[Clipping] Cabeça de pacu vence como símbolo

Publicado no Diário de Cuiabá
em 08/04/2008

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Quem vem a Cuiabá e come cabeça de pacu jamais vai embora. Se for, terá tanta saudade que acabará retornando. Essa lenda, muito viva nas letras de músicas e contos dos poetas regionais, e nas brincadeiras com os migrantes e turistas, tornou-se mais que uma referência histórica da capital mato-grossense, é símbolo da cuiabania.

Na pesquisa Alma Cuiabana, a cabeça de pacu apareceu como maior símbolo da cidade. Citada por 22% dos entrevistados, a lenda venceu símbolos importantes como a Igreja do Bom Despacho, que ficou em segundo lugar com 15,7%, o rasqueado com 15,3%, e a viola de cocho de cocho, instrumento musical, que também teve 15,3%.

O biólogo Marco Antônio Silva Marques não faz cerimônia. Seja em casa ou na peixaria, antes de servir o prato procura saber se o pacu que trarão à mesa vira com a cabeça ou se no cardápio há cabeças ensopadas (ao molho).

Campo-grandense de nascimento, Marco diz que não saberia definir a origem de seu amor por Cuiabá. Ou seja, se vem da lenda sobre a cabeça de pacu, do clima quente, da hospitalidade ou da soma desses fatores. “A carne da cabeça do pacu parece mais saborosa que o próprio peixe”, repete ele, enquanto saboreia o prato.

O vendedor goiano Joel Souza Alves protagonizou uma cena inusitada no Restaurante Bodeguita, um dos poucos onde a cabeça do peixe é servida separadamente, ao gosto do freguês. De traje esporte fino, incluindo gravata, Joel pediu uma travessa exclusiva de cabeças e, cuidadosamente, foi degustando o peixe.

Joel Alves não acredita na lenda, mas confessa que passou esse costume para sua mulher, Fátima, e também para a filha Iasmim, de 8 anos. Ele conta que em casa, a cabeça é a parte do peixe disputada pelos três. Joel, que depois de deixar Goiás já morou Rondônia, diz que desde que chegou em Cuiabá, há oito anos, jamais pensou em ir embora. “Gosto do povo e da cultura daqui. Essa é uma cidade próspera”.

Nascido em Poconé, a 90 quilômetros de Cuiabá, até na marmita encomendada no restaurante o policial militar Milton Cesar Rodrigues faz questão de levar a cabeça do pacu ensopada. Além dele, essa parte do peixe é esperada pela mulher Nalzira e o filho Luiz Cesar, de seis anos. No Bodeguita, todas as sextas-feiras pelo menos 50 cabeças de pacu são cozinhas ao molho para agradar aos fregueses. Há 14 anos o restaurante da família Xavier, localizado no bairro Baú, um dos mais tradicionais da cidade, oferece esse prato.

Solange, o marido Jodelso Xavier e os filhos Jackson, de 21 anos, e a pequena Penélope, de dois, não se limitam a servi-lo, também degustam a especiaria. Solange, que é baiana, diz que adquiriu o costume aqui, há 17 anos, e naturalmente passou para a filha. “A Penélope pede, aponta para a cabeça ensopada e reclama se demora ser atendida”, conta Solange.

O piauiense Pedro José de Almeida Neto, 41 anos, diz que nem precisou comer cabeça de pacu para se apaixonar pela cidade e seus habitantes. Há sete anos veio fazer um serviço em Cuiabá que teria duração de duas semanas e só retornou a Terezina, onde morava, quatro anos depois. “Eu gosto de tudo daqui, da comida, cultura, do povo”, sentencia.

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