[Clipping] A Lenda do Nego D’Água

Com a construção de uma hidrelétrica na região de Uruaçu, no Norte de Goiás, muitas fazendas, minas e uma cachoeira foram alagadas, gerando histórias de assombração de arrepiar

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Por Sinvaline Pinheiro
Publicado na Revista Overmundo #4

A construção do Lago de Serra da Mesa trouxe grande impacto ambiental e social para a região Norte de Goiás. Contudo, trouxe o turismo, a pesca e também fez surgir lendas e lendas. Algumas, antigas, agora reviveram, assombrando a população do norte goiano.

Com o lago cheio, cavernas pré-históricas ficaram debaixo do volume imenso de água, cuja superfície se estende ao longo de 1.780km², transformando fazendas antigas em casas assombradas. Povoados inteiros foram alagados, gerando histórias de assombração, ouro enterrado e tantas outras de arrepiar o cabelo.

São histórias que se tornaram lendas populares na região de Serra da Mesa, onde outrora havia muitos garimpos. Essas lendas se repetem com tempo, e, mesmo mudando um pouco, no fundo expressam dúvidas e anseios do homem goiano.

Os causos fazem até perder o sono. Alguns são tão assombrosos que os adultos não contam perto das crianças, mas continuam arraigados na memória popular. Com o surgimento do Lago de Serra da Mesa, a lenda do Nego D’Água reviveu. É possível coletar hoje depoimentos de pessoas que se diziam vítimas do “bicho”, assim como outros que ouviram dos mais velhos histórias de várias aparições do Nego D’Água na região.

Na cidade de Juazeiro, na Bahia, foi construída uma escultura do Nego D’Água pelo artista Ledo Ivo Gomes de Oliveira com mais de 12 metros de altura no leito do rio São Francisco.

A lenda do Nego D’Água pode ser ouvida em todo o Brasil. Em Goiás, ela já era contada pelos mais antigos, que juravam ter visto nos rios, principalmente nas cachoeiras, o bicho danado. De onde ela surgiu não se sabe. Muitos , como o Sr. Mário, não gostam muito de falar no assunto. Se pergunto, ele desconversa:

– Vamo deixá esse assunto pra lá. Fico sonhano de noite quando iscuto falá de Nego D’Água. Quando era piqueno esse bicho afundou a canoa do meu pai. Nóis num gosta de falar disso não.

Um mergulhador, que não quis se identificar, afirmou ter deixado de mergulhar porque viu alguma coisa estranha surgindo do fundo do lago, o que julga ser o tal de Nego D’Água. Assim, a história tomou força e até virou tema de peça teatral nas escolas da região e em outros locais.

Antes da construção da hidrelétrica, existia, no rio Maranhão a Cachoeira do Machadinho, hoje coberta pelo Lago de Serra da Mesa. Segundo moradores mais antigos, ela surgiu a partir de um grande paredão de pedras construído por escravos para garimpar ouro no fundo do rio. Quando o paredão não resistiu, a água levou escravos e ouro, formando a cachoeira, que tem entre 10 e 12 metros de altura. Os pescadores que dormiam na casa de pedra diziam ouvir gritos e até uivos vindo da cachoeira: seriam os gemidos dos escravos mortos com o desabamento, que, revoltados, apareciam como Negos D’Água assombrando as pessoas.

Agora, o grande lago está cheio de mistérios, especialmente na região de Uruaçu. Debaixo de suas águas ficaram os garimpos, as cavernas e os fósseis. E as lendas, que vão ressurgindo em vários pontos do imenso reservatório de água.

Quem perdeu sua terra deu jeito de comprar uma área pequena, um lote, e fazer um barraco ou um rancho às margens do novo lago. Foi o modo encontrado para garantir o local da pesca, principalmente do peixe tucunaré, que ainda existe em abundância por ali.

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Seu Pedro, morador, afirma com certeza que foi vítima do Nego D’Água. Seu ranchinho às margens do lago é cercado de arame. Lá, ele plantou mandioca, milho e pimenta. Construiu uma canoinha de pau e, assim, se sente como um verdadeiro fazendeiro.

Todas as tardes pega a canoa de pau e vai atrás dos peixes. Pesca até anoitecer. Com olhos estatalados, revive uma experiência aterradora:

– Outro dia o sol já ia entrano, e vi um vurto n’água. Não dicifrei o qui era. Entonse, remei mais perto pra vê… Chegano perto, o vurto afundou n’água. Pensei que fosse peixe grande, então amarrei minha canoinha, acendi o pito pra espantá as muriçoca e fiquei por ali. Faz um gesto cristão em nome do Pai e continua:

– Num gosto nem de alembrá, Dona. A canoa começou a balançar forte, nem vento tinha. Peguei o facão e fiquei procurano, num via nada, e a canoa balançano mais forte. Dirrepente vejo uma mão preta de dedo torto sacudino a canoa. Nem pensei: desci o facão e nem sei se o grito foi meu ou do bicho!

Eufórico, ele continua:

– Eu fiquei sem forgo e num conseguia sair do lugar. A canoa acarmou e remei pra dentro do rancho bem depressa.

Segundo ele, com calma coletou os dedinhos na canoa e colocou numa lata. Nem olhou direito, só viu que eram magros e enrugados. Seu Pedro conta que passou a noite sem dormir direito. Lembrou das histórias do pai que os antigos rios Maranhão, Passa Três, Cachoeira do Machadinho eram assombrados, e o Nego D’Água aparecia sempre. Longa noite de pesadelos.

Lembrou do amigo Zé contando:

– Nóis ia atravessando o gado de nado e os canoeiro acompanhano, e os Nego D’Água ia nadando de pareia com o gado! Eles tinha cara de gente e pé de pato igual um reminho.

Já seu compadre Ademar dizia:

– O Nego D’Água tem dois forgos, um da água e outro de fora. O bicho é brabo!

O avô descrevia:

– Os Nego D’Água só tem um zói grande no meio da testa, ele afoga os pescadô!

De manhã, Seu Pedro diz que foi pegar a lata para levar para a cidade e não havia nada. Sumiu a lata com os dedos e tudo!

– Dona do céu, a lata sumiu com os dedo, aí fiquei apavorado e corri para a cidade pra pidi socorro. E agora eu ia contá e o povo num ia acreditar…

Chegando à cidade de Uruaçu, ele contou a história para muitas pessoas. Uns riram, outros acreditaram e até confirmaram que com certeza o Nego D’Água tinha voltado.

José Américo vizinho conta que realmente Seu Pedro ficou muito assustado, tendo até adoecido. E nunca mais foi pescar sozinho. Ele narra:

– É verdade o que ele conta, é um home sério, num ia inventá essas coisa. E o medo que ele tem agora, num sai mais sozinho pra canto nenhum. Esse “bicho” já apareceu pra muita gente aqui na redondeza, eu cridito sim… Dona Nega, esposa de Seu Pedro, confirma:

– É certo que Pedro viu arguma assombração, ele ficou medroso. Ainda bem que, se for o tar de Nego D’Água, agora ele vai aparecer mas é fartando os dedos da mão…

Seu Pedro coçou o queixo, pensou e disse para a mulher:

– É, agora eu cridito em Nego D’água que meu pai contava. Por pouco ele não afundou minha canoa. Danado esse bicho!

Aí a história cresceu, tomou estrada e o fantasma continua aparecendo em várias partes do lago. Os assustados que o veem só ainda não notaram se é o mesmo Nego D’água sem os dedos da mão…

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