“O boneco é um grande retrato do povo brasileiro”: Pablo Dantas apresenta o Museu do Mamulengo

A primeira decisão de Pablo Dantas como presidente da Associação Cultural dos Mamulengueiros e Artesãos de Glória do Goitá foi fechar as portas do Museu do Mamulengo. Ele havia acabado de assumir a função quando a pandemia chegou a Pernambuco, em março de 2020. Projetos foram interrompidos, apresentações desapareceram e artistas que dependiam da brincadeira ficaram sem saber quando poderiam voltar aos terreiros.

Nesta entrevista, Pablo conta como o museu entrou no ambiente digital para sobreviver e ampliou a circulação dos bonecos produzidos na Zona da Mata pernambucana. Ele explica o que caracteriza o mamulengo, apresenta personagens tradicionais e descreve a estrutura de uma brincadeira que, no passado, podia atravessar a noite com dezenas de passagens, música, improviso e participação direta do público.

A conversa também aborda as transformações necessárias para afastar conteúdos racistas, misóginos e homofóbicos sem congelar a cultura popular. Pablo fala sobre a madeira do mulungu, o trabalho dos artesãos, a transmissão familiar dos saberes e o legado de mestres como Zé Lopes e Zé de Vina. Para ele, preservar o mamulengo significa reconhecer sua história e permitir que novas gerações recriem a brincadeira.

O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 99 do Poranduba, apresentado por Andriolli Costa e publicado originalmente em 7 de julho de 2021. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias, interrupções técnicas e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As referências à pandemia, às restrições sanitárias, ao feirão virtual, aos preços, às redes sociais e aos projetos em andamento correspondem ao momento original da entrevista.

Do Sertão à gestão cultural

Andriolli Costa: Olá, bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei seu guia. No programa de hoje, tenho o prazer de receber Pablo Dantas, presidente da Associação Cultural dos Mamulengueiros e Artesãos de Glória do Goitá, em Pernambuco, responsável pelo Museu do Mamulengo. Tudo bem, Pablo?

Pablo Dantas: Boa noite, Andriolli. Boa noite a todos que nos acompanham pelo Brasil. É um prazer estar aqui. Acompanho seus perfis no Facebook e no Instagram e admiro muito seu trabalho. É muito importante para nós participar desta conversa.

Andriolli Costa: Para começarmos, quero fazer aquela pergunta que sempre deixa todo mundo um pouco desconfortável: quem é Pablo Dantas?

Pablo Dantas: É difícil responder, mas posso começar pela vida pessoal. Nasci em Serra Talhada, no alto Sertão do Pajeú, terra de Lampião. Desde muito novo, admirei a cultura popular e me interessei pela arte, sobretudo pelas artes cênicas.

Depois, morei em Vitória de Santo Antão, terra da cachaça Pitú e do escritor Osman Lins. Sempre associei os lugares às pessoas, aos artistas e às expressões culturais que encontrei neles.

Fui estudar História no Recife, na Universidade Católica de Pernambuco. Especializei-me em Cultura Pernambucana e também estudei produção cultural. Paralelamente, trabalhei com arte de rua no grupo Alforria. Percorremos diferentes partes do país com espetáculos e projetos de educação e cultura, especialmente pelos sertões de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará.

Depois de dez ou 12 anos dedicados a essa área, tornei-me gestor cultural. Trabalhei em Glória do Goitá e também em Vitória de Santo Antão. Hoje, minha vida está mais burocrática do que artística, mas o interesse pela cultura popular permanece.

Uma presidência iniciada com portas fechadas

Andriolli Costa: Você assumiu a presidência da associação em 2020, mas já atuava ali antes disso. Como aconteceu essa aproximação?

Pablo Dantas: Entrei em 2017 como produtor. Desenvolvia projetos e reunia os mamulengueiros para diferentes ações. O trabalho foi bem recebido e, mesmo sem ser artesão ou mamulengueiro, conquistei a confiança do grupo como professor, pesquisador e produtor.

Em março de 2020, assumi a presidência da associação, que administra o Museu do Mamulengo. A instituição completava 18 anos de trabalho em maio de 2021.

Andriolli Costa: Assumir uma instituição de cultura popular já seria um desafio em qualquer circunstância. Você chegou ao cargo justamente quando começava a pandemia.

Pablo Dantas: Foi uma loucura. Minha primeira atitude como presidente foi fechar o museu. Tomei posse em março e, cerca de uma semana depois, a pandemia dominou tudo. O Governo de Pernambuco determinou o fechamento dos museus e tivemos de interromper as atividades.

Passamos quatro meses sem saber o que fazer. Projetos foram cancelados ou adiados, os artistas ficaram sem trabalho e o Brasil vivia um período de morte e agonia. Foi muito difícil para todo mundo.

Ao mesmo tempo, situações perigosas também fazem surgir ideias. Os artistas são muito bons nisso. Depois daquele primeiro impacto, começamos a imaginar novas ações.

Do terreiro para o ambiente digital

Andriolli Costa: O que surgiu quando vocês perceberam que não poderiam apenas esperar a reabertura?

Pablo Dantas: Depois de sobrevivermos à primeira onda, perguntamos: “Vamos ficar parados fazendo o quê?”. Se somos do terreiro da cultura popular, precisaríamos entrar também no terreno digital.

Entre agosto e setembro de 2020, fizemos uma grande transmissão solidária para ajudar nas contas da associação e colaborar com o mestre Zé de Vina, que enfrentava dificuldades. Era uma experiência. Ficávamos pensando em como colocar uma tenda de mamulengo diante das câmeras.

Permanecemos quase quatro horas ao vivo. Quatro mamulengueiros se revezaram nas apresentações. Esperávamos arrecadar apenas algumas centenas de reais, mas recebemos doações de diferentes partes do Brasil. Fomos abraçados pelo país inteiro.

Depois disso, não abandonamos mais o ambiente digital. A visibilidade do museu aumentou e a procura pelos bonecos também cresceu.

Andriolli Costa: Eu mesmo comprei um boneco no primeiro Feirão do Mamulengo. Este programa também está sendo gravado em vídeo, então o público poderá vê-lo no canal do Colecionador de Sacis. É uma figura de rosto dividido, com dois pares de olhos. Minha namorada acha feio; eu acho maravilhoso. O feirão foi uma alternativa criada pelos próprios artesãos?

Pablo Dantas: Sim. Em Pernambuco, temos a Fenearte, uma das maiores feiras de artesanato da América Latina. A participação deixou de ser financeiramente viável para nós, então decidimos criar nosso próprio feirão.

No momento desta conversa, realizávamos a segunda edição virtual. Havia bonecos a partir de R$ 35 e peças maiores ou únicas com outros valores. Além de vender, o evento colocava o público diante do trabalho dos artesãos de Glória do Goitá.

Esses bonecos chamam atenção até fora do Brasil. Pessoas ligadas a museus europeus já elogiaram a maneira como nossos artesãos trabalham a madeira.

O que é o mamulengo

Andriolli Costa: Estamos falando há algum tempo sobre o tema, mas parte do público talvez ainda não saiba defini-lo. O que é o mamulengo e o que caracteriza a tradição de Glória do Goitá?

Pablo Dantas: Quando falamos em mamulengo, falamos de um boneco brasileiro e de uma forma popular de teatro. Em Pernambuco, o nome costuma ser associado à ideia de “mão molenga”, porque o boneco de luva é manipulado com a mão. A origem exata da palavra não é consensual, mas essa explicação é muito difundida.

Em outros estados do Nordeste, o teatro popular de bonecos recebe nomes como Cassimiro Coco, Babau, João Redondo e Calunga. Em 2015, essas diferentes formas foram reunidas no registro do Teatro de Bonecos Popular do Nordeste como Patrimônio Cultural do Brasil.

O mamulengo ganhou muita força em Pernambuco. Mestres como Zé Lopes e Zé de Vina, que perdemos em um intervalo de menos de um ano, foram fundamentais para a cultura popular brasileira.

Falamos de um boneco que faz a graça do povo há séculos. Durante muito tempo, ele foi uma espécie de televisão dos pobres. Levava o teatro aos terreiros, aos sítios, às festas de padroeiro e a outras celebrações do calendário tradicional do interior.

Uma brincadeira que atravessava a noite

Andriolli Costa: Como era uma apresentação tradicional?

Pablo Dantas: Há algumas décadas, uma brincadeira de mamulengo podia durar a noite inteira. Dois mamulengueiros se revezavam dentro da torda e brincavam por oito horas. Havia dezenas de bonecos, passagens e músicas. O encontro misturava religiosidade, sagrado, profano e a graça feita com os acontecimentos da comunidade.

Hoje, uma apresentação no museu costuma durar no máximo uma hora. O público também mudou. Em 2019, antes da pandemia, recebemos mais de três mil visitantes, um número importante para um museu localizado no interior. Cerca de 80% eram crianças, que adoram o mamulengo.

No passado, muitas crianças nem podiam se aproximar da brincadeira. Os textos tinham palavrões, insinuações sexuais, violência e conflitos pensados para adultos. Essa mudança de público exigiu transformações.

Andriolli Costa: Como se organiza o espetáculo para além dos bonecos?

Pablo Dantas: A torda é o espaço cênico. Dentro dela fica o mamulengueiro, às vezes acompanhado por um contramestre que ajuda na manipulação. Do lado de fora, há os músicos, tradicionalmente com sanfona e percussão.

Também aparece o Mateus, uma figura de palhaço que faz a ligação entre a plateia e os bonecos. Ele conversa, responde às provocações e conduz a brincadeira. O Mateus também está presente em expressões como o cavalo-marinho e o maracatu rural. É uma figura que zela pela brincadeira e cuida de seu andamento.

O público não fica apenas assistindo. Responde, interfere, comenta e ajuda a modificar a apresentação. A política, a economia, as relações sociais e os acontecimentos do dia entram na comédia.

Mudar sem deixar de ser cultura popular

Andriolli Costa: Essa comédia também carregou preconceitos. A cultura popular não está separada da sociedade que a produz. Como o museu trabalha com passagens marcadas por misoginia, homofobia ou violência contra as mulheres?

Pablo Dantas: O mamulengo é um retrato da sociedade e, por isso, reproduziu muitas de suas violências. Havia cenas nas quais a mulher apanhava, era humilhada ou mandada de volta à cozinha. A homofobia também aparecia como recurso de humor.

Nas últimas décadas, o museu e os brincantes vêm retirando ou transformando esse conteúdo. As mulheres tiveram um papel muito importante nesse processo. Jacilene Félix, Edjane Lima, Genilda Félix e outras artistas que assumiram a frente das brincadeiras começaram a dizer que já não era aceitável brincar daquela maneira.

Estamos diante de uma geração que remodela uma tradição secular. O mamulengo ocupa outro lugar, mas não deixa de ser cultura popular. A cultura é dinâmica e sempre foi transformada.

Andriolli Costa: O racismo também pode aparecer na forma dos bonecos. A caricatura exagera os traços para produzir graça e, quando representa uma pessoa negra, pode recorrer a bocas ou narizes aumentados. Essa visualidade também está sendo repensada?

Pablo Dantas: Está sendo discutida. Muitos bonecos tradicionais foram inspirados em pessoas reais. Goiaba, por exemplo, tem um grande sorriso. Outros possuem pescoço comprido, orelhas enormes ou diferentes marcas físicas.

O boneco do mamulengo não costuma obedecer a um padrão de beleza. Ele é feito para causar impacto e provocar o riso. Mas isso não significa que devamos ignorar as relações entre os traços escolhidos e os preconceitos da sociedade.

Criamos um projeto chamado Mais Mamulengo, Menos Barbie. A Barbie coloca todo mundo em um pacote aparentemente perfeito: o mesmo cabelo, o mesmo nariz, o mesmo olho e o mesmo corpo. Nós somos mamulengo. O povo brasileiro tem barba, cabelos diferentes, narizes, orelhas e corpos de muitos tamanhos. O boneco é um grande retrato dessa diversidade.

Uma sociedade dentro da torda

Andriolli Costa: Quais personagens se tornaram recorrentes na tradição? Existem figuras criadas por um mestre que depois passaram a ser repetidas por outros?

Pablo Dantas: Existem personagens que aparecem com frequência em diferentes brincadeiras, embora cada mestre faça a própria versão. Temos figuras como Goiaba, Mané Pacaru, Quitéria, Carolina, Simão, o padre, o Diabo e o Cabo 70.

Muitas histórias se passam em uma fazenda. Mané Pacaru representa o fazendeiro. Quitéria manda no terreiro, Carolina é sua filha e Simão é o malandro que se envolve com as mulheres e engana o patrão. O padre também participa de muitas confusões.

O Diabo é muito procurado. As pessoas gostam de comprar esse boneco para brincar, assustar alguém ou fazer uma provocação. Alguns artesãos dizem que já não aguentam mais produzi-lo de tanto que o público pede.

O Cabo 70 representa a polícia. Dentro da torda aparecem o policial, o padre, o fazendeiro, as mulheres, os amantes, trabalhadores e figuras sobrenaturais. Toda a sociedade acaba retratada.

Uma origem que não cabe numa única resposta

Andriolli Costa: Há uma interpretação que relaciona o fortalecimento do mamulengo às senzalas e à atuação de mestres negros. O que sabemos sobre a origem desse teatro popular no Brasil?

Pablo Dantas: Existem diferentes linhas de interpretação. As tradições de bonecos chegaram por caminhos africanos e europeus, mas ganharam aqui uma forma popular própria. Alguns pesquisadores defendem que o mamulengo se fortaleceu nas senzalas e entre uma população negra submetida à violência e à humilhação.

Muitos mestres eram negros, e o próprio repertório registra confrontos entre personagens populares e representantes do poder. Ao mesmo tempo, sempre existiram brincantes com diferentes origens. Precisamos falar historicamente, sem transformar uma hipótese em uma resposta única.

Andriolli Costa: Temos alguma ideia de quando surgiram as primeiras apresentações no país?

Pablo Dantas: A origem exata se perdeu. Como era um espetáculo popular, o mamulengo foi marginalizado pela imprensa e por outras instituições. Há poucas notícias sobre as apresentações mais antigas.

Começamos a encontrar referências mais consistentes em jornais do século 19, mas a tradição certamente é anterior. Quando uma manifestação não era considerada digna de registro, grande parte de sua história desaparecia junto com as pessoas que a mantinham.

Pernambuco preservou muitas dessas expressões. Encontramos brincadeiras e festas populares com trajetórias muito antigas, transformadas ao chegar aqui e mantidas por gerações.

Glória do Goitá como terreiro de cultura popular

Andriolli Costa: Glória do Goitá é reconhecida como a Capital Estadual do Mamulengo, mas outras tradições também permanecem muito fortes na cidade.

Pablo Dantas: Glória do Goitá fica na Zona da Mata Norte de Pernambuco e tem cerca de 30 mil habitantes. Depois de circular por boa parte do país, considero este um dos territórios mais densos da cultura popular nordestina.

Além do mamulengo, encontramos vários grupos de maracatu rural, coco e cavalo-marinho. São expressões que funcionam há muito tempo, em períodos melhores ou piores, mas continuam reunindo mestres, famílias e comunidades.

Andriolli Costa: Vi um vídeo gravado por você no qual um mestre preparava uma bexiga de bode para o cavalo-marinho. Ela funciona como instrumento de percussão?

Pablo Dantas: Sim. O material é recolhido no frigorífico, preparado e usado pelo Mateus. Ele bate a bexiga na lateral da coxa, acompanhando a música e a própria ação da brincadeira.

É uma imagem da criatividade da cultura popular, que transforma os elementos disponíveis na natureza. Uma parte do animal que seria descartada passa a produzir som, ritmo e presença cênica.

Andriolli Costa: Há brincadeiras de carnaval no Rio de Janeiro que também usavam bexigas presas a cordas e batidas contra o chão para assustar quem passava. É interessante observar como materiais semelhantes assumem funções diferentes.

Pablo Dantas: Exatamente. A cultura popular encontra possibilidades nos materiais do cotidiano e cria soluções próprias.

A magia da madeira do mulungu

Andriolli Costa: Essa presença da natureza também aparece no próprio mamulengo. De que madeira é feito o boneco?

Pablo Dantas: Tradicionalmente, usamos a madeira do mulungu, uma árvore muito comum na Zona da Mata. É uma madeira leve, clara e conhecida também por usos medicinais. Segundo o conhecimento local, ajuda a combater a insônia, pode ser usada para estancar pequenos sangramentos e possui resistência ao cupim.

O mulungu parece mágico. Não serve bem como lenha, mas se transforma nas mãos dos artesãos. A cabeça e as mãos do boneco são esculpidas na madeira, enquanto o corpo costuma ser feito de chita, um tecido colorido, resistente e barato, muito presente na cultura popular.

Os bonecos antigos preservados no museu mostram a madeira diretamente. Muitos artesãos contemporâneos aplicam látex, massa corrida, lixa e tinta para conseguir um acabamento mais uniforme. Há compradores que preferem a madeira crua e outros que procuram a superfície mais lisa.

Andriolli Costa: Quando tentei fazer meu primeiro mamulengo, segui vídeos que ensinavam a criar uma estrutura com garrafa PET e papel machê. É uma técnica amadora possível, mas o trabalho tradicional de vocês parte da madeira.

Pablo Dantas: Para experimentar, existem muitos materiais. O mamulengo tradicional de nossa região, porém, é esculpido em mulungu. Isso faz parte do saber dos artesãos e da identidade da brincadeira.

A mão que aprende com o boneco

Andriolli Costa: Eu tive muita dificuldade para movimentar o boneco que fiz. Como os dedos ficam distribuídos?

Pablo Dantas: O dedo indicador entra na cabeça. O polegar e o dedo médio controlam os braços. Quando você começa a movimentá-lo, entende por que a mão precisa ficar “molenga”.

No início, conseguir bater palmas com o boneco já é um avanço. Depois, você aprende a mover a cabeça, responder ao ritmo e dar velocidade aos gestos.

Um mamulengueiro costuma ter bonecos ajustados à própria mão. Cada pessoa possui dedos mais grossos, finos, curtos ou compridos. Para o movimento ser rápido e seguro, o encaixe precisa estar firme. Se o boneco não está adaptado, a cabeça pode ficar balançando e prejudicar a brincadeira.

Andriolli Costa: Além do boneco de luva, quais formas de manipulação aparecem nesse universo?

Pablo Dantas: Existem muitas possibilidades. Há bonecos manipulados com vara, bonecos de fio e figuras sustentadas por uma haste na parte inferior. Animais como o boi e a burrinha pedem outras estruturas.

Também temos cobras cuja boca abre quando a mão pressiona o mecanismo. Em determinadas passagens, elas chegam a engolir personagens. O tipo de boneco depende do efeito necessário dentro da brincadeira.

Da árvore à mão do público

Andriolli Costa: Uma das coisas que mais me fascinam nesse trabalho é o retorno à manualidade. Não é apenas manipular o boneco, mas produzir com as próprias mãos o objeto usado para contar uma história.

Pablo Dantas: Existe um processo inteiro antes de o boneco chegar ao público. Os artesãos descobrem que uma propriedade rural possui mulungu disponível e vão até o local buscar a madeira. As partes são cortadas e preparadas até chegarem à bancada.

Depois, o artesão passa dias observando a peça, escolhendo o melhor ângulo, esculpindo, lixando e pintando. Por fim, o boneco recebe o tecido e se torna pronto para brincar.

A peça que chega à sua mão carrega a árvore, o território, a técnica do artesão e a experiência de muitas gerações.

Mestres que ensinaram a brincar

Andriolli Costa: Para encaminharmos a conversa ao final, quais mestres do mamulengo não podemos esquecer? Pode ser por um personagem criado, por um modo de fazer ou pela contribuição à continuidade dessa cultura.

Pablo Dantas: São muitos, e sempre corremos o risco de deixar alguém de fora. Em Glória do Goitá, precisamos lembrar Mestre Zé Lopes, fundamental para a criação da associação e para a formação de uma nova geração. Foi um homem que dedicou a vida inteira a essa missão.

Também preciso falar de Mestre Zé de Vina, falecido em 16 de junho de 2021. Ele tinha uma genialidade poética impressionante. Brincava e ensinava de maneira improvisada, criava vozes, músicas e soluções diante do público.

Antes de começar uma apresentação, soltava um rojão. Quando o som se espalhava, as pessoas sabiam que a brincadeira ia começar. Era uma maneira própria de convocar a comunidade.

Quando falamos de folclore e cultura popular, falamos da criatividade do povo. São pessoas capazes de tirar leite de pedra, transformar a natureza em arte e produzir uma obra sem fim. Zé de Vina deixou esse tipo de legado.

Uma escola para a nova geração

Andriolli Costa: O que vinha pela frente para o Museu do Mamulengo quando esta entrevista foi gravada?

Pablo Dantas: Tínhamos diferentes projetos em funcionamento. Um deles celebrava os 80 anos de Mestre Zé de Vina. Infelizmente, ele já não pôde acompanhar todas as ações, mas seu filho participava. O projeto previa oficinas e apresentações mensais.

Também realizávamos o Inventariando o Patrimônio, voltado ao acervo e à formação, com atividades presenciais e digitais. Havia ainda um projeto de ensino de rabeca. Quem quisesse aprender poderia procurar o museu e participar gratuitamente.

Nosso principal esforço era fortalecer a Escola Pernambucana de Mamulengo. Ela havia sido fundada em 10 de outubro de 2020 para aproximar os jovens do museu e dar um caráter mais permanente à formação, sempre respeitando a pedagogia própria da cultura popular.

A pandemia impediu a abertura das primeiras turmas como imaginávamos. Passamos por uma segunda onda e não sabíamos se viria uma terceira, mas a escola já estava criada e continuávamos construindo esse caminho.

Andriolli Costa: Existem crianças e jovens aprendendo a brincar e a fazer bonecos?

Pablo Dantas: Sim. Muitos chegam por meio das famílias dos próprios mestres e artesãos, porque a transmissão do saber acontece muito dentro de casa. Mas os projetos do museu também aproximam quem não nasceu diretamente nesse ambiente.

Víamos jovens começarem pela música e, pouco depois, tentarem construir a própria rabeca ou esculpir um boneco. Filhos, sobrinhos e netos observam os mais velhos e passam a participar. É assim que o conhecimento circula.

Há pessoas que nascem com uma disposição para brincar, mas ainda é preciso ensinar. Uma geração aprende com a anterior e depois encontra sua própria forma de continuar.

Andriolli Costa: Foi um prazer enorme conversar com você. Deixe uma mensagem final para nosso público.

Pablo Dantas: Muito obrigado, Andriolli. É muito bom encontrar pessoas interessadas em escutar a história do Museu do Mamulengo e dispostas a colaborar.

Em 2023, a associação completaria 20 anos. Espero que, até lá, você possa vir nos conhecer, para que possamos conversar e nos abraçar pessoalmente. Naquele momento, todos ainda aguardávamos a vacinação e a possibilidade desses reencontros.

Um abraço para você e para todos que nos acompanharam.

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