Episódio reúne Anderson Awvas, Andriolli Costa, Otoniel Oliveira e Wellingta Macedo para analisar como mercado, religião, mídia e disputas identitárias atravessam as manifestações populares.
O Festival de Parintins não é apenas entretenimento. A festa junina não se transforma somente porque “a cultura é dinâmica”. Um acarajé cor-de-rosa não pode ser reduzido a uma estratégia criativa para aproveitar o sucesso de Barbie. Em comum, esses casos mostram que qualquer mudança cultural acontece dentro de relações políticas, econômicas e religiosas.
Essa foi a linha que atravessou o episódio 30 do Hora Folk. Apresentado por Anderson Awvas, o programa reuniu Andriolli Costa, Otoniel Oliveira e Wellingta Macedo para comentar o resultado do Festival de Parintins de 2023, as polêmicas em torno das festas juninas e a criação de comidas tradicionais inspiradas pela campanha mundial do filme Barbie.
Embora parta de notícias que viralizaram nas redes sociais, a conversa evita distribuir um carimbo definitivo entre o certo e o errado. O debate procura entender quem pode modificar uma tradição, quais interesses orientam essas mudanças e por que algumas manifestações recebem projeção nacional enquanto outras permanecem tratadas como acontecimentos regionais.
Um blockbuster produzido ao vivo em Parintins
O episódio começa com um balanço da 56ª edição do Festival Folclórico de Parintins, encerrada com o bicampeonato do Boi Caprichoso. Naquele ano, o Folclore BR acompanhou a disputa em uma transmissão de oito horas, realizada durante a terceira noite de apresentações.
A proposta não era retransmitir o sinal da TV A Crítica, mas oferecer uma camada de comentários para quem assistia ao festival. Anderson Awvas comparou a experiência aos antigos DVDs com faixas comentadas por diretores e equipes de produção. Ao longo da noite, os participantes explicaram os itens avaliados, analisaram alegorias e estabeleceram relações com outras festas brasileiras.
A transmissão chegou a reunir cerca de 1.200 espectadores simultâneos. Parte do público entrou esperando encontrar as apresentações dos bois e demorou a compreender o formato. “A proposta é fazer esses atravessamentos”, explicou Otoniel Oliveira. Em vez de repetir uma cobertura concentrada apenas no espetáculo, o grupo buscava aproximar olhares de dentro e de fora da Amazônia.
Wellingta Macedo destacou que viver na Região Norte não significa conhecer automaticamente todas as suas manifestações. “Nós aqui do Norte também não sabemos muitas coisas que se passam na nossa região”, afirmou. Para ela, a participação de pesquisadores ligados aos dois bois ajudou a tornar o festival acessível a quem só conhecia Caprichoso e Garantido por referências isoladas da cultura de massa.
Andriolli Costa havia participado pela primeira vez de uma noite inteira de comentários. A experiência modificou sua percepção das toadas, que até então conhecia principalmente por gravações avulsas. “Não é um jeito de cantar, não é um jeito de tocar. São muitos jeitos”, observou.
A sucessão de cenários, músicas, indumentárias, coreografias e efeitos também lhe deu outra dimensão do espetáculo. “É um filme blockbuster ao vivo”, comparou. Alegorias entram e saem do Bumbódromo, artistas trocam de roupa durante a apresentação e estruturas gigantescas precisam funcionar no tempo exato, diante do público e dos jurados.
A festa também está no campo da política
Otoniel chamou a atenção para um aspecto que costuma desaparecer quando as festas populares são apresentadas apenas como diversão. Os temas escolhidos pelos bois, a representação das populações indígenas, o financiamento das agremiações e a própria existência do festival são atravessados por disputas sociais.
“A própria existência do folclore é uma questão política”, afirmou. Para ele, não basta desligar a cabeça e assistir ao espetáculo como se aquela produção existisse isolada da sociedade. A disputa entre Caprichoso e Garantido mobiliza identidades, recursos financeiros, trabalhadores, instituições públicas e diferentes projetos de representação da Amazônia.
As dificuldades administrativas e financeiras enfrentadas pelo Garantido naquele período também apareceram na arena. Enquanto o Caprichoso apresentou maior luxo visual, o adversário encontrou obstáculos para manter a mesma estrutura. Wellingta relacionou essa desigualdade às decisões sobre o dinheiro que circula em torno da festa.
Ela citou a contratação de Ludmilla para uma apresentação anterior ao festival. O show provocou reações conservadoras, principalmente depois que a cantora incluiu músicas com letras explícitas e referências LGBTQIA+. Para Wellingta, porém, a discussão não deveria se limitar à condenação moral da artista. Também seria necessário perguntar quanto se investe em atrações nacionais e quanto chega efetivamente aos bois, aos trabalhadores e aos artistas locais.
“É diversão, mas não é só para se desligar”, resumiu. “É sobre a gente, sobre o nosso povo, sobre as nossas histórias e sobre não ter dinheiro para levar o boi.”
Quando uma cultura regional pode representar o Brasil?
A projeção do Festival de Parintins também expôs a diferença entre aquilo que a mídia reconhece como nacional e o que continua classificado como regional. O Carnaval do Rio de Janeiro alcançou circulação internacional, enquanto Parintins, apesar da dimensão de suas apresentações, ainda recebe cobertura concentrada na Região Norte.
Para Anderson, nem mesmo o impacto provocado pela mudança da cor das latas de Coca-Cola durante o festival garante essa expansão. É necessário construir formas de transmissão capazes de apresentar a complexidade do evento a públicos que não conhecem seus códigos.
A cobertura televisiva ajuda a ampliar o alcance, mas enfrenta limitações de infraestrutura. As câmeras e a iluminação nem sempre conseguem mostrar os detalhes vistos por quem está no Bumbódromo. O contraste torna ainda mais evidente a diferença entre a grandeza do espetáculo e os recursos disponíveis para registrá-lo.
Wellingta observou que os meios de comunicação continuam elegendo determinadas manifestações como símbolos nacionais em detrimento de outras. “O Festival de Parintins ainda é visto como um festival regional, e não como um festival nacional”, afirmou.
A disputa por representação também ocorre dentro da própria festa. Andriolli lembrou que personagens como Pai Francisco e Mãe Catirina passaram por questionamentos relacionados ao uso de blackface e à ridicularização de pessoas negras. Em 2023, o item de avaliação antes denominado “tribos indígenas” passou a ser chamado de “povos indígenas”.
As alterações demonstram que a tradição não permanece imóvel. Elas também revelam que as transformações não surgem espontaneamente. São resultado de pesquisas, mobilizações sociais e reivindicações apresentadas por grupos que recusam certas formas de representação.
A festa junina entre a tradição e o mercado
O segundo bloco partiu de uma discussão do programa Saia Justa, do GNT. Astrid Fontenelle reclamou de chegar a uma festa de São João esperando forró e encontrar axé. Gabriela Prioli respondeu que seria preciso perguntar qual marco temporal define aquilo que chamamos de São João tradicional.
O recorte circulou nas redes como um conflito entre tradição e modernidade. No Hora Folk, os participantes acrescentaram outro elemento: uma mudança pode ser culturalmente incorporada sem ser necessariamente espontânea. A presença de determinados artistas e gêneros musicais também pode resultar de investimentos, patrocínios e estratégias comerciais.
Otoniel criticou a ideia de que o mercado apenas responderia naturalmente ao gosto do público. O predomínio de um gênero musical nos eventos, nas emissoras e nas plataformas pode ser sustentado por estruturas de divulgação que não estão disponíveis para artistas locais.
“Uma dinâmica de construção cultural é muito diferente de uma imposição mercadológica”, afirmou. Durante as festas juninas, sanfoneiros, quadrilhas, cozinheiras e outros trabalhadores encontram uma oportunidade sazonal de renda. Quando a programação pública substitui esses agentes pelas mesmas atrações que já circulam durante todo o ano, a atualização da festa também produz perdas.
Andriolli diferenciou a escolha de um clube, bar ou festa particular das decisões tomadas pelo poder público. Um estabelecimento pode organizar um arraial dedicado ao rock, ao funk ou ao axé. Uma programação financiada pelo Estado, entretanto, tem responsabilidade sobre a continuidade das manifestações e dos trabalhadores ligados àquele período.
“O mercado não é natural”, reforçou Otoniel. Para ele, cabe ao poder público respeitar as expressões populares em vez de entregar toda a programação ao “golpe de marketing do momento”.
Uma tradição nunca foi completamente pura
Reconhecer as pressões econômicas não significa defender uma festa junina congelada. Anderson lembrou que eventos realizados em clubes e centros urbanos precisam conversar com os públicos que participam deles. Uma programação composta exclusivamente por um repertório considerado tradicional talvez não corresponda à experiência cotidiana dessas pessoas.
Mesmo as misturas contemporâneas podem preservar referências anteriores. Uma música transformada em funk pode utilizar a melodia de Luiz Gonzaga; uma quadrilha pode incorporar passos difundidos pelo TikTok; um arraial pode alternar forró, rock, axé e outros ritmos.
Wellingta contou ter ido, em 24 de junho, a uma festa de rock vestida com roupa inspirada nas quadrilhas. Ao deixar sua casa, no bairro do Jurunas, em Belém, encontrou fogueiras acesas pelas ruas. Ateia, ela não associa a celebração a uma devoção pessoal, mas reconhece a importância do ritual.
“Nós somos seres humanos e celebramos rituais. Isso faz parte da nossa vida”, afirmou. Para ela, é possível preferir o forró pé de serra e, ao mesmo tempo, compreender que outras pessoas desejam dançar funk ou rock. O que precisa ser investigado é por que determinados repertórios ocupam a programação e outros permanecem invisíveis.
A festa junina reúne referências católicas, ciclos da natureza, práticas agrícolas, comidas, músicas e formas comunitárias de ocupação do espaço. Retirar qualquer elemento dessa composição não encerra necessariamente a festa, mas modifica a rede de sentidos que lhe dá sustentação.
“Sem João, com Cristo”
A relação entre tradição e religião apareceu novamente em festas organizadas por igrejas evangélicas. Algumas denominações passaram a promover celebrações com bandeirinhas, comidas e forró gospel, mas sem santos, bebidas alcoólicas ou fogueiras. Os eventos receberam nomes como “festa caipira”, “festa country” e, em uma provocação mais explícita, “Sem João, com Cristo”.
Para Andriolli, chamar o evento de festa junina poderia representar uma adaptação à crença dos participantes. “Sem João”, porém, estabelece uma oposição direta ao santo que dá nome à celebração.
Wellingta classificou a iniciativa como uma forma de intolerância religiosa. “Você cita a religião do outro para dizer que aquela religião está errada”, argumentou. O fato de uma denominação não reconhecer os santos católicos não justificaria transformar a crença alheia em alvo de afronta.
O grupo também observou que a recusa não atinge todas as práticas com a mesma intensidade. Igrejas podem condenar a participação em festas juninas ou o consumo de comidas preparadas para os santos, mas frequentemente recriam esses mesmos elementos depois de retirar suas referências religiosas originais.
A transformação, nesse caso, não decorre apenas da dinâmica cultural. Ela pode funcionar como um apagamento: preserva-se a música, a comida ou a aparência da festa, enquanto se rejeitam os grupos e as crenças responsáveis por sua construção histórica.
Acarajé e tacacá entram no mundo cor-de-rosa
O lançamento de Barbie provocou uma campanha de marketing que ultrapassou as salas de cinema. Fachadas, roupas, objetos e alimentos foram tingidos de rosa. No Brasil, a onda chegou ao acarajé e ao tacacá.
Um acarajé com a massa rosada viralizou nas redes sociais e despertou reações imediatas. De um lado, havia quem celebrasse a criatividade da vendedora e a capacidade de aproveitar um assunto em alta. De outro, pessoas ligadas à preservação do ofício das baianas argumentavam que o nome não deveria ser utilizado para uma receita modificada.
Anderson chamou a atenção para o funcionamento desse tipo de campanha. O marketing não depende apenas da aprovação. A divisão entre quem ama e quem odeia aumenta a circulação do produto. “O marketing precisa disso. Ele quer que as pessoas amem ou odeiem”, afirmou.
Wellingta recebeu a experiência com mais abertura. Para ela, existe uma dimensão lúdica na apropriação da cor, mas também uma discussão sobre quem pode usar o rosa. Durante a infância, ouviu que a tonalidade não combinaria com sua pele.
“A cor rosa tinha toda uma imposição sobre nós, mulheres, e principalmente sobre mulheres negras”, recordou. Ver o rosa apropriado em outros corpos, espaços e comidas poderia, portanto, produzir sentidos que ultrapassam a divulgação do filme.
Ela ponderou, no entanto, que a experimentação também está ligada à gourmetização. Pratos populares são retirados de seus contextos, modificados e vendidos por preços mais altos. O mesmo ocorre com o açaí, a maniçoba e diferentes receitas de origem indígena ou negra.
O que se altera quando a receita muda?
Andriolli identificou dois argumentos recorrentes na defesa do acarajé. O primeiro é legal e patrimonial: o ofício das baianas e seu modo de fazer foram reconhecidos como patrimônio cultural, o que estabelece ingredientes, formas de preparo, vestimentas e modos de comercialização.
Por esse entendimento, uma pessoa poderia vender um bolinho rosa inspirado na Barbie, mas não necessariamente apresentá-lo como acarajé. A mudança do nome permitiria distinguir a criação promocional da receita tradicional.
O segundo argumento é histórico. O acarajé está ligado às mulheres negras escravizadas que vendiam alimentos nas ruas e utilizavam essa atividade para garantir a sobrevivência ou reunir recursos para comprar a liberdade. Depois da abolição, o prato permaneceu associado a uma população pobre e marginalizada antes de adquirir valor turístico e comercial.
Quando a receita se torna rentável, outros grupos passam a disputá-la. “Você não está só tirando da tradição, mas do lastro histórico dessas pessoas”, explicou Andriolli.
O alimento também mantém sua relação com o candomblé e com Iansã. Esse vínculo ajuda a compreender as reações ao chamado “bolinho de Jesus”, comercializado por evangélicas que deixaram as religiões de matriz africana, mas continuaram exercendo o ofício de baianas.
A questão envolve uma situação concreta. Essas mulheres dependem da venda do alimento, mas podem passar a rejeitar a referência religiosa que acompanha sua história. Para Andriolli, trocar o nome como parte de uma demonização do candomblé pode apagar simultaneamente a religião, a receita e as mulheres negras ligadas ao prato.
A cultura muda, mas o poder não está distribuído igualmente
Anderson lembrou que o acarajé servido no terreiro não ocupa exatamente o mesmo lugar daquele vendido na rua. No espaço religioso, ele integra uma prática ritual. Na cidade, também precisa responder a preços, clientela e concorrência.
A separação não é absoluta. Para muitas pessoas do candomblé, o orixá permanece nos ingredientes e no alimento, independentemente de quem o prepara ou consome. O acarajé não deixa de carregar sua dimensão sagrada ao atravessar a porta do terreiro.
É justamente essa sobreposição que torna a polêmica mais complexa. Defender toda inovação como criatividade empreendedora pode ocultar os grupos que sustentaram uma receita durante gerações. Condenar qualquer alteração, por outro lado, ignora que os alimentos sempre circularam e foram transformados.
Ao passar por Parintins, pelas festas juninas e pelo acarajé rosa, o Hora Folk retorna à mesma questão: a cultura está em movimento, mas nem todos possuem o mesmo poder para determinar a direção dessa mudança. Estado, igrejas, empresas, plataformas e grandes marcas conseguem intervir com uma força muito diferente daquela disponível aos artistas locais, trabalhadores populares e comunidades tradicionais.
Observar essa desigualdade não exige congelar o folclore. Exige abandonar a ideia de que toda transformação é espontânea. Entre o boi que entra no Bumbódromo, a música escolhida para o arraial e o alimento tingido para acompanhar um lançamento mundial, sempre existem pessoas, recursos e interesses decidindo o que será preservado, vendido, silenciado ou colocado no centro da festa.
O episódio “Tretas juninas, Festival de Parintins, comidas da Barbie | Hora Folk 30” foi gravado em 23 de julho e publicado em 28 de julho de 2023. Participaram Anderson Awvas, Andriolli Costa, Otoniel Oliveira e Wellingta Macedo. Este texto foi produzido a partir da transcrição editada do programa, com a retirada de repetições e marcas de oralidade, sem alteração do sentido das falas.