Live percorre as histórias de sacis, tesouros enterrados, assombrações e santos populares para discutir como as narrativas atravessam fronteiras e permanecem vivas no cotidiano.
As histórias sobre o saci chegaram a Andriolli Costa antes dos livros e da universidade. Durante as férias na zona rural de Mato Grosso do Sul, ele ouvia os relatos da família e aprendia que aquelas narrativas não pertenciam a um passado distante. “Folclore não é coisa de velho, não é coisa de criança, não é coisa de ignorância. É coisa de brasileiro”, afirmou.
Em conversa conduzida por Maurem Pavão, o jornalista e pesquisador apresentou o percurso que o levou das memórias familiares à criação do projeto Colecionador de Sacis. A troca também aproximou suas pesquisas das experiências de Maurem com as narrativas do Rio Grande do Sul, especialmente a Salamanca do Jarau e as histórias recolhidas em cidades da fronteira.
Realizada durante o período de isolamento social provocado pela pandemia, a live passou por temas como jornalismo e imaginário, circulação de lendas, pesquisa de campo, educação, racismo na obra de Monteiro Lobato e diferentes representações do saci. Ao final, a impossibilidade do encontro presencial tornou-se parte do próprio debate: até onde uma cultura fundamentada na presença pode sobreviver por meio das telas?
Esta matéria foi produzida a partir das duas partes da live de Maurem Pavão com Andriolli Costa. A transcrição foi editada para retirar repetições, hesitações, interrupções técnicas e erros de reconhecimento automático, preservando o sentido e a oralidade das falas.
O saci entre a família e a universidade
Andriolli cresceu em Campo Grande, mas sua família mantinha vínculos com a zona rural de Mato Grosso do Sul. O pai, professor universitário, contava histórias de saci sem reproduzir a ideia de que acreditar ou se interessar por encantados seria sinal de falta de estudo.
Essa convivência permitiu que ele chegasse à universidade com uma percepção pouco comum entre os colegas. Enquanto muitas pessoas tratavam o folclore como assunto infantil ou ultrapassado, Andriolli reconhecia aquelas histórias como parte do cotidiano.
Em 2008, ainda na graduação em Jornalismo, pediu para desenvolver uma iniciação científica relacionada ao tema. A professora Márcia Gomes, que pesquisava as adaptações televisivas do Sítio do Picapau Amarelo, sugeriu que ele estudasse o episódio “O Saci”.
O personagem passou, então, a acompanhar sua formação acadêmica. Mesmo quando o pesquisador se deslocou para outros objetos, continuou procurando relações entre jornalismo, lendas e imaginário.
“Eu fui mesclando isso. Estava trabalhando com jornalismo, mas tratando de algo muito mais subjetivo”, explicou. O desafio era compreender como uma atividade orientada pela factualidade poderia abordar histórias que não dependem da comprovação da existência de uma criatura sobrenatural.
Tesouros enterrados e crimes reais
Em 2010, Andriolli dirigiu o curta-metragem Enterros, inspirado nas narrativas sobre tesouros escondidos durante a Guerra do Paraguai. No país vizinho, essas riquezas são conhecidas como plata yvyguy, expressão associada a dinheiro ou objetos de valor enterrados sob o solo.
As histórias descrevem fortunas escondidas durante a guerra e protegidas pelos espíritos de seus antigos proprietários. Para encontrar o tesouro, o escolhido precisa seguir determinadas regras, fazer orações e demonstrar que possui boas intenções.
O valor simbólico não está apenas no enriquecimento. “O espírito olha para você e diz: ‘Você é digno’”, observou Andriolli. Encontrar a riqueza significa receber o reconhecimento dos mortos e superar uma condição social marcada pela pobreza.
A procura também provoca consequências concretas. Pessoas invadem propriedades, destroem patrimônios e arriscam a vida em escavações. Durante sua pesquisa de mestrado, Andriolli analisou como o jornalismo paraguaio cobria essas ocorrências.
As reportagens não precisavam decidir se o tesouro ou os espíritos existiam. O interesse estava nos crimes, nas mortes e nos danos causados pela crença. O lendário funcionava como motor de uma ação verificável.
“Eles não cobriam para dizer se existe ou não existe. Cobriam porque pessoas estavam morrendo, cometendo crimes e violando patrimônios”, explicou.
Quando a lenda oferece uma paisagem ao jornalismo
Maurem encontrou uma relação semelhante durante suas pesquisas sobre a Salamanca do Jarau, no Rio Grande do Sul. Ao visitar Quaraí, na fronteira com o Uruguai, chegou procurando uma narrativa específica, mas encontrou outras histórias ligadas aos lugares da cidade.
Nas ruínas de um antigo saladeiro, uma criança lhe contou a história de uma jovem rica que se apaixonou por um peão pobre. Impedida de viver o relacionamento, ela teria se atirado em um buraco. O rapaz pulou em seguida. A narrativa era conhecida como a Dama do Saladeiro.
A experiência confirmou uma característica da pesquisa com oralidade: o entrevistado nem sempre conta a história que o pesquisador planejava ouvir. As narrativas surgem por associação. Uma pergunta sobre a Salamanca pode levar ao boitatá, a uma assombração local ou a uma memória familiar.
Andriolli destacou que não se pode chegar exigindo simplesmente uma história de saci. O relato depende da construção de confiança e de um ambiente em que a pessoa se sinta autorizada a compartilhar sua experiência.
“Para conseguir uma história forte, você precisa deixar que a pessoa construa com você um ambiente propício para a narração”, afirmou. Na pesquisa oral, quem conduz a conversa não controla inteiramente o percurso.
A lenda também encontra espaço no jornalismo porque costuma estar ligada a uma paisagem. Uma reportagem pode não fotografar o espírito de um coronel ou o som de cascos atribuído a uma tropa fantasma, mas consegue mostrar o cemitério, o morro, as ruínas e a estrada onde a narrativa circula.
“A lenda tem um espaço físico”, explicou Andriolli. Diante do invisível, fotógrafos procuram enquadramentos capazes de sugerir uma atmosfera: um céu amplo, uma construção abandonada ou um caminho vazio.
Fronteiras que misturam histórias
As experiências dos dois pesquisadores aproximam Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Ambos são territórios marcados por fronteiras internacionais e por intensos deslocamentos populacionais.
No Sul, as narrativas circulam entre Brasil, Uruguai e Argentina. Em Mato Grosso do Sul, o contato com Paraguai e Bolívia participa da formação cultural do estado. As histórias de tesouros enterrados, por exemplo, aparecem em diferentes regiões e recebem nomes como enterros, guardados ou botijas.
“O ser fronteiriço é o nosso estado padrão”, disse Andriolli sobre Mato Grosso do Sul. A presença de influências diversas costuma levar à conclusão de que o estado não possuiria uma cultura própria. Para ele, o raciocínio deveria ser invertido.
“A nossa tradição é essa mistura. Essa é a nossa peculiaridade.”
Maurem encontrou um movimento semelhante na Salamanca do Jarau. A narrativa registrada por João Simões Lopes Neto reúne referências do território gaúcho, tradições da região do Prata, uma princesa moura e elementos vindos da Península Ibérica.
O próprio nome da Salamanca participa dessa transformação. Em espanhol, a lagartixa pode ser chamada de salamanquesa. Na narrativa sul-rio-grandense, a princesa moura assume a forma da Teiniaguá, criatura com corpo de lagartixa e uma pedra preciosa na cabeça.
As histórias não respeitam os limites desenhados nos mapas. Elas atravessam fronteiras, mudam de língua, encontram novas paisagens e são reorganizadas pelas comunidades que passam a contá-las.
Da divulgação acadêmica ao Colecionador de Sacis
Durante o doutorado, Andriolli aprofundou a pesquisa sobre jornalismo e imaginário, mas percebeu que não queria permanecer restrito à circulação acadêmica. Começou a pensar em uma forma de “divulgação folclórica”, semelhante à divulgação científica, mas voltada à cultura popular.
O ponto de partida do Colecionador de Sacis surgiu de uma cena cotidiana. Ao caminhar por São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, encontrou um tronco coberto por orelhas-de-pau. Fotografou os fungos e publicou que havia descoberto um cemitério de sacis.
A brincadeira se baseava em uma passagem de Monteiro Lobato segundo a qual o saci, ao morrer aos 77 anos, transforma-se em orelha-de-pau. Muitas pessoas perguntaram por que o tronco poderia ser chamado de cemitério.
“Eu pensei: ‘Que bom que vocês não sabem. Então preciso fazer alguma coisa’”, recordou.
Primeiro surgiu uma página no Facebook. Em 2015, veio o site Colecionador de Sacis. Depois, o trabalho se expandiu para mostras de cinema, oficinas de contação de histórias, exposições, ensaios fotográficos, podcasts e documentários.
Para celebrar o centenário do Inquérito sobre o Saci, Andriolli convocou colaboradores a enviarem poemas, ilustrações, textos e relatos. Em duas semanas, reuniu material suficiente para uma revista de 84 páginas.
A publicação apresentou o saci no cinema, na literatura, nos quadrinhos, na música, na Umbanda e em outras expressões. Professores começaram a pedir autorização para utilizá-la em sala de aula.
O conteúdo também deu origem a uma exposição no Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Em vez de repetir uma abordagem do mês de maio centrada apenas nos instrumentos da escravidão, o projeto apresentou o saci como figura ligada à liberdade e à negritude.
Cada público produz outro saci
As oficinas fizeram Andriolli encontrar versões que não estavam nos livros. Em Corumbá, uma criança afirmou que o pai havia matado um saci, aberto sua barriga e encontrado o corpo cheio de carvão.
Quando o pesquisador perguntou o que a família tinha feito, ouviu a resposta: “Virou churrasco”.
A história passou a ser contada em outras sessões. Em uma escola do Rio Grande do Sul, outro menino relatou ter encontrado um saci enquanto cavalgava. Durante toda a atividade, fez perguntas detalhadas sobre a criatura.
No encerramento, aproximou-se de Andriolli, estendeu a mão e revelou sua intenção: “Eu vou matar o saci”.
A partir de então, o contador passou a brincar que não poderia apresentar o menino ao pai da criança de Corumbá. “Senão, acabou o saci”, explicou.
Os relatos mostram que a contação não funciona como simples reprodução de um texto. Cada público acrescenta memórias, medos e invenções. A performance muda, mas a história também se transforma.
Maurem relacionou essas experiências à máxima popular de que quem conta um conto aumenta um ponto. A mudança não representa necessariamente uma perda de autenticidade. É justamente o que mantém a narrativa disponível para novos grupos.
O direito de se encantar
Andriolli levou suas oficinas para públicos de diferentes idades, da educação infantil ao Ensino Médio, passando pela Educação de Jovens e Adultos e por escolas técnicas.
Em uma instituição da periferia de Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre, ouviu uma dúvida sobre a presença do tema. Por que falar de saci em uma escola voltada à formação técnica?
A resposta veio da própria atividade. Os estudantes se envolveram quando o pesquisador encontrou uma forma de aproximar as narrativas de suas experiências.
“As pessoas, especialmente as periféricas, têm negada a oportunidade de se encantar”, afirmou. Uma formação profissional não deveria eliminar o acesso à imaginação, à arte e às histórias.
Maurem encontrou algo semelhante entre seus alunos. Durante uma atividade de produção audiovisual, três estudantes realizaram um vídeo sobre o sobrenatural em Valença. Depois da experiência, um deles disse ter descoberto que queria ser cineasta.
Para ela, muitos estudantes escrevem, contam histórias ou desejam produzir imagens, mas não encontram espaço para apresentar essas habilidades. Às vezes, basta que um professor reconheça o relato e diga: “Essa história é boa. Conta para todo mundo”.
Lobato entre a contribuição e o racismo
A importância de Lobato para a circulação do saci levou Maurem a perguntar como trabalhar uma obra marcada pelo racismo. Andriolli foi direto: “Ele é um grande racista, sim. A gente não pode negar isso”.
Ao mesmo tempo, defendeu que o escritor seja analisado em suas contradições. No início do século XX, Lobato criticou a ausência de estudos sobre o folclore nas bibliotecas e propôs que os interessados procurassem o “livro não escrito” das histórias do povo.
Também incorporou aos livros infantis narrativas registradas por autores como João Simões Lopes Neto e João Barbosa Rodrigues. Com sua estrutura editorial, ajudou a ampliar a circulação de textos antes pouco acessíveis.
Isso não elimina as passagens racistas. Andriolli citou uma cena de Aritmética da Emília em que Tia Nastácia admite não compreender uma explicação sobre números e é imediatamente chamada de ignorante, com a ordem de voltar à cozinha.
“Meu Deus, que coisa gratuita”, comentou.
Para ele, releituras contemporâneas podem enfrentar esses problemas, desde que não transformem a atualização em apagamento. A contribuição editorial de Lobato pode ser estudada sem que suas posições sejam absolvidas.
Não existe apenas um saci
Ao longo da conversa, Andriolli mostrou algumas peças de sua coleção. Entre elas estava uma representação de Jasy Jaterê, personagem do imaginário guarani encontrado no Paraguai.
Embora seja frequentemente apresentado como “o saci paraguaio”, o pesquisador defende que os dois não sejam tratados como equivalentes. Jasy Jaterê está ligado à lua, à sedução e ao desaparecimento de crianças. Sua representação pode trazer cabelos claros e um bastão dourado como objeto de poder.
O saci brasileiro adquiriu outros sentidos, especialmente aqueles relacionados à negritude, à liberdade e à resistência. Sua carapuça concentra o poder e permite que ele preserve sua independência.
“Se você tira a carapuça, tira a liberdade dele”, explicou. A entrega de favores não decorre necessariamente de bondade. O saci procura recuperar aquilo que lhe foi tomado.
As diferenças não impedem o diálogo entre os personagens. Ambos podem compartilhar raízes, comportamentos ou formas narrativas, mas os contextos culturais reorganizam seus significados.
A pluralidade também existe dentro do próprio saci. O Inquérito sobre o Saci reúne mais de 70 depoimentos, com descrições que incluem criaturas de uma ou duas pernas, garras, mãos incomuns e até um único olho.
Entre as leituras indicadas por Andriolli estão O Saci-Pererê: resultado de um inquérito, organizado por Lobato; Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto; e Literatura oral no Brasil, de Luís da Câmara Cascudo.
O assovio que atravessa o continente
O documentário Raízes — um filme sobre colecionar sacis costura depoimentos da família de Andriolli com informações reunidas durante anos de pesquisa.
Em um dos momentos, sua avó recorda ter ouvido um assovio identificado como o chamado do saci. Para ela, porém, o som poderia ter vindo do pássaro conhecido como peixe-frito.
O filme aproxima esse canto de outros nomes associados a pássaros assobiadores. No Centro-Oeste aparece o saci; no Norte, a Matinta-Pereira; no Paraguai, diferentes figuras do imaginário guarani. O som permite ouvir palavras distintas dentro de uma estrutura semelhante.
“Saci-pererê”, “Matinta-Pereira” e “Martim Cererê” podem ser entendidos como tentativas de traduzir em linguagem humana aquilo que se escuta na mata.
A associação entre pássaro e criatura sobrenatural aparece desde os primeiros registros escritos do saci. O personagem pode assumir forma humana, mas também surgir como ave de canto melancólico.
Maurem observou que essa transformação permanente é um dos elementos mais fascinantes das lendas. Em um território do tamanho do Brasil, a mesma estrutura narrativa encontra novas aves, paisagens, grupos e explicações.
“A cultura popular é do encontro”
A live foi transmitida durante os primeiros meses da pandemia, quando festas, terreiros, igrejas, escolas e rodas de conversa estavam interrompidos. Maurem perguntou como uma pesquisa baseada na presença poderia continuar naquele cenário.
Andriolli reconheceu a importância das soluções encontradas. Novenas e rezas eram transmitidas pela internet. Em algumas cidades, grupos religiosos circulavam de carro pelas ruas para que as pessoas não precisassem sair de casa. A própria conversa entre os dois só aconteceu por meio de uma plataforma digital.
O limite estava na impossibilidade de substituir integralmente a experiência corporal. “A cultura popular é do encontro. É de estar junto”, afirmou.
Ele recordou a primeira vez que viu uma apresentação de bumba meu boi. Os brincantes não estavam completamente paramentados e o espaço não havia sido preparado como palco. Bastaram o boi, os instrumentos e o início da música para que o ambiente se transformasse.
“Tenho certeza de que, se estivesse vendo pela televisão, não seria a mesma coisa. Foi estar ali, com a música falando no corpo.”
A presença permite compartilhar também aquilo que não foi planejado. Nas rodas de chimarrão do Rio Grande do Sul, nas rodas de tereré de Mato Grosso do Sul ou nas mesas de bar da Bahia, as histórias surgem enquanto as pessoas permanecem juntas.
A modernidade valorizou a autonomia do indivíduo, avaliou Andriolli, mas a cultura popular recorda a importância dos vínculos. “É no coletivo que a gente se reconhece e que reconhecem você. Isso é revolucionário.”