Saci Pererê está deprimido

saci depressivo

Todas as imagens deste post foram edições das fotos do site do Saci Urbano, de Tiago Vaz. Clique para conferir.

Por Andriolli Costa

Nas esquinas e vielas das metrópoles às brenhas e grotões das terrinhas mais isoladas do Brasil, ninguém mais escuta sua gargalhada. O assobio ouvido é apenas o canto de um pássaro. O vendaval, apenas um redemoinho. Saci Pererê está desaparecido há uma semana. Escafedeu-se. Tomou chá de sumiço. Nem mesmo os típicos agradinhos que se costumava oferecer para atrair o perneta parecem funcionar. O fumo de corda pega sereno na porteira sem nunca ser tocado. Potinhos com amora, angu e cachaça se acumulam nas soleiras das portas, fazendo a alegria dos bichos. Mas saci, que é bom, nem a sombra.

O povo que é dado a mexericos especula que só pode haver um motivo para tal reclusão: Saci Pererê está deprimido. A constatação beira o absurdo. Não é qualquer coisa, afinal, que consegue tirar do sério aquele que por mais de um século foi considerado o maior mito brasileiro. Exemplo é o que não falta. Todo 31 de outubro, quando alguém debocha dele e comemora o Halloween, o Saci tem uma vingança armada na manga. Pica cada uma das lanternas de abóbora que encontra, mistura com carne seca e passa tudo no papo. Não sobra nem a casca.

Esses dias uma rede de TV resolveu estampar um saci branco virado no whey para homenagear o clube de futebol que o negrinho apadrinha. O Saci ficou com câimbra na barriga de tanto rir dos memes que espalhou no Facebook. É que o saci adora uma trolada – ou seria uma sacizada? – e é mestre em sacanear os outro tanto no online quanto no offline.

Só que sacanagem maior do que a feita na última quinta-feira, 12 de maio, nem mesmo o Saci pode equiparar. A confirmação do Impeachment foi uma história de terror que ofuscou a própria sexta-feira 13, que passou em branco no dia seguinte. Esta sacanagem com mais de 54 milhões de eleitores a cada dia mais se traduz numa grande pegadinha. E quem foi pego, de calças curtas, foi o povo brasileiro.

O Golpe político, orquestrado por parlamentares ficha-suja, passou uma rasteira no País, derrubando a presidenta Dilma Rouseff – legitimamente eleita e sem nenhuma acusação – e com ela a própria ilusão de que, neste Estado Democrático do Direito, o povo possui alguma voz ativa. O resultado disso tem afetado diversas áreas, inclusive o folclore. É daí que sai a constatação: Saci Pererê está depressivo, andam dizendo, por que não é mais nosso maior mito. Agora é a Democracia que, ao morrer, tornou-se o grande mito do País.

Saci deprimido é como espetinho sem mandioca no Centro-Oeste. Você sabe que está faltando alguma coisa. Não tem a mesma graça. Saci deprimido é Sinatra resfriado – só que pior. Por que a depressão tira do saci algo que não dá para por no seguro: sua própria essência. O duende sempre foi de rir dos poderosos, de debochar de si mesmo. Essa é a grande arma dos oprimidos, mas e quando a risada é de nervosismo?

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“Ele gosta de ver o circo pegar fogo”, conta a historiadora carioca Glaucia Santos Garcia, que já fez muita gente navegar com o saci e seus amigos em sua revista, a Jangada Brasil. Saci é atentado, mas não é bobo nem nada. Sabia que aquele papo furado de “primeiro a gente tira um, depois tira o outro” era conversa para boi dormir. Só não esperava que a pancada viesse tão forte. Para Glaucia, o desgosto do Saci foi ver a jovem democracia, que mal e mal havia virado balzaquiana – depois dos longos anos de ditadura – ser atacada mais uma vez.

Autor de diversos retratos de Saci – para os quais ele sempre posou com muito gosto – o escritor e professor de artes Vilson Gonçalves, lá do Paraná, reconhece os sinais. O perneta está “decididamente furibundo”. Ficou mais ultrajado ainda quando soube que o principal articulador do golpe não era nada mais, nada menos, que um vampiro. Mas não daqueles tradicionais, filhos da Transilvânia. Desses o Saci não guarda nenhuma simpatia, mas ele próprio já foi de dar umas mordiscadas no pescoço dos cavalos só para ver qual era. Diga-se de passagem, o nosso duende também nunca foi muito chegado a alho e nem em cruzes.

O problema é que o vampiro, no caso, não se alimenta de sangue, mas de poder. São os piores. Daqueles tipos que aguardam nas sombras, quase decorativos, e na primeira oportunidade armam o bote. Pior de tudo é que este parasita em questão não é dos que teme a cruz. Muito pelo contrário, se abraça a ela sem o menor pudor, na vã tentativa de disfarçar sua verdadeira natureza. Fala em nomes santos, une-se a pastores e religiosos, mas só acaba deixando ainda mais claro quem realmente anda servindo. E se tem uma coisa que saci odeia mais do que vampiro é hipocrisia.

A professora de história Luciana Mendes, de Mato Grosso do Sul, tem outra hipótese. A tristeza do Saci foi ver que as pessoas, agora, não tem mais nenhum respeito pelas criaturas mitológicas. Agora tudo é mito. Ou pior, Bolsomito. Se existe mitificação deste novo monstro que assola o país, sabemos muito bem o que ele representa. Um mito de ódio, de intolerância e opressão. O total oposto do saci, que sempre representou o contrário: era um mito de liberdade, dos oprimidos, de enfrentamento. Mil vezes ser um Sacimito que um Bolsomito da vida.

Bezerra da Silva dizia que o Brasil só sairia da baderna quando morcego doasse sangue e saci cruzasse as pernas. Saci sempre gostou da baderna – é daí que sai a nossa força criativa. Se Saci realmente está deprimido, ele não cruzou as pernas, mas os braços. Lavou as mãozinhas de palmas furadas e se foi. Que espaço haveria, afinal, para saci num Brasil como esse, onde quem levanta a voz contra racismo está de “mimimi”? Onde denúncias contra o machismo são “ficções de esquerda”? Onde quem sonha, cria e inventa é vagabundo e tem mais é que trabalhar? Onde saci não é visto como potência, mas como sinônimo de aleijado?

Tem gente que pensa que o grande inimigo da Cultura Popular neste mundo é a Ciência. Ledo engano, ambas são fatias do mesmo pão do conhecimento. Um é o saber informal, da tradição, da vivência. O outro do cálculo, da projeção, da verificação. São irmãos que brigam, mas se entendem. O grande inimigo destas duas mesmo é o poder. E os vampiros do poder não querem saber de conhecimento, ignoram os processos. Quando a crise aperta, as primeiras torneias fechadas são os “supérfulos”. A pena é ver que tudo isso é feito como reflexo de um pensamento que domina boa parte da população brasileira. Motivo para a tristeza do saci, certamente não falta.

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A tese de depressão, no entanto, não tem apoio da Sociedade dos Observadores de Sacis. Fundada em 2004, o pessoal da entidade reúne hoje mais de 2 mil membros que se dedicam a sensível arte de observar sacis. Um ato que, ainda que não possua tanto reconhecimento quanto a observação de pássaros, é igualmente fascinante. Não basta apenas saber identificar o saci pelo assovio, pela pegada marcada no torrão de terra ou pelos gomos do taquaruçu onde ele faz sua morada. O que encanta no trabalho dos Observadores é o compromisso constante com a desobediência do olhar. É que não vê Saci quem cai no golpe da produtividade. Do trabalhar para viver ou viver para trabalhar. Da camisa da empresa vestida 24 horas por dia. De que o certo é trabalhar, não pensar na crise. É preciso treinar os olhos para que não mirem o dinheiro, mas que busquem o invisível.

Certa vez perguntaram para o jornalista Robson Moreira com que frequência ele via sacis. “Todo o tempo”, respondeu. “Ver sacis é um estado de espírito”. Ele, que foi sócio-fundador e ex-presidente da SoSaci não acredita que o ranço do saci seja contra a mitificação da Democracia. O Saci e Democracia são irmãos gêmeos, que caminham juntos na luta pela igualdade, contra a escravidão, contra o ódio e, fundamentalmente, na defesa da Cultura Popular Brasileira. Não, nada de depressão. O sumiço do Saci é mais do que justificado. Ele está aprontando alguma. Se não deu as caras ainda, é por que aí tem.

O desenhista José Luiz Ohi, que também participou da fundação da SoSaci foi um dos últimos a falar com ele. Quando soube da posse do presidente em exercício, o Saci fez um muxoxo. Buscou a brasa que restava no fundo do cachimbo e chupou uma longa e deliciosa goma de fumaça. Ele se pôs a coçar a rala barbicha, olhou de esgueio o interlocutor e soltou uma sonora gargalhada. Nada respondeu, ficou ali rindo e pulando como gosta de fazer quando alguém lhe faz uma pergunta. “Saci é um bichinho irritante quando quer ser, arre!”.

Seu destino, daí em diante, só se pode supor. Mas existem indícios. Em uma clareira bem escondida, lá perto de São Luiz do Paraitinga, no interior de São Paulo, a peãozada jura ter visto marcas de um único pé esquerdo acompanhando uma trilhazinha de pegadas que pareciam apontar justamente para o lado oposto. Em Belém, no Mercado Ver-o-peso, viram um perneta muito sério, de chinelo e boné vermelho. Ele comprava garrafadas e ervas junto com um caboclo elegante que não tirava por nada no mundo seu chapéu panamá. No Rio Grande do Sul, um negrinho com descrição parecida foi visto perguntando onde ficava o Alegrete. Dizia que precisava encontrar um primo seu e montar uma tropa de cavalos baios, sabe-se lá para quê. Acharam melhor nem perguntar.

Se os boatos estiverem corretos, Vladimir Sacchetta não tem dúvidas. Para o jornalista e um dos fundadores da SoSaci, o Saci e seus companheiros vão cerrar fileiras ao lado das brasileiras e brasileiros contrários à deposição de uma Presidenta legitimamente eleita e ao novo Estado que se configura. “Com cultura, direitos humanos e igualdade racial na sua pauta, nosso mito maior não vai engolir retrocessos nem desrespeito à Constituição, para que ela não acabe, como dizia Monteiro Lobato, seu pai literário, ‘pendurada num ganchinho no quarto dos badulaques’”. A luta está só começando, mais uma das várias na história do Saci.

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Quem conhece o duende apenas pela TV, talvez ache estranho essa atitude combativa. Para compreender, é preciso ir às suas origens. Dizem os entendidos que o Saci surgiu entre a tribo Guarani. Era um duendezinho de duas pernas e rabo, ainda muito ligado a natureza. Olívio Jakupé, da Aldeia Krukutu em São Paulo, tem até um livro sobre ele. Mas quando o colonizador trouxe a escravidão para o Brasil, não demorou muito para que as negras se tornassem as grandes referências na contação de histórias. São elas que transformam o saci no negrinho que tanto marca nosso imaginário.

Da mata, o saci vem para a fazenda. A noite, trançava bem trançadinho toda a crina dos cavalos. Com medo de mexer em trabalho de saci, o capataz acabava destacando um punhado de negros para soltar os fios enozados e os pobres podiam escapar do laço do feitor pelo menos por algumas horas. “O Saci roubava comidas de cozinhas cujas escravas preparavam banquetes enquanto seus filhos na senzala comiam fubá. Pensem bem…”, convida Luciana Mendes. Entre o deboche, a brincadeira e até mesmo o caos, uma palavra sempre acaba se colando aos atos do saci: resistência.

E quanto a perna? Existem várias versões para ele ter perdido a sua. Em uma delas o Saci era um negrinho que jogava muito bem a capoeira. Deceparam-lhe a perna para que nunca mais ficasse se exibindo por aí. Negro metido. Coitados, não adiantou de nada. De homem, o saci virou mito, saltando, lutando e se metendo aonde bem entendia, sem que ninguém pudesse fazer alguma coisa sobre isso.

Outros dizem ainda que ele era um escravo, que preferiu arrancar a própria perna e fugir pulando para a mata do que viver o resto de seus dias como propriedade dos outros. Seja qual for a versão, Saci é símbolo de liberdade – e liberdade nunca vem de graça. Às vezes, para ser livre, é preciso deixar para trás um pedaço de si.

Nascido indígena, feito negro, o saci ganha seu gorro vermelho de sua outra herança: o europeu. “Síntese de indígenas com africanos, o Saci incorporou utopias e sonhos de liberdade trazidos na bagagem dos imigrantes”, propõe Vladimir Sacchetta. No Império Romano os escravos que tinham conseguido emancipação de seus mestres usavam um barrete frígio vermelho para representar a liberdade. O símbolo foi usado mais tarde na Revolução Francesa e em vários outros conflitos. É por isso que se diz que, para ter um Saci ao seu serviço, é preciso separá-lo de seu gorro. A mágica da carapuça está em conceder ao dono o bem mais precioso que se pode ter.

O Saci foi abolicionista e republicano, honrando seu barrete frígio transformado em capuz vermelho. Do Império aos dias de hoje, passando pelos anos de chumbo da ditadura militar, Saci “é um filho da terra que nunca fugiu à luta e segue fazendo a sua parte na construção de um país melhor, com igualdade e felicidade para todos”, finaliza Sacchetta.

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A ditadura foi um grande marco na história do Saci. Na época ele já estava bem conhecido. Depois de Monteiro Lobato, foi Ziraldo quem o popularizou entre crianças e adultos com sua Turma do Pererê. Mas nem bem entrou o Golpe de 64 e logo a revista foi cancelada. Esse negócio de Saci era muito comunista. Até o coelho da revista era vermelho! Era só o começo. Momentos extremos pedem ações igualmente extremas. A carapuça teria que servir.

Robson Moreira conta que o Saci esteve na luta desde sempre. “Participou ativamente das Ligas Camponesas, de Francisco Julião, e da Guerrilha do Araguaia. Ajudou a esconder Carlos Marighella, entre tantos outros combatentes”. Por pouco ele não esteve entre mais um dos quase 400 “desaparecidos políticos” – homens e mulheres cujas famílias tiveram negado o direito a um enterro digno graças a brutalidade do Estado. Saci sempre foi safo, escapou da tortura e deu no pé.

Clandestino, sob o codinome de Yasí Yaterê, viu-se obrigado a se exilar na Argentina. De lá, viveu um período também em Cuba. José Ohi conta que nessa época ele até aposentou o cachimbo de tanto que gostou dos charutos cubanos, que a guerrilha lhe dava com todo o prazer. Depois ele acompanhou cantores brasileiros, inspirando a desobediência civil por toda a Europa, de onde retornou ao Brasil em toda sua plenitude com o advento da Anistia.

“Nas ruas, na música, nos jogos e na imaginação, o Saci sempre está protegendo a sociedade contra os ataques dos poderosos, sejam eles militares como durante a ditadura, sejam civis usurpadores como a corja que no momento ocupa o Planalto Central”, defende a jornalista e também sacióloga Márcia Camargos. Mas se assim é, onde está o saci?

Está em toda parte. Nas ações nas ruas e redes sociais, ocupações, manifestações, performances, grandes ou pequenas, ele sempre está presente, “sem descanso, rodando o seu redemoinho fazendo a roda da história girar”, reflete Glaucia. Esta nas escolas ocupadas contra a Máfia da Merenda, nos protestos contra a violência policial, nas manifestações que – por mais caóticas que pareçam – traduzem todo o mal estar que o Brasil sente não em depressão, mas em riso, deboche e luta. É o Saci Black Bloc, pronto para jogar cocô no chá de um juiz paranaense ou provocar combustão espontânea nas contas da Suíça de um ex-presidente da Câmara, lembra Vilson.

Luciana colabora. “Saci é ferramenta de luta numa sociedade marcada pela injustiça. É anti-herói brasileiro pautado por tudo aquilo que – ainda – vive à margem social. É identidade, é signo e significância de um país que ainda não está em paz com seu espelho”.

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O Saci não sumiu, só não quer ser visto. É hora de agir na surdina. Mas quem realmente o conhece percebe os sinais. Dizem que o trote dos radialistas argentinos que ligaram para nosso presidente em exercício fingindo ser o Macri foi pura artimanha do Yasí. E foi só trocar o tictac por uma pilulazinha de alho que o tal Vampiro deixou escapar sua verdadeira voz em plena televisão. Faltou aparecer um pentagrama riscado na tela da Globo.

Ao final de nossa entrevista, o celular de Robson Moreira vibra. É uma mensagem no WhatsApp, de um número desconhecido. Sem texto, nem imagem, apenas um áudio. Ele pede licença e a escuta em silêncio. Seu sorriso entrega que a notícia é das melhores. Não há sumiço, não há depressão, e nem mesmo mitificação da Democracia. É só uma questão de tempo suficiente para que os pajés e os índios estanquem o sangue e convalesçam a Democracia dos golpes por ela recebidos nos dias 17 de abril e 11 de maio.

“Saci e democracia estão juntos nessa ofensiva”, explica ele. O perneta já está cuidando de reunir todos os seres fantásticos. Vão atacar nas mentes, nas sombras, no imaginário. A Democracia, por sua vez, fica com a tarefa de arregimentar os habitantes dos centros urbanos. “Que não se iludam: os golpistas não terão um dia sequer de trégua. A Democracia vencerá e voltará altiva para dizer, em alto e bom tom, que o povo brasileiro não aceita mais ditaduras, venham elas de onde vierem”.

O saci nos chama para a luta. Sua tropa Black Bloc folclórica derrota qualquer Bolsomito, mas essa batalha não se vence sozinho. Ele nos chama ao enfrentamento, a assumir nossos lugares e aceitar os sacrifícios necessários para a resistência contra um governo golpista, contra uma mídia tendenciosa, contra um Estado violento. Quem sabe assim, quando subirem as cortinas, sejamos nós que recebamos nossos gorros vermelhos. Nossos barretes frígios. Quem sabe, finalmente, poderemos ser livres.

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