Raízes de Vento e Sangue

Apresentação da coletânea de contos folclóricos escritos por Lauro Kociuba

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Por Andriolli Costa

Folclore. Faça o teste comigo: diga essa palavra em voz alta. Perceba o ar escapando entre os lábios, o estalar da língua por trás dos dentes. Fol-clo-re. Aproxime-se dela, sem receio e nem medo. Verá que, na verdade, vocês são velhos conhecidos.

Agora pense Folclore, deixando as imagens lhe povoarem. O que vem à sua mente? Alguns termos abstratos talvez, daqueles com as letras maiúsculas. “Cultura Nacional”, “Patrimônio”, e essas coisas todas. Alguns imperativos, quem sabe? Sempre na ordem da salvaguarda: “preserve”, “valorize”, “conserve”. Há ainda os que vão pensar em folclore como aquilo que está lá. Lá na roça, lá no primário. Isso, claro, para não falar daqueles que preferem nem pensar no assunto. Folclore, para essas pessoas, é pura bobagem. Se fosse bom, não seria folclore, seria “mitologia” – como as lá de fora. Essas sim merecedoras de alguma consideração.

Todas essas noções, em maior ou menor grau, são insuficientes. É por que folclore não se pensa, simplesmente. Folclore se vive. Não está lá, mas aqui. Folclore está no jeito que você fala, está naquilo que você come, nos gestos que você usa, naquilo que você veste. Folclore, de folk lore, é o saber do povo. É modo de sentir, pensar e agir – e contra isso não existe lei que desdiga, nem acusação de certo ou errado.

Já viu alguém com uma crise de soluço? Remédio bom é pregar um susto no indivíduo. Dificilmente a medicina recomendaria isso, mas o folclore já indica essa profilaxia há séculos, num saber que passa de boca a boca, de pai para filho. Já bateu o pé no chão repetidamente para indicar impaciência? É folclore do corpo, e não há outro sentido para o gesto que não o costume compartilhado. E o que dizer daquela saudade que bate de um bom prato de arroz com feijão? É a boca que pede o sabor da tradição, temperado com toques de nostalgia, identidade e sensação de pertencimento.

Não. Não é o folclore que não cabe na mitologia, mas justamente o contrário. Mitos e lendas são um braço desse folclore oral. Outros elementos que compõe a árvore da cultura popular. Mais uma vez, o reconhecimento fala alto. Você pode até não saber exatamente qual a origem do saci; ou mesmo detestar sua figura e virar os olhos sempre que alguém falar no assunto. Mas se estiver andando por Paris e ver pichada na parede a imagem do negrinho perneta com barrete vermelho, ninguém na França saberá do que se trata. Mas você sim. Mesmo na recusa, o Saci fala com você. Por que folclore não é sobre o indivíduo, é sobre o povo. E povo não são os outros. Povo somos nós.

Algo que muita gente esquece quando traz para a literatura esse universo fantástico dos mitos brasileiros é que essas histórias não são sobre monstros encantados, mas sobre nós mesmos. O mito fala diretamente sobre a experiência humana, sobre nossos medos e desejos; sobre o que nos inspira e o que nos paralisa. E Lauro Kociuba faz isso lindamente nesse livro que você tem em mãos: Raízes de vento e sangue.

Interessante pensar neste título. Raízes, porque não perde de vista o passado – que não é memória pretérita a ser conservada como mata nativa, mas a própria fundação que serve de base para o presente. Sangue, imagem do fluído que corre com a vida e escorre com a morte. Lembranças das brutalidades que geraram a síntese violenta das três culturas que formaram a identidade mestiça brasileira: brancos, índios e negros. E o Vento, claro, por que dele, nada se esconde. Basta saber ouvir que você também poderá descobrir os mistérios que o vento carrega.

Lauro trata com admirável respeito cada um dos mitos retratados nesta coletânea. Respeito que, para os menos dispostos, poderia ser considerado uma camisa de forças. Uma amarra aos impulsos de criatividade. Bobagem. Respeitar o mito não é deixa-lo intocado, como um pé de Araucária que cresce em seu quintal. É compreender todo o simbolismo que carrega cada criatura. É se permitir colorir de Brasil cada palavra do texto. É aceitar o desafio de cristalizar, em meio às infinitas versões que o povo (re)conta, uma forma fixa para algo multifacetado por natureza. Lauro abraça isso em seu texto, brinca com a forma, dialoga com o contemporâneo e com os mitos de fora. Traz sua autoria, mas não esquece que o povo é o grande autor anterior dessas histórias que homenageia.

A repulsa inicial dos detratores dos mitos nacional faz ecoar por vezes a mesma ladainha. “Folclore Brasileiro? Um monte de deficientes físicos que vivem no mato”. Já ouvi muito isso por aí. Piadas a parte, interessante pensar no que essa ausência de membros significa.

Tomemos o saci, por exemplo. Existem várias versões, mas dizem que o saci perdeu a perna por que era um escravo que jogava muito bem capoeira. Tão bem que o patrão mandou arrancar uma de suas pernas para deixar de ser um “negro exibido”. Inútil. Depois disso o homem tornou-se um encantado, e passou a atazanar os poderosos, saltando livre de um lado para o outro. Outros contam uma história diferente. Dizem que era um escravo que, tendo uma das pernas presas a um grilhão, preferiu arrancá-la e saltar para a mata do que permanecer a vida toda acorrentado.

Saci, podemos ver, é um mito de liberdade. Mas não uma liberdade qualquer. A perna que falta nos lembra do sacrifício, daquilo que devemos estar dispostos a oferecer para conquistar o que é nosso. Lauro investe também na questão da perna. Se Odin entregou um olho em busca de conhecimento, o que saci teria recebido pela perna?

E quanto a Mula sem Cabeça? Como ela solta “fogo pelas ventas” se, justamente, falta-lhe onde segurar o focinho? A Mula é um mito de restrição do feminino e a cabeça que lhe falta é uma cabeça simbólica. É a imagem da renúncia à razão, da bestialidade que toma a mulher guiada por suas paixões. O conto de Lauro explora isso, e nos convida à repensar essa relação. Onde está a culpa do homem? Qual seu castigo?

E assim se sucedem, mito após mito. Sejam protagonistas, sejam adversárias, as criaturas se revelam página a página em narrativas difíceis de classificar num gênero só. Iara começa como uma história de aventura, preenchendo de confronto a lenda da poderosa guerreira que gerou ciúme dos irmãos. Depois de sua transformação, a história ganha tons de terror. É quase um espelho dessa dualidade entre humano e peixe, entre o sangue quente o frio, entre guerreira e feiticeira. A tensão de não ser completa, da disputa das metades desiguais em poder e desejo.

Percorra com Lauro esse percurso que parte das raízes que vão das profundezas da imaginação e se fixam em nossa história. Mergulhe nesse oceano de significados de cabeça. Quando emergir novamente, verá a transformação. Se a do mito ou a sua própria, bem… E não é a mesma coisa?

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Andriolli Costa é jornalista natural de Mato Grosso do Sul. Pesquisador de folclore, com foco em mitos e lendas, faz doutorado em Comunicação e Informação na UFRGS. É editor do blog colecionadordesacis.com.br, além de roteirista e escritor de obras ligadas à ficção folclórica.

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