[Resenha] Cira e o Velho

capa_cira_rgbAs terríveis e fascinantes narrativas das entradas e bandeiras do Brasil Colônia são uma etapa de nossa história que nunca revisitei. Tenho a impressão que para os colegas paulistas, especialmente devido a todo o patrimônio cultural dedicado aos bandeirantes, esse universo é muito mais presente. Para mim, entretanto, meu primeiro e único contato foi no ensino fundamental e nunca mais.

Justamente por isso demorei várias e várias páginas até perceber que o antagonista (ou seria o protagonista?) de Cira e o Velho, o bandeirante Domingos Jorge Velho havia sido realmente um personagem histórico. Acho que foi apenas quando o Quilombo dos Palmares apareceu na história que alguma memória sobre o assunto reascendeu, dando ao livro um colorido ainda mais interessante. Eu já havia gostado do livro, mas as partes que se referem ao passado de longe são as minhas favoritas.

Cira e o Velho é a obra de estreia de Walter Tierno, e conta a história de um narrador obcecado por Cira. Uma personagem folclórica cuja única menção vista na mitologia brasileira havia sido em uma esquecida figurinha colecionável de criança, que dizia.

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“Cira, filha de uma bruxa e de Cobra Norato. Diz-se que matou a princesa da grande cidade perdida e libertou os tatus. Em algumas regiões, conta-se que lutou contra um bando de lobisomens e que participou da guerra dos Palmares, lutando ao lado de Zumbi”.

O livro então alterna-se entre a busca do narrador por personagens que conhecem mais sobre a história de Cira e a própria narrativa do passado, onde Domingos Velho é ludibriado para tomar parte de uma eterna contenda entre irmãos. A história de Cobra Norato e Maria Caninana é famosa no Norte do país, e se fez ouvida em todo o Brasil. Ele, uma serpente honrada, justa, namoradora. Ela, criatura de puro ódio, incapaz de amar.

Os personagens

ciraarmada_thumb2Em Cira, na tentativa de buscar uma vingança juramentada, Caninana oferece os seus filhos e os de seu irmão em sacrifício ao Senhor das Mentiras. Convoca então bestas e homens para fazer o trabalho sujo, sendo o Velho um dos últimos. Cira era filha da bruxa Guaraci, e a favorita de Norato, a quem ele visitava constantemente. Sobrevivendo graças a um feitiço, ela volta mais tarde, virada em uma adulta e extremamente poderosa.

Ela e sua mãe são descendentes das iaras, por isso possuem o poder da canção. Com a voz ancestral tornada música, são capazes de magias poderosas. Em sua versão definitiva, Cira conta com seus poderes mágicos, com uma adaga de prata dada pelos tatus e com o crânio enfeitiçado de seu pai, que ela usa preso aos ombros e que é capaz de morder e atacar. Numa das melhores cenas, o crânio arranca a língua de um entorpecido curupira para que possa arrancar dele as informações necessárias, falando com sua voz.

Domingos Jorge Velho foi um bandeirante mestiço, celebrado codomingos-jorge-velhomo um dos maiores do Brasil. Perseguidor de índios, gravou seu nome na história após ter comandado a destruição do Quilombo dos Palmares, em 1694. A narrativa do livro constrói o personagem de Domingos de uma maneira muito interessante, mais até do que Cira. Ele é bruto, preconceituoso, vil, mas bastante inteligente e ardiloso. É essa turronice é tamanha que o faz passar por cima de qualquer artifício mágico que se coloque em seu lugar.

É com a mesma brutalidade que as ações dos bandeirantes são descritas. Os homens espancam, estupram, degolam e aleijam mulheres e crianças sem dó. A própria Cira, quando é capturada, tem sua coluna vertebral partida pelo gigante escravo Martelo, e é violentada aos 11 anos de idade por um dos ajuntantes do Velho. As cenas são descritas com detalhes gráficos de violência, mas são superficiais o suficiente para não serem de mau gosto. Ainda assim, logo se percebe pelo texto que não é um livro para crianças. O mesmo entretanto não se pode dizer sobre os desenhos.

Pontos fracos

morte_thumb2Tenho sérias dúvidas quanto a necessidade das ilustrações que compõe o livro. Ainda que demonstrando sangue e certa violência, o traço é visivelmente infantilizado, o que dá uma impressão dúbia. É como se o livro tentasse de vender para o público infantil (como tive a impressão logo no começo, com a descrição das “formas de conseguir uma figurinha”), mas que a brutalidade da história não acompanha.

Outro detalhe que desgostei na narrativa do presente foi a versão contemporânea dos seres mitológicos sobreviventes. Cobra Norato, por exemplo, é mantido preso em um galpão de Escola de Samba. O Curupira, guardião da floresta, tornou-se um cafetão. Achei interessante a proposta de perversão dos mitos, mas as escolhas feitas parecem deslocadas demais de qualquer indício de personalidade dos seres. Diferente da referência óbvia, Deuses Americanos, em que Neil Gaiman atualiza os deuses em um novo ambiente, mas mantendo sua essência. Na versão de Walter Tierno, todo o presente soa como uma caricatura.

ilustracoes-waltertiernoPara não dizer que tudo no passado era maravilhoso, a história da princesa encantada e o reino dos tatus também foi bastante superficial e conveniente. O melhor desse trecho é a presença do rei dos tatus. Aliás, todo o conceito dos animais-rei é muito interessante e vem direto dos contos populares. Walter trabalha a proposta, para dizer que todo animal tem seu rei, e apenas ele pode se comunicar na língua dos humanos. Uma proposta fantástica que dá muito pano para manga.

Nota: 3,5/5

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