Em conversa com Alexandre Geisler, pesquisador mostra como as histórias do saci podem abrir discussões sobre infância, racismo, educação e a leitura crítica da cultura popular.
O saci que acompanhou a infância de Andriolli Costa não pertencia apenas aos livros. Era uma presença nas histórias contadas pela família, nos assovios ouvidos durante as férias na zona rural de Mato Grosso do Sul e nos lugares onde o pai afirmava ter encontrado o personagem. “Não era só uma história de ouvir falar. Era uma história de viver”, definiu.
Essa relação foi o ponto de partida da participação de Andriolli no programa Me Conte uma História, apresentado pelo contador de histórias Alexandre Geisler na ELA TV, canal da Escola Livre de Artes. A conversa passou pela criação do projeto Colecionador de Sacis, pelas diferentes versões do personagem e pelas possibilidades de levar o folclore à escola sem reduzi-lo a uma atividade decorativa realizada em agosto.
O pesquisador também chamou a atenção para narrativas populares atravessadas por racismo, machismo e outras formas de violência. Em vez de repetir essas histórias como se fossem conteúdos neutros, defendeu que educadores e contadores investiguem os valores que elas ajudaram a naturalizar.
O programa “Oralidade, a Arte dos Contadores” foi publicado pela ELA TV em março de 2022. Esta matéria foi produzida a partir da transcrição editada da conversa, com a retirada de repetições, hesitações e erros de reconhecimento automático, sem alteração do sentido das falas.
Um saci que fazia parte da família
Apresentado por Alexandre como pesquisador, jornalista e “colecionador de sacis”, Andriolli começou diferenciando sua relação com o personagem. A família não transmitia apenas histórias genéricas sobre uma criatura conhecida. Contava experiências nas quais o saci teria interferido diretamente na vida cotidiana.
O pai era professor universitário, chegou a ocupar o cargo de reitor e mantinha uma relação próxima com o conhecimento científico. Ainda assim, falava com seriedade sobre os lugares onde havia encontrado ou sentido a presença do saci.
Quando outras pessoas debochavam, ele reafirmava: “Não estou brincando. Estou falando sério. Eu vi o saci aqui”.
Para Andriolli, essa postura foi decisiva. Desde criança, aprendeu que o saci e outros encantados não estavam restritos a pessoas mais velhas, crianças ou grupos sem acesso à educação formal.
“Eles são coisas de brasileiro. Pertencem à nossa vida”, afirmou. Quando chegou à universidade, percebeu que muitos colegas ainda tratavam o folclore como uma bobagem ou uma coleção de “historinhas”.
A diferença entre sua experiência familiar e a visão predominante nos espaços acadêmicos despertou o desejo de estudar essas narrativas e compartilhá-las com outros públicos.
A brincadeira da avó quase terminou mal
Uma das histórias familiares aparece no documentário Raízes — um filme sobre colecionar sacis. A avó de Andriolli sabia imitar o assovio do personagem e utilizava o recurso para assustar os filhos.
Ela dizia que o saci estava rondando a casa e que levaria para o bambuzal qualquer criança que fizesse alguma malcriação. Certo dia, assoviou enquanto um dos filhos brincava em um balanço preso a uma jabuticabeira.
Assustado, o menino caiu para trás. Levantou-se rapidamente e começou a correr, mas o balanço retornou e acertou seu pescoço. A avó pensou que havia matado o próprio filho.
O menino não sofreu uma consequência mais grave, mas a história continuou a ser repetida pela família. O avô transformava o episódio em advertência: aquilo teria acontecido para ela aprender a não brincar com o saci.
“Se mexer com o saci, ele vai lá e dá uma pisa de verdade”, resumiu Andriolli.
A narrativa mostra como a crença se mistura ao humor e à educação familiar. O acidente tem uma explicação física, mas a intervenção do saci reorganiza o acontecimento e estabelece uma lição sobre medo, respeito e responsabilidade.
O assovio respondido na escuridão
Andriolli também contou uma experiência ocorrida durante uma oficina em Três Lagoas, no interior de Mato Grosso do Sul. Ao imitar o assovio do saci, percebeu que uma funcionária da prefeitura deixou a sala visivelmente transtornada.
No final da atividade, ela explicou que o som havia despertado uma memória da infância. O pai trabalhava até tarde e, ao chegar em casa, assoviava para descobrir se a filha ainda estava acordada. Quando ela respondia, ele entrava no quarto para lhe dar um beijo de boa-noite.
Certa madrugada, a menina ouviu o chamado e respondeu. Não era o pai.
Durante toda a noite, um assovio fino continuou a persegui-la. O mesmo aconteceu nas noites seguintes. Depois de uma semana sem dormir e sem receber dos médicos uma explicação para o problema, a família chamou uma benzedeira.
A interpretação foi de que a criança havia respondido ao saci. O personagem teria entendido o gesto como deboche e passara a atormentá-la. Após banhos e outros procedimentos conduzidos pela benzedeira, o assovio desapareceu.
A reação da funcionária, muitos anos depois, mostrou a Andriolli que uma história não ocupa o mesmo lugar para todos os ouvintes. Para uma criança na oficina, o assovio poderia ser divertido. Para ela, carregava uma experiência de medo que havia marcado sua formação.
De um perfil automático ao Colecionador de Sacis
A alcunha Colecionador de Sacis surgiu em 2015. Naquele período, Andriolli criou um perfil automatizado no Twitter para localizar publicações sobre o personagem e compartilhá-las novamente.
O experimento durou um mês e deu origem a um artigo. A ideia de reunir as histórias espalhadas pela plataforma sugeriu o nome do novo projeto.
“Pensei: isso é quase um coletor de sacis”, recordou. O coletor logo se transformou em colecionador, alguém que não caça ou aprisiona o personagem, mas reúne suas diferentes aparições.
Junto com o perfil, surgiu o site Colecionador de Sacis. O objetivo era apresentar ao público as descobertas feitas durante as pesquisas. A iniciativa depois se expandiu para podcasts, vídeos, exposições, oficinas, documentários e outros formatos.
O nome também criou uma cobrança. As pessoas perguntavam como alguém poderia se apresentar como Colecionador de Sacis sem possuir um livro com esse título.
“Eu dizia que não tinha, mas que ia ter”, contou. A provocação levou à publicação, em 2020, de O Colecionador de Sacis e outros contos folclóricos. A obra procura transformar em ficção parte do material encontrado nas pesquisas e nas experiências de escuta.
Quatorze nomes e muitos corpos
A coleção não se limita a objetos. O trabalho procura reunir as variações que aparecem nas descrições do personagem.
Andriolli citou uma pesquisa feita a partir de O Saci-Pererê: resultado de um inquérito, publicado em 1918. O livro reúne cerca de 70 depoimentos enviados ao jornal O Estado de S. Paulo durante a investigação organizada por Monteiro Lobato.
O pesquisador identificou 14 nomes associados ao saci e diferentes grupos de comportamento. Algumas versões são mais enganadoras, outras ajudam pessoas e há aquelas descritas como criaturas bestiais.
Os corpos também se modificam. Entre os depoimentos, aparecem sacis cobertos de fubá, com garras de corvo ou braços fortes como pilões. Nem todos correspondem à imagem hoje mais conhecida do menino negro de uma perna, gorro vermelho e cachimbo.
Os relatos foram enviados por pessoas que escutaram ou vivenciaram essas histórias mais de um século atrás. Para Andriolli, é provável que ainda existam inúmeras versões não registradas circulando pelo país.
A multiplicidade impede que uma representação específica seja tratada como a forma definitiva do personagem. O saci muda conforme o narrador, a região, o período histórico e a finalidade da história.
A bagunça como direito da criança
Alexandre associou o saci à inquietação infantil. Em sala de aula, alguns estudantes recebem o apelido quando correm, fazem travessuras ou parecem estar em vários lugares ao mesmo tempo.
Andriolli vê nessa comparação uma possibilidade educativa. Aceitar um saci desordeiro também pode significar reconhecer que a criança precisa de espaço para experimentar, errar e se expressar fora dos comportamentos esperados pela escola.
“Aceitar a bagunça do saci é aceitar que a criança também tem direito de brincar, de errar e de se expressar de maneiras que às vezes estão fora do que o ambiente escolar exige”, afirmou.
O pesquisador tenta levar essa interpretação para os projetos em que trabalha como consultor. A proposta, porém, nem sempre é bem recebida. Há receio de que a escola não aceite um personagem relacionado ao direito de desobedecer.
Para Andriolli, a solução não está em ensinar a criança a aprisionar o saci. Está em compreender o que suas travessuras dizem sobre liberdade, autoridade e as diferentes maneiras de aprender.
“Não é aprender a capturá-lo em uma garrafa. É entender isso e trazê-lo para junto de si, brincando.”
Folclore não é uma atividade de agosto
O programa recuperou a presença de Luís da Câmara Cascudo como professor de História. Mesmo entre colegas docentes, o pesquisador enfrentava olhares enviesados ao levar o folclore para a sala de aula.
Décadas depois, o tema ainda costuma aparecer somente no Dia do Folclore, celebrado em 22 de agosto, ou em atividades concentradas naquele mês. O problema não está apenas na quantidade de tempo, mas na forma como o assunto é apresentado.
“Se eu falo de folclore ensinando a pintar uma mula sem cabeça ou fazer um saci de garrafa PET, eu não falei de folclore. Falei de uma estética”, criticou Andriolli.
A atividade reproduz a aparência do personagem, mas não pergunta por que aquela história foi criada, quais experiências organiza ou por que continua sendo contada. A criança termina com um objeto artesanal, mas pode permanecer sem compreender o que a narrativa comunica.
Andriolli comparou essa abordagem à observação de uma casca. A escola trabalha com aquilo que apareceu na superfície, mas não investiga o conteúdo da experiência humana preservada pelo mito.
“Todos os aspectos do folclore, em especial os mitos e as lendas, estão falando da experiência humana”, explicou. Por isso, podem ser trabalhados da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos, respeitando as particularidades de cada faixa etária.
Mula sem cabeça para falar de machismo
No Ensino Médio, as narrativas podem abrir discussões diretamente relacionadas aos problemas contemporâneos. Andriolli citou a mula sem cabeça como possibilidade de abordar o controle exercido sobre o corpo e a sexualidade das mulheres.
As diferentes histórias do Negrinho do Pastoreio permitem discutir racismo, violência e relações de trabalho. Em vez de aparecer como complemento ilustrativo, o personagem oferece um caminho para observar valores que participaram da formação do país.
A vantagem está na proximidade afetiva. Mesmo quando o estudante não conhece uma versão específica, provavelmente reconhece o nome da criatura, alguma imagem ou fragmento da narrativa.
Os debates deixam de partir exclusivamente de exemplos distantes. São ativados por histórias relacionadas à identidade, à memória familiar e aos lugares onde os alunos vivem.
“São elementos muito mais caros ao nosso espírito porque dizem respeito à nossa identidade”, afirmou Andriolli.
O racismo inscrito nas versões do saci
Alexandre recordou uma descrição apresentada por Câmara Cascudo na Geografia dos mitos brasileiros. Nela, o saci teria sido um menino abandonado na mata, filho ilegítimo de um fazendeiro.
Andriolli ressaltou que Cascudo atuava como compilador. A presença da história no livro não significa necessariamente que o autor a tenha criado ou defendido. Ele registrava versões encontradas entre diferentes fontes.
Ainda assim, a narrativa carrega as marcas de uma sociedade estruturada pela violência racial. O filho bastardo abandonado remete aos abusos cometidos por homens brancos contra mulheres negras e indígenas, além do poder exercido pelos proprietários de terra.
“Essa história traz muito da violência racial e do abuso de poder que constroem nosso país”, avaliou.
Versões semelhantes aparecem em outros campos do folclore. Os antigos contos de Pai Francisco, por exemplo, frequentemente terminam com um homem negro sendo agredido ou ridicularizado por fazendeiros e seus filhos.
As histórias podiam provocar risos entre ouvintes do século XIX. Hoje, geram desconforto porque tornam visível uma violência que durante muito tempo foi apresentada como entretenimento.
O que fazer com uma história violenta?
O machismo também aparece em narrativas que circularam até períodos recentes. Andriolli mencionou o conto de uma mulher chamada de preguiçosa porque não realizava as tarefas domésticas exigidas pelo marido.
Na história, ele leva para casa um capote supostamente mágico, capaz de cozinhar e limpar sozinho. Como a peça não executa as tarefas, o homem manda a esposa vesti-la e a agride sob o pretexto de bater no objeto.
O relato foi recolhido em 1999. Segundo Andriolli, é provável que ainda fosse apresentado como uma história engraçada, sem que a violência contra a mulher se tornasse o centro da interpretação.
Hoje, uma nova contação dificilmente produziria o mesmo efeito. “A gente conta como exemplo de uma história que talvez esteja fadada a desaparecer”, afirmou. Ela deixou de provocar riso e passou a despertar revolta.
Isso não significa que o registro deva ser apagado. Preservar a narrativa ajuda a compreender os valores que sustentaram relações violentas. O problema seria repeti-la de maneira descontextualizada, mantendo o agressor como personagem engenhoso e a mulher como objeto do castigo.
Para Andriolli, a cultura popular não deve ser tratada como um conjunto de ensinamentos automaticamente positivos. Ela também preserva preconceitos e relações de poder.
Uma leitura crítica dos colecionadores do passado
A mesma atenção precisa ser dirigida aos intelectuais que registraram essas histórias. Monteiro Lobato foi fundamental para a realização do inquérito sobre o saci, mas sua obra deve ser relida a partir das discussões contemporâneas sobre raça.
Câmara Cascudo reuniu um volume extraordinário de narrativas, costumes e crenças. Isso não dispensa a análise de suas escolhas, fontes e categorias.
O mesmo ocorre com Sílvio Romero e outros pesquisadores empenhados em construir uma história do povo brasileiro. Seus trabalhos registraram histórias que poderiam ter desaparecido, mas também interpretaram o “povo” de uma posição intelectual marcada por seu próprio tempo e por suas relações sociais.
A leitura crítica não reduz essas obras a uma condenação. Permite utilizá-las sem transformar seus autores em autoridades intocáveis.
“É importante levar essas histórias, mas levar também uma crítica a essas histórias para a escola”, defendeu Andriolli.
A ciência do povo precisa continuar sendo interrogada
No encerramento, Alexandre definiu o folclore como uma “ciência do povo”. Histórias são contadas, guardadas e modificadas por pessoas que nem sempre deixam seus nomes nos registros escritos.
O trabalho do pesquisador e do contador consiste em ouvir esse material, reconhecer sua força e decidir como apresentá-lo novamente. A responsabilidade não termina na preservação.
É preciso perguntar quais vozes foram silenciadas, quem termina punido, quem aparece como motivo de riso e quais comportamentos a narrativa procura ensinar. Também é necessário perceber aquilo que a história oferece de liberdade, reconhecimento e resistência.
O saci reúne essas contradições. Pode provocar medo, perseguir quem assovia à noite ou bater em animais. Também pode representar a travessura, a recusa da obediência e o direito de existir fora das normas.
Colecionar sacis, nesse sentido, não significa aprisionar uma criatura em uma garrafa. Significa reunir versões sem obrigá-las a se tornar uma só. É permitir que cada história revele tanto a imaginação de quem a contou quanto a sociedade na qual encontrou espaço para circular.