[Resenha] Papa Capim – Noite Branca (Spoilers)

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Havia muita expectativa sobre Papa Capim – Noite Branca. A história em quadrinhos, escrita por Marcela Godoy e ilustrada por Renato Guedes, não carregava apenas a responsabilidade de ser a 11ª Graphic MSP – o projeto inovador de adaptar para uma linguagem mais adulta os personagens da Turma da Mônica. Era também o primeiro a investir numa narrativa de terror. Nesta resenha, no Colecionador de Sacis, vamos apresentar alguns poucos spoilers da narrativa para poder investigá-la nos critérios que mais julgamos relevantes no contexto do blog.

Na adaptação, Papa Capim é um pequeno indígena – na faixa de seus 10 anos de idade – que está tentando se provar como homem e guerreiro. Certo dia ele se depara com um guerreiro de outra tribo mortalmente ferido, tanto em corpo quanto em espírito. O homem é o último sobrevivente do ataque da misteriosa Noite Branca, que agora se aproxima da tribo de Papa Capim. Os sinais do avanço dos inimigo são claros, mas ninguém acredita no que o menino tenta contar. Caberá a Papa Capim a missão de proteger sua tribo e seus amigos dos horrores que se aproximam.

A pesquisa e reflexão para a feitura da obra é evidente. Isso pode ser visto pelo respeito à cultura indígena e pelas referências espalhadas no texto. Há menções a poemas indigenistas e depoimentos de indígenas que são usados para costurar os acontecimentos da obra. Mas será que essas referências foram bem utilizadas? Além disso, houve muita pesquisa para definir quem seriam os antagonistas desta história, resgatando uma obscura lenda brasileira. Mas será que isso fez diferença? Vamos averiguar estas questões.

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Tatus da noite branca

Nos previews de lançamento da Graphic Novel uma pergunta era sempre frequente: qual lenda do folclore brasileiro serviu de inspiração para a Noite Branca? A pergunta era impossível de ser respondida. Marcela Godoy diz ter se inspirado nos Tatus Brancos, uma tribo de índios canibais de Minas Gerais. Dizem que viviam em cavernas, saiam principalmente a noite e tinham olhos capazes de ver no escuro com facilidade, o que atiçava o medo e a curiosidade dos bandeirantes. No entanto, a referência mais gritante em toda a revista certamente é a dos vampiros europeus, o que distorceu tanto a referência aos Tatus que ela só fica clara para quem lê os extras.

Este, inclusive, é o principal problema da história para mim: ela fica muito mais interessante depois que se lê os extras. Isso, no entanto, significa que o projeto foi muito bem pensado, mas pecou em alguns pontos na execução. Vejam só: nos extras fica claro que a proposta da autora era fazer com que Noite Branca fosse, ao mesmo tempo que uma referência aos Tatus Brancos, uma metáfora de que a chegada do homem branco trouxe o fim da aurora dos indígenas. É isso que justifica o uso dos vampiros como monstro principal e o lindo depoimento colhido por Davi Kopenawa Yanomami.

Eu era um menino, mas começava a tomar consciência das coisas. Foi lá que comecei a crescer e descobri os brancos. Eu nunca os vira, não sabia nada deles. Nem mesmo pensava que eles existissem. Quando os avistei, chorei de medo. Os adultos já os haviam encontrado algumas vezes, mas eu, nunca! Pensei que eram espíritos canibais e que iam nos devorar. Eu os achava muito feios, esbranquiçados e peludos. Eles eram tão diferentes que me aterrorizavam.

Ainda que no papel essa relação ficasse evidente e muito bem pensada, terminei a HQ sem que esta visão tivesse realmente alguma pregnância em minha leitura. Isto porque existem outros elementos dispostos na narrativa que tornam a percepção de que a história é uma metonímia da resistência de índios contra os brancos muito difusa.

Aquele que vai ser morto

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Logo no começo de Papa Capim, por exemplo, quando a tribo se prepara para o ataque dos Noite Branca, temos a inserção de um trecho do poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, cuja tradução seria “Aquele que vai ser morto”. No poema, um índio Tupi capturado pela tribo Timbira – conhecida por seus atos de canibalismo – implora pela vida para que possa cuidar de seu pai doente. Promete, em seu choro, voltar para ser preso e devorado após a morte do pai. O cacique Timbira libera o homem, enojado por este ter implorado pela vida, e diz que o Guerreiro não precisa voltar. Não valia a pena alimentar sua tribo com o coração de um covarde. Humilhado pelos seus captores e, mais tarde, pelo próprio pai, o Tupi volta e enfrenta a tribo Timbira toda sozinho para recuperar sua honra.

O que temos, portanto, é um elemento de conotação que nos leva a luta de Índios contra Índios, não contra brancos.

Isso se reforça mais tarde quando, em determinado momento, é revelada a origem dos Noite Branca. Dizem que um homem branco, vindo de um navio perdido, encalhou próximo as terras dos índios. Logo o homem começou a assassinar os povos da terra, revelando-se forte e poderoso. O vampiro estrangeiro, por fim, foi capturado e morto. No entanto, um cacique ganancioso desejando a força do inimigo decidiu devorar o coração da criatura. O cacique, então, teve sua alma destruída e tornou-se ele próprio um monstro – que arregimentava novas almas para formar um grande exército de índios amaldiçoados.

Mais uma vez, não temos o combate de índios contra brancos, mas contra índios corrompidos.

Claro, sabemos que algo assim aconteceu na historiografia brasileira. Diversas tribos aliavam-se aos europeus para enfrentar seus adversários, acreditando que o inimigo de seu inimigo era um aliado. No entanto, para a lógica interna da história, isso foi prejudicial. Talvez se os inimigos tivessem sido assumidos como vampiros, essa proposta tivesse sido melhor executada.

Uma história de terror?

papacapim-10A arte realista de Renato Guedes – as vezes até parecendo um recorte de fotografias – colabora muito para manter o clima de opressão. Mas ainda que tenha cenas bastante dramáticas, com indígenas sendo atacados e arrastados para a escuridão pelos vampiros da Noite Branca, é difícil considerar a história como sendo realmente de terror após a virada de seu segundo ato. Papa Capim entra em contato com Honorato, filho da Cobra Grande, e renasce tendo em si os poderes da Natureza. A partir de então ele passa a controlar os animais, as plantas e escutar o próprio céu. Na desforra contra as forças do mal, cenas de catarse tomam conta. Ao ponto de vermos um macaco enforcando um Noite Branca usando uma cobra. Torna-se, então, uma história de aventura – apenas com tintas mais escuras.

Papa Capim – Noite Branca é uma obra interessante que vale a pena ter na estante. Infelizmente, alguns problemas estruturais a impedem de ser tão bacana quanto deixa transparecer nos extras.

Nota: 3/5

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Uma resposta para “[Resenha] Papa Capim – Noite Branca (Spoilers)

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