“Os mitos migram junto com as pessoas”: Andriolli Costa lê Cidade Invisível para além da fidelidade folclórica

Na quarta-feira de cinzas de 2021, enquanto Cidade Invisível mobilizava espectadores e pesquisadores do folclore brasileiro, Alexandre Meireles recebeu Andriolli Costa no canal FantastiCursos para discutir os acertos, as limitações e os efeitos da produção da Netflix. Jornalista, escritor e criador do projeto O Colecionador de Sacis, Andriolli chegou à conversa com um veredito deliberadamente ambíguo: “Eu gostei e desgostei. É uma série que realmente impressionou, mas me frustrou”.

A avaliação positiva estava sobretudo na capacidade da série de colocar o imaginário brasileiro no centro de uma produção audiovisual de grande alcance. “No saldo total, é uma série muito positiva, que vai inspirar muita gente a contar suas próprias histórias e, quem sabe, esquentar o mercado”, afirmou. Os primeiros episódios o surpreenderam; o encerramento, porém, pareceu apressado e menos consistente. Ao fim da live, a síntese veio em forma de nota: “Sete com louvor”. Para ele, Cidade Invisível passou de ano, mas ainda tinha muito a aprender.

Ao longo de quase duas horas, a análise ultrapassou a pergunta sobre a fidelidade das adaptações. A conversa passou pela migração dos mitos, pelas transformações do Saci e da Iara, pela representação de narrativas indígenas, pelo papel da escola e pela necessidade de atualizar as pesquisas de Câmara Cascudo. No centro do debate estava uma tensão recorrente: como preservar a dignidade de uma tradição sem tratar o folclore como uma peça imóvel de museu?

Quando a cidade encontra o encantado

Uma das críticas mais repetidas à primeira temporada de Cidade Invisível dizia respeito à transferência de figuras associadas a florestas, rios e comunidades do interior para o Rio de Janeiro. Andriolli propôs inverter a pergunta: em vez de imaginar que os encantados decidiram abandonar seus territórios, talvez tenha sido a cidade que avançou sobre eles.

“Quando a gente pensa em expansão urbana, os animais silvestres acabam aparecendo nas cidades porque a cidade chegou onde eles estavam. Talvez seja a mesma coisa com esses mitos: talvez a cidade tenha chegado até eles”, observou. O boto encontrado morto em uma praia carioca funcionaria justamente porque está deslocado — sua presença fora do lugar inaugura o mistério.

Há ainda outra forma de deslocamento. Pessoas que deixam uma região levam consigo comidas, músicas, celebrações, crenças e histórias. “Os mitos migram junto com as pessoas”, resumiu Andriolli. A partir disso, uma Caipora, um Saci ou uma Mãe de Ouro pode reaparecer em outra paisagem e adquirir características distintas.

O pesquisador lembrou que a geografia interfere na maneira como uma narrativa é contada. Em Minas Gerais, por exemplo, a Mãe de Ouro pode estar relacionada a grutas e jazidas minerais; em localidades de Mato Grosso do Sul, o mesmo imaginário pode se ligar a tesouros enterrados sob figueiras. A função simbólica se mantém, mas o ambiente produz outra forma para o relato.

Essa mobilidade não significa que todos os seres possam ser misturados indiscriminadamente. “Mudou o nome do mito, mudou o mito”, advertiu. Saci, Caipora, Curupira, Pombero, Pé-de-Garrafa e Comadre Fulozinha podem compartilhar motivos narrativos, mas pertencem a contextos próprios. Apagar seus nomes também pode significar apagar as comunidades, os territórios e as memórias que lhes deram forma.

Dignidade antes da fidelidade

Para Andriolli, a ficção não precisa reproduzir um verbete folclórico. Um escritor pode modificar uma criatura para atender às necessidades da trama, assim como o cinema e a televisão precisam encontrar soluções visuais para elementos que nasceram na oralidade. O problema começa quando liberdade criativa é confundida com ausência de responsabilidade.

“Para mim, é mais importante pensar na dignidade da representação dos mitos do que na fidelidade”, afirmou. Não existe uma única versão verdadeira do Saci à qual toda obra deva obedecer. Existem Sacis brincalhões, violentos, protetores, domésticos ou ligados à mata. Ainda assim, escolhas como voltar a tratar sistematicamente os seres folclóricos como demônios podem recuperar uma visão colonial e depreciativa que merece ser questionada.

A série também criou histórias humanas para explicar a origem de seus encantados. O Saci teria perdido a perna ainda em vida; a Cuca teria sido uma curandeira perseguida. Essas biografias ajudaram a integrar os personagens ao enredo, mas não correspondem necessariamente às narrativas populares. “Minha mãe ficou revoltada quando o Saci cortou a própria perna. Para ela, o Saci é uma entidade que já nasce daquele jeito”, contou.

No caso da Cuca, Andriolli observou que a tradição registra suas aparições, seus medos e suas funções, mas não oferece uma biografia consolidada. A origem apresentada pela série, portanto, pertence à própria ficção. A distinção é importante: uma coisa é estudar como determinada figura circula entre comunidades; outra é escrever uma história inspirada nela.

As discussões se tornam ainda mais sensíveis quando envolvem narrativas de povos indígenas. O pesquisador defendeu que autores procurem ouvir as comunidades relacionadas às histórias que desejam utilizar e, sempre que possível, construam trabalhos conjuntos. A consulta não elimina todas as divergências, mas pode impedir que uma cultura seja transformada apenas em matéria-prima exótica.

Também existe a possibilidade de começar pelas memórias mais próximas. Festas de bairro, bate-bolas, histórias familiares, assombrações urbanas e costumes de uma comunidade são igualmente parte da cultura popular. “Às vezes, as pessoas olham para o folclore e pensam apenas em narrativas indígenas, quando poderiam pesquisar o que existe na própria família, na própria cidade”, explicou.

As muitas vidas da Iara e do Saci

A escalação de uma atriz negra para interpretar a personagem associada à Iara provocou críticas de espectadores que imaginavam a entidade exclusivamente como uma mulher indígena. Andriolli respondeu com uma reconstrução histórica: segundo os registros consultados por ele, a Iara como sereia sedutora se consolida apenas no século XIX, sob forte influência do romantismo e do imaginário europeu.

Relatos coloniais anteriores falavam no Ipupiara, criatura aquática descrita como monstruosa e perigosa, bastante diferente da mulher de longos cabelos que seduz homens com seu canto. Nas primeiras representações românticas, a Iara chegou a ser descrita como branca. Somente depois artistas e narradores passaram a aproximá-la de uma figura indígena.

Isso não torna menos legítimas as comunidades que hoje reconhecem a Iara como parte de seu imaginário. Tradições podem circular, ser transformadas e retornar aos grupos que as incorporam sob novas formas. O ponto de Andriolli não era encontrar uma certidão definitiva de nascimento para a personagem, mas mostrar que aquilo que parece ancestral e imutável muitas vezes resulta de séculos de encontros culturais.

Com o Saci ocorre algo semelhante. A figura guarda relações com o Jasy Jaterê das narrativas guaranis, mas também recebeu contribuições africanas e europeias. O Jasy Jaterê costuma ser descrito com duas pernas, cabelos claros e um bastão que concentra seus poderes. O Saci brasileiro tornou-se negro, recebeu o gorro vermelho e passou da mata para o ambiente doméstico, aproximando-se de pequenos espíritos das tradições portuguesas.

Essa mistura faz do Saci uma figura especialmente potente. “Ele traz praticamente tudo: o europeu, o indígena e o negro”, afirmou Andriolli. Ao mesmo tempo, o pesquisador evitou apresentar hipóteses como certezas. Ao estudar as relações entre o Saci e o Jasy Jaterê, disse estar procurando registros documentais que permitissem datar a circulação das narrativas. “Não falo nada de orelhada. Estou indo atrás de documento.”

Sua ligação com o personagem, entretanto, não é apenas acadêmica. O Saci fazia parte das histórias de sua família: parentes diziam ter sido perseguidos por ele e carregavam objetos no bolso para se proteger. Andriolli contou que, ao começar um emprego ou ocupar um espaço novo, costuma assoviar como um Saci, convidando-o simbolicamente a entrar. “Para cada bambuzal da imaginação, existe um”, brincou.

Cascudo é fotografia, não ponto final

A live também abordou as fontes usadas por quem deseja trabalhar com o folclore. Uma delas foi o Abecedário de personagens do folclore brasileiro, de Januária Cristina Alves, obra que serviu de referência para a equipe de Cidade Invisível. Andriolli reconheceu o valor do livro como porta de entrada, especialmente por reunir figuras variadas em textos breves e acessíveis. Ressalvou, contudo, que compêndios dessa natureza podem transformar registros antigos em descrições universais.

O mesmo cuidado deve ser aplicado a Luís da Câmara Cascudo. Para Andriolli, sua obra continua indispensável e frequentemente antecipa relações que pesquisadores contemporâneos acreditam ter descoberto. Isso não significa que seus livros possam ser lidos como retratos eternos.

“O que Cascudo registra é uma fotografia do folclore”, explicou. A imagem revela determinado momento, com as informações e os limites daquele período. Para compreender como um mito circula hoje, é preciso procurar pesquisas recentes, ouvir os narradores atuais e observar como as comunidades transformaram suas próprias práticas.

Até a estrutura social modifica as tradições. Papéis antes ocupados somente por homens passaram a ser assumidos por mulheres em manifestações como o bumba meu boi e o maracatu. Pessoas LGBTQIA+ também reivindicam lugares em celebrações tradicionalistas. Essas mudanças não seriam ameaças externas ao folclore, mas parte do movimento contínuo de uma cultura produzida por pessoas vivas.

Os mitos também permanecem atuais mesmo quando a crença literal enfraquece. Uma mulher talvez já não tema transformar-se em mula sem cabeça por manter uma relação condenada pela moral religiosa, mas mecanismos semelhantes de culpa e punição continuam presentes quando vítimas de violência são julgadas por sua aparência ou sexualidade. “O mito é muito atual ao falar sobre como nós somos enquanto sociedade”, afirmou Andriolli. Ele pode revelar faces racistas e machistas, mas também desejos, medos e sonhos coletivos.

Para além do Curupira de garrafa PET

Se o folclore muda com a sociedade, a escola ocupa um lugar decisivo nesse processo. Andriolli considera que o primeiro contato da criança com as histórias deveria acontecer na família e na comunidade. Diante de rotinas cada vez mais fragmentadas, porém, a escola também se torna responsável pela socialização cultural.

O problema não é trabalhar o Saci, a Mula sem Cabeça ou o Curupira em sala de aula. É limitar esse trabalho a desenhos para colorir e personagens montados com garrafas PET. Sem acesso a pesquisas atualizadas, muitos educadores acabam repetindo descrições descontextualizadas, concentradas em uma única semana do calendário escolar.

Produções como Cidade Invisível, livros independentes, podcasts e projetos de divulgação podem ampliar esse repertório. Mesmo uma obra imperfeita é capaz de despertar perguntas, levar espectadores a procurar outras fontes e abrir espaço para narrativas mais ousadas. “O mais importante de uma história é que ela inspire outras histórias”, disse Andriolli.

Daí sua resistência a transformar as falhas da série em argumento para que ela nunca tivesse existido. Ele preferia que o sucesso possibilitasse uma continuação mais diversa — talvez até uma série chamada Cidades Invisíveis, no plural, capaz de percorrer outros territórios, contratar artistas locais e assumir riscos maiores. Uma produção da escala da Netflix deve ser cobrada por suas escolhas, mas seu alcance também pode abrir portas para autores que contam histórias brasileiras há anos com recursos muito menores.

O veredito de “sete com louvor” sintetiza essa combinação de entusiasmo e crítica. Os dois primeiros episódios foram considerados brilhantes; os últimos, apressados. Algumas adaptações jogaram no seguro, enquanto personagens menos conhecidos, como o Tutu, demonstraram quanto interesse existe além do repertório escolar habitual.

Mais importante do que decidir se a série apresentou o folclore “verdadeiro” seria reconhecer que nenhuma obra esgota esse imaginário. Cidade Invisível é uma narrativa entre muitas possíveis. Outras podem surgir da Amazônia, do sertão, das periferias urbanas, dos terreiros, dos festejos, das histórias indígenas ou da lembrança de uma avó. Podem até evitar a palavra “folclore” e ainda assim carregar profundamente a experiência brasileira.

Ao final, a conversa retornou ao afeto apresentado por Andriolli no início da live: não o afeto entendido apenas como carinho, mas como disponibilidade para ser tocado pelo outro. “A gente não ama o que não conhece”, afirmou. Conhecer a cultura popular, nessa perspectiva, não significa prendê-la a uma forma definitiva. Significa aprender a escutá-la em sua diferença — e permitir que ela continue mudando, migrando e contando novas histórias.

Nota editorial: esta matéria foi produzida a partir da transcrição da live “Cidade Invisível: o veredito”, do canal FantastiCursos. As falas foram editadas para retirar repetições, ruídos e marcas excessivas de oralidade, sem alteração de sentido. O debate contém referências e spoilers da primeira temporada da série.

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