorar o mundo: aventuras gastronômicas de Oswald de Andrade, uma biografia culinária publicada em 2021.

Nesta entrevista, Rudá conta como o projeto surgiu, ainda na década de 2000, de uma conversa com a pesquisadora Márcia Camargos. Ele detalha a retomada do trabalho por meio de um edital do ProAC e as dificuldades de escrever durante a pandemia, sem acesso aos arquivos do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

A conversa percorre a fortuna perdida por Oswald, sua aproximação com Pagu e o Partido Comunista, as refeições que acompanharam o modernismo e a circulação de pratos brasileiros na Europa. Rudá também relaciona antropofagia, afeto e cozinha, apresenta as receitas reunidas no livro e defende a alimentação como campo de criação, encontro e resistência política.

O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 106 do Poranduba, apresentado por Andriolli Costa e publicado originalmente em 8 de novembro de 2021. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias, interrupções técnicas e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As referências à pandemia, à fome no Brasil, à tiragem, à venda pelo site do autor e à inexistência de uma edição digital do livro correspondem ao momento original da entrevista.

Neto de Oswald e Pagu

Andriolli Costa: Olá, bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei seu guia. No episódio de hoje, tenho o prazer de receber de volta ao programa Rudá K. Andrade, escritor, cineasta e artista completo. Vamos conversar sobre o lançamento de seu novo livro, A arte de devorar o mundo: aventuras gastronômicas de Oswald de Andrade. Tudo bem, Rudá?

Rudá K. Andrade: Boa tarde, queridos ouvintes. Andriolli, obrigado novamente pela oportunidade de estar aqui com você. É sempre gostoso trazer ideias, revelações e compartilhar esse papo.

Andriolli Costa: Para quem ainda não o conhece, como você se apresentaria? Quem é Rudá K. Andrade?

Rudá K. Andrade: Sou um cara de São Paulo, com antepassados que costumo chamar de nossos avós. Não considero isso uma carga exclusivamente minha, mas algo que pode ser compartilhado por todos. Sou neto de Oswald de Andrade, o Oswaldão, e da querida Pagu, Patrícia Galvão.

Vim ao mundo e fui andando bastante pelo Brasil. Foi onde aprendi a comer, conversar e compreender um pouco dessa história grandiosa que é o país. Caminhei, fotografei, pensei, conversei e comi.

Formei-me em História e trabalho com audiovisual e literatura. Também sou sociólogo, como você. Talvez hoje eu tenha mais um olhar de historiador do que de sociólogo, mas estamos no mesmo barco.

Andriolli Costa: Vou lançar uma pergunta ampla: como é ser neto de Oswald de Andrade?

Rudá K. Andrade: Nossa Senhora! Há uma responsabilidade, mas somos todos netos de Oswald. Quem se aproxima, gosta e se aprofunda nos textos e nas reflexões sobre a antropofagia também pode se considerar neto dele.

Oswald é uma luz, um candeeiro vivo ou um holofote que ilumina várias questões. Isso vale para a literatura, a filosofia e, principalmente, a antropofagia. Ele é um farol, mas também um biscoitão, um pão e um crítico que podemos mastigar para compreender o cotidiano, os problemas e a nossa história.

Eu me alimento dele desde pequeno porque acredito que nos fortalece. Estar próximo dessa família significou ter sempre a luz de Oswald em minhas aventuras.

Ao mesmo tempo, há um peso. Tudo o que faço passa por essa comparação, e isso é difícil. Acho que consegui superar um pouco quando construí meu próprio caminho. Sair de São Paulo ajudou. Morei em Minas Gerais e me desenvolvi como autor. Passei a ser reconhecido por minhas atividades no audiovisual e na literatura sem precisar resvalar sempre no holofote oswaldiano.

É um jogo divertido e, às vezes, tenso. Cada pessoa carrega o lugar de onde veio. Essa pergunta caberia a todos nós, porque somos remanescentes e continuadores de histórias, mesmo quando tentamos negá-las.

Andriolli Costa: Seu pai também se chamava Rudá. Talvez tenha sido o primeiro Rudá não indígena. Agora o mundo está cheio de Rudás. Ainda vamos dominar tudo. Para quem não conhece a referência, Rudá é o deus do amor. Seu pai também tinha Poronominare no nome, uma figura imponente e um tanto trickster, quase um Macunaíma: malandra e capaz de resolver as coisas pelo caminho mais inesperado.

Rudá K. Andrade: Faltam informações sobre a origem exata desse nome. Câmara Cascudo traz uma referência aqui e outra ali, mas ainda não descobri como Oswald chegou a Poronominare. Talvez tenha sido pela leitura de O selvagem, do general Couto de Magalhães, uma fonte muito importante para os modernistas.

Andriolli Costa: Conheço O selvagem. É uma obra muito curiosa. O saci aparece descrito com uma ferida no joelho, por exemplo. Mas, já que você carrega o nome do deus do amor, o que é o amor para você?

Rudá K. Andrade: O amor é afeto e relação com os outros. Um dos ensinamentos mais fortes que Oswald deixou foi justamente comer o outro. Não no sentido sexual, mas no sentido afetivo: relacionar-se, trocar e compreender que ninguém existe sozinho.

Precisamos mastigar o outro com respeito, carinho e amor. O amor é fundamental para a condução da vida, das informações e do mundo. Sem ele, sobra apenas a guerra.

Uma biografia culinária

Andriolli Costa: Você acaba de lançar, com prefácio de Márcia Camargos, uma biografia gastronômica de Oswald de Andrade. Como surgiu esse projeto?

Rudá K. Andrade: Era uma ideia que eu carregava havia muito tempo. Comecei a viajar por ela uns 15 anos antes, mas o primeiro passo concreto aconteceu logo após a morte de meu pai, em 2009.

Encontrei Márcia Camargos e começamos a conversar. Ela já havia publicado, com Vladimir Sacchetta, À mesa com Monteiro Lobato. Aproximamo-nos e pensamos em fazer algo como “À mesa com Oswald”.

Realizamos uma grande entrevista com Adelaide Guerrini, que foi casada com meu tio Nonê, Oswald de Andrade Filho. Deixo até a sugestão para você conhecer a obra dele. Nonê foi um pintor fabuloso, pesquisou o folclore e trabalhou com temas populares. Seu trabalho é muito saboroso.

Adelaide e Nonê conviveram durante alguns anos com Oswald, porque ele era casado com Julieta, irmã de Adelaide. Naquela conversa, Márcia e eu encontramos muitas referências à alimentação: o que Oswald gostava de comer, como era sua relação com a cozinha e como as enfermidades foram afetando essa relação no final da vida.

Isso aconteceu em 2009. Tentamos levar o projeto ao Senac, que havia publicado o livro sobre Lobato, mas não conseguimos. Cada um seguiu para um lado, até que percebi a oportunidade de retomar o trabalho em um edital do ProAC, em São Paulo, em 2019.

Fui contemplado e convidei Márcia para escrever o prefácio. Ela me presenteou com um texto belíssimo, no qual reconhece os caminhos que escolhi e elogia o trabalho.

Andriolli Costa: O livro já estava escrito quando você inscreveu o projeto ou foi produzido durante a pandemia?

Rudá K. Andrade: Escrevi durante a pandemia, depois de o projeto ser aceito em 2019. Foi terrível, porque fiquei praticamente sozinho. Quando falei com Márcia, ela pediu que eu lhe entregasse o texto pronto. Não pude contar com uma consultoria durante a escrita.

Também não consegui visitar o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, onde há cardápios, documentos e outros materiais dos modernistas. Tampouco tive acesso ao Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, onde está parte importante do acervo de Oswald.

Trabalhei com as fontes bibliográficas que tinha em mãos, com a internet e com minha própria experiência. Cruzei essas informações com histórias que fui ouvindo e guardando ao longo da vida.

Outra fonte foi a própria literatura oswaldiana. Percorri livros, textos, versos e poemas em busca de referências gastronômicas. No Manifesto da Poesia Pau-Brasil, por exemplo, aparecem o vatapá, o milho e a cachaça. Essas pistas ajudaram a montar a estrutura do livro.

As fontes de pesquisa

Andriolli Costa: Quais foram as fontes mais importantes para construir a narrativa?

Rudá K. Andrade: As biografias tiveram muito peso. Oswald iniciou uma autobiografia que não conseguiu terminar porque morreu antes. A primeira parte é Um homem sem profissão: sob as ordens de mamãe e chega até pouco antes da Semana de 1922. Haveria um segundo volume, mas ele não chegou a escrevê-lo.

Também recorri a O salão e a selva, de Maria Eugenia Boaventura, e à biografia escrita por Maria Augusta Fonseca. A partir delas, mantive certa linearidade: a juventude, o modernismo, o comunismo e, mais tarde, a retomada da antropofagia.

Andriolli Costa: Oswald escrevia muitas cartas? Você teve acesso a essa correspondência?

Rudá K. Andrade: Escrever cartas era algo comum na época, sobretudo entre pessoas que viajavam muito. Há cartas e telegramas, mas eu não tive acesso ao acervo em Campinas durante a pesquisa.

Existem publicações com parte da correspondência entre Oswald, Tarsila e Mário de Andrade, principalmente no período em que o casal estava em Paris e viajava pela Europa, entre 1923 e o fim da década.

A comida brasileira como cartão de visitas

Andriolli Costa: Há um boato segundo o qual a caipirinha teria se estabelecido na Europa a partir das festas promovidas por Oswald e Tarsila no apartamento deles em Paris. Você encontrou algo sobre isso? A caipirinha aparece no livro?

Rudá K. Andrade: Aparecem a caipirinha e a feijoada. Foi interessante perceber que Oswald defendia uma poesia de exportação no Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de 1924. O modernismo estava amadurecendo e ele propunha exportar nossa poesia e nossa cultura, em vez de aceitar passivamente o movimento imperialista.

Em sua primeira viagem à Europa, por volta de 1912, dez anos antes da Semana de Arte Moderna e de sua viagem com Tarsila, a mãe de Oswald mandava goiabada e queijo para ele. Já existia ali um pequeno movimento de exportação.

Os modernistas compreenderam a diplomacia que esses alimentos, revestidos de cultura brasileira, poderiam exercer no exterior. Até hoje, quando recebemos um estrangeiro, apresentamos uma feijoada ou uma caipirinha. É uma forma de dizer: “Esta é a nossa cultura”.

Naquele momento, a Europa voltava os olhos para as colônias e para o que chamava de “primitivismo”. Picasso já fazia esse movimento. Hoje sabemos que o termo “primitivo” estabelece uma hierarquia e não é adequado, mas estou usando a palavra no sentido histórico da época.

Produtos como a cachaça, a caipirinha, a feijoada e a goiabada com queijo funcionavam como um cartão de visitas. Sobre as festas de Tarsila, no entanto, não encontrei uma fonte exata.

Existe até a história de que ela declarava a cachaça como perfume para atravessar a alfândega. Menciono essa versão no livro, mas deixo claro que não localizei carta, biografia ou documento que a confirme. Pode ser apenas um boato. Ainda assim, é uma história reveladora e interessante.

Pagu, o comunismo e a fortuna perdida

Andriolli Costa: Você mencionou o comunismo. Costumamos falar de Oswald entre os modernistas, mas depois ele se relaciona com Pagu, abre um jornal e se aproxima de discussões feministas e comunistas. Ao olhar para a biografia dele, como você compreende esse movimento?

Rudá K. Andrade: O crack da Bolsa de 1929 fez Oswald perder a fortuna. Ele havia sido um dos homens mais ricos de São Paulo. A riqueza foi construída por seu pai, e a família participou da expansão urbana da cidade, especialmente na região de Cerqueira César e Pinheiros. Houve pavimentação, implantação de bondes e muita especulação com terrenos.

Oswald perdeu quase tudo por má administração e por causa da quebra da Bolsa. No mesmo período, aproximou-se de Pagu. Ela chegou ao grupo modernista muito jovem, vista inicialmente como uma artista charmosa e encantadora.

Pagu amadureceu rapidamente e concluiu que aquele ambiente intelectual era vazio quando se tratava de melhorar de fato o mundo. Parecia-lhe um caldeirão de vaidades enquanto havia crianças morrendo de fome nas ruas de São Paulo.

Ela e Oswald se envolveram, e ele, apaixonado, compreendeu que aquele era um caminho possível. Os dois se aproximaram do Partido Comunista acreditando que a revolução aconteceria inevitavelmente em pouco tempo.

Oswald largou a administração do patrimônio. Seu pai já havia morrido, e ele passou o resto da vida tentando reencontrar terrenos que não tivessem sido vendidos ou tomados. Quando descobria algum, vendia e gastava. Sempre foi um gastão.

Pagu, por sua vez, seria perseguida e passaria anos presa. Logo vieram a ascensão de Vargas e a ditadura. Foi um período trágico.

Andriolli Costa: Como foi pesquisar esse lado da própria família? Em algum momento você pensou que poderia estar em uma situação melhor se seu avô não tivesse sido um gastão inveterado?

Rudá K. Andrade: Às vezes brincamos com isso: “Puxa, vovô…”. Mas a vida é assim. Se ele não tivesse gasto, talvez os outros filhos tivessem gastado. É difícil imaginar como aquilo chegaria até mim.

Andriolli Costa: Você descobriu muitas coisas novas ou o trabalho consistiu principalmente em organizar histórias que já conhecia?

Rudá K. Andrade: Sempre encontramos algo novo, mas boa parte eu já conhecia. Em uma pesquisa inicial, feita anos antes, havia separado trechos em que Oswald falava de alimentação ou culinária. Também carregava as histórias contadas pela família.

O que me faltava era uma base mais ampla para pensar a alimentação dentro de uma biografia. Recorri a Câmara Cascudo, Carlos Alberto Dória e Massimo Montanari, historiador italiano da alimentação. Montanari aproxima culinária e cultura de maneira muito forte. Cruzei essas bases teóricas com as histórias de Oswald.

Um esconderijo com boa comida

Andriolli Costa: Qual foi uma das histórias mais saborosas que você encontrou?

Rudá K. Andrade: Há uma história fabulosa sobre Oswald fugindo da polícia por sua atuação comunista. Ele soube que seria preso e decidiu que, antes, comeria um frango à la cacciatora no restaurante de um amigo, em Santo Amaro.

Foi até lá, comeu o frango e avisou que precisava fugir. O dono respondeu que não havia necessidade: poderia ficar escondido no próprio restaurante. Oswald permaneceu ali por cerca de uma semana, comendo do bom e do melhor.

Brinco no livro que um dos requisitos para a fuga era encontrar um lugar onde se cozinhasse bem. Imagino Oswald escondido na despensa ou na adega, aproveitando aquele momento.

Andriolli Costa: Ele conseguiu adotar uma postura crítica diante de seu próprio lugar social?

Rudá K. Andrade: Quando vestiu o que chamava de “casaca de ferro da revolução proletária”, Oswald fez uma autocrítica e se definiu como o palhaço da burguesia. Era o meio de onde vinha e no qual fazia seus poemas, mas ele passou a enfrentá-lo com muito sarcasmo.

Tentou mudar e ir para o outro lado. Evidentemente, quando alguém já tem 30 ou 40 anos, não abandona todos os costumes. Mesmo rompendo com seu meio, preservou certos hábitos burgueses.

No fim da década de 1930 e no início da de 1940, depois do rompimento com o Partido Comunista, ele foi se amansando. Morava em uma casa na Rua Martiniano de Carvalho, no Bixiga, com Julieta, meu pai e Nonê. A casa não existe mais, mas era uma festa.

Oswald era um grande anfitrião. Gostava de receber as pessoas, oferecer comida e bebida. Muita gente passou por ali, até Walt Disney. Na época, quando alguém importante visitava São Paulo, havia sempre uma corrida para recebê-lo. Oswald fazia questão de chamar as pessoas para jantar e mastigar o mundo junto.

Antropofagia como ação

Andriolli Costa: É impossível escapar do paralelo entre o Manifesto Antropófago e o ato de comer. Como você constrói essa reflexão ao longo do livro?

Rudá K. Andrade: A antropofagia é o ápice do livro. Toda a narrativa é construída para chegar a ela. Não é o último capítulo, mas é um passo muito importante.

Ela talvez seja aquilo que mais se aproxima de um pensamento filosófico sistemático produzido no Brasil ou na América Latina. Ao mesmo tempo, não é um sistema fechado. É uma reflexão, uma ação e uma forma de digerir o mundo e atuar sobre ele.

O livro caminha em direção a essa virada antropofágica. O próprio título, A arte de devorar o mundo, nasce dessa ideia.

Andriolli Costa: A capa é muito sugestiva. Parece mostrar um Brasil que come e também é comido. Como ela foi criada?

Rudá K. Andrade: A imagem foi feita por minha companheira, Tarsila Portella. Há couve, pamonha e uma massa de farinha tingida com repolho roxo. Fomos trabalhando com os alimentos até chegar à composição.

Eu tinha na cabeça uma antiga ilustração de Oswald, com aquelas bochechas grandes e a boca marcante. Tarsila também é artista plástica e desenvolve desenhos com linhas, cabelos e materiais orgânicos. Ela propôs desenhar com macarrão e comida. Foi assim que a capa surgiu.

Receitas para devorar Oswald

Andriolli Costa: Qual era o prato preferido de Oswald?

Rudá K. Andrade: Ele gostava muito de galinha à cabidela, o frango ao molho pardo. O livro tem uma parte de ensaio, com a biografia culinária: o que ele comia e o que acontecia ao redor da mesa. A Semana de 1922, por exemplo, foi discutida entre bebidas, comidas e festas nos salões. Sempre havia alguma coisa para comer.

Procuro acompanhar a vida de Oswald pelas mordidas que ele dava. No fim de cada capítulo, interrompo a narrativa e abro uma seção chamada “Devorações”, na qual apresento receitas.

Essas passagens têm um tom mais pessoal. Falo de meu pai e de minhas próprias experiências com os alimentos. Como Oswald gostava de frango ao molho pardo, fiz uma releitura e incluí a receita.

Também aparecem o vatapá e o quindim. Há um personagem chamado Quindim em Marco Zero. Incluí ainda uma receita de rã porque a antropofagia começou, em certa medida, durante um almoço no qual os modernistas comiam rãs.

Eles brincaram que a rã havia sido gente antes de se transformar em alimento. Oswald emendou uma reflexão, e a ideia foi crescendo. A história toda se passa a partir desses encontros ao redor da mesa.

Andriolli Costa: E qual é o seu prato preferido?

Rudá K. Andrade: Tenho uma ligação afetiva muito forte com meu pai. Meu pai e minha mãe me ensinaram a cozinhar. Nos fins de semana, em nosso apartamento em São Paulo, eu ficava com eles na cozinha, crescendo e observando. Depois comecei a brincar também, preparando ovo frito, gemada e macarrão.

Meu pai havia passado pela Itália, onde trabalhou com cinema no pós-guerra. Aprendeu a comer e a fazer macarrão. Em casa, à noite, sempre havia massa. É uma das lembranças mais afetivas que carrego.

A culinária italiana também aparece na obra de Oswald. Parte de Memórias sentimentais de João Miramar se passa na Itália. Além disso, os restaurantes italianos começavam a se espalhar por São Paulo no início do século 20. Diante das dificuldades econômicas, muitos imigrantes abriram pequenos empreendimentos e trouxeram suas receitas.

No livro, brinco com essas referências e com os nomes dos pratos. Há uma massa ligada a Poronominare e outras receitas que dialogam com o universo antropofágico.

Andriolli Costa: Preparar o frango ao molho pardo também deve ter sido uma experiência.

Rudá K. Andrade: Foi uma loucura. Para fazer um molho pardo de verdade, é preciso matar o frango e recolher o sangue com vinagre para que não coagule. Talvez fosse mais simples comprar tudo pronto, mas eu quis passar pela experiência.

Se somos carnívoros, precisamos compreender de onde a carne vem. Quis escapar por um momento do supermercado, onde tudo aparece limpo e embalado, sem que o consumidor participe do processo.

Andriolli Costa: Você está morando em São Paulo? Lembro que gostava muito do interior de Minas, onde talvez fosse mais fácil encontrar o frango.

Rudá K. Andrade: Estou no Butantã, em São Paulo. No interior seria mais fácil e mais barato. Precisei procurar bastante e paguei uma fortuna. O frango e o milho estavam muito caros.

Um livro para frequentar a cozinha

Andriolli Costa: Como as pessoas podiam encontrar o livro? Havia uma versão digital?

Rudá K. Andrade: Naquele momento, não havia versão digital. O livro recebeu um tratamento estético muito cuidadoso e foi difícil chegar ao resultado final. É um volume de capa dura e híbrido, que cruza literatura e culinária.

É um livro feito para frequentar a cozinha. Você pode abri-lo, consultar e preparar uma receita. Não sou um chef, apenas um amador apaixonado por cozinhar, e deixo isso claro. Quero estimular as pessoas a fazerem sua própria alquimia.

A culinária é um caminho de encontro. A palavra “companheiro” remete justamente a quem compartilha o pão. Na cozinha, conseguimos criar arte, nos relacionar e discutir questões políticas.

Também podemos procurar alimentos de boa qualidade e vindos de pequenos produtores, fugir dos ultraprocessados e da massificação, descobrir plantas alimentícias não convencionais e valorizar ingredientes locais. Tento incentivar tudo isso.

O livro podia ser encontrado em meu site. A edição tinha capa dura, papel especial, fotografias coloridas e um formato maior do que o convencional. Eu mesmo preparei os pratos e fiz as fotos, com direção de arte de Tarsila.

Foi uma tiragem pequena. Como o projeto foi realizado com apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, uma parte considerável dos exemplares foi destinada à contrapartida do edital.

Modernismo, culinária e patrimônio

Andriolli Costa: A série História da Alimentação no Brasil, inspirada em Câmara Cascudo, havia chegado ao streaming pouco antes. Seu livro também poderia virar uma produção audiovisual sobre Oswald, modernismo e gastronomia?

Rudá K. Andrade: Espero que sim. Há muito material. A pesquisadora Viviane Aguiar, por exemplo, ajudou na leitura do texto e em conversas anteriores. Ela tem uma pesquisa belíssima sobre Mário de Andrade e a alimentação.

Eu estava chegando com mais profundidade a esse campo da culinária, enquanto outras pessoas já carregavam uma bagagem de pesquisa muito maior. Aprendi bastante com elas.

Se reunirmos o trabalho de Viviane, minha pesquisa, os estudos de Carlos Alberto Dória e de outros pesquisadores, conseguimos criar um panorama. Em conversas de lançamento com Márcia, Viviane e a jornalista Flávia Couto, percebemos que havia uma espécie de vazio nos estudos sobre alimentação e modernismo.

Existem grandes pesquisas sobre a alimentação brasileira construídas a partir dos relatos de viajantes do século 19. Depois, temos obras fundamentais de Câmara Cascudo e Gilberto Freyre, ligadas a uma fase posterior do modernismo. O primeiro modernismo permanecia um pouco apagado nesse campo.

Agora surgem pesquisas capazes de lançar luz sobre o período. Elas não alcançam o volume monumental do trabalho de Câmara Cascudo, mas, quando fazemos leituras a contrapelo, encontramos muitos elementos. Todos comiam e gostavam de comer.

Além disso, os modernistas estiveram entre as primeiras pessoas a construir a ideia de que a culinária integra o patrimônio. Blaise Cendrars foi importante nesse processo. O poeta franco-suíço veio ao Brasil e participou da viagem modernista a Minas Gerais, em 1924, com nomes como Olívia Guedes Penteado, Mário e Oswald.

A viagem ajudou o grupo a perceber que havia aqui um sistema cultural rico, antigo e diverso, que precisava ser valorizado e preservado. Cada um seguiria por um caminho.

Mário de Andrade aprofundou a pesquisa sobre alimentação e cultura popular, procurando aquilo que aparecia em diferentes regiões e poderia revelar uma espécie de alma do Brasil. Era uma investigação muito consistente, de acordo com seu perfil.

Oswald entrou nesse debate por meio da antropofagia. Apesar das diferenças de vocabulário entre aquela época e a nossa, acredito que ele compreendeu algo fundamental: comida é cultura, e cultura é comida.

Celebrar também é resistir

Andriolli Costa: Foi um prazer conversar com você. Deixo o espaço aberto para sua mensagem final aos ouvintes.

Rudá K. Andrade: Agradeço muito. Alimentem-se bem e mastiguem nossa literatura. Oswald é um biscoitão. Espero que vocês curtam o livro, divirtam-se, sintam vontade de ir para a cozinha e reflitam sobre a culinária, o Brasil, a literatura e a nossa história.

Nossa intenção também é celebrar. A celebração é uma forma de resistência. Lancei o livro em um momento em que o Brasil atravessava uma pandemia e uma situação muito complexa. A fome já não batia à porta das casas: havia entrado e se sentado à mesa.

Precisamos pensar e batalhar contra isso. Uma das maneiras é relembrar a força e a vitalidade que a culinária pode ter nos embates políticos, inclusive no enfrentamento ao agronegócio e a suas várias consequências.

Despeço-me com essa mensagem: vamos celebrar para resistir e encontrar caminhos capazes de mudar a situação trágica que vivemos.

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