[Clipping] Quando as Águas Dormem

Pesquisadora do projeto “Meninos, eu ouvi!”, que mapeou lendas e mitos no interior e na capital capixaba, narra a riqueza das histórias do imaginário popular com que se deparou

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Por Janaína Serra
Publicado na Revista Overmundo #4

As águas corriam calmas, era noite dessas que a paz parece reinar no mundo. Lá no alto a lua brilhava soberana, assumindo pra si a luz do sol, alumiando um peixe e outro que pulava pra lá e pra cá. O tempo passava sereno quando de repente… NADA. Pra um lado NADA, pro outro NADA. A canoa parou, o peixe alvoroçou, a noite soou com todos os bichos, eram os barulhos que só se ouviam naquela hora misteriosa. Mas faltava alguma coisa… Agucei o ouvido, estreitei o olhar, tentei sentir cheiro de assombração e NADA. Aí eu percebi: era o correr das águas… Olhei uma vez, olhei duas, esfreguei os olhos e vi o que um duvida: a água toda dormindo! Tudo paradinho… Mas aí eu nem tive muito tempo, não, porque no meio do sonho da água ele apareceu! Ah, eu não tive dúvida, quando senti a canoa balançar agarrei o facão e PÁ! – cortei os dedos do danado e levei pra quem quisesse ver. Caboclinho D’água nenhum vira minha canoa. A água acordou e correu. Era senhora de tudo.

Espírito Santo comporta paisagens exuberantes que vão do mar à montanha sob
o testemunho de orquídeas, bromélias e colibris. Palco perfeito para o que há de mais fantástico. Mas o que mais fascina e desperta curiosidade por aqui é que não raro os espectadores participam da cena, podendo inclusive passar de coadjuvantes a protagonistas – na hipótese de alguém virar lobisomem, por exemplo.

O folclore capixaba é rico em aparições e assombrações. A probabilidade de seres como o caboclinho d’água ou o lobisomem aparecerem é proporcionalmente relativa à presença de matas, rios, cachoeiras, pedras e mar (no caso do mar, é mar adentro, onde vivem as sereias). E, quanto mais próximo alguém vive de um local onde a natureza se impõe, maior será a incidência de mitos e lendas em seu dia-a-dia ou no de pessoas muito próximas.

Como em um mundo paralelo, os moradores se relacionam com os mitos, veem assombrações e presenciam fatos maravilhosos enquanto vão à escola ou à casa dos avós. O maravilhoso vai respirando e vez ou outra derruba as paredes entre real e imaginário pra mostrar que ainda é possível.

No caminho percorrido – norteado pela divisão cultural do estado, proposta pelo folclorista Hermógenes Lima da Fonseca –, o som dos pássaros esteve sempre em primeiro plano sonoro. Pássaros do dia e da noite contando casos, presenciando conversas. Muitas das lendas que existem para além dos limites geográficos são contadas por aqui e trazem sempre no tom (como em todo lugar) a graça local.

Um lobisomem que na verdade é um porco. Mas também pode ser cachorro…
“Aí, eu fiz: ‘empleitei’ com esse homem e ele virava lobisomem e eu não sabia”, diz, em tom grave, a benzedeira de São Mateus. Continuou: “Nesse dia, ele tinha virado lobisomem. Aí chegou o pessoal do Sernambi [e disse]:

– Tava lá o lobisomem! – E eu pensando que era outro e era ele. Virava lobisomem!” Situação absolutamente corriqueira é conhecer ou até mesmo ser parente de um lobisomem. “A minha mãe mesmo via, tinha um afilhado de minha vó que virava lobisomem. Vovó diz que ele tinha aquele vício de virar”, acrescenta Dona
Edézia, integrante do Jongo, no mesmo município.

lobo

Até aí, tudo bem, pois em lugares onde se tem muitos filhos a chance da maldição se abater sobre algum aumenta, estatisticamente falando. Mas tem como se precaver, e para evitar a maldição existe a seguinte regra: em casa onde nascem sete filhos homens seguidos, o mais velho tem que batizar o mais novo, do contrário o caçula se transformará em lobisomem; no caso das mulheres (sete filhas) o procedimento é o mesmo, com o diferencial que a maldição as transforma em patas. Seguindo as normas a maldição não pega, mas quem deixar passar – por descrença ou negligência – ainda pode quebrar o encanto mais tarde, quando os olhos de São Tomé virem o futuro e constatarem que a fantasia pode ser real.

As histórias permeiam o dia a dia dos moradores de norte a sul do Espírito Santo, trazendo consigo as crenças e superstições de tempos remotos e terras diversas. A convicção de que esses acontecimentos maravilhosos são reais é quase uma religião sem líder, em que a fé é alimentada pelo ‘inexplicável’ da vida e perpetuada pelas nuances, ora suaves, ora contundentes de um poderoso instrumento de sedução e de persuasão: a voz. Do outro lado, o terreno fértil dos ouvidos atentos e da mente curiosa abriga, guarda e transforma tudo, preparando o insólito para a eternidade.

Mas voltando ao lobisomem, uma lenda contada de norte a sul do estado narra sobre a noite em que uma cidade inteira temeu pela vida do bebê que fora levado pelo lobisomem (lobisomem gosta de devorar bebê, principalmente se for pagão): “A mulher ia viajando quando topou, viu aquele porcão, porque diz que quando tem criancinha nova assim ele quer pegar pra comer”, conta seu João, perto da divisa com Minas Gerais. “Então procura daqui, procura dali, procura dacolá e descobriu a criança dentro do galinheiro, no ninho. A manta da criança toda triturada. E quando foi no dia seguinte o marido dela chegou e nos dentes dele estavam as linhas da manta da criança. Isso é verídico! Bem… Isso é o que contam, né”, completa Penha, lá no sul capixaba.

A lenda acima corre léguas, mas um detalhe curioso é que no Espírito Santo o lobisomem foi descrito como um porco. Isso mesmo, um porcão! Atente: existe lobisomem cachorro aqui também, mas impera o porcão. Essas nuances são a tinta regional que distinguem, com encanto, os traços da cultura local. A explicação pode residir no fato de que no interior, onde essas histórias são mais contadas, o porco – no caso o porcão – é um animal muito comum e em algumas situações pode ser também bastante assustador. Os ruídos que ele faz no meio da mata arrepiam e atiçam a imaginação do mais convicto dos incrédulos. Pode confiar.

Eletricidade que atrapalha o imaginário Convenhamos que se a chegada da eletricidade deu mais conforto à vida dos moradores, um tanto de magia se perdeu e nossos preciosos seres agora rareiam na aparição. “Aqui tinha saci… Mas tinha era saci! Toda noite ‘saci-saperê’ do lado de lá. Quando botou a luz, zip…

Botou a energia sumiu o saci, acredita?!” – Acredito, Dona Dorota. O desmatamento é outro problema: “Ai, ai… Antigamente, a gente via muito essas coisas, hoje em dia a gente não vê mais, não, é muita luz, é tudo claro, diminuiu muito a mata. Hoje a gente tem medo é dos vivos.

Era melhor ter medo de mula sem cabeça”, diz Tia Mariquinha sob uma bela castanheira. Mas apesar de tudo, e em ato de franca resistência, mitos e lendas sobrevivem no imaginário e povoam com cores e sons a vida dos moradores. O saci é um deles, danado que só ele, não se entrega, e fica piando por aí, confundindo os desavisados!

Mas saci pia?
Saci pássaro pia! Dizem que ele assobia assim: “siiiic. siic, saci, saperê… saci-saperê, saciiii-saperê”, e que quando está longe o assobio está perto e quando está perto o assobio está longe. Faz isso pra enganar a gente, claro, afinal ele é o saci!

Para uns, o Saci é o negrinho de uma perna só eternizado por Monteiro Lobato, para outros é passarinho arisco que só se deixa ver quando quer, elegendo um ou outro para pousar no ombro e proteger, acompanhando o eleito pelas estradas cercadas de magia, como quem diz: “Com esse aqui ninguém mexe!” Sendo o Saci quem é, o mais sensato é respeitar.

A presença deste saci pássaro foi contada e recontada em todas as regiões do estado, foi também a única unanimidade entre as dezenas de pessoas que abriram a casa, a memória, o afeto e deixaram correr solta a fantasia nos relatos ao projeto Meninos, eu ouvi!, que reúne as lendas e mitos do Espírito Santo em peças radiofônicas. Gravamos um CD com nove faixas de lendas dramatizadas. Ao todo, foram mais de 40 pessoas envolvidas, eu participei da direção de todo o projeto e integrei a equipe de roteirização das peças. São histórias, simpatias e muito encantamento. Foi mágico!

Meninos eu ouvi
meninos

Meninos, eu ouvi! Lendas do Espírito Santo começou, oficialmente, como um projeto de pesquisa, selecionado e patrocinado pelo Programa Petrobras Cultural e pelo Governo Federal através da Lei de Incentivo à Cultura. “Oficialmente”, porque, depois, se tornou puro encantamento…

O projeto visava “delimitar” o Estado do Espírito Santo através de suas lendas e para isso seria feito um trabalho de mapeamento (com pesquisa bibliográfica e de campo) de lendas que ainda habitavam o imaginário capixaba, para depois recriá-las e transformá-las em peças radiofônicas.

O desejo inicial era de entrar no mundo fantástico do folclore local e levar a magia para outro mundo, também superlativo, que é o rádio – meio por excelência para transmitir lendas e o único que se vale exclusivamente da oralidade, por isso mesmo a presença forte da tradição oral. Era esse o intento e foi assim que partimos para ouvir…

Escutamos muito. E, de Boi Tatá a procissão das almas, passando pela fenda da Pedra do Pecado, ouvindo consternados a história de amor em que os protagonistas viram praia e rio, escutando estarrecidos às versões sobre a praga que um padre rogou em uma vila pacata, você pode saber: é tudo como relatado mesmo, não é lenda, não – eu ouvi!

Pé do diabo, procissão de almas, folia de mortos… Você resiste?
A resposta para a pergunta acima vai mudar de acordo com o grau de sua crença, pois as lendas, além de encantarem, também assustam – e como!

Em Vitória, plena capital do estado, por exemplo, uma lenda “não-urbana” resiste: a lenda do pé do diabo. Contam que um homem muito ambicioso e avarento, na ânsia de enriquecer, fez um pacto com o tinhoso, oferecendo o próprio filho como moeda de troca. O arrependimento chegou, mas o diabo não se comoveu, e para tentar salvar a criança inocente, Santo Antônio entrou na história. Essa é mais uma lenda sobre a eterna luta entre o bem e o mal, mas o peculiar aqui é que, ao contrário de tantas, existe uma prova material do ocorrido: a marca do pé do diabo cravada na pedra!

Os moradores, cada um a seu modo, convivem desde sempre com a pedra e com as “lembranças” do acontecimento. Versão vai, versão vem, cada um dá seu testemunho e seu veredito. O triste da história é que há pouco tempo foi levantado um edifício sobre a pedra. Desrespeito com a memória dos moradores e a identidade do lugar.

Mas entre assombrações e o medo geral, a imaginação transborda, trazendo procissão de almas e folia dos mortos para a testemunha dos vivos. A procissão, que também acontece fora dos limites geográficos do estado traz(ia) uma multidão penitente (e morta) para as ruas de São Mateus, no norte capixaba. Era proibido olhar a procissão, vivo não podia ver porque nem todos resistiam. “Quem via, quem arresistia ficava de olho, quem não güentava olhava assim, e saía fora”, conta Maria Pastora. Parece que hoje a procissão não passa mais, vai saber… Talvez seja apenas a falta de viva alma preparada para presenciar tanto mistério.

Já a folia dos mortos toca lá no sul do Estado, em Muqui. Vejam só: em Muqui existem tantos grupos de folia (é lá que acontece o Encontro Nacional da Folia de Reis), que tem até uma folia de mortos! Ninguém viu, mas todos ouviram. Vai duvidar?

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