Escritores e pesquisadores discutem como a obra de Lobato difundiu personagens do imaginário brasileiro, cristalizou determinadas versões do folclore e reproduziu ideias racistas que ainda desafiam escolas e mediadores de leitura.
Para gerações de brasileiros, o primeiro encontro com o saci, a cuca e outros personagens do imaginário popular aconteceu nas páginas ou nas adaptações televisivas do Sítio do Picapau Amarelo. O alcance da obra de José Bento Renato Monteiro Lobato contribuiu para difundir essas figuras, mas também ajudou a consolidar a impressão de que o folclore brasileiro caberia dentro de um único universo literário — infantil, rural e submetido ao olhar de um autor.
Essa associação foi questionada no episódio “Folclore é Lobato?”, do podcast Somando Visões. Mediado por Anderson Awvas, do Folclore BR, o debate reuniu Andriolli Costa, do projeto Colecionador de Sacis; Gustavo Rosseb, autor da série As Aventuras de Tibor Lobato; Renata Ventura, autora de A Arma Escarlate; e o escritor Alê Santos. Entre aproximações pessoais e divergências profundas, os participantes discutiram a influência de Lobato, o racismo presente em sua obra e os limites da ideia de “contextualizá-lo” em sala de aula.
A conversa não chegou a uma resposta única sobre a permanência do escritor no currículo escolar — e talvez nem pudesse chegar. De um lado, houve quem defendesse o estudo crítico de sua produção como documento de um período histórico. De outro, Alê Santos contestou a utilização de crianças negras como público obrigatório de uma pedagogia sobre o racismo. No centro da discussão permaneceu uma pergunta maior: como reconhecer a importância histórica de um autor sem transformá-lo em patrimônio intocável?
Diferentes caminhos até o Sítio
As primeiras experiências dos convidados com Lobato ajudam a dimensionar o alcance de sua obra. Gustavo Rosseb conheceu o Sítio do Picapau Amarelo pela televisão e pela escola. Mais tarde, ao escrever sua própria trilogia inspirada no folclore brasileiro, usou o sobrenome Lobato em homenagem ao escritor. Ao mesmo tempo, evitou reler seus livros durante o processo criativo, receoso de reproduzir escolhas já feitas por ele.
Renata Ventura começou por Reinações de Narizinho, embora guarde uma lembrança mais intensa de Os Doze Trabalhos de Hércules. Há uma ironia nesse percurso: seu maior encantamento inicial veio do encontro dos personagens do Sítio com a mitologia grega, e não necessariamente das narrativas brasileiras. O saci e a cuca chegaram principalmente pela televisão.
Na vida adulta, Ventura procurou justamente se afastar da imagem excessivamente infantilizada desses seres. Em seus livros, personagens como o boto, o quibungo e o próprio saci recuperam dimensões perigosas ou inquietantes. “Não queria que fossem criaturas bonitinhas”, explicou ao falar da ampliação gradual da faixa etária de suas histórias.
Alê Santos viveu e estudou durante cinco anos em Taubaté, cidade natal de Lobato. Ali, encontrou uma celebração pública quase permanente do escritor, com personagens espalhados pela cidade e uma espécie de culto cívico em torno de seu nome. A experiência reforçou sua crítica à forma como a obra lobatiana foi institucionalizada e transformada em representação do próprio país.
Andriolli Costa teve um contato consciente mais tardio. Leu Lobato aos 18 ou 19 anos, quando assumiu uma pesquisa universitária sobre o folclore nas adaptações televisivas do Sítio. Os livros já estavam em casa porque haviam sido exigidos pela escola da irmã, mas não tinham feito parte de sua própria formação escolar.
“Não temos que ter ícones intocáveis”
Antes de avaliar as contribuições de Lobato, Andriolli estabeleceu uma distinção importante: reconhecer um autor como objeto de pesquisa não significa defendê-lo. “A gente não tem que ter ícones intocáveis de jeito nenhum”, afirmou.
Essa posição também permite reconhecer que leitores diferentes têm relações diferentes com a mesma obra. Para um pesquisador, estudar Lobato pode ajudar a compreender a formação da literatura infantil, a circulação editorial do folclore e a história das ideias raciais no Brasil. Para um leitor negro diretamente atingido pelo racismo presente nos textos, a recusa pode ser uma escolha pessoal e política legítima.
“Ninguém é obrigado a ler Lobato”, resumiu Andriolli. Em sua avaliação, alguns leitores podem decidir não passar por essa obra, enquanto outros buscarão nela elementos para compreender como determinadas violências foram construídas e reproduzidas. O problema aparece quando o autor deixa de ser uma possibilidade de estudo e se transforma em passagem obrigatória para qualquer discussão sobre literatura infantil ou cultura popular.
Lobato apresentou o folclore ou passou a representá-lo?
Uma das maiores divergências surgiu quando os participantes discutiram a ideia de que, sem Lobato, os brasileiros conheceriam menos o próprio folclore. Gustavo Rosseb observou que seu contato com personagens como o saci ocorreu por meio da escola e do Sítio. Embora sua avó, vinda do interior, carregasse histórias e costumes tradicionais, foi a obra lobatiana que lhe apresentou conscientemente parte desse universo.
Alê Santos questionou a formulação. “O folclore vem da tradição oral”, disse. Antes dos livros de Lobato, essas narrativas já circulavam entre populações indígenas, negras, rurais e populares. Para o escritor, Lobato utilizou o prestígio, a riqueza e os espaços de publicação disponíveis a um homem branco ligado ao pensamento higienista para filtrar e centralizar histórias que não haviam sido criadas por ele.
Andriolli lembrou que os primeiros registros escritos do folclore brasileiro foram frequentemente produzidos por intelectuais e jornais que apresentavam as narrativas populares como curiosidades ou “bobagens do povo”. Lobato ocupou um espaço privilegiado na imprensa para convocar leitores a enviarem relatos sobre o saci. O material deu origem ao Inquérito sobre o Saci.
O privilégio que lhe permitiu organizar o levantamento, portanto, não deve ser ignorado. Tampouco o fato de que ele colocou em destaque um assunto que a imprensa costumava tratar com condescendência. As duas dimensões podem coexistir: Lobato ampliou a circulação de certas narrativas e, ao mesmo tempo, tornou-se um mediador central de tradições que já pertenciam a muitas comunidades.
Quando folclore vira sinônimo de Sítio
O resultado dessa centralidade ainda pode ser percebido. Anderson Awvas relatou encontrar pessoas que acreditam que Lobato teria inventado personagens como o saci. Em atividades escolares, folclore, Sítio e literatura infantil aparecem muitas vezes como ideias praticamente equivalentes.
Gustavo Rosseb citou como exemplo a versão segundo a qual o saci nasce aos sete anos e morre aos 77. A informação, associada à construção literária lobatiana, passou a ser repetida como se fosse uma característica universal do personagem.
Renata Ventura encontrou outro efeito dessa associação quando começou a apresentar seu projeto de uma comunidade brasileira de bruxos. A reação de parte do público era a de que o folclore seria infantil, ingênuo ou incapaz de sustentar narrativas para leitores mais velhos. A referência imediata continuava sendo o Sítio do Picapau Amarelo.
Ao escrever As Aventuras de Tibor Lobato, Rosseb também procurou preencher uma ausência que percebia nas livrarias. Havia aventuras juvenis estrangeiras, com a estética de séries como Harry Potter ou Jogos Vorazes, mas poucas obras contemporâneas que colocassem personagens brasileiros em tramas semelhantes. Para encontrar uma atmosfera mais sombria, recorreu às histórias que provocavam medo e obrigavam a criança a olhar embaixo da cama antes de dormir.
A chamada infantilização do folclore, porém, não pode ser atribuída apenas aos livros de Lobato. Andriolli advertiu que muitas críticas são dirigidas a uma lembrança das adaptações televisivas do Sítio, e não à leitura das obras. Distinguir o texto literário de suas versões para a televisão é necessário para compreender o que cada meio acrescentou ou suprimiu.
A oralidade multiplica; a literatura escolhe
Na tradição oral, não existe um único saci. Ele pode aparecer como criança, adulto, criatura demoníaca, protetor, brincalhão ou ameaça. “Quando eu falo ‘saci’, cada um pensou em um saci diferente”, observou Andriolli.
A literatura funciona de outra maneira. Para inserir o personagem em uma narrativa, o autor precisa escolher sua aparência, sua personalidade e sua função na história. “A literatura vai cristalizar uma forma”, explicou o pesquisador. Essa cristalização não é necessariamente um erro: trata-se de uma exigência da própria construção ficcional. O problema surge quando uma versão específica passa a ser apresentada como a única legítima.
O Inquérito sobre o Saci reuniu mais de 70 depoimentos, segundo Andriolli. Neles, o personagem podia ser amistoso ou assustador, atacar animais, pregar peças e até auxiliar relacionamentos amorosos. Já em O Saci, publicado em 1921, Lobato precisou fazer escolhas entre essas possibilidades.
O mesmo ocorre com autores contemporâneos. Renata criou o saci Peteca; Rosseb, o Zé Pereira. Cada personagem nasce de referências tradicionais, mas também das necessidades particulares de uma obra. A literatura não apenas preserva o folclore: ela interfere nele, reorganiza suas imagens e pode criar versões que mais tarde retornam à circulação popular.
“Quem precisa ser contextualizado são os brancos”
A discussão tornou-se mais tensa quando Anderson perguntou como as escolas deveriam lidar com o racismo de Lobato. Excluir livros resolveria o problema? Entregá-los aos estudantes sem mediação seria aceitável? A contextualização histórica seria suficiente?
Alê Santos contestou o próprio ponto de partida. “Negro não precisa ser contextualizado sobre racismo. Quem precisa ser contextualizado sobre o racismo são os brancos”, afirmou. Crianças negras, argumentou, não precisam ser novamente submetidas a insultos e representações degradantes para que estudantes brancos compreendam o funcionamento da discriminação.
Para Santos, existe um paradoxo quando um professor branco utiliza uma obra racista para explicar a jovens negros o que significa sofrer racismo. O objetivo pedagógico pode ser ensinar história, mas a experiência concreta do aluno pode ser a repetição de uma violência que ele já conhece.
Andriolli sugeriu que a discussão mais complexa sobre Lobato talvez fosse adequada a estudantes de 14 ou 15 anos, quando temas como racismo científico, determinismo, positivismo e eugenia podem ser abordados de maneira mais aprofundada. Embora parte da obra seja classificada como infantil, seus desdobramentos políticos e sociais não o são.
A proposta rejeita a justificativa simplificadora de que Lobato seria apenas “um homem de seu tempo”. O período em que viveu precisa ser investigado: quais teorias circulavam, quem as defendia, quem as contestava e de que maneira o prestígio científico foi empregado para legitimar hierarquias raciais.
Santos recordou que essas ideias não ficaram confinadas ao início do século XX. O imaginário que relaciona pessoas negras à criminalidade continua presente em instituições e práticas policiais. Como exemplo do poder de reprodução dessas imagens, contou ter assistido a uma peça na antiga fazenda de Lobato em que crianças da plateia rapidamente repetiram um insulto racial dirigido a Tia Nastácia e riram da cena.
O episódio mostra que a mediação não pode ser presumida apenas porque a atividade acontece em um espaço cultural ou escolar. Professores precisam de formação para reconhecer o problema, interromper sua reprodução e trabalhar com alunos que ocupam posições muito diferentes diante do racismo.
Andriolli também lembrou que as próprias narrativas folclóricas podem carregar preconceitos. O antigo ciclo de histórias de Pai José, por exemplo, contém representações racistas que não deveriam ser recontadas apenas como anedotas. Elas podem ajudar a investigar a criminalização histórica da população negra, mas exigem propósito pedagógico, preparação e responsabilidade.
Santos manteve sua objeção: se o objetivo é retirar imagens racistas da formação das crianças, não faria sentido repovoar esse imaginário por meio de Lobato. Adultos e pesquisadores podem estudá-lo em outros níveis de ensino. A divergência evidencia que “contextualizar” não é uma solução automática; é uma decisão que depende do público, do método e das consequências para quem participa da aula.
O domínio público abre uma nova disputa
Quando o debate original aconteceu, em 2018, a obra de Lobato estava prestes a entrar em domínio público, o que ocorreu em 2019. Os participantes previram uma multiplicação de edições, adaptações audiovisuais, releituras de terror, livros digitais gratuitos e novos usos dos personagens.
O domínio público pode permitir que autores negros e indígenas ocupem um universo editorial do qual historicamente foram afastados. Alê Santos viu nessa abertura a possibilidade de outras pessoas apresentarem seus imaginários, reconstruírem personagens e contarem narrativas que não encontrariam espaço no período de Lobato.
Isso não significa, advertiu, que o racismo desapareceria “magicamente”. A liberdade de adaptação também permite reedições sem análise crítica, obras que preservam estereótipos e produtos interessados apenas na força comercial do nome do escritor.
Andriolli chamou a atenção para o efeito nas escolas. Com textos gratuitos e disponíveis para qualquer editora, novos “pacotes Lobato” poderiam voltar a abastecer bibliotecas e programas de leitura. A entrada em domínio público tornava o debate mais urgente, não menos necessário.
O pesquisador também recusou leituras rápidas do próprio Inquérito sobre o Saci. É correto observar que boa parte dos colaboradores pertencia ao universo letrado e assinante de jornal. Uma leitura integral, porém, revela depoimentos recolhidos de tropeiros, trabalhadores negros, antigas amas de leite e outros informantes populares. Reconhecer essas vozes exige analisar quem registrou cada narrativa, em quais condições e por meio de quais filtros.
Uma herança que não precisa de dono
Lobato participou da formação do mercado editorial brasileiro, publicou e traduziu obras estrangeiras, adaptou fábulas para crianças e abriu espaços para o folclore em iniciativas como o Inquérito sobre o Saci e a Revista do Brasil. Essas contribuições ajudam a explicar sua projeção, mas não anulam o conteúdo racista de seus textos nem os posicionamentos que assumiu publicamente.
“Lobato tem várias facetas. Uma delas é racista, e isso não deve ser renegado. Racismo não é uma coisa menor”, sintetizou Andriolli. Para ele, o estudo da obra ainda pode produzir conhecimento, desde que o escritor seja tratado como uma pessoa historicamente situada e questionável.
Também não é necessário atravessar Lobato para chegar ao folclore. Existem outros escritores, pesquisadores, narradores populares e comunidades responsáveis pela continuidade dessas tradições. Até a ordem para “esquecer Lobato” corre o risco de mantê-lo no centro da conversa.
O debate deixa, portanto, menos uma sentença sobre quais livros devem permanecer nas estantes do que um alerta sobre a maneira de lê-los. Reconhecer a influência de Lobato não significa entregar-lhe a propriedade sobre o imaginário brasileiro. Criticar seu racismo não exige apagar as disputas editoriais e culturais das quais participou. O desafio é impedir que importância histórica se converta em imunidade — e garantir que as vozes antes filtradas ou marginalizadas possam contar suas próprias histórias.
O bate-papo foi realizado ao vivo na segunda edição do evento virtual Folclore BR: Somando Visões, em 2018. A versão editada em vídeo e podcast, com 1h11 de duração, estreou em 26 de janeiro de 2021. Participaram Anderson Awvas, Andriolli Costa, Gustavo Rosseb, Renata Ventura e Alê Santos. O episódio pode ser encontrado na página do Folclore BR no Castbox. Este texto foi produzido a partir da transcrição editada da conversa, com a retirada de repetições e marcas de oralidade, sem alteração do sentido das falas.