[Clipping] Tradição, lendas e orações marcam o Dia de Finados em Mogi

tumulo

Túmulo da ‘menina da pipoca’ é um dos mais visitados em Mogi das Cruzes. (Foto: João Ricardo Santo)

Publicado por O Diário de Mogi
em 03/11/2016

Parada em frente ao túmulo de um neto, a aposentada Haydê Maria Pires, de 74 anos, rezava, com um terço preso entre as mãos, o Pai Nosso. O garoto, que morreu há 10 anos, após complicações de uma pneumonia, é o que motiva a idosa a ir ao Cemitério da Saudade, em Braz Cubas, em todo 2 de novembro desde a sua partida. Ela e outras milhares de pessoas visitaram as unidades espalhadas por Mogi das Cruzes para lembrar e homenagear os mortos. Grupos religiosos faziam evangelismo e levavam palavras de conforto aos familiares daqueles que já se foram.

A expectativa da Prefeitura era de que nos cemitérios da Saudade, São Salvador, no Parque Monte Líbano, e no de Sabaúna passassem cerca de 200 mil pessoas neste Dia de Finados. Ontem, houve bastante movimentação. Em Braz Cubas, O Diário encontrou a dona Haydê que, depois de rezar pelo neto, Lucas, que na época em que morreu tinha 10, conversou sobre o ritual. “Eu venho aqui todos os anos desde que ele morreu. A oração é uma forma de abrir os caminhos para ele. É uma forma de dizer também que eu ainda me preocupo com ele e de mostrar o quanto me faz falta”, disse. Depois da entrevista, a aposentada ainda faria mais algumas orações do Pai Nosso.

Ainda no Cemitério da Saudade, um dos pontos bastante frequentados é o túmulo do cantor sertanejo Aladim. José Nascimento Cardoso, nome de registro do artista que fazia dupla com Alan, morreu em 1º de outubro de 1992 após ter uma reação ao anestésico usado pela equipe médica durante uma cirurgia dentária. Fato é que muitas pessoas dizem que Aladim, supostamente, teria sido sepultado vivo. Isso ganhou lenda e esta história corre o País, tendo sido, inclusive, contada em televisão.

Pedro dos Santos Miranda, 68, é morador da Vila da Prata e foi visitar o túmulo do falecido cantor. “Tudo foi muito rápido e a causa da morte contribui no crescimento desta lenda do Aladim. Ele morreu novo e as pessoas não aceitam bem a morte de pessoas jovens”, observou.

Na porta do local, um grupo de 18 integrantes da Igreja Batista em Vila Cintra distribuía rosas e levava palavras de conforto aqueles que chegavam ao cemitério da Vila Lavínia. “É uma ação para levar a Palavra de Deus para aqueles que estão tristes, inconformados com a partida de alguém. Muitos homenageiam os mortos neste feriado, a gente comemora a vida em Cristo”, comentou Maria Celiana, 40.

O frei Fabiano Admiral, da Ordem Filhos do Amor Misericordioso, ligado à Paróquia do Imaculado Coração de Jesus, em Braz Cubas, coordenou a última missa da manhã no local, e destaca que o apoio espiritual é necessário para o prosseguimento da vida daqueles que aqui ficam. “Este momento é a essência da fé. Há a lembrança daqueles que partiram, mas nós acreditamos na vida eterna. Este não é o fim. É o surgimento da esperança para continuar com esta vida terrena até a eterna”, analisou.

No Cemitério São Salvador, o maior da Cidade, com 10,8 mil jazigos, estão sepultados integrantes das mais tradicionais famílias de Mogi das Cruzes. Muitas delas passaram pelas alamedas locais nesta quarta-feira (2). Famílias nipônicas acendiam incensos e colocavam pequenas porções de arroz em potes. O ritual, de acordo com a cultura oriental, é para que os mortos não sintam falta de nada no outro plano espiritual.

No túmulo de Georgina de Mello Freire, a “Menina da Pipoca”, várias pessoas paravam para deixar doces, chocolates, bolachas e, claro, pipoca. A lenda diz que os pais da garota, séculos atrás, não a teriam deixado acompanhar uma procissão em louvor a São Benedito pelo fato do santo ser negro. Diz a história que, naquela noite, a pequena teria morrido após se engasgar com pipoca.

Para o psicólogo e professor da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Carlos Alberto Aleixo, é natural que a morte cause diferentes reações naqueles que ficam. “O luto é a experiência mais marcante para a raça humana. No dia em que você morre, machuca as pessoas que mais ama. É como se fosse uma moeda, em que uma face está a morte e na outra o amor. É algo próximo, intercalado”, observou. Aleixo faz referência, neste contexto, ao psicólogo americano, Frederic Skinner, informado por médicos, no início da década de 1990, de que sofria de um avançado caso de leucemia. A morte se aproximava dele. Aos quase 90 anos, ele percebeu que não se preocupava em partir, mas em como os familiares ficariam abalados.

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