[Resenha] Chico Bento – Arvorada

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Por Andriolli Costa

Hoje minha avó fez 70 anos. Os quase 1,5 mil quilômetros de distância que nos separam não permitiram que eu pudesse estar fisicamente com ela. Não pude experimentar o “almocinho bem reba” que ela fez no dia, pois estava sem apetite. Também não provei nenhuma fatia do bolo-pudim de sobremesa que, apesar da estrutura engenhosa, desabou todo na hora de virar para o prato. Mas pude compartilhar com ela, mesmo por telefone, um pouco do que é realmente importante. Um pouco de nossas histórias.

E foi com essa mesma saudade esquentando o peito que terminei a leitura de Chico Bento – Arvorada, de Orlandeli. O mais novo quadrinho da série Graphic MSP abraça não só a nostalgia dessa infância encantada, mas compreende e apresenta para o leitor urbano o valor desses saberes ancestrais. Chico Bento, como bem aponta o cantor Renato Teixeira na quarta-capa, é o elo que nos une com esse outro tempo que também pode ser nosso.

O álbum marca também meu retorno enquanto leitor para essa série da MSP após alguns álbuns a meu ver menos empolgantes. Em Louco, de Rogério Coelho, a metáfora poética da criatividade enquanto pássaro enjaulado que deve ser solto me pareceu simplória demais para a complexidade estética do álbum. Em Papa Capim: Noite Branca, de Marcela Godoy e Renato Guedes, a metáfora de resistência ao terror estrangeiro se perde em índices que remetem mais a luta de índios contra os próprios índios – como já apontado em nossa resenha.

Em Arvorada, por outro lado, tudo casa perfeitamente. A arte angulosa de Orlandeli se desdobra, página a página, envolvendo a cena e traduzindo em planos amplos e limpos a simplicidade poética da narrativa. O texto escrito também é lindo, e incorpora perfeitamente a integração entre forma e conteúdo. O uso da linguagem coloquial, carregada no sotaque caipira, algo que normalmente critico, é totalmente condizente com a obra. Primeiro por já ser uma tradição nas histórias do Chico, segundo por que não há descolamento entre narrador-personagens. Todos pertencem ao mesmo universo, todos são envolvidos pela cultura do povo.

Morte e vida

Um dos elementos narrativos mais interessantes da HQ para mim está no fato de o Medo estar sempre presente na história. O medo do tempo e de sua passagem, o medo da perda, de esquecer o que é realmente importante. E, é claro, o medo da morte. Mas não é um medo paralisador, daqueles que te deixa prostrado diante dos desafios, mas o que te instiga ao enfrentamento. Viver é o maior ato de resistência à morte, sentir a plenitude da vida em cada momento – mesmo que tão breve quanto a florada dos ipês. E é ouvindo e contando histórias que esse chamado vai sendo passado para frente.

A mensagem parece óbvia? Tudo é óbvio quando você já sabe a resposta. Quando a imagem já foi traduzida em verbo. Acontece que quem traduz primeiro esta mensagem é a cultura popular, com seus ditados, benzeduras e toadas. Com seus mitos, suas lendas e seus causos. A poesia do povo transforma a existência em verso simples, sem redondilha, mas pleno de significado. A gente só precisa saber ouvir. Ou melhor, precisa “ver com os olhos, mas enxergar com o coração”, como nos lembra o quadrinho.

Chico ouviu Vó Dita. Abriu os olhos para a arvorada, sentindo cada mordida da goiaba, cada mergulho no ribeirão. Mesmo assim, o mesmo vento que assopra na roça, refrescando quem sofre na lida, é o vento que assovia forte por entre o taquaral. Que devassa a colheita, que assusta o gado, que faz tremer as estruturas da casa. É o vento que traz de volta o medo.

A função do medo

18618652_10208267252873217_2145330549_oUma vez, em uma apresentação que fiz sobre a importância do saci, uma senhora quis saber para que servia contar histórias de saci. Ou melhor, queria entender, exatamente, “qual o objetivo de contar histórias para colocar medo na criança?”.

É uma pergunta válida, e para respondê-la é preciso trazer duas reflexões. A primeira é que os mitos folclóricos não “servem” para alguma coisa. Eles cumprem uma função pedagógica, isso é verdade, mas a ordem é indireta. Os mitos não existem pela função que exercem, mas cumprem essa função justamente por que existem. Por que nos tomam.

O medo é o pai do imaginário, mas é uma leitura muito simplória entender este medo como o ponto de chegada de um mito. Que medo é esse? O que tememos? Pense no Saci: um mito que traz o caos, reflexo do medo que temos de perder o controle. Tanto é que assim que se fala sobre o saci, logo se ensina a captura-lo. Tirar a carapuça do saci e prendê-lo em uma garrafa é a tentativa de reestabelecer a ordem perdida.

E o lobisomem? O licantropo brasileiro é um amaldiçoado miserável, homem pobre, doente e faminto, vive sempre fraco e amarelo. Nas noites de quinta para sexta-feira, o coitado se espoja num monte de esterco de bicho e se transforma em fera. Aí está o medo, novamente. O medo de nós mesmos, do outro que habita em nós, que pode dominar nossa natureza e nos fazer abandonar a razão.

Com o medo vem também o respeito. O Curupira e o Caipora exigem um tributo para que se entre na mata, além do cumprimento de um código de conduta na lida com a natureza. É o mesmo que se vê em outro mito correlato, a Cumade Fulozinha – por vezes descrito como a caipora fêmea de Pernambuco. O mato não é nosso, para entrar é preciso pedir a benção respeitosa da comadre.

O respeito para com os causos que tem Vó Dita é devolvido a ela no final, na mais linda cena de toda a HQ. Uma mensagem poderosa que nos inspira e envolve, como toda boa história. Como toda história de vó.

Terminei Arvorada e fui imediatamente ligar para a minha vó Marlene. Longe dela, e de tudo o que sua chacrinha representa, essa nova Graphic MSP me emocionou ainda mais. À distância, ano após ano, admiro a brevidade da arvorada de ipês amarelos com a já calorosa certeza de que sempre terei companhia. Obrigado Orlandeli e Sidney Gusman por esse presente.

Nota: 5/5

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