Seres da Mata enfrentam de super-heróis ao próprio Tinhoso nas HQs de Hélio Guedes

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Por Andriolli Costa

Gringos à vista! E não são meros exploradores. Dois jornalistas americanos se embrenham nas matas brasileiras em busca de um furo de reportagem. Ouviram boatos de que uma nave alienígena havia pousado por ali. O casal de repórteres não tinham como saber, mas havia fundamento nos boatos. Há bem pouco tempo, a floresta havia sido invadida por Moox Murrar, o Irascível, que tentara transformar todas as árvores em alimento para sua raça esquecida. O que ele não contava é que a mata tinha proteção. E o Boitatá não gostou nada dos planos do alienígena.

Seres da Mata – Moox foi a primeira história desta série criada pelo quadrinista carioca Hélio Guedes, de 49 anos. Publicadas em meados da década de 90, na Revista Heróis em Evidência, as aventuras de Saci, Curupira e Romãozinho estão começando agora à chegar de maneira mais sistemática à internet, publicadas no blog do autor e na revista independente Mundo Brasil HQ.

capitao-bandeira1-copiaA segunda história lançada acompanha os repórteres que chegam ao Brasil em busca do alien. Acontece que Steve, um destes pretensiosos jornalistas americanos, é na verdade o super-herói Capitão Bandeira. Com a marra típica dos colonizadores, o bandeiroso tenta cantar de galo por aqui entrando em conflito direto com os protetores da floresta.

A resolução deste conflito é um marco no trabalho de Hélio. Se de início tudo acabava em briga, bem ao estilo Comics, com o tempo o autor tentou outras maneiras de resolveu conflitos, “mais na manha, na malandragem, do que no muque”, resume. De lá para cá, as criaturas já enfrentaram caçadores, grileiros e até o próprio Tinhoso.

Neste projeto, Hélio propõe um design bastante estilizado aos mitos nacionais para torná-los mais contemporâneos ao olhar – segundo ele próprio, mas ainda com muita brasilidade. Num objetivo de propor suas próprias interpretações para os nossos mitos, chegou a lançar como ebook pela Amazon o Compêndio Seres da Mata – Um olhar informal sobre o folclore brasileiro – resultado de mais de 20 anos de leituras, onde ilustra uma variedade impressionante de monstros de nosso bestiário; dos mais famosos aos mais desconhecidos.

Conheça um pouco mais sobre essa iniciativa e o que vem por aí nessa entrevista exclusiva ao Colecionador de Sacis.

tinhosoColecionador de Sacis: Como surgiu a ideia para os Seres da Mata?
Hélio Guedes: Lembro que foi logo após voltar de Recife. Lá trabalhei em uma fábrica por seis meses e foi quando tive mais contato essa brasilidade que eu não percebia antes. Um tio meu me deu um puxão de orelha dizendo que eu devia olhar mais para o Brasil e ler menos revista em quadrinhos americana. Ele me apresentou o Henfil, de quem gostava muito e queria que eu fizesse algo do tipo. Curti o Henfil demais e achei que podia pelo menos buscar o humor. Mas as histórias ainda estavam muito americanizadas.

Colecionador de Sacis: Em que ano eles foram criados?
Hélio Guedes: Os Seres da Mata já existem como conceito desde 1988, mas quando comecei, estavam muito calcados nos quadrinhos americanos. Tinha violência demais. Alguns personagens tinham forma mais humanoide e o desenho era menos cartoon. Só o Saci já estava mais bem delineado.

A primeira formação tinha o Saci, o Curupira – com 1,80m, parecendo mais um super-herói da Marvel embora já tivesse a tanga, o tacape e a cor – e a Iara. Depois percebi que a Iara me limitaria muito, então cacei informações e encontrei no livro do Cascudo a lenda do Romãozinho. Ele ficou como o terceiro.

Passei a fazer várias coisas diferentes, já que no meio tempo os quadrinhos não chegavam a lugar nenhum. Trabalhei de freela para Mad (trabalhando com o Ota na editora Record); fiz material que acabou nunca sendo publicado pela EBAL, fui trabalhar em outras coisas totalmente diferentes.

Quando virei professor, trabalhando com crianças, entendi que queria que os Seres fossem para eles.  Reduzi a violência e procurei resolver os nós das narrativas mais na manha, na malandragem, do que no muque. Fiz muita pesquisa, o que acabou resultando no Compêndio que me serve de base para as HQs.

11392866_10153319181027416_6098079664785917894_nColecionador de Sacis: Como foi o processo até a primeira história ser lançada?
Hélio Guedes: Moox aparece na primeira tentativa de fazer revista em quadrinhos, a Heróis em Evidência que lancei na Comicmania de 1995. Eu tinha conseguido imprimir uns cem números na gráfica da UERJ. Nesse gibi apresentei os Seres da Mata contra Moox, Evê o capoeirista e Talismã. Não me lembro bem, pois não fiquei com nenhuma edição daquela época.

Eu fiz a distribuição em bancas, batendo pé aqui e ali deixando as revistas em consignação. A maioria aceitou, só que eu acabei nunca passando na banca de volta para ver se vendeu alguma coisa. Sou a pior pessoa do mundo em termos de comercialização do que faço. Ainda estou aqui em casa com mais de 80% das revistas Mundo Brasil HQ 1 e 2, que fiz em novembro de 2015.

Eu deveria estar tentando distribuir melhor os quadrinhos, mas acabo me envolvendo com outros projetos e coisas da vida. Faço música, escrevo textos para teatro e curtas, me envolvo com projetos de amigos e o tempo fica escasso para fazer tudo que deveria fazer.

Colecionador de Sacis: Por que folclore? O que lhe interessou no tema?
Hélio Guedes: Já pequeno, visitei várias partes do Brasil. Tenho parentes espalhados por todo o território nacional, e ouvia muita coisa. Além do que, lia as HQs americanas e percebia que eu não era representado ali. Por isso fui buscar a mitologia brasileira e criar minhas histórias a partir dali. Li muito Câmara Cascudo e as histórias ganharam forma.

Colecionador de Sacis: Como surgiu a ideia do compêndio Ilustrado? Quanto tempo entre pesquisa e execução demorou para faze-lo?
Hélio Guedes: O Compêndio é o resultado de pelo menos vinte anos de pesquisa. Quando os Seres da Mata começou, eu fazia o básico do folclore. Fiquei querendo mais e comecei a buscar mais livros, mais pesquisadores. Foram várias tardes visitando a Biblioteca do Rio e aquela na Presidente Vargas, perto da Central. Queria distinguir bem os seres folclóricos. Haviam vários que eram extremamente parecidos, suas origens ou características se misturando. Resolvi separar tudo, desvincular parte da religiosidade em alguns, deixar tudo mais claro.

14614339_10154529269492416_631599178_oColecionador de Sacis: Já houve tentativas de levar os Seres para outra mídia?
Hélio Guedes: Há alguns anos houve um edital do governo para desenhos animados, o Anima TV, e preparei o projeto dos Seres da Mata, com layout e storyboard. Fiz contato com uma boa produtora para me apoiar, mas o governo acabou não nos escolhendo. Mesmo assim, o dono da produtora gostou tanto dos personagens que me encomendou um projeto que pudesse virar algo para crianças menores.

Criei algo então dentro do universo dos Seres da Mata, mas diferente. Infelizmente os assessores dele colocaram um monte de empecilhos sobre o material. Um dos empecilhos que me lembro era que o saci, protagonista, usava chupeta, mas isso não era permitido.

Colecionador de Sacis: O que vem por aí no seu trabalho em matéria de folclore?
Hélio Guedes: Quero ver se faço uma hq só dos Seres da Mata. Nas revistas Mundo Brasil HQ 1 e 2 temos histórias dele. No meu blog tem quatro, e eu devo colocar mais duas que já estão prontas, só falta inserir o diálogo. Mas além dos Seres da Mata, há o Carranca e a Kiriri que também saíram na Mundo HQ e são relativos ao folclore.

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Leia aqui as HQs já lançadas dos Seres da Mata
Seres da Mata – Moox 
Seres da Mata vs Capitão Bandeira
Seres da Mata – Cidade de Papel
Seres da Mata – Dia do Caçador
Seres da Mata- Armadilha

Compre aqui o Compêndio dos Seres da Mata, na Amazon
Compêndio – Seres da Mata

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